De domingo a terça-feira, a Marquês de Sapucaí recebe as cores e as alegorias das escolas de samba do grupo especial do Carnaval carioca. As apresentações acontecem na avenida, que é sinônimo de samba desde 1984, ano da inauguração do projeto assinado por Oscar Niemeyer (1907–2012). Com foco na funcionalidade, o traçado linear e geométrico acolhe a diversão do carnaval.
Conheça mais sobre as decisões arquitetônicas que moldaram a Marquês de Sapucaí:
Do efêmero ao concreto
Monta e desmonta — assim era a preparação para os desfiles do Carnaval carioca até 1983. O endereço também não era fixo, as escolas de samba já desfilaram pela Praça Onze, pela Avenida Presidente Vargas e pela Avenida Rio Branco.
O Carnaval ganha endereço fixo na Marquês de Sapucai, região central do Rio de Janeiro, em 1983
Alexandre Macieira/Agência Brasil
A criação de um local destinado para os desfiles chegou no governo de Leonel Brizola e do vice-governador e secretário de educação Darcy Ribeiro – que dá nome ao Sambódromo: Passarela Professor Darcy Ribeiro.
Leia mais
A construção, localizada no centro do Rio de Janeiro, nas proximidades da Praça Onze, remonta ao local onde os desfiles eram realizados inicialmente. O projeto arquitetônico chegou pelas mãos do arquiteto Oscar Niemeyer.
“Não tinha como fugir de uma linha reta dado como os desfiles se desenrolam. A arquitetura precisa atender as necessidades de quem encomenda e foi isso que o Niemeyer fez”, analisa Luciana Nemer Diniz, professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Entre os itens solicitados pelo governo do Estado do Rio de Janeiro estavam 160 salas de aula, que ocupariam as arquibancadas fora do período do Carnaval; 43 salas administrativas; a Praça da Apoteose; o Museu do Carnaval; e a preservação do prédio fabril da Cervejaria Brahma, localizado nos fundos da rua Marquês de Sapucaí.
Marquês de Sapucai, um projeto de Oscar Niemeyer, em 1985, um ano após a inauguração
Dan Lundberg/Wikimedia Commons
Até mesmo a extensão da avenida dialoga com o tempo para o desfile de cada escola, que hoje é de 80 minutos. “A passarela ocupa uma área de quase 80 mil m². Sua extensão é de aproximadamente 730 metros lineares, sendo 650 m destinados ao desfile, que ocorre entre a avenida Presidente Vargas (concentração) e a Praça da Apoteose (dispersão)”, diz Guilherme Araujo de Figueiredo, professor da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF.
As obras iniciaram em setembro de 1983, com conclusão prevista para o Carnaval do ano seguinte. O projeto foi concebido em quatro meses e contou com 2,5 mil operários e seis construtoras. A estrutura contou com elementos em concreto pré-moldado, otimizando o tempo de construção.
As linhas de Niemeyer
O arquiteto executou o projeto com as soluções demandadas, mas não deixou de lado as características que marcaram o seu trabalho. “O Sambódromo, com seu desenho de linhas puras, sem ornamentação, foi projetado em concreto armado e representa a força simbólica do trabalho do arquiteto”, pontua Guilherme.
Assim como no Conjunto da Pampulha, em MG, e no Edifício Copan, em SP, Oscar Niemeyer utiliza as curvas para a criação do Arco da Apoteose
Instagram/@f_oscarniemeyer/Reprodução
O concreto armado, também presente em obras como o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada, é o material base para a construção da passarela.
As curvas aparecem nos pilares de apoio de cada módulo da arquibancada e no Arco da Apoteose. “Principalmente no Rio de Janeiro, ele tenta reproduzir a paisagem, como no arco que temos ao fundo da passarela do samba. Esse formato é uma forma de representar as curvas das montanhas da cidade”, diz Luciana.
