Oscar 2026: entenda a indicação dos cinco filmes na categoria de Melhor Direção de Arte

Com a divulgação dos filmes que concorrem ao Oscar 2026, nesta quinta-feira (22/1), o Brasil aparece entre os destaques com O Agente Secreto, indicado nas categorias Melhor Direção de Elenco, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Filme. Ambientado em Recife, PE, o longa se apoia em uma cenografia de caráter histórico e afetivo, que não apenas contextualiza a narrativa, mas ajuda a contá-la. Outros indicados também chamam atenção pelo uso do espaço como elemento dramático, capaz de construir atmosfera, sentido e emoção.
“O processo criativo da cenografia envolve pensar em como ‘vestir’ a cena: ocupar o espaço, escolher objetos, cores, texturas e construções que façam sentido dentro da narrativa”, analisa Luciana Andrzejewski, professora do curso de Cinema e Audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
‘O Agente Secreto’ chega com quatro indicações ao Oscar 2026; incluindo a categoria principal: Melhor Filme
Victor Jucá/Divulgação
No cinema, a arquitetura fornece repertório e verossimilhança para que a direção de arte possa ressignificar ambientes e transformá-los em dramaturgia. “É dessa relação que nasce a força estética do cinema”, pontua a professora.
Em 2026, os filmes indicados apresentam cenários que transitam do realismo à fantasia. “Seja pela reconstrução histórica minuciosa, como em Hamnet; pela criação de universos imaginários de forte impacto visual, como em Wicked: Parte 2 e Frankenstein; ou pelo uso mais simbólico e expressivo do espaço, como em Pecadores, a direção de arte se afirma como elemento estruturante da narrativa”, explica Luciana.
A seguir, conheça cinco filmes indicados ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Direção de Arte: que se destacam pela relação entre arquitetura, espaço e direção de arte.
Frankenstein
Em ‘Frankenstein’, Tamara Deverell pesquisou sobre mesas, materiais e instrumentos utilizados por cientistas e médicos em 1850
Netflix/Divulgação
Para Sérgio, Frankenstein, de Guillermo del Toro, adota uma linguagem gótica e fantasiosa que resulta em uma das direções de arte que chegam com mais força ao Oscar. A obra conta com a designer de produção Tamara Deverell e tem Shane Vieau como decorador de set.
Há forte presença de texturas e materiais como ferro, vidro e vapor. “A estética gótica-industrial aposta em uma beleza decadente e densa, evidenciada, por exemplo, na cenografia do laboratório – um verdadeiro manifesto visual do filme, com tubos, engrenagens, partes anatômicas e máquinas que lembram instrumentos musicais de uma ciência poética, de um período histórico, que faz menção ao cientificismo”, conta Luciana.
Para criar a cenografia que já recebeu o Critics’ Choice Awards em Design de Produção, Figurino e Caracterização, Tamara Deverell visitou museus para recriar a Edimburgo, na Escócia, de 1850. Além da apuração histórica, a profissional contou a Variety o cuidado sobre o uso de cores: “Edimburgo tem a cor do paralelepípedo molhado e de seus impressionantes prédios de pedra. Essa foi a nossa paleta de cores e, à medida que escolhíamos locações como a Gosford House, incorporamos os tons do mármore e os tons creme, que são belíssimos tons de época.”
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Casas de campo, comuns na vida rural inglesa em séculos passados, ajudam a filme inspirado em William Shakeaspere, que recebe indicações ao Oscar 2026
Universal/Divulgação
Recriando a vida de William Shakespeare, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, de Chloé Zhao, chega com oito indicações, entre elas, a de Design de Produção, que foi feita por Fiona Crombi. O filme retrata a Inglaterra do século 16 – e a arquitetura é um dos principais elementos para essa representação.
O longa fez uma reprodução do Globe Theatre, onde as peças de William Shakespeare eram apresentadas, em Londres. Apesar do original ainda existir e estar em funcionamento, a escolha por gravar em outra localidade veio pela fidelidade à arquitetura – que hoje foi restaurada e está diferente de como era na época retratada no filme.
