Espécie nativa da Mata Atlântica, a imbuia (Ocotea porosa) teve suas características botânicas, tecnológicas e de uso amplamente documentadas no livro ´Espécies Arbóreas Brasileiras´ volume 1, do pesquisador Paulo Ernani Ramalho Carvalho, publicado pela Embrapa Florestas — referência que ajuda a compreender por que essa madeira segue tão presente em projetos contemporâneos que valorizam materiais duráveis, autorais e de origem brasileira.
Características da madeira imbuia
Segundo o livro, a imbuia é classificada como uma madeira moderadamente densa. Trata-se de uma madeira de textura média, grã direita a levemente reversa, e superfície naturalmente lisa, com brilho discreto.
A sala íntima é abraçada pelo painel de lâmina de imbuia, que se transforma em escritório. O pavimento térreo tem uma base neutra e natural, com concreto aparente e piso de madeira grápia com paginação dama
MCA Estúdio / Divulgação
Um de seus aspectos mais valorizados é a grande variação cromática do cerne, que pode ir do pardo-amarelado ao castanho escuro, com veios paralelos ou ondulados que formam desenhos naturais bastante expressivos. Além disso, possui o cheiro característico e agradável da madeira, além do gosto amargo e adstringente — traços comuns nas espécies do gênero Ocotea.
A mesa de jantar desenhada pelo escritório tem tampo de madeira natural imbuia com base em canos de PVC e pintura metalizada
Roberta Gewehr/Divulgação | Projeto do escritório South Arquitetura
Do ponto de vista do desempenho, a imbuia possui boa durabilidade natural, com resistência ao ataque de organismos xilófagos, o que explica seu uso histórico em mobiliários, painéis, esquadrias e elementos estruturais. No entanto, é uma madeira de secagem lenta, especialmente em peças mais espessas, exigindo controle cuidadoso para evitar rachaduras e colapsos internos. Em compensação, apresenta ótima trabalhabilidade, proporcionando bom acabamento e aceitando bem vernizes e pinturas.
A materialidade é essencial para entender o conceito de oásis do apartamento, como o painel de madeira lâmina natural imbuia rajada, executado pela empresa Kaizen
Larissa Sad/Divulgação | Projeto do escritório CODA Arquitetura
Essas características técnicas ajudam a entender porque a imbuia consolidou-se como uma madeira de alto valor estético e funcional, especialmente indicada para aplicações onde o desenho, o acabamento e a longevidade são decisivos.
A bancada original de aço inox foi preservada e restaurada para receber armários desenhados pelo escritório e executados em MDF Nova Imbuia, da Arauco, por marceneiro autônomo, seguindo o padrão escuro de madeira presente em todo o projeto
Ruy Teixeira/Divulgação | Projeto do escritório Kas Arq
Usos da imbuia na arquitetura
Com ambientes abertos, o living é unificado pelo grande volume de marcenaria desenhado pelo escritório e executado de MDF Nova Imbuia, da Arauco, pela Star Móveis.
Israel Gollino/Divulgação | Projeto idealizado pelo StudioVA Arquitetos
Historicamente, a madeira de imbuia foi utilizada em vigas, assoalhos, esquadrias, portas, janelas e forros, além de mobiliários de luxo, painéis decorativos, peças torneadas e instrumentos musicais. Hoje, seu uso é mais concentrado na marcenaria sob medida em painéis, portas, aparadores, estantes e mobiliário fixo, onde sua estética pode ser plenamente valorizada.
O piso de tábua corrida de imbuia, original do apartamento, foi restaurado na reforma.
Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Projeto do arquiteto Fabiano Ravaglia, do FPR Studio
Para a arquiteta Tássia Pereira, sócia do escritório TT Interiores, a imbuia funciona especialmente bem em projetos residenciais. “Ela traz presença e acabamento sofisticado, por isso é uma madeira que se destaca muito na marcenaria sob medida”, explica.
