O segredo dos queijos brasileiros que estão conquistando prêmios no exterior

De ponta a ponta, o Brasil vem produzindo queijos que se destacam pela técnica e pelo sabor. Com características tropicais e muita criatividade, há produtos com aroma de café ou finalizados com uma película de açaí. Para além do reconhecimento nacional — como as indicações geográficas, que vinculam o produto ao seu local de origem —, os queijos brasileiros têm atravessado oceanos e conquistado destaque em premiações internacionais.
“O Brasil vem construindo sua própria identidade queijeira, com produtos que expressam sabores, aromas e características da nossa terra, consolidando uma reputação própria”, analisa Bruno Mendes, cofundador da Vermont Queijos, em Pomerode, SC.
Segundo ele, fatores como a alimentação das vacas, o clima e o ambiente de maturação influenciam diretamente as características de cada produto e estão ligados ao território de origem.
Bruno Mendes criou a queijaria Vermont Queijos ao lado do irmão, Juliano, e o pai, Jarbas
Instagram/@vermontqueijos/Reprodução
Na análise de Edson Cardoso, fundador do Rancho das Vertentes, em Barbacena, MG, os brasileiros têm produzido cada vez mais queijos autorais em relação a reproduções de queijos europeus, como os do “tipo gorgonzola” ou “tipo grana padano”.
Com essa diferenciação, o Brasil conquistou 58 medalhas por queijos ou laticínios no Mondial du Fromage et des Produits Laitiers, em 2025, concurso realizado em Tours, na França.
No Rancho das Vertentes, o foco é a produção de queijos de cabra; na foto o premiado Camponês Carrara
Rancho das Vertentes/Divulgação
“São queijos com história, tradição e técnica totalmente nacional. São produtos que chegam aos concursos mundiais justamente por essa identidade. O Brasil é um país em constante reinvenção, e o produtor brasileiro tem uma capacidade criativa imensa”, opina Edson.
Foi com muita brasilidade que o queijo Camponês Carrara, do Rancho das Vertentes, levou uma medalha de ouro, em 2025, no Mondial du Fromage. “É um queijo de cabra com massa semidura, com beterraba e açaí na massa e na película, que mantém a umidade do produto”, explica o produtor.
Na premiação francesa, a Queijaria D’Lourdes, de Autazes, AM, conquistou a medalha de ouro com seu queijo coalho maturado no café. A criação une elementos nacionais ao aroma do grão, cultivado pela avó de Arleane Figueiredo, Dona Lourdes, que também inspirou a fundação da queijaria.
O queijo coalho maturado com café foi o primeiro produto maturado produzido pela Queijaria D’Lourdes
Instagram/@queijariadlourdes/Reprodução
Já a Vermont Queijos foi destaque na lista dos melhores queijos do mundo de 2026, realizada pela revista estadunidense Culture Magazine, com o Morro Azul. “É um queijo de massa bastante cremosa, com mofo branco na casca. É envolto por uma fina lâmina de carvalho, que cumpre duas funções importantes: dar estrutura ao queijo, que é naturalmente delicado, e transferir aromas e sabores durante a maturação”, explica Bruno. O resultado tem notas amanteigadas e de fungos, e até de cebola e alho, com o passar do tempo.
Cuidados na produção dos queijos
A chegada até o reconhecimento internacional precisa mais do que uma boa dose de autorialidade. Os produtores apontam a qualidade técnica e os ingredientes de excelência como caminhos essenciais para se destacar.
O Rancho das Vertentes, por exemplo, controla desde a alimentação das cabras até a chegada ao consumidor final. “A nossa qualidade começa na produção da matéria-prima, que é o leite de cabra. Fazemos o manejo da ordenha e cuidamos da qualidade da alimentação dos animais”, conta Edson.
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Enquanto isso, a técnica é representada pela presença de veterinários e zootecnistas no manejo dos bichos ou com cursos teóricos. Além disso, é importante seguir normas de higiene adequadas durante todo o processo de produção.
“É um processo que demanda tempo, paciência e conhecimento técnico, pois o queijo é um produto vivo, que evolui constantemente. Manter regularidade, respeitar o produto e entender seus limites são desafios diários”, diz Bruno.
A estrutura fabril é essencial para garantir regularidade e segurança na produção na Vermont Queijos
Instagram/@vermontqueijos/Reprodução
O aprimoramento constante é mais uma característica até o reconhecimento. Arleane conta que, após participar de premiações, recebe feedback sobre o que pode melhorar – o que foi seguido por sua queijaria para chegar ao prêmio francês. “Recebemos feedbacks sobre o ponto de sal e presença de furo mecânico – quando o queijo não fica 100% unido. Peguei todos os feedbacks que recebi em um mundial, em Minas Gerais, em 2024, para adaptar no ano seguinte”, detalha.
Desafios das competições
Com o queijo finalizado, os produtores se deparam com um desafio pirata: levar os produtos até outro país. Os queijos da D’Lourdes tiveram que sair do Amazonas para chegar a São Paulo e só então embarcar rumo à França. “Tivemos problema na transportadora, os queijos levaram 36 horas até chegar em São Paulo para depois ir até a França. É muito complicado a conservação do produto”, diz Arleane.
“Eu levei os queijos pessoalmente ano passado, em uma mala, cruzando aeroportos com o risco de apreensão na alfândega. Depois, ainda há a viagem de trem até a cidade do concurso, na região de Tours. O produto chega ‘sofrido’, após quase 24 horas de deslocamento, sem as condições ideais de refrigeração. Nos sentimos como um pirata”, acrescenta Edson. Para ele, o resultado soma qualidade e técnica com a sorte durante a viagem.
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Apesar da dificuldade de deslocamento até o local das competições, os produtores acreditam que vale o esforço. O reconhecimento serve como uma chancela e ajuda a aproximar as marcas do público final. Ainda, é um incentivo para imaginar novos queijos: “O prêmio revigora a nossa vontade de manter o negócio, de se reinventar e buscar novos desafios”, fala Edson.
Para a Arleane, o reconhecimento de sua queijaria incentiva outros produtores locais a se regularizar e buscar selos de inspeção — além de dar visibilidade aos produtos amazonenses. “Queremos destacar o nosso estado. Mostrar que não é só Minas que produz queijo. Em todo canto, pode-se produzir um queijo de qualidade. Basta ter boas práticas e ter amor pelo que está sendo feito.”

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