A Era Mesozoica, dividida nos períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo, foi cenário de uma profunda revolução botânica. A “Era dos Dinossauros”, como ficou conhecida, foi marcada pela fragmentação da Pangeia, pela evolução de répteis, mamíferos e aves, e pela transição do domínio das gimnospermas às angiospermas, primeiras plantas com flores.
Leia mais
O impacto de um meteoro, ocorrido há cerca de 66 milhões de anos, causou uma extinção em massa (K-Pg ou Cretáceo-Paleogeno) que eliminou os dinossauros não-avianos e grande parte da vida no planeta. Essa mudança reconfigurou não apenas a estética das paisagens, mas a dinâmica dos ecossistemas e os mecanismos de adaptação climática, preparando o terreno para a vida que persistiria.
Quando surgiram as primeiras plantas e flores?
A origem dos vegetais começou com a oxigenação atmosférica pelas cianobactérias, seguida pela conquista terrestre no período Ordoviciano, que transformou rochas em solo. Após a estabilização climática pelas florestas do Carbonífero, momento em que florestas densas estabilizaram o clima e a umidade do planeta, a revolução definitiva veio no Mesozoico com as flores e frutos, essenciais para a flora moderna e para o surgimento de aves, mamíferos e polinizadores.
O musgo do gênero ‘Takakia’ mantém a mesma aparência do período jurássico, mas conseguiu adaptar-se às baixas temperaturas e à alta radiação ultravioleta
Xuedong Li/Divulgação
“As informações atuais dos fósseis sugerem que as primeiras plantas surgiram por volta de 460 milhões de anos atrás. Eram musgos, plantas mais simples, muito pequenas, que crescem em áreas úmidas. Foram importantes para, aos poucos, criar o solo que conhecemos, cujo acúmulo de matéria orgânica serviu de base para as próximas plantas”, revela Henrique Zimmermann Tomassi, paleontólogo pela NASOR – Paleontologia e Geologia.
Já as plantas com flores vieram muito tempo depois, há cerca de 164 milhões de anos, durante a época dos dinossauros. “O surgimento da flor foi uma novidade que beneficiou bastante as plantas, pois agora elas poderiam contar com os animais na sua reprodução. Basta pensar em como as abelhas levam o pólen de uma planta para outra, fazendo o trabalho de fecundadores para criar as sementes férteis que serão a próxima geração de plantas. Essa “invenção” foi muito bem-sucedida e garantiu a dominância atual das plantas com flores na natureza”, ele complementa.
Tipos de plantas dominantes na Era Mezosoica
A vegetação da Era Mesozoica era dominada por gimnospermas, como Cycadales, Bennettitales, Ginkgófitas e coníferas, que formavam grandes florestas. As Cycadales tiveram seu auge nessa era e, embora tenham declinado no Cretáceo, sobrevivem hoje como as cycas, muito usadas em paisagismo. As Bennettitales foram plantas do Mesozoico (Triássico ao Cretáceo), semelhantes às cicadáceas, que se extinguiram devido à competição com as angiospermas e às mudanças climáticas. Elas se dividiam em duas famílias: Williamsoniaceae e Cycadeoidaceae.
“As ginkgófitas têm seu registro fóssil bem identificado a partir do Permiano, com grande diversidade e distribuição mundial durante a era Mesozóica. Já as coníferas surgiram durante o Carbonífero e se expandiram durante a era Mesozóica. As famílias atuais, como Araucariaceae e Pinaceae se estabeleceram a partir do Triássico. No Rio Grande do Sul, há as florestas petrificadas do Triássico com troncos de Araucariaceae”, detalha Luciana Witovisck Gusella, paleobotânica e professora do Museu Nacional vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A Cyca revoluta se consolidou como uma das linhagens ornamentais mais longevas da Terra visto que sua morfologia de gimnosperma ancestral permanece quase intacta desde o período Mesozoico
Wikimedia Commons/David J. Stang/Creative Commons
Outras plantas extintas importantes da Era Mesozoica incluem as Pleuromeiales, adaptadas a condições secas. No hemisfério sul, enquanto as Glossopteridales (folhas em língua) marcaram o fim da era Paleozoica, o gênero Dicroidium (folhas bifurcadas) foi o grande protagonista do Triássico Mesozoico. “Os fósseis das Glossopteridales encontrados na América do Sul, África, Antártica, Índia e Austrália são evidências da movimentação das placas tectônicas. No Brasil, os fósseis do Dicroidium são encontrados no Rio Grande do Sul”, ela relata.
