Viajo porque preciso, volto porque gosto do conforto do meu lar

Dezembro passa como um conta-gotas esperando a chegada do merecido recesso. Afogados em demandas do ano todo, a geração que se acostumou a viver quase em burnout conta os dias para poder fechar o computador, fazer a mala e sair para dias de sossego, festa, cabeça vazia. Viajar com amigos e família, ir para a praia, para o interior, mesa cheia e celebrações. A energia de esgotamento parece dá lugar a outra, para ser gasta com lazer e diversão.
Viajar, sair da rotina também nos traz um novo olhar sobre as coisas. A tal bagagem cultural. Novos modos de organizar a casa, as nossas coisas, os nossos hábitos. Experiências como novas comidas, temperos, combinações, sabores. É o momento de comprar algo que te faça lembrar o tempo de descanso, para suavizar o dia a dia. É nas férias que muitas encontramos os objetos de decoração mais legais, de valor afetivo, para além de apenas um monte de cacarecos preenchendo espaços.
Além disso, é um momento de renovar votos. Eu gosto de fazer meus rituais, de tentar zerar as perspectivas, tomar aquele banho de mar que lava a alma metaforicamente, e quase reseta as intenções para um novo ciclo. Faço um balanço do ano que passou, os crescimentos, o que não funcionou, o que inflamos como um grande problema e, na realidade, era apenas estresse acumulado.
Parece não ter coisa melhor que a possibilidade de desconectar-se de questões de trabalho, mudar o cenário, ter novas experiências. Mas passado alguns bons dias, começa a bater uma sensação curiosa, e acho que isso chega a ser um senso comum. Uma saudade da minha casa, da minha cama, do ar-condicionado, do meu chuveiro, da bancada da cozinha com espaço pensado para preparar bem as refeições. Até da minha máquina de lavar ou do sol do meu pátio, capaz de secar uma roupa em duas horas. O supermercado que vou onde sei exatamente o lugar das coisas que gosto.
Considerado o maior do Brasil, o Centro de Artesanato do Recife exibe cerca de 25 mil peças feitas por artesãos locais. É uma ótima oportunidade de conhecer mais a arte local e levar peças autorais para decorar a casa
Centro do Artesanato de Pernambuco/Divulgação
E aí vem a volta para casa em janeiro. A cidade calma, as férias escolares, parece ser um segundo tempo nesse retorno ao cotidiano. De forma mais amena, experimental, como se tateando o início de ano que chega, sem tanta pressão, trânsito, correrias, demandas. A realidade é que as férias, além de descanso, servem também para valorizarmos o que a nossa rotina tem de bom.
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Curtindo a calmaria na cidade que o começo do ano traz, temos tempo para aproveitar a leva de bons filmes indicados às premiações, aproveitando para nos resfriar no ar-condicionado dos cinemas. Por aqui ando redescobrindo salas de rua, e pelo visto não estou sozinho. As sessões andam lindamente cheias, seja pela ótima programação, seja pela possibilidade de ir a um espaço público bacana. Muitas vezes o passeio se estende pelas áreas históricas da cidade, observando a arquitetura enquanto se desfruta de um chopp numa mesinha na calçada.
Voltar pra casa depois de um período de férias também traz um novo olhar que valoriza o conforto que construímos no nosso cotidiano. Na foto, projeto de dormitório de Daniel Bolson, com uma visual da copa das árvores junta da varanda do ambiente
Tita Leke/Divulgação
Estaria eu sendo otimista demais com apenas uma mudança numérica de ano? Talvez, mas é a opção que me resta, afinal. Num mundo que vem com cargas muito pesadas, onde todos estão, segundo as fotos compartilhadas, nos melhores lugares, fazendo as coisas mais incríveis, é necessário desmistificar esse ideal de felicidade. Valorizar coisas mais palpáveis, que vem junto dos pequenos prazeres do cotidiano. O privilégio de desfrutar da sua boa companhia, do ócio, do silêncio cada vez mais raro e valioso.
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Voltei para casa após duas semanas de bons momentos. Sai da rotina, tomei o café da manhã de hotel que minha mãe prepara. Viajei com meu melhor amigo, tomei um banho de mar em águas transparentes no meio de uma natureza linda. Cheguei em casa saudoso. De volta à rotina, ainda no clima de praia, resolvi preparar um peixe no almoço do dia seguinte. Me dei conta de que não tinha limão para finalizar o prato. Eis que lembrei que meu limoeiro tinha um par de limões que finalmente estavam crescidos após meses, embelezando meu pátio. Julguei o momento merecedor de usar um deles, finalmente. Me pareceu um sinal dessa conexão boa e saudosa de voltar para o meu lar e começar de novo, mais um ano, depois do descanso.

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