Reforma transforma apartamento de 57 m² em “lar-biblioteca” com jardim

O desejo de um apartamento pequeno que tivesse alma de casa foi o ponto de partida do casal para encontrar a morada ideal na Asa Sul, em Brasília, DF. Vindos de outras cidades e profundamente ligados à vida cultural do bairro, Marília e André, ao lado da filha pequena, buscavam um imóvel que funcionasse como apoio para o trabalho, mas também como espaço de acolhimento, leitura e encontros.
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Em 57 m², o projeto assinado pelos arquitetos Gabriel Solórzano e Rodrigo da Cruz, do Estúdio Empena (@estudio.empena), transformou um lar compartimentado em um ambiente fluido, afetivo e cheio de personalidade.
COZINHA | O granilite verde, que marca a área molhada da cozinha e do jardim composto por jardineira construída em formas orgânicas, é uma referência afetiva da moradora ao Parque das Águas de Caxambu, em Minas Gerais. O projeto também valorizou o que já existia, como a laje e o pilar da cozinha, que foram descascados para revelar o concreto aparente, enquanto o piso de parquet original da sala foi preservado. Abaixo da bancada de refeições de mármore branco nacional, armário de compensado naval executado pela Prática Marcenaria
Júlia Tótoli/Divulgação
“O apartamento original dava a sensação de que muita área útil era perdida. A proposta foi subtrair, remover paredes e permitir que os espaços se relacionassem melhor”, explica Gabriel.
A principal decisão foi unificar cozinha, sala de estar, escritório e um antigo quarto em um único recinto central, amplo e iluminado. “Mais do que integrar, queríamos criar marcações sutis que permitissem diferentes usos ao longo do dia”, complementa Rodrigo.
COZINHA | Com a retirada da parede, a cozinha foi unificada à sala de estar, mantendo o pilar, agora descascado para evidenciar o concreto da estrutura, ao lado da bancada de mármore branco nacional, mesmo material das prateleiras ao fundo, com vidros azuis da tradicional arte de vidraçaria palestina. A bancada da pia com balcão refrigerado abaixo era um sonho antigo
Júlia Tótoli/Divulgação
Hoje, a vida da família acontece majoritariamente nesse cômodo central, onde cozinhar, trabalhar, ler ou receber amigos se sobrepõem de maneira natural.
O sofá atua como divisória suave entre sala de estar e escritório, enquanto a mesa de jantar pertence tanto à cozinha quanto à sala. “Pensamos em elementos que pudessem assumir mais de uma função e refletir o modo de viver dos moradores”, afirma Gabriel.
BIBLIOTECA | O sofá separa a sala de estar do escritório de modo suave, ou seja, ele pertence tanto a um quanto ao outro. Ao fundo, a estante metálica reúne os livros da moradora
Júlia Tótoli/Divulgação
As cores também cumprem papel fundamental na organização. O verde marca as áreas molhadas, como a cozinha revestida com granilite — referência afetiva de Marília ao piso antigo da área interna do Parque das Águas de Caxambu, em Minas Gerais.
“O verde também faz a transição entre cozinha e sala e dialoga com o jardim interno”, explica Rodrigo. Já o azul aparece como plano intermediário, conectando visualmente a área social à parte íntima.
BIBLIOTECA | Sobre a mesa e a cadeira adquiridas em antiquário, que funcionam como home office, está o quadro do artista Marcelo Camara. Tapete kilim
Júlia Tótoli/Divulgação
Essa dinâmica dialoga diretamente com a história do casal, dono de uma livraria próxima ao apê. “Eu desejava um espaço onde pudesse estudar e me sentir bem. Escolhemos que uma parede inteira fosse dedicada aos meus livros, meus maiores companheiros quando estou aqui”, conta Marília, que define o lar como uma verdadeira “casa-biblioteca”.
Durante a obra, um desafio inesperado se tornou elemento central do projeto. Ao derrubar as paredes, surgiu uma tubulação de esgoto que não poderia ser removida. “Em vez de esconder, decidimos assumir o cano como parte da arquitetura”, explica Rodrigo. A solução foi “vesti-lo” com tubo metálico e repetir o acabamento em outros pontos, como na tubulação de gás e na bancada refrigerada —sonho antigo dos moradores. “A mesa de mármore abraça o cano e ajuda a integrar a cozinha à sala”, comemora a moradora sobre o resultado.
DETALHES | Enquanto o design brasileiro é celebrado em peças assinadas, como o banco Mucki, de Sergio Rodrigues, materiais existentes da construção são mantidos e ressignificados, como o concreto do teto e a tubulação de esgoto que não poderia ser retirada, então foi assumida na arquitetura ao ser envolvida por revestimento metálico
Júlia Tótoli/Divulgação
O conceito do projeto também se construiu a partir da valorização do que já existia. A laje e o pilar da cozinha foram descascados para revelar o concreto aparente, enquanto o piso de parquet original foi preservado. “Fizemos poucas adições fixas para que os objetos afetivos dos moradores conduzissem a composição”, diz Gabriel.
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“Queríamos um apartamento pequeno, mas com sensação de casa, preservando elementos originais como o taco, as colunas e a laje”, comenta André. Ele destaca ainda que os cobogós existentes foram valorizados com a criação de uma jardineira contínua banhada pelo sol, funcionando como um jardim, que abriga espécies nativas e ervas usadas no dia a dia para cozinhar.
Na decoração, memórias e design brasileiro convivem em equilíbrio. Vasos de vidro palestinos, tapetes kilim e móveis garimpados se somam a peças assinadas, como o Banco Mucki, de Sergio Rodrigues, e a poltrona Radar, de Carlos Motta. Obras de Rubem Valentim e Marcelo Camara reforçam a identidade artística do apê, que funciona como ponto de encontro e extensão da vida cultural dos moradores. “Sempre recebemos autores que vêm fazer lançamentos na nossa livraria”, conta Marília.

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