“A partir do Cretáceo médio, os fósseis de plantas com flores são encontrados com representatividade crescente. Quando chegamos ao fim do Cretáceo e início do Paleógeno (cerca de 66 a 60 milhões de anos), as angiospermas representam 40% das floras, sendo 60% ainda dominadas por gimnospermas e samambaias. As angiospermas dominaram as florestas e se expandiram às latitudes 60º de ambos os lados do Equador entre o Paleoceno e Eoceno (cerca de 58 a 50 milhões deanos). Atualmente compõem 90% das floras mundiais”, aponta Luciana.
Leia mais
A evolução da flora da “Era dos Dinossauros” aos dias atuais
No fim da “Era dos Dinossauros”, a expansão das plantas com flores passou a transformar a paisagem, antes dominada por pinheiros e araucárias. “Os fósseis sugerem que depois da extinção em massa do final do Cretáceo, essas plantas com flores explodiram em diversidade e dominaram as áreas tropicais e equatoriais, empurrando as florestas de pinheiros para as áreas mais frias, temperadas”, diz Henrique.
A professora explica, então, que o domínio das angiospermas ocorreu devido a dois fatores principais. O primeiro é a eficiência fotossintética: com a queda da concentração de gás carbônico, a anatomia dessas plantas permitiu uma fotossíntese mais rápida que a das concorrentes. O segundo é a coevolução com insetos, em que o surgimento de flores e pólen especializado criou uma parceria com polinizadores, como abelhas e borboletas, impulsionando a biodiversidade de ambos os grupos.
A samambaiaçu ou xaxim é uma planta pré-histórica que evoluiu de ancestrais milenares e sobreviveu desde a época dos dinossauros, representante de um antigo grupo de samambaias gigantes que já existia muito antes das primeiras flores
Wikimedia Commons/Paulo Cerqueira/Creative Commons
“Adaptadas a baixas concentrações de gás carbônico, as angiospermas atuais perdem espaço para gimnospermas e samambaias conforme os níveis de gás carbônico aumentam. Além do aquecimento global, essa mudança causa dificuldades fisiológicas como o atraso ou ausência de floração. A situação é agravada pela extinção de insetos polinizadores — uma crise que não atinge as gimnospermas, polinizadas pelo vento. Somadas à escassez hídrica pelo desmatamento, essas condições ameaçam as angiospermas, base da alimentação de vertebrados, incluindo a nossa espécie”, conta Luciana.
Outro marco evolutivo que surgiu nos últimos 60 milhões de anos foi o aparecimento de grandes campos de capim, pastados por animais grandes como cavalos, gnus, búfalos, bisões e outros mamíferos grandes. “Esses campos extensos de pastagem, com grama, não aparecem nos fósseis da era dos dinossauros e são uma característica muito marcante da nossa paisagem atual”, acrescenta Henrique.
Algumas dessas espécies existem até hoje?
Em média, uma espécie de planta vive por cerca de 4 milhões de anos antes de se extinguir ou evoluir para algo diferente. O que vemos hoje são vegetais descendentes que preservaram características de seus ancestrais da Era Mesozoica.
“Isso confunde as pessoas e as levam a acreditar que, por serem parecidas, são as mesmas espécies. Das espécies atuais que possuem ancestrais parecidos que viveram entre os dinossauros, posso citar as samambaias arbustivas, como a Samambai-açu da Amazônia; as araucárias; e a famosa Ginkgo biloba, uma planta que hoje é usada para fabricação de medicamentos para melhorar a memória em idosos”, esclarece Henrique.
Leia mais
A professora e paleobotânica lista abaixo mais exemplos de plantas semelhantes com algumas com poucas mudanças, estruturadas pela linhagem evolutiva e categorizadas por grupos botânicos:
1. Linhagens Ancestrais (Pré-Mesozoicas)
Antóceros: representam uma das linhagens mais antigas de plantas terrestres (briófitas), ao lado dos musgos e das hepáticas. Seus ancestrais surgiram no período Ordoviciano, há cerca de 450 milhões de anos, e foram fundamentais para entender a transição das plantas para o ambiente terrestre.