“O Globe Theatre que vemos hoje é historicamente diferente do Globe que queríamos para o nosso filme. Na verdade, ele é o segundo Globe — o primeiro pegou fogo —, então tivemos liberdade criativa para criar um Globe que parecesse apropriado para a nossa história e que também se encaixasse na nossa estética”, descreve Fiona ao Deadline.
Em ‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet’, uma apresentação da peça ‘Hamlet’ é conduzida no Globe Theatre recriado pela produção
Universal/Divulgação
Além das reproduções arquitetônicas, os especialistas destacam as relações entre interior e exterior e o cuidado na escolha dos materiais. “Por se tratar de um filme de época, exige não apenas rigor histórico, mas também sensibilidade estética. Nesse tipo de produção, a direção de arte não busca apenas fidelidade documental, mas traduz estados emocionais por meio do espaço, algo que costuma ser muito bem recebido pela Academia”, diz Luciana.
Uma Batalha Após a Outra
‘Uma Batalha Após a Outra’ foca no uso de espaços reais; funcionalidade, materialidade e coerência espacial ajudam a narrar o contexto político da obra
WarnerBros/Divulgação
Em Uma Batalha Após a Outrao, dirigido por Paul Thomas Anderson, o design de produção de Florencia Martin organiza uma narrativa fragmentada a partir de espaços concretos e funcionais. O filme, ambientado nos Estados Unidos, também foi indicado à categoria de Melhor Design de Produção.
Florencia priorizou a construção prática dos cenários, muitos deles erguidos do zero em locações na Califórnia e em outros estados da região. Apartamentos, casas isoladas, túneis de fuga, um convento improvisado e o espaço subterrâneo de uma sociedade secreta foram desenvolvidos a partir de referências locais e depois complementados em estúdio.
Pecadores
Com indicações ao Oscar, ‘Pecadores’ é ambientado nos Estados Unidos, de 1932, período marcado por leis de segregação racial
WarnerBros/Divulgação
Com design de produção de Hannah Beachler, Pecadores, do diretor Ryan Coogler, integra os espaços urbanos de Clarksdale, no Mississippi, de 1932, à narrativa psicológica e social do filme.
Para recriar a cidade e a época, a terra foi espalhada pelas estradas ao redor da estação de trem e dos cenários da cidade. Para o juke joint, casa de música onde se passa a maior parte do filme, foram aplicadas camadas de tintas e ácido bórico para enferrujar as chapas de metal. A ambientação desse espaço levou cerca de oito semanas.
Os Juke Joints, retratados em ‘Pecadores’, eram estabelecimentos de música, dança e bebidas comandados pela comunidade afro-americana
WarnerBros/Divulgação
“A escolha de objetos, paletas cromáticas e a organização espacial ajudam a explicitar conflitos morais e psicológicos. É um tipo de direção de arte menos espetacular, mas extremamente precisa, e cada vez mais valorizada nas premiações recentes”, comenta Luciana.
O longa-metragem foi a obra com mais indicações ao Oscar 2026, totalizando 16.
Marty Supreme
Além da cenografia, ‘Marty Supreme’ vem se destacando pela atuação de Timothée Chalamet
A24/Divulgação
Em mais uma criação de época, o designer de produção é assinado por Jack Fisk. As locações são variadas, passando pelo Plaza Hotel de Nova York e até pela Embaixada da Indonésia.
Enquanto isso, o Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, onde Marty (interpretado por Timothée Chalamet) passa boa parte do tempo, não existia mais e precisou ser recriado. Jack Fisk se baseou em fotografias de época feitas pela prefeitura e até mesmo na planta do local.
“O filme é citado pelo design de produção preciso e autoral, que dialoga com ambientes carregados de significado e escolhas estéticas rigorosas, contribuindo para a construção narrativa de forma consistente”, pontua a professora.