“Os retângulos de ângulos boleados das fenestrações dos camarotes são semelhantes às janelas dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), do mesmo autor e contemporâneos à Passarela do Samba”, complementa o professor.
Leves curvas aparecem nas janelas dos camarotes da Passarela do Samba no Rio de Janeiro, RJ
Dan Lundberg/Wikimedia Commons
As arquibancadas foram pensadas para serem elevadas e simétricas, propiciando a visão e a interação entre o público e a escola de samba. Para quem assiste, é possível ver com clareza as alegorias que passam pelo setor em que está localizado e observar a imensidão do que já passou.
Mais do que uma linha linear que corrobora para a sequência das apresentações, o arquiteto planejava um nível maior de participação do público. “O projeto original do Oscar Niemeyer previa que o espaço sob aos módulos de arquibancada seriam ocupados livremente pelo público. Isso não se cumpriu. Toda a ocupação, em qualquer espaço do Sambódromo, é passível de cobrança de ingressos”, revela Guilherme.
Para quem se apresenta, a visão é outra. “Quando você entra na passarela, você já consegue visualizar o Arco da Apoteose, localizado no outro extremo, o que é uma visão incentivadora. Alcançar aquele ponto é sinônimo de comemoração, significa que a escola cumpriu o desfile”, analisa Luciana, que também é bailarina e já desfilou na Marquês de Sapucaí.
A arquitetura voltada para a função do espaço dá destaque às alegorias das escolas de samba
Tomaz Silva/Agência Brasil
Na época da inauguração, a simetria perfeita idealizada pelo arquiteto não foi finalizada – já que a conservação da Cervejaria Brahma, impediu a adição de alguns módulos de arquibancada.
Mas uma reforma iniciada em 2010 permitiu que o desejo de Oscar Niemeyer se concretizasse. A ideia era aumentar a capacidade de público e adicionar apoio logístico – tendo em vista a utilização do local para as provas de tiro com arco e maratona, nas Olimpíadas de 2016.
Foto da Marquês de Sapucaí em 2017, onde é possível verificar a simetria em ambos os lados da estrutura
Diego Baravelli/Wikimedia Commons
“A antiga fábrica da Brahma foi demolida. No local, foram construídos mais quatro módulos de arquibancadas. Além disso, foram acrescentados novos módulos de camarotes, banheiros públicos, postos médicos, salas de segurança, áreas de apoio e serviço e espaços específicos para os jurados das escolas de samba”, detalha Guilherme.
Com a conclusão para o Carnaval de 2012, a capacidade da passarela passou de 60 para 78 mil espectadores. O projeto finalizado chegou a ser visitado pelo arquiteto.
Um texto do próprio Niemeyer apareceu em um painel da artista plástica Chica Granchia na reinauguração da Passarela do Samba: “ver afinal concluído, em sua integralidade, o meu projeto do Sambódromo do Rio”.
Leia também
Mais do que samba
Desde 2021, a Passarela do Samba é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O local é mais uma das obras que um dos principais arquitetos brasileiros deixou para a população. “O Sambódromo e seu arco de concreto são elementos cuja presença na paisagem urbana simbolizam a força e a cultura do samba, como fundamentais para a constituição da identidade do que conhecemos por ser carioca e brasileiro”, diz Guilherme.
Assim como a Marquês de Sapucaí, o Sambódromo do Anhembi é um projeto de Oscar Niemeyer pensado para os desfiles do Carnaval
Beraldo Leal/Wikimedia Commons
O professor ainda acredita que o projeto se estabeleceu como referência e modelo de programa arquitetônico, reproduzido em diversas cidades do país. O Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, SP, por exemplo, também é de autoria de Oscar Niemeyer. O espaço foi inaugurado em 1991, também em concreto e simétrico.
A obra ainda representa a importância da funcionalidade e da multifuncionalidade. As arquibancadas foram projetadas para abrigar creches em seu interior durante o restante do ano. “É uma estrutura com escola, possibilidade de shows e eventos esportivos, como as Olimpíadas”, avalia a professora.