Licopsidas: grupo que inclui os atuais licopódios e isoetes. Seus ancestrais surgiram e se diversificaram no Devoniano, há 419 a 358 milhões de anos, chegando a formar vastas florestas de árvores gigantes no período seguinte.
Samambaias: as samambaias da ordem Marattiales possuem registros fósseis contínuos desde o período Carbonífero, há 358 a 298 milhões de anos, representando uma das linhagens mais antigas do grupo. Já o xaxim (Dicksonia), embora também seja uma samambaia, pertence a uma linhagem posterior que surgiu e se diversificou durante a Era Mesozoica.
Os licopódios são plantas muito antigas, representando a mais antiga divisão de plantas vasculares ainda existentes, com uma longa história evolutiva que inclui espécies gigantes que formavam florestas no Período Carbonífero
Bernd Haynold/Wikimedia Commons
2. Gimnospermas (Era Mesozoica)
Cicadáceas: as cycas e zamia estão entre as plantas mais icônicas do Mesozoico, muitas vezes chamadas de “palmeiras da era dos dinossauros”, embora não sejam palmeiras. Elas mantêm uma morfologia muito similar à de seus ancestrais de 250 milhões de anos.
Coníferas: as araucárias e podocarpos tiveram seu ápice de distribuição global no Jurássico e Cretáceo. O gênero Pinus também se diversificou fortemente no Mesozoico.
Ginkgoales: essa ordem era diversa no Mesozoico, mas hoje resta apenas a Ginkgo biloba que permaneceu praticamente inalterada morfologicamente por mais de 170 milhões de anos, sendo um exemplo clássico de “fóssil vivo”.
Gnetófitas: este é o grupo mais enigmático. A Welwitschia mirabilis, do deserto da Namíbia, e a Ephedra possuem linhagens que remontam ao Cretáceo Inferior. O gênero Gnetum, com trepadeiras e árvores tropicais, também preserva características reprodutivas muito antigas.
”Ginkgo biloba’ é uma planta ancestral considerada um ‘fóssil vivo’, pois existe há mais de 200 milhões de anos, sobrevivendo desde a Era dos Dinossauros como a única espécie remanescente de um grupo antigo
Flickr/Ray/Creative Commons
3. Angiospermas basais (Cretáceo)
Ordem Amborellales: amplamente conhecida como a linhagem irmã de todas as outras plantas com flores vivas. A Amborella trichopoda é a única espécie sobrevivente desta ordem e é endêmica da Nova Caledônia.
Ordem Nymphaeales: este grupo de plantas aquáticas, como a nenúfares e a vitória-régia, divergiu logo após a Amborella. O registro fóssil remonta ao Cretáceo Inferior, há aproximadamente 125 milhões de anos, confirmando sua antiguidade.
Ordem Austrobaileyales: representa a terceira linhagem de angiospermas a divergir. O anis-estrelado (Illicium verum) é um de seus representantes mais conhecidos hoje. Atualmente possui menos de 100 espécies de arbustos, árvores e trepadeiras com ancestrais desde o Cretáceo.
Família Chloranthaceae: esta é uma das linhagens mais antigas de ‘mesangiospermas’, grupo que engloba a maioria das flores modernas. Com registro fóssil desde o Cretáceo Inferior, a família conta atualmente com cerca de 70 espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas. Um exemplo brasileiro é o Hedyosmum brasiliense, conhecido como chá-de-bugre ou hortelã-do-brejo, cuja história evolutiva está diretamente ligada a esses ancestrais primitivos.
A ‘Amborella trichopoda’ é frequentemente chamada de “fóssil vivo” por ser o único membro sobrevivente da linhagem mais primitiva das angiospermas, plantas com flores
Scott Zona/Wikimedia Commons
4. Grandes Grupos de Angiospermas (Cretáceo Inferior)
Magnoliídeas: mais de 10 mil espécies atuais, como a magnólia (gênero Magnolia), a pimenta-do-reino (Piper nigrum), louro (Laurus nobilis), canela (gênero Cinnamomum), o abacate (Persea americana), fruta-do-conde (gênero Annona), noz-moscada (Myristica fragrans).
