Marta Manente trilha um design que equilibra emoção e razão

São mais de duas décadas dedicadas à criação autoral de poltronas, cadeiras, sofás e afins. A relação da designer gaúcha Marta Manente com a madeira, matéria-prima que protagoniza a maior parte de suas criações, tem a ver com herança familiar. Marta cresceu na marcenaria do pai e todo esse envolvimento está implícito em sua trajetória. À frente do Studio Marta Manente Design, fundado em 2004 e sediado em Bento Gonçalves, RS, ela consolidou um modelo de atuação que equilibra criação, estratégia e visão de mercado. Com presença em eventos globais de design, entre eles, o Salão do Móvel de Milão, a ICFF de Nova York e outras semanas de design em capitais criativas da Europa e da América Latina, Marta defende um olhar contemporâneo que valoriza a cultura, a excelência produtiva e a inovação. Sua produção autoral soma cerca de 400 itens, entre móveis e luminárias para variadas indústrias do Brasil, assim como da Argentina e da Alemanha. Em entrevista concedida a Casa e Jardim, a designer fala sobre a consolidação de sua carreira e sobre o papel transformador do design como linguagem cultural, econômica e feminina na cena criativa brasileira.
A designer Marta Manente junto da poltrona Blanc, sua primeira criação para a marca Sierra. A peça foi lançada oficialmente no Salão do Móvel de Milão 2025
Rodi Goulart/Divulgação
CJ | O que mais a emociona quando olha para esses 20 anos de carreira?
MM | O que mais me emociona é perceber a jornada de construção profunda, que transformou um trabalho iniciado nas indústrias locais gaúchas em um estúdio que hoje reverbera nacional e internacionalmente. Quando comecei, ainda jovem, meu campo de atuação estava totalmente ligado às fábricas da região. Com o tempo, esse território se expandiu. Hoje, o Studio Marta Manente cria e desenvolve para indústrias de diferentes regiões do país e também para marcas internacionais. Essa conquista me emociona porque mostra que a nossa assinatura encontrou lugar no mundo sem jamais perder suas raízes. Outro capítulo que me toca é a abertura da nossa loja física há três anos, o Studio Marta Manente Galleria | Store. Esse espaço é o nosso coração pulsante, onde as coleções ganham vida, onde as pessoas experimentam o toque, a ergonomia, as texturas e as narrativas que criamos. É especial porque ali acontece o encontro mais íntimo do design: o momento em que o público se reconhece na peça e escolhe levar para sua casa algo que nasceu da minha imaginação, pesquisa e afeto. A coleção autoral também é um dos pontos mais emocionantes dessa trajetória. Ela é distribuída em diversos canais, mas, principalmente, é onde sinto o design como criação pura. É onde posso experimentar, inovar, arriscar formas, trançados, madeiras, tecidos, e onde vejo o retorno imediato das pessoas. A aceitação do público é o elo dessa cadeia criativa: é quando o design deixa de ser apenas ideia e se transforma em vida dentro dos lares, o lugar onde as pessoas são felizes, convivem, descansam e criam suas próprias histórias. Quando olho para tudo isso, sinto que os 20 anos construíram uma história sólida, uma história feita de dedicação diária, estudo constante, respeito às origens e coragem de evoluir.
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CJ | Em que momento percebeu que o design faria parte da sua vida de forma definitiva?
MM | O ponto de virada veio quando eu trabalhava internamente em uma indústria moveleira. Com o tempo, percebi que essa vivência despertava algo maior em mim. Comecei a compreender que eu tinha habilidades pessoais e criativas que poderiam contribuir além do meu posto de trabalho. Eu queria ajudar outras empresas a se desenvolverem, a criarem produtos com identidade. E, principalmente, usar tudo o que já habitava em mim, meu olhar sensível para criar mobiliário que chegasse à vida de múltiplas pessoas. A partir dessa consciência e confiando na potência do futuro, tomei a decisão de abrir o meu estúdio de design. Era um salto, mas também a certeza de que o design não seria apenas o meu trabalho. Seria o meu território e o meu lugar no mundo.
Desenvolvido com matérias-primas sustentáveis e recicladas, o sofá outdoor Perlage de encosto de corda náutica trançada à mão
Rodi Goulart/Divulgação
CJ | Como a sua história familiar com a madeira, dos bisavós ao seu pai, moldou a sua assinatura como designer?
