Os cinemas mais bonitos do mundo

Entre os cinemas mais bonitos do mundo há exemplos de art déco monumental, modernismo aplicado à exibição cinematográfica, arquiteturas orientalistas concebidas como espetáculo e projetos contemporâneos de geometria radical.
Kino International (Berlim, Alemanha)
Kino International (Berlim, Alemanha)
picture alliance/Getty Images
Na Karl-Marx-Allee, eixo monumental da antiga Berlim Oriental, o Kino International ocupa, desde os anos 1960, uma posição-chave na vida cultural da cidade. Inaugurado em plena RDA (República Democrática Alemã), o cinema recebeu estreias oficiais e eventos políticos até a queda do Muro e, após sua reforma em 1990, passou a integrar o circuito da Berlinale como uma de suas sedes históricas. Sua localização — em uma avenida conhecida no passado como Stalinallee — o conecta diretamente ao projeto urbano e simbólico do socialismo alemão do pós-guerra.
O edifício, projetado pelos arquitetos Josef Kaiser e Heinz Aust, adota uma linguagem moderna, sóbria e representativa. Construído em concreto armado, sua fachada principal envidraçada está suspensa acima do nível da rua, com laterais revestidas em arenito e relevos escultóricos. Sem dúvida, uma referência da arquitetura berlinense do século XX.
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Le Grand Rex (Paris, França)
Le Grand Rex (Paris, França)
Jean-Didier RISLER/Getty Images
É difícil acreditar que, onde hoje jovens parisienses dançam música eletrônica sem parar, em 1932 — ano de inauguração do “maior cinema da Europa” — os convidados eram recebidos por 80 lanterninhas com uniforme de gala e luvas brancas. Embora essa atenção possa parecer algo clássico atualmente, na época o Le Grand Rex — tombado como Monumento Histórico — foi revolucionário, não apenas pelo enorme tamanho de sua sala, com capacidade para mais de 3 mil pessoas, mas também pela altura e pelo desenho de sua torre, na qual alguns enxergaram ecos do Radio City Music Hall, em Nova York.
Além do animado clube de techno, o espaço mantém sua programação cinematográfica e também recebe concertos e outros espetáculos.
Electric Cinema (Londres, Reino Unido)
Electric Cinema (Londres, Reino Unido)
Dave Benett/Getty Images
Assistir a Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) em Notting Hill é uma raridade possível apenas no Electric Cinema, um cinema art déco situado na Portobello Road que, entre as estreias do ano, inclui filmes clássicos que nunca nos cansamos de rever.
Você vai adorar saber que, quando reabriu as portas em 2002, o Soho House Group, proprietário do espaço, substituiu suas 240 poltronas por 98 cadeiras de couro — algumas com apoio para os pés — e dois enormes sofás de couro ao fundo da sala. Também instalou um bar que oferece desde cerveja e coquetéis até garrafas de vinho, além de permitir pedir pratos orientais do restaurante Bangkok’s Chinatown, próximo dali, que podem ser consumidos no próprio cinema antes ou depois da sessão.
Raj Mandir Cinema (Jaipur, Índia)
Raj Mandir Cinema (Jaipur, Índia)
NurPhoto/Getty Images
No centro de Jaipur, o Raj Mandir Cinema, inaugurado nos anos 1970, é um dos cinemas mais bonitos do mundo e uma parada obrigatória para quem deseja entender a relação da Índia com o cinema como experiência social e cultural. Idealizado por Shri Mehtab Chandra Golcha, o edifício nasceu com a ambição de colocar o espectador em um cenário próximo ao de um palácio.
Sua arquitetura, assinada por W. M. Namjoshi, segue um art moderne tardio, com linhas curvas e volumes escultóricos que lhe renderam o apelido de “Orgulho da Ásia”. A fachada, coroada por nove estrelas que fazem alusão às gemas tradicionais e à história joalheira de seus proprietários, antecipa um interior teatral: halls com pé-direito alto, luminárias monumentais, jogos de iluminação que mudam durante o filme e uma sala organizada em seções batizadas de Pérola, Rubi, Esmeralda e Diamante. Cada detalhe — das incrustações de vidro ao sistema de climatização perfumado — reforça a ideia original com a qual foi concebido: transformar o cinema em uma experiência palaciana.