Monocotiledôneas: mais de 70 mil espécies, como gramíneas (milho, arroz, cana), palmeiras, orquídeas, bromélias, lírios, agaves, agapantos, amarilis, bananas, gengibre, etc.
Eudicotiledôneas ou dicotiledôneas verdadeiras: o grupo mais diversificado das angiospermas com 145 mil espécies, como as famílias Asteraceae (girassóis), Fabaceae (leguminosas como feijão e soja), Rubiaceae (café), Euphorbiaceae (mandioca), Cactaceae (cactos), e gêneros importantes como Vitis (uvas), Cucurbita (abóboras), Brassica (mostardas e brócolis), Solanum (tomates e batatas), Rosa (rosas), Gossypium (algodão), Malus (maçãs) e Citrus (limões e laranjas).
As margaridas de jardim que conhecemos hoje são modernas, porém, os seus ancestrais diretos surgiram no final do período Cretáceo
Pexels/Ave Calvar Martinez/Creative Commons
Leia mais
A grama na “Era dos Dinossauros”
Durante muito tempo, acreditou-se que os dinossauros nunca haviam visto ou comido grama, pois os fósseis indicavam que esse tipo de vegetação só surgira após a extinção em massa há 66 milhões de anos. Contudo, descobertas recentes mudaram essa visão. “As gramíneas já estavam presentes nas floras do Cretáceo. Há registro de herbivoria de gramíneas por dinossauros no início do Cretáceo em fósseis chineses. Mas vale ressaltar que essas plantas passaram a ter maior diversidade durante a era Cenozóica e a dominar os ambientes no Mioceno, há 23 a 5 milhões de anos”, destaca Luciana.
“Em 2005, foram encontradas na Índia fezes fósseis de dinossauros herbívoros de pescoço comprido com pedaços bem pequenos de grama, fragmentos misturados a restos de outros tipos de planta, sugerindo que o mesmo dinossauro comia vários tipos de planta. Depois, em 2017, foram descobertos mais fragmentos de grama entre os dentes de um fóssil de dinossauro herbívoro da China”, descreve Henrique.
Isso significa que a análise desses fósseis, datados entre 110 e 67 milhões de anos atrás, sugere que o ambiente anterior à extinção em massa já contava com alguns tipos de grama. Apesar do impacto da descoberta, tais evidências ainda são amplamente discutidas entre a comunidade científica.
O segredo da sobrevivência vegetal com a extinção dos dinossauros
No processo climático que levou os dinossauros à extinção, o aumento do gás carbônico atmosférico entre o fim do Cretáceo e o meados do Eoceno transformou profundamente a flora global. “Ao fim do Cretáceo, a dominância ainda é das gimnospermas e samambaias. As angiospermas eram plantas oportunistas e ocuparam muitos nichos porque suas plântulas cresciam muito mais rápido, favorecidas por altas concentrações de gás carbônico. Enquanto situações foram favoráveis para sua diversificação, outras plantas se extinguiram”, observa Luciana.
Para Henrique, a sobrevivência da flora após esse cataclismo deveu-se, em grande parte, à dormência das sementes, um mecanismo que permitiu às plantas aguardar por condições ideais para a germinação. “A semente protege o embrião e pode continuar fértil por séculos. Aparentemente as plantas com semente tiveram essa vantagem para atravessar a extinção em massa. Coincidentemente, as plantas com semente são as que mais dominam o ambiente após o evento de extinção”, argumenta o profissional.
A magnólia é uma planta ancestral que desenvolveu flores resistentes muito antes do surgimento das abelhas, contando com besouros como seus primeiros polinizadores
Flickr/Rick Obst/Creative Commons
Atualmente, essa hegemonia é evidente, uma vez que as angiospermas dominam 90% da flora global. “Para estas plantas, a extinção dos dinossauros com a consequente diversificação das aves e dominância dos mamíferos, foi muito favorável, pois estes animais também atuam na polinização, além dos insetos, e na dispersão de frutos e sementes. Evoluíram em conjunto, aproveitando o melhor dessas relações. Além disso, as condições de queda nas concentrações de oxigênio atmosférico e a adaptação contínua das plantas com flores à essa situação também as favoreceu”, finaliza a paleobotânica.
