“Deh olda de moon, de brita it shines” é um ditado em patoá – língua crioula de base inglesa falada pela maioria dos jamaicanos – que diz que, com o passar do tempo, as pessoas se tornam mais belas, sábias e preciosas. No caso de Yvonne Bailey-Smith, o provérbio se confirma ao passo que ela realiza sonhos ousados: aos 65 anos, após se aposentar da carreira de psicoterapeuta, lançou seu primeiro livro, o romance com toques autobiográficos The Day I Fell Off My Island (Myriad, 2021, 400 págs.), ainda sem tradução para o português. Não satisfeita, está finalizando sua sequência, The Freedom of the Birds, em que a jamaicana Erna, sua protagonista, agora enfrenta a vida adulta.
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Yvonne aproveita a luz natural que adentra pela janela do living
Henry Roy
Apesar de apaixonada por livros, o contato com eles não foi uma constante em sua vida. “Como muitos pais naquela época, os meus estavam ocupados tentando sobreviver, nos mandaram para a escola e torceram para dar certo. O primeiro livro que li foi a Bíblia e meu interesse pela leitura veio diretamente disso”, lembra. Moravam em um vilarejo tão pequeno que nem aparece no mapa. “Tive uma infância feliz ao lado de cinco irmãos e muitos primos. Podia brincar e explorar espaços amplos com bastante verde.” A falta de oportunidades nas comunidades rurais, no entanto, fazia com que as pessoas buscassem uma vida melhor em outros países, e com a família não foi diferente. “Já tínhamos parentes da chamada geração Windrush [onda migratória em que habitantes de vários países do Caribe foram para a Grã-Bretanha ajudar a reconstruir a nação no pós-guerra, movimento que se estendeu até a década de 1970] vivendo aqui”, explica. Foi assim que, aos 14 anos, deixou para trás a vida pacata na Jamaica para morar em Londres.
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Na cozinha, as flores do jardim colorem o ambiente sobre toalha adquirida em um bazar beneficente
Henry Roy
Aos 19 anos, casou-se com o fotógrafo Harvey Smith, com quem teve três filhos. A mais velha, Zadie Smith, é uma escritora de sucesso e a história de seu livro de estreia, Dentes Brancos (Companhia das Letras, 2003, 520 págs.), se passa em Willesden Green, bairro do noroeste de Londres onde Yvonne mora até hoje. “Sempre foi um local interessante para novas comunidades. Houve pessoas de todas as nacionalidades se estabelecendo por aqui ao longo dos anos. Por vezes, nos deparamos com calçadas não varridas ou móveis e eletrodomésticos descartados [foi assim que Yvonne conseguiu a luminária amarela do quarto de hóspedes], mas para mim é um lugar agradável e me sinto sortuda por viver aqui.”
Tem muita coisa [na cozinha] que adoro ficar olhando. Ela convida a sentar e conversar por horas
Na cozinha, uma mistura eclética de objetos e lembranças, como as porcelanas inglesas centenárias, repousa na parede
Henry Roy
A família teve outros três endereços antes de se mudar para esta casa, há 41 anos. Trata-se de uma propriedade eduardiana que, apesar de algumas alterações, manteve muitas de suas características – foi, inclusive, tombada com grau B, classificação de proteção concedida a edifícios de interesse histórico ou arquitetônico na Inglaterra. “Era uma casa com uma aura tranquila, em uma rua tranquila de um bairro idem. Parecia um bom lugar para criar os filhos. Só pintamos e já nos mudamos.” Logo na entrada, as samambaias e alfeneiros indicam a presença de uma amante de plantas. No quintal, o jardim confirma a preferência. “É um espaço bastante apreciado. Quando o tempo permite, é lá que tomo minha primeira xícara de chá do dia. Minhas netas se divertem na horta: plantamos e colhemos muitos vegetais este ano, além de mirtilos, framboesas, figos e maçãs”, conta. O restante do solo cultivável é tomado por flores.
