Cais das Artes: último projeto de Paulo Mendes da Rocha será aberto em janeiro

O Cais das Artes, localizado na Enseada do Suá, em Vitória, no Espírito Santo, foi o último projeto realizado pelo arquiteto modernista brasileiro Paulo Mendes da Rocha, criado em co-autoria com o escritório Metro Arquitetos. Trata-se de um complexo cultural com 30 mil m² de área construída. A estrutura do museu será entregue no final de janeiro em uma cerimônia pública.
O complexo abriga ainda um teatro com capacidade para 1,3 mil pessoas, além de biblioteca e áreas abertas. A programação do museu está prevista para começar em março. Já o teatro, embora sem data definida, deve ser inaugurado ainda este ano.
Segundo Gustavo Cedroni, arquiteto e sócio do Metro Arquitetos, o projeto está sendo concluído conforme a sua concepção original. “Nesta fase de retomada, fizemos atualizações tecnológicas, sobretudo no projeto de iluminação, agora todo baseado em LED, o que não estava disponível na época do projeto original”, conta.
O projeto do Cais das Artes começou a ser idealizado em 2007 e está previsto para ser inaugurado ao longo de 2026
Acervo Metro Arquitetos/Reprodução
Idealizado em 2007, o projeto teve suas obras iniciadas em 2011, mas enfrentou sucessivos adiamentos. Retomado em 2025, entrou na fase de abertura ao público, com a entrega gradual do complexo cultural prevista ao longo deste ano. “Os momentos de interrupções foram causadas por problemas entre construtoras e o governo do estado, promotor da obra”, explica Gustavo.
Elementos centrais do projeto
A região onde está implementado o Cais das Artes consiste em uma extensa esplanada aterrada em frente ao canal que circunscreve a ilha de Vitória. A proposta arquitetônica buscou estabelecer uma relação direta com o contexto urbano e a história do local.
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O projeto organiza-se a partir da concepção de uma ampla praça pública aberta ao uso cotidiano, de acesso livre, que conecta a cidade com o mar. “Para nós, que ouvimos tantas histórias sobre a relação do homem com o mar, sobre o sabor das frutas locais e a sombra das árvores, é uma enorme emoção ver esse projeto e essas memórias finalmente realizados”, diz Gustavo.
Visando criar a menor obstrução possível nesta praça pública, os edifícios foram elevados em relação ao nível do solo e estruturalmente pensados a partir de um número de apoios mínimo. O museu, com 150 metros de comprimento, conta com apenas seis pilares e é estruturado por duas grandes vigas paralelas em concreto armado protendido, elevadas a 3 metros do solo.
A parte interna do Cais das Artes se organiza a partir de uma estrutura de vigas e de concreto aparente
Leonardo Finotti/Divulgação
“Foram utilizadas estruturas adequadas aos grandes vãos decorrentes dessa premissa, mais assemelhada às soluções de projetos de infraestrutura, como pontes, que à construção corrente”, fala o arquiteto Martin Corullon, também sócio do escritório Metro Arquitetos.
Entre as vigas, organizam-se salões expositivos distribuídos em três níveis principais, com iluminação natural indireta garantida por caixilhos inclinados. Parte do programa concentra-se em uma torre anexa, conectada ao corpo principal por passarelas.
O teatro, por sua vez, é organizado a partir de duas galerias laterais que concentram circulações, áreas técnicas e camarins, enquanto o espaço central abriga plateia, balcões, palco e coxias. Também elevado, o edifício toca o chão apenas nas áreas técnicas sob o palco e no restaurante, que se abre para um passeio coberto junto ao mar, com pilares implantados diretamente na água.
O Cais das Artes mantém uma perspectiva aberta e elevada em relação ao nível do solo para garantir uma visualização livre da paisagem e do mar
Metro Arquitetos/Reprodução
“É uma solução que permite visuais livres e desimpedidos desde a praça para a paisagem circundante, incluindo o movimento das docas, vista para a Vila Velha e o Convento da Penha, localizado do outro lado do canal”, comenta Gustavo.
Tal concepção dialoga com a própria visão de mundo de Paulo Mendes da Rocha, que sempre defendeu que áreas com frente para o mar fossem espaços públicos e não privados. “O Cais das Artes materializa esse ideal e carrega uma forte dimensão afetiva, já que Vitória foi a cidade onde ele nasceu e viveu a sua infância”, conta Martin.
O capixaba de Vitória, Paulo Mendes da Rocha, faleceu em 2021 e deixou um importante legado na arquitetura e no urbanismo
arquivo.arq.br/Reprodução
Entre os principais aspectos que marcaram a experiência da realização desse projeto, os arquitetos destacam como mais significativa a possibilidade, apesar das dificuldades do processo, da realização de uma obra de grande porte, que dialoga na escala da cidade e do território, modificando a paisagem física e cultural da região, com um caráter amplamente público, em todos os sentidos.
“Do ponto de vista pessoal, o projeto conclui simbolicamente uma parceria de quase trinta anos com Paulo Mendes da Rocha e sintetiza uma visão de arquitetura e de mundo que foi formadora para mim”, complementa Martin.
Quem participa do projeto
O projeto do Cais das Artes é de autoria de Paulo Mendes da Rocha e coautoria de Gustavo Cedroni e Martin Corullon, do Metro Arquitetos. A arquiteta Anna Ferrari também integrou a equipe responsável pelo desenvolvimento do projeto.
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Desde sua fundação, o Metro Arquitetos manteve colaboração contínua com o arquiteto modernista brasileiro, vencedor do Pritzker Prize em 2006. Dessa parceria também surgiu o projeto da Galeria Leme, em São Paulo.
O Cais das Artes é um equipamento cultural da Secretaria da Cultura do Espírito Santo e tem sua gestão realizada pela Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

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