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Apesar de não terem sido indicados à categoria de Melhor Direção de Arte, os filmes a seguir merecem destaque pela relação entre arquitetura, espaço e direção de arte:
O Agente Secreto
Ambientado em 1977, o filme ‘O Agente Secreto’ conta com elementos típicos da época, como o orelhão
Vitrine Filmes/Divulgação
No longa-metragem brasileiro, a arquitetura de Recife é como um personagem da trama. O filme passa por cenários conhecidos da capital pernambucana que ajudam a construir um contexto histórico. “Prédios, ruas e espaços institucionais surgem como estruturas rígidas, muitas vezes opressivas, que enquadram os corpos e limitam os movimentos. Isso fica muito evidente em cenários como a repartição pública, a sala de projeção do cinema e o labirinto da galeria onde ocorre a cena de perseguição. A cidade não aparece apenas como cenário, mas como agente dramático”, analisa Luciana.
Para ela, os ambientes são construídos nos detalhes. São utilizados telefones, mesas, arquivos e luminárias que faziam parte do cotidiano histórico. “A cenografia me parece evocar a ideia de ‘casa de vó e de tios’ e de história oral. Mesmo sendo um olhar estético muito particular sobre um microcosmo – a casa, o ambiente – ela não é neutra: sugere relações de poder, hierarquias e estados psicológicos, funcionando como uma extensão do comportamento dos personagens”, diz a professora.
Os interiores são criados com detalhes decorativos simbólicos para a narrativa em ‘O Agente Secreto’
Vitrine Filmes/Divulgação
Apesar de não ter sido indicado para a categoria de Melhor Design de Produção, os especialistas apontam a direção de arte, de Thales Junqueira, como potente.
“Com base em informações documentais e um apelo simbólico sutil, a direção de arte constrói um universo visual marcante, em que o uso expressivo das cores contribui para a sensação de tensão ao longo da narrativa”, complementa Sergio Ricardo Lessa Ortiz, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Belas Artes.
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Avatar: Fogo e Cinzas
‘Avatar: Fogo e Cinzas’ volta a chamar atenção por uma cenografia futurística e tecnológica
20th Century Studios/Divulgação
Em Avatar: Fogo e Cinzas, de James Cameron, são criadas paisagens e arquiteturas imaginárias para o universo de Pandora. O longa ficou de fora da indicação de Design de Produção, mas foi lembrado nas categorias Melhor Figurino e Melhor Efeitos Visuais.
Assinado pelo designer de produção Dylan Cole, o filme trata a ficção científica como um exercício de reconstrução histórica, com atenção aos elementos culturais e ambientais próprios do mundo criado. Cada novo território da cultura Na’vi busca equilibrar o estranhamento do fantástico com elementos reconhecíveis ao olhar humano.
Para desenvolver os cenários, Cole trabalhou a partir da ideia de rede e de ecossistema interligado, em que arquitetura, paisagem e modos de habitar se influenciam mutuamente. Estruturas orgânicas, inspiradas em manguezais, recifes e formações naturais, foram concebidas primeiro em modelos físicos e depois transpostas para o ambiente digital, mantendo uma lógica construtiva coerente.
“A teatralidade e o caráter fantástico dos cenários oferecem um terreno fértil para o design de produção, que flerta diretamente com o universo da arquitetura cenográfica e do espetáculo, embora também dialogue com soluções já conhecidas da franquia”, diz Luciana.
Sonhos de Trem
Indicado à categoria de Melhor Fotografia, o filme Sonhos de Trem é ambientado no noroeste dos Estados Unidos do início do século 20
Netflix/Divulgação
Outro brasileiro aparece entre os indicados ao Oscar. O filme Sonhos de Trem disputa a categoria Melhor Fotografia, dirigida pelo brasileiro Adolpho Veloso. Filmado com luz natural, o filme se passa em cenários do noroeste dos Estados Unidos do início do século 20. Com a necessidade de diferentes paisagens, a obra foi filmada principalmente em Spokane e Seattle, ambas em Washington; e em áreas próximas à fronteira do Canadá.
“Precisávamos de florestas antigas que parecessem intocadas, como seriam nos primeiros anos de Robert, e de muitos tipos diferentes de paisagens. Tivemos que cruzar o estado inteiro para encontrar tudo o que precisávamos. As florestas são tão bonitas que meu trabalho acabou ficando mais fácil”, explicou o brasileiro em entrevista ao Deadline.

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