Leia mais
O impacto de um meteoro, ocorrido há cerca de 66 milhões de anos, causou uma extinção em massa (K-Pg ou Cretáceo-Paleogeno) que eliminou os dinossauros não-avianos e grande parte da vida no planeta. Essa mudança reconfigurou não apenas a estética das paisagens, mas a dinâmica dos ecossistemas e os mecanismos de adaptação climática, preparando o terreno para a vida que persistiria.
Quando surgiram as primeiras plantas e flores?
A origem dos vegetais começou com a oxigenação atmosférica pelas cianobactérias, seguida pela conquista terrestre no período Ordoviciano, que transformou rochas em solo. Após a estabilização climática pelas florestas do Carbonífero, momento em que florestas densas estabilizaram o clima e a umidade do planeta, a revolução definitiva veio no Mesozoico com as flores e frutos, essenciais para a flora moderna e para o surgimento de aves, mamíferos e polinizadores.
O musgo do gênero ‘Takakia’ mantém a mesma aparência do período jurássico, mas conseguiu adaptar-se às baixas temperaturas e à alta radiação ultravioleta
Xuedong Li/Divulgação
“As informações atuais dos fósseis sugerem que as primeiras plantas surgiram por volta de 460 milhões de anos atrás. Eram musgos, plantas mais simples, muito pequenas, que crescem em áreas úmidas. Foram importantes para, aos poucos, criar o solo que conhecemos, cujo acúmulo de matéria orgânica serviu de base para as próximas plantas”, revela Henrique Zimmermann Tomassi, paleontólogo pela NASOR – Paleontologia e Geologia.
Já as plantas com flores vieram muito tempo depois, há cerca de 164 milhões de anos, durante a época dos dinossauros. “O surgimento da flor foi uma novidade que beneficiou bastante as plantas, pois agora elas poderiam contar com os animais na sua reprodução. Basta pensar em como as abelhas levam o pólen de uma planta para outra, fazendo o trabalho de fecundadores para criar as sementes férteis que serão a próxima geração de plantas. Essa “invenção” foi muito bem-sucedida e garantiu a dominância atual das plantas com flores na natureza”, ele complementa.
Tipos de plantas dominantes na Era Mezosoica
A vegetação da Era Mesozoica era dominada por gimnospermas, como Cycadales, Bennettitales, Ginkgófitas e coníferas, que formavam grandes florestas. As Cycadales tiveram seu auge nessa era e, embora tenham declinado no Cretáceo, sobrevivem hoje como as cycas, muito usadas em paisagismo. As Bennettitales foram plantas do Mesozoico (Triássico ao Cretáceo), semelhantes às cicadáceas, que se extinguiram devido à competição com as angiospermas e às mudanças climáticas. Elas se dividiam em duas famílias: Williamsoniaceae e Cycadeoidaceae.
“As ginkgófitas têm seu registro fóssil bem identificado a partir do Permiano, com grande diversidade e distribuição mundial durante a era Mesozóica. Já as coníferas surgiram durante o Carbonífero e se expandiram durante a era Mesozóica. As famílias atuais, como Araucariaceae e Pinaceae se estabeleceram a partir do Triássico. No Rio Grande do Sul, há as florestas petrificadas do Triássico com troncos de Araucariaceae”, detalha Luciana Witovisck Gusella, paleobotânica e professora do Museu Nacional vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A Cyca revoluta se consolidou como uma das linhagens ornamentais mais longevas da Terra visto que sua morfologia de gimnosperma ancestral permanece quase intacta desde o período Mesozoico
Wikimedia Commons/David J. Stang/Creative Commons
Outras plantas extintas importantes da Era Mesozoica incluem as Pleuromeiales, adaptadas a condições secas. No hemisfério sul, enquanto as Glossopteridales (folhas em língua) marcaram o fim da era Paleozoica, o gênero Dicroidium (folhas bifurcadas) foi o grande protagonista do Triássico Mesozoico. “Os fósseis das Glossopteridales encontrados na América do Sul, África, Antártica, Índia e Austrália são evidências da movimentação das placas tectônicas. No Brasil, os fósseis do Dicroidium são encontrados no Rio Grande do Sul”, ela relata.