Pathé Tuschinski (Amsterdã, Holanda)
Pathé Tuschinski (Amsterdã, Holanda)
Divulgação/Pathé Tuschinski
Foi uma sorte que Abraham Tuschinski, um imigrante polonês que, no início do século passado, seguia rumo aos Estados Unidos, tenha decidido finalmente se estabelecer em Roterdã, onde abriu vários cinemas. Essa reviravolta foi o que o levou, anos depois, em 1921, a inaugurar em Amsterdã o Pathé Tuschinski, uma das salas de cinema mais bonitas do mundo. “Grande como um templo e bela como um palácio”, descreveu o próprio proprietário.
Projetado pelo arquiteto Hijman Louis de Jong e decorado por diversos artistas ornamentais, como Willem Kromhout, Pieter den Besten e Jaap Gidding, o edifício funde três estilos modernos: Escola de Amsterdã, art déco e jugendstil. Uma mistura que permanece viva e ainda encanta os espectadores, já que sua função segue intacta.
Cinema Le Grand Palais (Cahors, França)
Cinema Le Grand Palais (Cahors, França)
Getty Images
Na cidade francesa de Cahors, o Cinema Le Grand Palais ocupa um local marcado pela sobreposição de usos e épocas: um antigo conjunto conventual transformado posteriormente em quartel militar, parcialmente destruído por um incêndio e, durante anos, utilizado como estacionamento.
O projeto contemporâneo, assinado pelo escritório Antonio Virga Architecte, organiza-se em dois volumes complementares. O primeiro, um bloco de tijolo claro, replica a escala, a altura e as coberturas dos edifícios do século XIX do entorno. O segundo é revestido em metal dourado perfurado e se inspira nas treliças do tipo mashrabiya.
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TCL Chinese Theatre (Los Angeles, EUA)
TCL Chinese Theatre (Los Angeles, EUA)
Divulgação/TCL Chinese Theatre
No coração da Hollywood Boulevard, o TCL Chinese Theatre foi inaugurado em 1927 pelo empresário Sid Grauman, que o concebeu como um palácio cinematográfico de inspiração oriental, em um momento em que Hollywood consolidava seu poder como fábrica de sonhos. Desde a abertura, tornou-se palco habitual de grandes estreias e cerimônias públicas — função que mantém de forma ininterrupta ao longo de quase um século, mesmo após as sucessivas modernizações técnicas realizadas no século XXI (sua sala IMAX é a única na Califórnia com projeção IMAX Laser).
Para além de sua fachada monumental, o teatro é conhecido pelo Forecourt of the Stars, o pátio frontal onde mais de 200 figuras do cinema deixaram as marcas de suas mãos e pés no cimento. Entre elas, os saltos de Marilyn Monroe, as botas de John Wayne e as pegadas de R2-D2.
Fox Theatre (Detroit, EUA)
Fox Theatre (Detroit, EUA)
Wikimedia Commons
No centro de Detroit, a poucos metros do Grand Circus Park, o Fox Theatre foi concebido como um grande palácio do cinema destinado a substituir o antigo Fox Washington Theatre, considerado insuficiente para a ambição da rede Fox Films no início do século passado.
Projetado pelo arquiteto C. Howard Crane e inaugurado em 1928, o edifício apostou em um exuberante estilo oriental, que inclui referências egípcias, do Extremo Oriente e da Índia. Com mais de 5 mil poltronas em sua abertura, um hall com seis andares de altura e dois órgãos — um Wurlitzer na sala principal e um Möller no lobby —, recebeu desde cinema mudo e vaudeville até estreias, concertos e espetáculos ao vivo. Após décadas de declínio, foi profundamente restaurado no fim dos anos 1980, recuperando seu esplendor. Hoje, tombado como Monumento Histórico Nacional, funciona como uma das grandes salas de concertos e eventos culturais da cidade.