MM | A minha assinatura como designer é, antes de tudo, uma continuidade silenciosa da minha família. Uma história que começou muito antes de mim, quando os Manente deixaram a Itália e chegaram à Serra Gaúcha. Os meus antepassados trabalharam como balseiros, construindo balsas feitas de toras de madeira para escoar as madeiras para a construção civil arcaica da época, navegando pelos rios da região. Essa é uma memória centenária, uma história que atravessou gerações e que marcou profundamente a relação da minha família com a madeira. Com o passar do tempo, essa relação evoluiu dentro da nossa própria linha do tempo. Meu pai, marceneiro, foi quem transformou essa herança em cotidiano. Cresci entre o cheiro da madeira recém-cortada, o pó fino suspenso no ar, o som das ferramentas e a delicadeza firme das mãos que moldavam cada peça. Essa vivência diária, simples, verdadeira e afetiva foi, sem dúvida, a grande inspiração da minha vida. Desde cedo entendi que criar móveis não é apenas um ato técnico. É um gesto de respeito. É compreender que cada peça entra na casa das pessoas, no lugar mais íntimo da vida delas, onde elas celebram, descansam, convivem e são felizes. E eu sempre vi o móvel como um símbolo desse cuidado. Em cada produto que crio existe um pouco dessas raízes, dessa fusão entre memória sensorial, respeito pela madeira e emoção de construir algo durável e significativo. Hoje, claro, tudo isso foi aprimorado pela modernidade, pela técnica e pelos conhecimentos adquiridos ao longo da minha jornada. Mas o fundamento permanece o mesmo: o design nunca foi apenas material. Ele sempre foi sobre território, identidade e destino.
Feito de fios de couro natural, o balanço indoor Revoar homenageia técnicas de trabalho manual como tranças, cordões, correntes e franjas
Divulgação
CJ | O balanço Revoar marcou o início de um novo capítulo na sua trajetória. O que ele representa para você?
MM | Ele nasceu quando fomos selecionados para participar de um projeto da ApexBrasil, em parceria com os curtumes brasileiros, nos Estados Unidos. A missão era criar um produto que revelasse a brasilidade por meio do couro nacional e do trabalho artesanal. Naquele momento, eu sabia que precisava desenvolver algo sensorial, afetivo e tecnicamente diferenciado. E havia algo ainda mais profundo acontecendo: eu estava grávida da minha filha, Izadora, e isso influenciou diretamente o tema. O balanço, por si só, já carrega um simbolismo emocional e lúdico. Acolhe, embala, conecta memórias da infância ao conforto da vida adulta. Eu queria que o Revoar traduzisse esse afeto, esse instante tão especial da minha vida, unido às técnicas artesanais que sempre valorizei. O resultado foi um produto totalmente feito à mão, com tramas complexas no assento, nas alças e nas franjas, combinando diversas técnicas e materiais. Ele não nasceu apenas como um balanço, mas como uma expressão poética da brasilidade, leve, contemporânea, sensorial e tecnicamente impecável. A força dele foi imediata. Estreou na Semana de Design de Nova York, percorreu Milão, Roma, Paris, Estocolmo, Londres, Berlim, e esteve presente em inúmeras edições da CasaCor em todo o Brasil. Desde então, ele reverbera o nome do estúdio pelo mundo. Até hoje, muitos profissionais e consumidores nos procuram especificamente por ele, é uma peça que se tornou sinônimo da nossa marca. Posteriormente, além da versão original em couro, criamos também a versão em corda náutica, ampliando seu uso para áreas externas. A aceitação foi tão grande que ele não teve apenas um “momento”: ele se tornou atemporal. Registramos a patente oficial no INPI, porque sabíamos que ele representava algo inédito. Há quase dez anos, pouquíssimos balanços existiam no cenário do design brasileiro, e tenho certeza de que o Revoar foi um dos primeiros a abrir esse caminho. Ele inaugurou um olhar moderno, elegante e leve sobre o balanço como peça de mobiliário dentro das casas. Por tudo isso, o Revoar é especial: ele carrega técnica, brasilidade, história, artesania e inovação.
CJ | Qual foi o maior aprendizado ao abrir o seu estúdio, em 2004?
MM | O maior aprendizado ao abrir o meu estúdio, em 2004, foi entender que fazer design autoral no Brasil, naquela época, exigia coragem, consistência técnica e uma convicção quase visceral de propósito. Naquele momento, o mercado nacional ainda não valorizava a pesquisa, a originalidade e a identidade de produtos criados por designers. Aprendi, na prática, que seria necessário educar e aprender com o mercado, apresentar processos, mostrar a importância da pesquisa de materiais, da ergonomia, da prototipagem e da construção de uma linguagem própria. E tudo isso leva tempo, investimento e disciplina técnica. Mas um dos maiores aprendizados foi perceber que, para além da criação, o design precisava ser compreendido como negócio. Entendi que o designer não é apenas uma figura artística, mas um profissional que também precisa dominar estratégia, gestão e comercialização. Foi nesse momento que o propósito se alinhou ao empreendedorismo, e o Studio ganhou estrutura, solidez e visão de futuro. A união entre técnica criativa, conhecimento industrial e estratégia comercial permitiu que, ao longo desses 20 anos, construíssemos pilares diferenciados de atuação. Ampliamos serviços, aprofundamos consultorias, expandimos colaborações e desenvolvemos um modelo de trabalho 360°, capaz de atender desde indústrias nacionais e internacionais até o público final que busca nossa coleção autoral. Foram duas décadas de desafios e aprendizados, mas também de crescimento contínuo, sempre guiados pelo entendimento de que design é criação, é técnica e é negócio.