“A partir do Cretáceo médio, os fósseis de plantas com flores são encontrados com representatividade crescente. Quando chegamos ao fim do Cretáceo e início do Paleógeno (cerca de 66 a 60 milhões de anos), as angiospermas representam 40% das floras, sendo 60% ainda dominadas por gimnospermas e samambaias. As angiospermas dominaram as florestas e se expandiram às latitudes 60º de ambos os lados do Equador entre o Paleoceno e Eoceno (cerca de 58 a 50 milhões deanos). Atualmente compõem 90% das floras mundiais”, aponta Luciana.
Leia mais
A evolução da flora da “Era dos Dinossauros” aos dias atuais
No fim da “Era dos Dinossauros”, a expansão das plantas com flores passou a transformar a paisagem, antes dominada por pinheiros e araucárias. “Os fósseis sugerem que depois da extinção em massa do final do Cretáceo, essas plantas com flores explodiram em diversidade e dominaram as áreas tropicais e equatoriais, empurrando as florestas de pinheiros para as áreas mais frias, temperadas”, diz Henrique.
A professora explica, então, que o domínio das angiospermas ocorreu devido a dois fatores principais. O primeiro é a eficiência fotossintética: com a queda da concentração de gás carbônico, a anatomia dessas plantas permitiu uma fotossíntese mais rápida que a das concorrentes. O segundo é a coevolução com insetos, em que o surgimento de flores e pólen especializado criou uma parceria com polinizadores, como abelhas e borboletas, impulsionando a biodiversidade de ambos os grupos.
A samambaiaçu ou xaxim é uma planta pré-histórica que evoluiu de ancestrais milenares e sobreviveu desde a época dos dinossauros, representante de um antigo grupo de samambaias gigantes que já existia muito antes das primeiras flores
Wikimedia Commons/Paulo Cerqueira/Creative Commons
“Adaptadas a baixas concentrações de gás carbônico, as angiospermas atuais perdem espaço para gimnospermas e samambaias conforme os níveis de gás carbônico aumentam. Além do aquecimento global, essa mudança causa dificuldades fisiológicas como o atraso ou ausência de floração. A situação é agravada pela extinção de insetos polinizadores — uma crise que não atinge as gimnospermas, polinizadas pelo vento. Somadas à escassez hídrica pelo desmatamento, essas condições ameaçam as angiospermas, base da alimentação de vertebrados, incluindo a nossa espécie”, conta Luciana.
Outro marco evolutivo que surgiu nos últimos 60 milhões de anos foi o aparecimento de grandes campos de capim, pastados por animais grandes como cavalos, gnus, búfalos, bisões e outros mamíferos grandes. “Esses campos extensos de pastagem, com grama, não aparecem nos fósseis da era dos dinossauros e são uma característica muito marcante da nossa paisagem atual”, acrescenta Henrique.
Algumas dessas espécies existem até hoje?
Em média, uma espécie de planta vive por cerca de 4 milhões de anos antes de se extinguir ou evoluir para algo diferente. O que vemos hoje são vegetais descendentes que preservaram características de seus ancestrais da Era Mesozoica.
“Isso confunde as pessoas e as levam a acreditar que, por serem parecidas, são as mesmas espécies. Das espécies atuais que possuem ancestrais parecidos que viveram entre os dinossauros, posso citar as samambaias arbustivas, como a Samambai-açu da Amazônia; as araucárias; e a famosa Ginkgo biloba, uma planta que hoje é usada para fabricação de medicamentos para melhorar a memória em idosos”, esclarece Henrique.
Leia mais
A professora e paleobotânica lista abaixo mais exemplos de plantas semelhantes com algumas com poucas mudanças, estruturadas pela linhagem evolutiva e categorizadas por grupos botânicos:
1. Linhagens Ancestrais (Pré-Mesozoicas)
Antóceros: representam uma das linhagens mais antigas de plantas terrestres (briófitas), ao lado dos musgos e das hepáticas. Seus ancestrais surgiram no período Ordoviciano, há cerca de 450 milhões de anos, e foram fundamentais para entender a transição das plantas para o ambiente terrestre.