Durante as Olimpíadas de 2016, o Sambódromo do Rio foi adaptado para receber provas esportivas, como a maratona e o tiro com arco
Jorge mello ej/Wikimedia Commons
Conheça mais sobre as decisões arquitetônicas que moldaram a Marquês de Sapucaí:
Do efêmero ao concreto
Monta e desmonta — assim era a preparação para os desfiles do Carnaval carioca até 1983. O endereço também não era fixo, as escolas de samba já desfilaram pela Praça Onze, pela Avenida Presidente Vargas e pela Avenida Rio Branco.
O Carnaval ganha endereço fixo na Marquês de Sapucai, região central do Rio de Janeiro, em 1983
Alexandre Macieira/Agência Brasil
A criação de um local destinado para os desfiles chegou no governo de Leonel Brizola e do vice-governador e secretário de educação Darcy Ribeiro – que dá nome ao Sambódromo: Passarela Professor Darcy Ribeiro.
Leia mais
A construção, localizada no centro do Rio de Janeiro, nas proximidades da Praça Onze, remonta ao local onde os desfiles eram realizados inicialmente. O projeto arquitetônico chegou pelas mãos do arquiteto Oscar Niemeyer.
“Não tinha como fugir de uma linha reta dado como os desfiles se desenrolam. A arquitetura precisa atender as necessidades de quem encomenda e foi isso que o Niemeyer fez”, analisa Luciana Nemer Diniz, professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Entre os itens solicitados pelo governo do Estado do Rio de Janeiro estavam 160 salas de aula, que ocupariam as arquibancadas fora do período do Carnaval; 43 salas administrativas; a Praça da Apoteose; o Museu do Carnaval; e a preservação do prédio fabril da Cervejaria Brahma, localizado nos fundos da rua Marquês de Sapucaí.
Marquês de Sapucai, um projeto de Oscar Niemeyer, em 1985, um ano após a inauguração
Dan Lundberg/Wikimedia Commons
Até mesmo a extensão da avenida dialoga com o tempo para o desfile de cada escola, que hoje é de 80 minutos. “A passarela ocupa uma área de quase 80 mil m². Sua extensão é de aproximadamente 730 metros lineares, sendo 650 m destinados ao desfile, que ocorre entre a avenida Presidente Vargas (concentração) e a Praça da Apoteose (dispersão)”, diz Guilherme Araujo de Figueiredo, professor da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF.
As obras iniciaram em setembro de 1983, com conclusão prevista para o Carnaval do ano seguinte. O projeto foi concebido em quatro meses e contou com 2,5 mil operários e seis construtoras. A estrutura contou com elementos em concreto pré-moldado, otimizando o tempo de construção.
As linhas de Niemeyer
O arquiteto executou o projeto com as soluções demandadas, mas não deixou de lado as características que marcaram o seu trabalho. “O Sambódromo, com seu desenho de linhas puras, sem ornamentação, foi projetado em concreto armado e representa a força simbólica do trabalho do arquiteto”, pontua Guilherme.
Assim como no Conjunto da Pampulha, em MG, e no Edifício Copan, em SP, Oscar Niemeyer utiliza as curvas para a criação do Arco da Apoteose
Instagram/@f_oscarniemeyer/Reprodução
O concreto armado, também presente em obras como o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada, é o material base para a construção da passarela.
As curvas aparecem nos pilares de apoio de cada módulo da arquibancada e no Arco da Apoteose. “Principalmente no Rio de Janeiro, ele tenta reproduzir a paisagem, como no arco que temos ao fundo da passarela do samba. Esse formato é uma forma de representar as curvas das montanhas da cidade”, diz Luciana.
“Os retângulos de ângulos boleados das fenestrações dos camarotes são semelhantes às janelas dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), do mesmo autor e contemporâneos à Passarela do Samba”, complementa o professor.