Cine Doré (Madri, Espanha)
Cine Doré (Madri, Espanha)
Wikimedia Commons
Na rua Santa Isabel, entrelaçado ao tecido popular de Antón Martín, o Cine Doré se insere em uma das camadas mais antigas da história cinematográfica de Madri, quando as exibições se distribuíam entre salões, teatros e barracões — espaços efêmeros que antecipavam uma nova forma de lazer coletivo.
O Salón Doré abriu suas portas em 1912 e adotou sua configuração definitiva em 1923, quando o arquiteto Críspulo Moro Cabeza ergueu o atual edifício de inspiração modernista. Durante décadas, foi uma sala popular, primeiro associada a estreias e acompanhamentos musicais ao vivo; mais tarde, transformada em cinema de reprises e conhecida pelos vizinhos como o “Palácio das Pipas”. O declínio do bairro e o fechamento, em 1963, levaram-no ao abandono, até que sua recuperação nos anos 1980, conduzida por Javier Feduchi, o transformou na sede da Filmoteca Espanhola. Hoje, seu pátio interno com varanda, o lucernário e a atmosfera preservada de cinema antigo fazem dele um fragmento vivo da memória cultural da capital.
State Theatre (Sydney, Austrália)
State Theatre (Sydney, Austrália)
Wikimedia Commons
Na Market Street, no centro de Sydney, o State Theatre representa um dos grandes exemplos do picture palace: cinemas monumentais construídos nas primeiras décadas do século XX para transformar a projeção cinematográfica em uma experiência social e cenográfica em grande escala.
Inaugurado em 1929, o edifício foi projetado pelo arquiteto Henry White no auge desse modelo. Sua arquitetura combina gótico tardio e art déco, com uma decoração interna deliberadamente exuberante: colunas estilizadas, abóbadas ornamentadas, luminárias gigantescas e uma sala concebida como um espaço teatral, mais do que como um simples auditório.
O teatro acompanhou a cidade durante a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial e as décadas de transformação social, até que, nos anos 1970, tornou-se uma das sedes emblemáticas do Sydney Film Festival.
UFA-Palast (Dresden, Alemanha)
UFA-Palast (Dresden, Alemanha)
picture alliance/Getty Images
Em Dresden, no limite entre uma ampla área comercial e antigos bairros residenciais surgidos durante o período socialista, o UFA-Palast se insere como um espaço de transição urbana, mais precisamente junto à St. Petersburger Strasse, conhecida como a rua dos bondes.
O projeto contemporâneo, assinado pelo escritório vienense Coop Himmelb(l)au, organiza-se a partir de duas peças claramente contrastantes: um volume compacto e opaco, em concreto aparente, que abriga as oito salas, e um prisma envidraçado de geometria retorcida que emerge em direção à praça. Essa estrutura transparente — frequentemente comparada a uma macla mineral — é a imagem mais famosa do edifício.
The Egyptian Theatre (DeKalb, EUA)
The Egyptian Theatre (DeKalb, EUA)
Divulgação/DeKalb
Na cidade de DeKalb, no estado de Illinois, a estética do Egyptian Theatre responde a um fascínio muito específico: o auge do imaginário egípcio que tomou conta dos Estados Unidos após a descoberta da tumba de Tutancâmon, em 1922 — um fenômeno cultural que logo se refletiu na arquitetura de teatros e salas de cinema.
Com uma decoração inspirada em motivos faraônicos e uma grande tela pensada para uma comunidade relativamente pequena, o teatro abriu suas portas em dezembro de 1929, em meio à turbulência econômica após o crash da Bolsa. Nas décadas seguintes, atravessou os altos e baixos comuns a muitos grandes cinemas históricos: exibições, espetáculos ao vivo, visitas ilustres — como a de John F. Kennedy, em 1959 — e, mais tarde, um acentuado processo de deterioração que levou ao seu fechamento em 1977. A reação da comunidade foi decisiva. Em 1978, foi incluído no Registro Nacional de Lugares Históricos e, poucos anos depois, iniciou-se uma restauração que devolveu ao edifício sua função cultural.
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Hoje, o Egyptian Theatre é um dos raros cinemas de estilo egípcio que sobrevivem na América do Norte e o único situado a leste das Montanhas Rochosas.
*Matéria originalmente publicada na Condé Nast Traveller Espanha
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