Licopsidas: grupo que inclui os atuais licopódios e isoetes. Seus ancestrais surgiram e se diversificaram no Devoniano, há 419 a 358 milhões de anos, chegando a formar vastas florestas de árvores gigantes no período seguinte.
Samambaias: as samambaias da ordem Marattiales possuem registros fósseis contínuos desde o período Carbonífero, há 358 a 298 milhões de anos, representando uma das linhagens mais antigas do grupo. Já o xaxim (Dicksonia), embora também seja uma samambaia, pertence a uma linhagem posterior que surgiu e se diversificou durante a Era Mesozoica.
Os licopódios são plantas muito antigas, representando a mais antiga divisão de plantas vasculares ainda existentes, com uma longa história evolutiva que inclui espécies gigantes que formavam florestas no Período Carbonífero
Bernd Haynold/Wikimedia Commons
2. Gimnospermas (Era Mesozoica)
Cicadáceas: as cycas e zamia estão entre as plantas mais icônicas do Mesozoico, muitas vezes chamadas de “palmeiras da era dos dinossauros”, embora não sejam palmeiras. Elas mantêm uma morfologia muito similar à de seus ancestrais de 250 milhões de anos.
Coníferas: as araucárias e podocarpos tiveram seu ápice de distribuição global no Jurássico e Cretáceo. O gênero Pinus também se diversificou fortemente no Mesozoico.
Ginkgoales: essa ordem era diversa no Mesozoico, mas hoje resta apenas a Ginkgo biloba que permaneceu praticamente inalterada morfologicamente por mais de 170 milhões de anos, sendo um exemplo clássico de “fóssil vivo”.
Gnetófitas: este é o grupo mais enigmático. A Welwitschia mirabilis, do deserto da Namíbia, e a Ephedra possuem linhagens que remontam ao Cretáceo Inferior. O gênero Gnetum, com trepadeiras e árvores tropicais, também preserva características reprodutivas muito antigas.
”Ginkgo biloba’ é uma planta ancestral considerada um ‘fóssil vivo’, pois existe há mais de 200 milhões de anos, sobrevivendo desde a Era dos Dinossauros como a única espécie remanescente de um grupo antigo
Flickr/Ray/Creative Commons
3. Angiospermas basais (Cretáceo)
Ordem Amborellales: amplamente conhecida como a linhagem irmã de todas as outras plantas com flores vivas. A Amborella trichopoda é a única espécie sobrevivente desta ordem e é endêmica da Nova Caledônia.
Ordem Nymphaeales: este grupo de plantas aquáticas, como a nenúfares e a vitória-régia, divergiu logo após a Amborella. O registro fóssil remonta ao Cretáceo Inferior, há aproximadamente 125 milhões de anos, confirmando sua antiguidade.
Ordem Austrobaileyales: representa a terceira linhagem de angiospermas a divergir. O anis-estrelado (Illicium verum) é um de seus representantes mais conhecidos hoje. Atualmente possui menos de 100 espécies de arbustos, árvores e trepadeiras com ancestrais desde o Cretáceo.
Família Chloranthaceae: esta é uma das linhagens mais antigas de ‘mesangiospermas’, grupo que engloba a maioria das flores modernas. Com registro fóssil desde o Cretáceo Inferior, a família conta atualmente com cerca de 70 espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas. Um exemplo brasileiro é o Hedyosmum brasiliense, conhecido como chá-de-bugre ou hortelã-do-brejo, cuja história evolutiva está diretamente ligada a esses ancestrais primitivos.
A ‘Amborella trichopoda’ é frequentemente chamada de “fóssil vivo” por ser o único membro sobrevivente da linhagem mais primitiva das angiospermas, plantas com flores
Scott Zona/Wikimedia Commons
4. Grandes Grupos de Angiospermas (Cretáceo Inferior)
Magnoliídeas: mais de 10 mil espécies atuais, como a magnólia (gênero Magnolia), a pimenta-do-reino (Piper nigrum), louro (Laurus nobilis), canela (gênero Cinnamomum), o abacate (Persea americana), fruta-do-conde (gênero Annona), noz-moscada (Myristica fragrans).