+ O livro vive: como bibliotecas, livrarias e cantos de leitura resistem ao avanço da era digital
Na sala de jantar, o tecido africano emoldurado (à dir.) e as aquarelas de cebolas e alhos de uma artista jamaicana acompanham fotografias de Yvonne, familiares e amigos, como o neto Harvey e o retrato da filha Zadie com Barack Obama em uma cerimônia na Casa Branca
Henry Roy
Já no interior da residência, a moradora criou cenários que ostentam suas paixões. A sala de estar dá o tom dos demais ambientes, com livros por todo lado: clássicos de Kafka, Joyce, Du Bois e Baldwin se misturam às obsessões do momento, autores negros do Caribe, da África e das Américas, como Marlon James, Mateo Askaripour, Kei Miller, Chimamanda Ngozi Adichie, Celeste Mohammed, Ayanna Lloyd Banwo e Monique Roffey, entre tantos. Quando as estantes e prateleiras não são suficientes, os títulos se acomodam sobre a lareira, dividindo espaço com esculturas de mulheres africanas.
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O tecido bogolan (sobre a mesa) e o tambor Terre Djembe, ambos de Gana, figuram diante da parede com papel de Laura Ashley, original dos anos 1970
Henry Roy
“A sala costuma ser mais usada quando tenho visitas”, compartilha. Amigos e família são sempre recebidos de braços abertos. “Menos quando estou trabalhando”, avisa. Nesses momentos, ela se fecha no escritório, instalado no antigo quarto de Zadie. “É o menor da casa e tem uma bela vista do jardim. Gosto de trabalhar ali, em uma escrivaninha antiga da Ikea, a primeira que minha filha teve após a infância.”
A casa tem mais três dormitórios: o de Yvonne e dos outros dois filhos, Ben e Luke. O de Ben foi convertido em quarto de hóspedes, onde a cama da Ikea recebeu uma colcha branca garimpada em um bazar beneficente. Ao lado, a luminária resgatada do lixo dos vizinhos sobre uma mesa lateral foi colocada sobre um kente, tecido de seda e algodão adquirido em Bonwire, uma das principais cidades tecelãs da região de Ashanti, em Gana. “Comprei um para cada filho e alguns para mim. É considerado um privilégio possuir esse tecido, utilizado pela realeza ganense. Até hoje é produzido como há centenas de anos.” Já Luke teve seu quarto preservado para as temporadas que costuma passar com a mãe.
+ Livraria Gato sem Rabo é destino para quem ama literatura feminina (e bons cafés e coquetéis)
Fotografias das netas, pratos antigos, um instrumento musical norte-africano e obras de arte vindas de Gana, da África do Sul, do Quênia e da Tanzânia compartilham o espaço da parede da área de circulação com o colar da joalheria Djalis (ao centro) – o tapete é da Ikea
Henry Roy
Nos poucos metros quadrados onde não há livros, as histórias são contadas por fotos, objetos preciosos e obras de arte vindos de diversos lugares do mundo. É o caso da cozinha, um dos ambientes de que Yvonne mais gosta. “Tem muita coisa que adoro ficar olhando. Minha mãe tinha uma casa enorme, com duas cozinhas minúsculas, ambas muito frias e nada aconchegantes. A comida vivia queimando porque ninguém queria ficar nelas. Já a minha convida a sentar e conversar por horas”, orgulha-se. É lá que fica uma de suas peças favoritas, presente de um irlandês, amigo de seu marido. “Uso como fruteira. Foi feita pela esposa desse amigo. Recentemente, eu a mostrei para uma amiga, que observou que suas marcações internas eram tipicamente africanas – e são! Não sei como não percebi isso antes, e olha que sempre a amei!” Yvonne foi aconselhada a parar de usar como fruteira e exibir a peça como ela merece. “Devo dizer que concordo com isso”, admite.
+ 6 estantes e prateleiras para organizar os livros em casa
No quarto de hóspedes, cama da Ikea, parte da coleção de livros, e objetos que guardam lembranças de viagens
Henry Roy
É também um lugar de saudade. “Meu marido era um cozinheiro incrível, fazíamos muitas festas aqui.” Embora tenha sido modernizada ao longo dos anos, o piso de parquê instalado por ele permanece original, em sua homenagem. “Já eu até sei cozinhar, mas para uma só pessoa não tem graça. Como meus filhos são bons cozinheiros, hoje em dia prefiro me divertir na casa deles.”