Inspirada na brisa suave e no movimento delicado que ela faz quando toca a pele, a poltrona Wind traz novamente as franjas de fio de seda, dessa vez acompanhadas do veludo
Divulgação
CJ | Suas peças já circularam por Milão, Paris, Nova York, Londres e Japão. O que mais surpreende os estrangeiros no design brasileiro?
MM | Enquanto muitos produtos europeus seguem uma estética mais limpa e minimalista, o design brasileiro apresenta uma pluralidade única. Uma mistura de técnicas, narrativas e materialidades. Os estrangeiros ficam impressionados porque aliamos duas forças simultâneas: tecnologia industrial de alto nível, equivalente a qualquer país do mundo, e manufatura artesanal, que adiciona alma, textura e sensibilidade às peças. Essa combinação cria um design que é sempre emocional, contemporâneo e cheio de identidade. Outro ponto que encanta muito é a riqueza das nossas madeiras e das nossas florestas, essas matérias-primas são sempre muito admiradas lá fora.
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A designer Marta Manente junto das poltronas Pietra, de tecido bouclê e recouro no encosto externo. À frente, mesas de centro Reggia, de madeira, espelho e couro
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CJ | Participar da Semana de Design de Milão há quase uma década mudou sua forma de criar ou de enxergar o mercado global?
MM | Milão é uma escola viva. Participar do Salão do Móvel de Milão por tantos anos me fez entender que o design não é sobre tendências passageiras, e sim sobre linguagem, consistência e propósito. Essa vivência internacional elevou o meu padrão técnico e estético, fortaleceu ainda mais a clareza das minhas criações, ampliou minha visão sobre mercado, comportamento e posicionamento global. É um ambiente que exige precisão, das formas ao acabamento, da narrativa ao produto final, e isso lapida profundamente o processo criativo. Mas há algo muito importante: Milão reverbera dentro do Brasil. Expor no maior palco do design mundial fortalece não só o meu trabalho, mas também o nome das indústrias que produzem as peças. Traz reconhecimento, validação e uma percepção de qualidade que impacta diretamente o mercado nacional. As empresas parceiras sentem esse reflexo e isso enaltece o design autoral brasileiro como um todo.
CJ | Qual é o maior desafio para que o design brasileiro amplie ainda mais sua presença internacional?
MM | Acredito que o ponto de partida para entendermos esse desafio é reconhecer a importância dos programas de internacionalização promovidos pela ApexBrasil e pela Abimóvel. Essas iniciativas foram fundamentais para consolidar tanto o design autoral brasileiro quanto a força das nossas indústrias, abrindo portas para exposições, feiras globais, premiações e ações estratégicas que apresentaram ao mundo a nossa capacidade técnica. O Brasil tem alta tecnologia fabril. As indústrias que trabalham com produtos de padrão exportação possuem o mesmo nível de tecnologia, precisão e desempenho que vemos nos grandes players internacionais. Aquilo que verdadeiramente encanta lá fora é a criatividade plural, rica em narrativas e identidades. Quando há consistência, há também conversão. Não apenas a admiração pelos produtos, mas a transformação dessa visibilidade em negócios reais, contratos, exportações e presença contínua em mercados estratégicos. É essa convergência entre criatividade, capacidade produtiva e oportunidades que solidifica as marcas brasileiras no exterior. Há muito espaço para o crescimento do design brasileiro no mundo. E para que isso continue acontecendo, precisamos manter e ampliar os incentivos, fortalecer o setor e continuar ocupando cada vez mais os palcos internacionais com maturidade, originalidade e excelência técnica.
Vista aérea do sofá modular Maré, uma das criações da designer Marta Manente, reconhecida no Prêmio Salão Design 2022 e exposta na feira Maison et Objet Paris, no mesmo ano
Rodi Goulart/Divulgação
CJ | Quando você olha para o futuro — do estúdio, do design nacional e do seu trabalho no mundo — que caminhos imagina trilhar nos próximos 20 anos?
MM | Quando penso no futuro, vejo um caminho que nasce da constância. O design, quando é vivido todos os dias e cuidadosamente edificado, cria um olhar natural para o que vem adiante. A experiência traz maturidade, clareza de percurso e reforça essa identidade que carrego no meu traço: as formas orgânicas, fluidas e sensoriais inspiradas na natureza, aliadas à alta tecnologia e ao trabalho manual que valorizo tanto. Ao longo desses 20 anos, aprendi a me aprofundar em múltiplos materiais: estofados, madeira, alumínio, corda náutica, tecidos, fibras e tantos outros. E essa diversidade reflete o que chamo de “multi-alma do design brasileiro”. Somos plurais, híbridos, emocionais e, ao mesmo tempo, extremamente técnicos. Essa multi-alma é o que desejo continuar reverberando nos próximos anos. Um design que nasce do território, ganha forma com a tecnologia e é humanizado pelo gesto do feito à mão. O futuro que imagino para o Studio Marta Manente é de continuidade, com profundidade. Seguir criando coleções autorais, ampliando colaborações com indústrias potentes do Brasil e do mundo, e sempre olhando o ser humano como centro das criações.

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