Neste ambiente, a aposta foi em tons mais escuros, com marcenaria de lâminas de imbuia Sayerlack
Júlia Tótoli/Divulgação | Projeto do do Studio Varanda
Segundo Tássia, seu diferencial visual está no tom mais profundo e nos veios elegantes. “É uma madeira com cara de peça autoral e, ao mesmo tempo, muito brasileira. Ela entrega um luxo discreto, sem precisar de tingimento ou artifícios”, explica.
Como combinar a imbuia na decoração
No hall de entrada, foi criado espécie de túnel com painel frisado de madeira imbuia da Marcenaria Ambiental
Marco Antonio/Divulgação | Projeto da arquiteta Caroline Gabriades
Justamente por ter uma cor mais escura e veios marcantes, a imbuia pede projeto e dosagem. “A variação natural de tons influencia diretamente o desenho”, explica Tássia. “A paginação precisa ser cuidadosa para um resultado contínuo e refinado. Costumamos equilibrar com bases claras, tecidos naturais e uma iluminação bem pensada, para valorizar a madeira sem pesar o ambiente.”
Marcenaria executada com MDF Nova Imbuia, da Arauco, dá um toque elegante ao projeto do banheiro
Ruy Teixeira/Divulgação | Projeto do escritório Kas Arq
Quando bem aplicada, a imbuia é capaz de unir acolhimento e sofisticação. “A sensação de aconchego vem da temperatura visual da madeira, enquanto a sofisticação aparece no desenho dos veios e no acabamento. E, por não depender de tendências, ela se mantém atemporal”, diz a arquiteta.
O guarda-corpo da escada foi feito de imbuia o que mostra a versatilidade do uso do material em diferentes ambientes da casa
Fran Parente/Divulgação | Projeto do escritório Pascali Semerdjian Arquitetos
A madeira conversa especialmente bem com os estilos contemporâneo sofisticado, clássico atual e propostas mais orgânicas, como o japandi, desde que usada com parcimônia e combinada a tons claros.
Vantagens da imbuia e cuidados
O piso originalmente de imbuia foi restaurado para combinar com a decoração do quarto, com outros detalhes de madeira
Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Falchi e Rennan Scalabrin | Projeto do StudioDuas Arquitetura
Além da estética, a imbuia oferece boa percepção de durabilidade. Trata-se de uma madeira densa e resistente, cujo desempenho no uso cotidiano depende principalmente do acabamento e da proteção contra umidade, atrito excessivo e exposição direta ao sol.
No living, o armário executado em imbuia guarda uma pequena cozinha
Fran Parente/Divulgação | Projeto do escritório Pascali Semerdjian Arquitetos
A arquiteta recomenda cuidados simples: “A limpeza deve ser feita com pano macio levemente umedecido e sabão neutro, evitando produtos abrasivos. Proteger do sol direto ajuda a manter a cor mais estável, e feltros nos móveis fazem diferença na conservação”. Manutenções pontuais no acabamento, quando necessárias, ajudam a prolongar a vida útil das peças.
O aparador de imbuia natural confere toque de elegância ao restante do projeto, executado com outras madeiras e MDF
André Mortatti/Divulgação | Projeto do escritório FCstudio
Por ser uma madeira naturalmente impermeável a tratamentos sob pressão, a especificação correta desde o início é essencial — mais um motivo para optar por profissionais especializados.
A escolha para esse ambiente foi uma cômoda de imbuia da década de 1960, o que mostra como a madeira é resistente ao tempo se bem preservada
Re Freitas/Divulgação | Projeto do escritório Quattrino Arquitetura
Com a exploração controlada da espécie, a imbuia passou a ser utilizada de forma mais seletiva, muitas vezes em elementos protagonistas do projeto. “Para quem vai usar pela primeira vez, o ideal é começar com uma peça-chave, como um painel, uma porta ou um aparador, e construir o restante do ambiente para valorizar a madeira”, orienta Tássia.