Leves curvas aparecem nas janelas dos camarotes da Passarela do Samba no Rio de Janeiro, RJ
Dan Lundberg/Wikimedia Commons
As arquibancadas foram pensadas para serem elevadas e simétricas, propiciando a visão e a interação entre o público e a escola de samba. Para quem assiste, é possível ver com clareza as alegorias que passam pelo setor em que está localizado e observar a imensidão do que já passou.
Mais do que uma linha linear que corrobora para a sequência das apresentações, o arquiteto planejava um nível maior de participação do público. “O projeto original do Oscar Niemeyer previa que o espaço sob aos módulos de arquibancada seriam ocupados livremente pelo público. Isso não se cumpriu. Toda a ocupação, em qualquer espaço do Sambódromo, é passível de cobrança de ingressos”, revela Guilherme.
Para quem se apresenta, a visão é outra. “Quando você entra na passarela, você já consegue visualizar o Arco da Apoteose, localizado no outro extremo, o que é uma visão incentivadora. Alcançar aquele ponto é sinônimo de comemoração, significa que a escola cumpriu o desfile”, analisa Luciana, que também é bailarina e já desfilou na Marquês de Sapucaí.
A arquitetura voltada para a função do espaço dá destaque às alegorias das escolas de samba
Tomaz Silva/Agência Brasil
Na época da inauguração, a simetria perfeita idealizada pelo arquiteto não foi finalizada – já que a conservação da Cervejaria Brahma, impediu a adição de alguns módulos de arquibancada.
Mas uma reforma iniciada em 2010 permitiu que o desejo de Oscar Niemeyer se concretizasse. A ideia era aumentar a capacidade de público e adicionar apoio logístico – tendo em vista a utilização do local para as provas de tiro com arco e maratona, nas Olimpíadas de 2016.
Foto da Marquês de Sapucaí em 2017, onde é possível verificar a simetria em ambos os lados da estrutura
Diego Baravelli/Wikimedia Commons
“A antiga fábrica da Brahma foi demolida. No local, foram construídos mais quatro módulos de arquibancadas. Além disso, foram acrescentados novos módulos de camarotes, banheiros públicos, postos médicos, salas de segurança, áreas de apoio e serviço e espaços específicos para os jurados das escolas de samba”, detalha Guilherme.
Com a conclusão para o Carnaval de 2012, a capacidade da passarela passou de 60 para 78 mil espectadores. O projeto finalizado chegou a ser visitado pelo arquiteto.
Um texto do próprio Niemeyer apareceu em um painel da artista plástica Chica Granchia na reinauguração da Passarela do Samba: “ver afinal concluído, em sua integralidade, o meu projeto do Sambódromo do Rio”.
Leia também
Mais do que samba
Desde 2021, a Passarela do Samba é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O local é mais uma das obras que um dos principais arquitetos brasileiros deixou para a população. “O Sambódromo e seu arco de concreto são elementos cuja presença na paisagem urbana simbolizam a força e a cultura do samba, como fundamentais para a constituição da identidade do que conhecemos por ser carioca e brasileiro”, diz Guilherme.
Assim como a Marquês de Sapucaí, o Sambódromo do Anhembi é um projeto de Oscar Niemeyer pensado para os desfiles do Carnaval
Beraldo Leal/Wikimedia Commons
O professor ainda acredita que o projeto se estabeleceu como referência e modelo de programa arquitetônico, reproduzido em diversas cidades do país. O Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, SP, por exemplo, também é de autoria de Oscar Niemeyer. O espaço foi inaugurado em 1991, também em concreto e simétrico.
A obra ainda representa a importância da funcionalidade e da multifuncionalidade. As arquibancadas foram projetadas para abrigar creches em seu interior durante o restante do ano. “É uma estrutura com escola, possibilidade de shows e eventos esportivos, como as Olimpíadas”, avalia a professora.
Durante as Olimpíadas de 2016, o Sambódromo do Rio foi adaptado para receber provas esportivas, como a maratona e o tiro com arco
Jorge mello ej/Wikimedia Commons



