Livro reflete sobre o viver urbano e propõe novas formas de olhar as metrópoles

Do gesto de desmontar as vistas — como uma criança curiosa que abre um brinquedo ou mecanismo para descobrir seu interior, sem saber se conseguirá remontá-lo depois — nasceu o livro Práticas para destrinchar a cidade (2025), publicado pela editora Incompleta. A obra é de autoria de Letícia Lampert, artista visual e designer gráfica, natural de Porto Alegre e criada em São Leopoldo, ambas cidades gaúchas. Mestre em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela propõe uma investigação sensível sobre os modos de olhar e compreender o espaço urbano.
O movimento do livro ‘Práticas para destrinchar a cidade’ imita o lúdico, como o desvendar de uma criança diante de um brinquedo novo e da realidade que a cerca
Letícia Lampert/Reprodução
Com 72 páginas, a publicação apresenta capa dura em serigrafia, disponível em três variações de azul à escolha do leitor. Ao longo da obra, uma sequência de fotografias com recortes e sobreposições conduz a leitura por diferentes camadas visuais, criando a sensação de que a cidade se desmonta e se recompõe em múltiplas formas de percepção.
Caminhadas urbanas viraram um livro de arte sobre a cidade
A relação entre paisagem urbana, percepção e comportamento consolidou-se como eixo central da pesquisa da artista visual nos últimos anos, surgindo de maneira recorrente em seus diferentes trabalhos.
A ausência do horizonte e a cidade de São Paulo como uma espécie de labirinto foram dois dos aspectos que motivaram a ideia do destrinchar que norteia o livro de Letícia Lampert
Flickr/Paula Ferrari/Creative Commons
O projeto Práticas para destrinchar a cidade teve início em 2017, quando Letícia participava de uma residência artística nas imediações da Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, SP. “Sentia uma certa dificuldade de ver e de me orientar, especialmente na região central. Eu tinha uma sensação muito forte de labirinto”, ela conta.
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Diante disso, a artista começou a realizar uma série de fotografias da região, com vistas fechadas, sem trechos do céu, ou de horizonte. “Um dia, mexendo nas imagens no ateliê, pensei ‘eu preciso destrinchar esta cidade’, como quem quer entender algo. Resolvi levar o termo à raiz do seu significado, recortando as silhuetas dos prédios como se fossem peças de um quebra-cabeça”, relembra.
Os primeiros recortes surgiram no ateliê de Letícia Lampert, espaço onde a artista estruturou a essência da proposta e delineou o processo criativo que daria forma ao livro ‘Práticas para destrinchar a cidade’
YouTube/Letícia Lampert/Reprodução
Assim como em outras produções, o projeto do livro teve início com longas caminhadas, nas quais Letícia deixou o olhar ser conduzido pela deriva. “Gosto de sair pela cidade simplesmente para observar. Escolho pontos de interesse para definir rotas, mas gosto de ir desviando e me perdendo no caminho”, ela explica.
Dessa atenção aberta nasceram os enquadramentos que compõem a série: vistas frontais, prédios sobrepostos e a ausência deliberada de céu. Em dias nublados, a artista buscava achatar a imagem e suavizar sombras, enquanto janelas e pontos elevados se tornavam aliados para evitar a presença da calçada e perspectivas acentuadas, reforçando a sensação de cidade como camada e fragmento.
‘Práticas para destrinchar a cidade’ é o segundo livro da artista e designer, Letícia Lampert, editado pela Editora Incompleta
Editora Incompleta/Divulgação
Além das fotos do centro de São Paulo, foram incluídas imagens de Porto Alegre e de outras cidades. “Era uma busca por um tipo de visualidade, mais do que sobre um lugar em si”, resume Letícia.
Entre as referências que orientam seu olhar sobre a cidade, a gaúcha destaca nomes fundamentais: o artista estadunidense Gordon Matta-Clark (1943–1978), pela desconstrução da arquitetura, e o artista alemão Kurt Schwitters (1887–1948), pela construção a partir de fragmentos. Somam-se ainda os artistas, pintores e pensadores neoconcretos brasileiros Lygia Clark (1920–1988) e Hélio Oiticica (1937–1980), cujas experimentações sensoriais e espaciais inspiram Letícia a repensar a relação entre corpo, obra e ambiente urbano.