Monocotiledôneas: mais de 70 mil espécies, como gramíneas (milho, arroz, cana), palmeiras, orquídeas, bromélias, lírios, agaves, agapantos, amarilis, bananas, gengibre, etc.
Eudicotiledôneas ou dicotiledôneas verdadeiras: o grupo mais diversificado das angiospermas com 145 mil espécies, como as famílias Asteraceae (girassóis), Fabaceae (leguminosas como feijão e soja), Rubiaceae (café), Euphorbiaceae (mandioca), Cactaceae (cactos), e gêneros importantes como Vitis (uvas), Cucurbita (abóboras), Brassica (mostardas e brócolis), Solanum (tomates e batatas), Rosa (rosas), Gossypium (algodão), Malus (maçãs) e Citrus (limões e laranjas).
As margaridas de jardim que conhecemos hoje são modernas, porém, os seus ancestrais diretos surgiram no final do período Cretáceo
Pexels/Ave Calvar Martinez/Creative Commons
Leia mais
A grama na “Era dos Dinossauros”
Durante muito tempo, acreditou-se que os dinossauros nunca haviam visto ou comido grama, pois os fósseis indicavam que esse tipo de vegetação só surgira após a extinção em massa há 66 milhões de anos. Contudo, descobertas recentes mudaram essa visão. “As gramíneas já estavam presentes nas floras do Cretáceo. Há registro de herbivoria de gramíneas por dinossauros no início do Cretáceo em fósseis chineses. Mas vale ressaltar que essas plantas passaram a ter maior diversidade durante a era Cenozóica e a dominar os ambientes no Mioceno, há 23 a 5 milhões de anos”, destaca Luciana.
“Em 2005, foram encontradas na Índia fezes fósseis de dinossauros herbívoros de pescoço comprido com pedaços bem pequenos de grama, fragmentos misturados a restos de outros tipos de planta, sugerindo que o mesmo dinossauro comia vários tipos de planta. Depois, em 2017, foram descobertos mais fragmentos de grama entre os dentes de um fóssil de dinossauro herbívoro da China”, descreve Henrique.
Isso significa que a análise desses fósseis, datados entre 110 e 67 milhões de anos atrás, sugere que o ambiente anterior à extinção em massa já contava com alguns tipos de grama. Apesar do impacto da descoberta, tais evidências ainda são amplamente discutidas entre a comunidade científica.
O segredo da sobrevivência vegetal com a extinção dos dinossauros
No processo climático que levou os dinossauros à extinção, o aumento do gás carbônico atmosférico entre o fim do Cretáceo e o meados do Eoceno transformou profundamente a flora global. “Ao fim do Cretáceo, a dominância ainda é das gimnospermas e samambaias. As angiospermas eram plantas oportunistas e ocuparam muitos nichos porque suas plântulas cresciam muito mais rápido, favorecidas por altas concentrações de gás carbônico. Enquanto situações foram favoráveis para sua diversificação, outras plantas se extinguiram”, observa Luciana.
Para Henrique, a sobrevivência da flora após esse cataclismo deveu-se, em grande parte, à dormência das sementes, um mecanismo que permitiu às plantas aguardar por condições ideais para a germinação. “A semente protege o embrião e pode continuar fértil por séculos. Aparentemente as plantas com semente tiveram essa vantagem para atravessar a extinção em massa. Coincidentemente, as plantas com semente são as que mais dominam o ambiente após o evento de extinção”, argumenta o profissional.
A magnólia é uma planta ancestral que desenvolveu flores resistentes muito antes do surgimento das abelhas, contando com besouros como seus primeiros polinizadores
Flickr/Rick Obst/Creative Commons
Atualmente, essa hegemonia é evidente, uma vez que as angiospermas dominam 90% da flora global. “Para estas plantas, a extinção dos dinossauros com a consequente diversificação das aves e dominância dos mamíferos, foi muito favorável, pois estes animais também atuam na polinização, além dos insetos, e na dispersão de frutos e sementes. Evoluíram em conjunto, aproveitando o melhor dessas relações. Além disso, as condições de queda nas concentrações de oxigênio atmosférico e a adaptação contínua das plantas com flores à essa situação também as favoreceu”, finaliza a paleobotânica.



