100 anos de Verner Panton: o criativo que desafiou e ampliou os limites do design escandinavo

“Prefiro um experimento menos bem-sucedido a uma banalidade bela.” A frase de Verner Panton (1926-1998), citada no livro Panton: Environments, Colours, Systems, Patterns, de Ida Engholm e Anders Michelsen (Strandberg Publishing), sintetiza o espírito inquieto que marca a trajetória do dinamarquês. Sua peça mais emblemática, a Panton Chair, nasceu justamente desse impulso experimental – e da obstinação de um designer que insistiu em torná-la viável quando a indústria ainda hesitava. Se há algo que sua obra nunca foi, é banal: as criações expressivas e pouco ortodoxas trouxeram novos ares ao design de seu país.
A inconfundível cadeira Panton
Copyright Verner Panton Design AG
Nascido em 1926 na ilha de Funen, Dinamarca, Panton estudou na Universidade Técnica de Odense antes de se formar arquiteto pela Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes em 1951. Trabalhou no escritório de Arne Jacobsen entre 1950 e 1952, experiência decisiva para sua formação. “Com Jacobsen, Panton aprendeu, acima de tudo, a pensar em termos de ambiente, de imagens coordenadas, de relações e referências entre objetos e espaço”, observa Enrico Morteo no Grande Atlante del Design (Electa). Mas havia uma diferença importante: “Se o olhar de Jacobsen ainda buscava mediação entre tradição e modernidade, o de Panton estava inteiramente voltado para o futuro”.
Marianne e Verner Panton, nas cadeiras Cone
Copyright Verner Panton Design AG
Enquanto o design escandinavo era pautado principalmente por processos artesanais e uso intenso da madeira, Panton partiu pelo caminho oposto, buscando aproximar-se da indústria e dos materiais artificiais. Não foi uma ruptura absoluta, porém: a historiadora do design, pesquisadora e professora Ethel Leon aponta que “o uso da cor e a experimentação formal já estavam em curso na Escandinávia, inclusive com o próprio Jacobsen. O que Panton faz é radicalizar esse movimento, intensificando-o ao extremo”. Ethel lembra que, nessa época, os materiais artificiais deixaram de tentar mimetizar os naturais e passaram a afirmar sua própria linguagem, em diálogo direto com a indústria química e com os novos processos de moldagem do pós-guerra.
LEIA MAIS
🏡 Casa Vogue agora está no WhatsApp! Clique aqui e siga nosso canal
Interior do restaurante Varna, em Aarhus
Copyright Verner Panton Design AG
Esse vínculo com a produção industrial é central na obra do designer. A trajetória da S-Chair (1956), em compensado, que evoluiu para a Panton Chair, é um ótimo exemplo. Durante anos, Panton insistiu na ideia de uma cadeira cantilever, moldada numa única peça de polímero. George Nelson, então diretor de design da Herman Miller, duvidou da viabilidade do projeto – faltavam materiais adequados. Foi a colaboração com a Vitra, especialmente com Rolf Fehlbaum, e o avanço das resinas da Bayer que viabilizaram, em 1967, depois de anos de pesquisa intensa, a produção seriada da peça. A Panton Chair não é apenas um ícone formal: é também inovação construtiva. Em 1999 a Vitra editou a peça numa versão em polipropileno, aproximando-a do ideal de produto acessível que o designer perseguia.
Restaurante da editora da revista alemã Der Spiegel
Ohh!!!/Unsplash
Mas reduzi-lo à sua cadeira mais celebrada – e copiada – seria limitado demais. Desde a expansão da pousada Kom-Igen (1958), administrada por seu pai, também proprietário do negócio, no município dinamarquês de North Funen, Panton ensaiou o “design total”, criando tanto a nova ala do edifício quanto seus interiores e móveis – é nesse projeto que ele apresenta as cadeiras Cone (que depois dariam origem às igualmente conhecidas cadeiras Heart Cone). Uma ideia de ocupação vertical do espaço já se anunciava nas Flying Chairs (1964), lançadas na Feira de Móveis de Colônia, na Alemanha, e depois seria levada ao limite na Living Tower (1968), um assento-escultura que permitia múltiplas posturas e transformava o móvel em microarquitetura.
Revistas Newsletter
O multifunctional Living Unit, de 1966
Copyright Verner Panton Design AG
A dimensão ambiental do trabalho de Panton alcançou seu ápice nas instalações Visiona 0 (1968) e Visiona 2 (1970), criadas por encomenda da Bayer e apresentadas dentro de um barco em paralelo à Feira de Colônia. Eram interiores imersivos, labirínticos, saturados de cor (e muitas vezes com o uso de estampas geométricas), nos quais piso, paredes, teto e mobiliário se fundiam em uma espécie de paisagem artificial psicodélica. A mesma lógica atravessava os ambientes da editora da revista alemã Der Spiegel, em Hamburgo, e o restaurante Varna, na cidade dinamarquesa de Aarhus, que se destacavam pelas zonas cromáticas vibrantes e pelos tetos tridimensionais. Ali, o local deixava de ser cenário para se tornar experiência física.
Detalhe do assento-escultura Living Tower, de 1968
Fritz Reiss/Picture Alliance via Getty Images
Se por um lado essa abordagem se distanciava do padrão do design escandinavo da época, por outro se conectava perfeitamente ao clima cultural dos anos 1960, permeado pela contracultura e pelo questionamento das normas comportamentais. Nesse contexto, Panton propunha não apenas novas formas e cores intensas para o mobiliário e os interiores, mas novas maneiras de ocupá-los.
As Flying Chairs, de 1964
Roland Witschel/Picture Alliance via Getty Images
Sua última grande instalação, Light and Color (1998), no Trapholt Museum for Modern Art and Design, em Kolding, Dinamarca, conduzia o visitante por oito salas monocromáticas, cada uma explorando o impacto físico e emocional da cor. Um desfecho coerente para quem passou a vida combatendo a “conformidade branco e bege”, como gostava de dizer.
Initial plugin text
Cadeiras System 1-2-3
Divulgação
Cem anos após seu nascimento, a obra de Verner Panton segue atual não só pelo vigor formal, mas pela coragem de tensionar os limites entre indústria e experimentação, objeto e ambiente, forma e comportamento. Seu legado vai bem além de uma cadeira icônica: é a afirmação da experimentação como método e da ousadia como princípio.
*Matéria originalmente publicada na edição de março/2026 da Casa Vogue (CV 481), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima