Qual a diferença entre art déco e art nouveau? Saiba distinguir os estilos

O art nouveau e o art déco são dois estilos que marcaram profundamente a arquitetura, o design e a arte. Ambos influenciaram a sociedade, definiram novas linguagens estéticas, estimularam hábitos e até ideologias. Você certamente já ouviu falar deles e viu exemplos em prédios, obras e móveis inspirados por esses movimentos. Mas será que consegue diferenciá-los?
O Farol Santander, no centro histórico de São Paulo, é um dos marcos do art déco na cidade. Inaugurado em 1947 como sede do Banco Banespa, o edifício combina linhas geométricas, verticalidade e imponência, características típicas do estilo
Pexels/Denilson Santos de Oliveira/Creative Commons
Embora ambos tenham surgido a partir de movimentos modernos, com poucos anos de diferença, eles são opostos estéticos e conceituais. O art nouveau foca em linhas orgânicas e curvas fluidas; enquanto o art déco celebra a geometria, as linhas retas e a simetria. Ou seja, um se inspira na natureza, sem um padrão definido; enquanto o outro segue um caminho mais rígido e industrial, com foco na proporção.
“O art nouveau era visto como algo artesanal e quase ‘místico’, já o art déco virou o símbolo do glamour de Hollywood e do progresso. Ele influenciou desde a moda da Coco Chanel até o design dos primeiros eletrodomésticos, fazendo com que as pessoas sentissem que o futuro finalmente tinha chegado”, afirma Carol Tomaselli, arquiteta, professora de história da arte e pesquisadora da Pinacoteca de São Paulo.
O Viaduto Santa Ifigênia, inaugurado em 1913 no centro de São Paulo, é um dos ícones do art nouveau na cidade. Sua estrutura metálica importada da Bélgica e os detalhes ornamentais nas grades e luminárias revelam a estética sinuosa do movimento
Srleite/Wikimedia Commons
“Enquanto o art nouveau valoriza o gesto artesanal e a fluidez orgânica, o art déco aposta na ordem, na abstração geométrica e na elegância racional. São estilos que revelam não apenas diferenças formais, mas mudanças profundas na forma como a sociedade se relaciona com a máquina, a cidade e o futuro”, explica Sergio Ricardo Lessa Ortiz, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes.
Compreender a diferença entre eles ajuda a perceber como cada estilo traduz o momento histórico da época de sua criação e a influência que eles tiveram na arquitetura, no design e nas artes visuais. Saiba mais a seguir.
Art noveau
Iniciado na Bélgica no final do século 19, entre os anos de 1890 e 1920, o art nouveau logo se espalhou por diversas cidades da Europa. Seu nome, de origem francesa, significa “nova arte” e descreve muito bem a intenção deste movimento artístico criado pela burguesia: revolucionar todas as esferas da cultura moderna, como a arquitetura, o cinema, a moda, o design e as artes de modo geral.
“O art nouveau surge buscando reconectar arquitetura, arte e artesanato. Suas formas orgânicas, linhas curvas e inspiração direta na natureza expressam uma tentativa de humanizar a cidade moderna”, coloca Sergio.
O uso do ferro na Casa Tassel, projetada por Victor Horta em Bruxelas (Bélgica) em 1894, é um marco do movimento art nouveau
Henry Townsend/Wikimedia Commons
A Era Vitoriana até então vigente e a segunda onda da Revolução Industrial criaram o cenário perfeito para o surgimento deste movimento de “nova arte” que rejeitava a ornamentação excessiva vitoriana e buscava dialogar com a industrialização, abraçando novas técnicas e materiais (como o uso de ferro e vidro) e focando no artesanato de alta qualidade e nas formas orgânicas da natureza — principalmente flores, folhagens, animais e curvas — para trazer beleza à vida cotidiana em resposta à produção em massa e à urbanização acelerada.
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O arquiteto e designer francês Hector Guimard (1867-1942) é um dos representantes mais importantes do art nouveau. Ele ficou mundialmente conhecido por ter criado as emblemáticas entradas do metrô parisiense que misturam vidro, ferro fundido, linhas sinuosas e formas orgânicas. Outro expoente do movimento é o arquiteto catalão Antoni Gaudí, autor de construções de formato orgânico, como o Parque Güell, a Casa Milá e a Catedral da Sagrada Família, em Barcelona, na Espanha.
A Casa Batlló, em Barcelona, é um dos ícones do art nouveau, com fachada ondulante, formas orgânicas e ornamentos inspirados na natureza, que traduzem a ousadia criativa de Antoni Gaudí
Wikimedia Commons
“O art nouveau surgiu como um manifesto poético contra a rigidez da Revolução Industrial, trazendo a fluidez da natureza por meio das famosas linhas onduladas e formas orgânicas. Inspirado em flores, folhagens e na silhueta feminina, transformou fachadas e interiores em verdadeiros jardins de ferro e vidro, como vemos nas obras de Gaudí e Victor Horta. Também podemos ver em algumas entradas do metrô de Paris, ou nos detalhes preciosos de casarões históricos sobreviventes no Rio de Janeiro e em São Paulo. É a arte do movimento e da feitura de artesãos detalhistas, onde cada curva buscava romper com a monotonia das máquinas e trazer a vida novamente”, elenca a arquiteta.
No Brasil, alguns exemplos são a Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro; o Teatro Amazonas, em Manaus; o viaduto da Santa Ifigênia, em São Paulo; e o edifício Vila Penteado, também na capital paulista, que hoje abriga as aulas de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Art déco
O art déco surgiu alguns anos depois, de 1925 a 1940, logo após o fim da primeira guerra, em um contexto de industrialização e avanço tecnológico. O movimento teve sua estreia na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas de Paris, com o nome Art Décoratifs (artes decorativas, em francês), mas logo o nome foi abreviado para art déco. A intenção era criar uma nova linguagem para servir de inspiração e esperança no pós-guerra, com um apelo luxuoso.
Marcado por uma mistura de estilos e diferentes ornamentações, o art déco adotava como referência o uso de formas geométricas, longas linhas em ângulos retos, a simetria e o alongamento das formas, buscando uma aparência moderna e objetiva. A geometria dos movimentos Cubismo e De Stijl, além das artes da Antiguidade Clássica, serviram de inspiração para o movimento que logo se espalhou pelo mundo todo no desenho de prédios, obras de arte e objetos do dia a dia.
O Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940 em São Paulo, é um dos grandes exemplos da arquitetura art déco no Brasil
Mike Peel/Wikimedia Commons
“O art déco assumiu a modernidade industrial como valor. Ele substituiu as curvas naturais do art nouveau por geometrias rigorosas, simetria e uma estética ligada ao progresso, à tecnologia e à vida urbana”, diz Sergio.
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Ainda segundo o arquiteto, o mundo após a Primeira Guerra Mundial mudou e queria velocidade, progresso e modernidade. “O art déco trocou o romantismo orgânico pela elegância geométrica, símbolo de modernidade e luxo, trazendo a simetria, os tons metalizados e materiais como o concreto armado e o aço, inspirando-se na velocidade dos transatlânticos e dos arranha-céus, como o Chrysler Building e o Rockefeller Center, em Nova York”, exemplifica.
O famoso Empire State Building, projetado pelos arquitetos William F. Lamb e Shreve, Lamb & Harmon Associates, é um marco histórico em estilo art déco em Nova York, Estados Unidos
Flickr/Ivo Jansch/Creative Commons
“No Brasil, essa estética de ‘poder’ e ordem deixou marcos fundamentais, desde a imponência do Cristo Redentor até o Estádio do Pacaembu, consolidando-se como uma linguagem visual que, até hoje, é sinônimo de sofisticação urbana e design atemporal”, diz Carol.
É possível encontrar diversos edifícios em todo o mundo que evocam o estilo luxuoso da art déco. Outros exemplos são, no Brasil, o Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro; o elevador Lacerda, em Salvador; e o edifício Altino Arantes (onde hoje funciona o Farol Santander), em São Paulo.

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