*Matéria originalmente publicada na edição de setembro/2025 da Casa Vogue (CV 476), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.
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Aos 19 anos, casou-se com o fotógrafo Harvey Smith, com quem teve três filhos. A mais velha, Zadie Smith, é uma escritora de sucesso e a história de seu livro de estreia, Dentes Brancos (Companhia das Letras, 2003, 520 págs.), se passa em Willesden Green, bairro do noroeste de Londres onde Yvonne mora até hoje. “Sempre foi um local interessante para novas comunidades. Houve pessoas de todas as nacionalidades se estabelecendo por aqui ao longo dos anos. Por vezes, nos deparamos com calçadas não varridas ou móveis e eletrodomésticos descartados [foi assim que Yvonne conseguiu a luminária amarela do quarto de hóspedes], mas para mim é um lugar agradável e me sinto sortuda por viver aqui.”
Tem muita coisa [na cozinha] que adoro ficar olhando. Ela convida a sentar e conversar por horas
Na cozinha, uma mistura eclética de objetos e lembranças, como as porcelanas inglesas centenárias, repousa na parede
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A família teve outros três endereços antes de se mudar para esta casa, há 41 anos. Trata-se de uma propriedade eduardiana que, apesar de algumas alterações, manteve muitas de suas características – foi, inclusive, tombada com grau B, classificação de proteção concedida a edifícios de interesse histórico ou arquitetônico na Inglaterra. “Era uma casa com uma aura tranquila, em uma rua tranquila de um bairro idem. Parecia um bom lugar para criar os filhos. Só pintamos e já nos mudamos.” Logo na entrada, as samambaias e alfeneiros indicam a presença de uma amante de plantas. No quintal, o jardim confirma a preferência. “É um espaço bastante apreciado. Quando o tempo permite, é lá que tomo minha primeira xícara de chá do dia. Minhas netas se divertem na horta: plantamos e colhemos muitos vegetais este ano, além de mirtilos, framboesas, figos e maçãs”, conta. O restante do solo cultivável é tomado por flores.
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Na sala de jantar, o tecido africano emoldurado (à dir.) e as aquarelas de cebolas e alhos de uma artista jamaicana acompanham fotografias de Yvonne, familiares e amigos, como o neto Harvey e o retrato da filha Zadie com Barack Obama em uma cerimônia na Casa Branca
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Já no interior da residência, a moradora criou cenários que ostentam suas paixões. A sala de estar dá o tom dos demais ambientes, com livros por todo lado: clássicos de Kafka, Joyce, Du Bois e Baldwin se misturam às obsessões do momento, autores negros do Caribe, da África e das Américas, como Marlon James, Mateo Askaripour, Kei Miller, Chimamanda Ngozi Adichie, Celeste Mohammed, Ayanna Lloyd Banwo e Monique Roffey, entre tantos. Quando as estantes e prateleiras não são suficientes, os títulos se acomodam sobre a lareira, dividindo espaço com esculturas de mulheres africanas.
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“A sala costuma ser mais usada quando tenho visitas”, compartilha. Amigos e família são sempre recebidos de braços abertos. “Menos quando estou trabalhando”, avisa. Nesses momentos, ela se fecha no escritório, instalado no antigo quarto de Zadie. “É o menor da casa e tem uma bela vista do jardim. Gosto de trabalhar ali, em uma escrivaninha antiga da Ikea, a primeira que minha filha teve após a infância.”
A casa tem mais três dormitórios: o de Yvonne e dos outros dois filhos, Ben e Luke. O de Ben foi convertido em quarto de hóspedes, onde a cama da Ikea recebeu uma colcha branca garimpada em um bazar beneficente. Ao lado, a luminária resgatada do lixo dos vizinhos sobre uma mesa lateral foi colocada sobre um kente, tecido de seda e algodão adquirido em Bonwire, uma das principais cidades tecelãs da região de Ashanti, em Gana. “Comprei um para cada filho e alguns para mim. É considerado um privilégio possuir esse tecido, utilizado pela realeza ganense. Até hoje é produzido como há centenas de anos.” Já Luke teve seu quarto preservado para as temporadas que costuma passar com a mãe.
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