Os leitores tem a oportunidade de escolher, quando compram, o tom de azul da capa do livro ‘Práticas para destrinchar a cidade’
Letícia Lampert/Reprodução
A escritora estadunidense Jane Jacobs (1916–2006) inspirou reflexões sobre a cidade e a relevância do ato de caminhar como forma de compreendê-la. Já na fotografia, o casal alemão Bernd e Hilla Becher (1931–2007 e 1934–2015, respectivamente) inspirou pela abordagem sistemática e rigorosa, marcada por séries de imagens que exploram estruturas arquitetônicas e industriais, referência direta para esse modo de olhar e registrar o espaço urbano.
“Não sei dizer uma influência decisiva para o livro em si, mas acho que é uma mistura de tudo isto e muitos mais”, pontua a artista.
Os desafios de transformar fotografia e colagem em um projeto editorial
A escolha do livro como formato não foi apenas estética, mas conceitual. Entusiasta do universo editorial, Letícia vê a publicação como um meio democrático de circulação da arte. “Tento sempre pensar uma versão livro para meus projetos, tanto pelo desafio como designer gráfica, de traduzir conceitos e sensações para o universo do produto editorial, quanto pensando na fruição, permanência e acessibilidade do trabalho artístico”, afirma.
Para Letícia, o design e conteúdo nascem juntos e não foi diferente em Práticas para destrinchar a cidade. O projeto gráfico não ilustra a obra — ele é parte dela. “Dizer que a forma é conteúdo é um chavão do design, mas neste caso é isto mesmo, literalmente”, salienta.
O livro ‘Práticas para destrinchar a cidade’ intercala as fotografias com vazios recortados trazendo o conceito de ‘destrinchar’ de Letícia Lampert
Letícia Lampert/Reprodução
Os desafios para produzir o livro idealizado
No entanto, transformar recortes complexos em um objeto viável foi um desafio. O modo de fazer era conhecido. “A dificuldade era o como fazer, sem que o livro tivesse um custo tão alto que o inviabilizasse como produto editorial”, comenta Letícia. Os recortes propostos são feitos com instrumentos gráficos chamados de ‘facas’, com desenhos específicos e de alto custo.
O desafio de equilibrar o caráter visual e contemplativo do livro com sua dimensão comercial também esteve presente: ainda que a narrativa se mantenha aberta e experimental, era necessário garantir um apelo estético capaz de atrair o leitor.
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Paisagem urbana e percepção
Ao suprimir o horizonte, o livro traduz uma sensação recorrente nas grandes metrópoles: o bloqueio do olhar. Os vazios entre as páginas funcionam como pausas visuais, revelando o quanto estamos condicionados a paisagens saturadas. Folhear a obra torna-se, assim, um exercício de reconstrução mental do espaço urbano.
Essa investigação dialoga com uma crítica ao modo como vivemos a cidade hoje, marcada por deslocamentos fechados — do carro ao estacionamento — que, segundo Letícia, enfraquecem nossa relação com o espaço público. “Retomar o andar a pé pela cidade é fundamental para criar relação com o lugar em que estamos e deveria ser sempre estimulado”, diz.
A série Plano-paisagem – autoportantes, da artista visual e designer gráfica Letícia Lampert — também autora do livro ‘Práticas para destrinchar a cidade’ — reafirma sua investigação sobre os modos de olhar e reconstruir o espaço urbano
Letícia Lampert/Reprodução
Apesar de recém-lançado, o livro já tem provocado reações significativas no público. “O que mais gosto é quando as pessoas me dizem que passaram a olhar a cidade de outro jeito. É isto que espero que o livro siga despertando”, reflete Letícia.
Da fotografia à escultura
A investigação sobre camadas, cortes e estruturas não se encerrou no papel. Nos últimos anos, a gaúcha tem expandido a pesquisa para esculturas feitas em concreto, compensado e outros materiais, explorando a materialidade da imagem no espaço físico. As peças mantêm a lógica do recorte e da articulação, agora em escala tridimensional, como se as páginas ganhassem volume.
Se no livro a cidade é desmontada imagem por imagem, nas esculturas ela se torna objeto manipulável, dobrável, instável. Um desdobramento que reforça a essência da pesquisa, de desacelerar o olhar para perceber que, por trás da aparente rigidez urbana, ainda existem frestas para imaginação, surpresa e novos modos de observar.

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