Por trás da cenografia de ‘O Agente Secreto’

Indicado a quatro categorias do Oscar 2026, o filme brasileiro O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, tem atraído holofotes e espectadores no Brasil e no mundo. Com a narrativa situada, em sua maior parte, na cidade de Recife durante os anos 1970, o longa-metragem dedica seu olhar não apenas às ruas, às grandes construções e à estrutura urbana do período, mas também aos espaços internos que constroem e complexificam a trama.
O filme conta a história de Marcelo (Wagner Moura), um pesquisador e ex-professor universitário, que em 1977 precisa sair de São Paulo e ir para a capital pernambucana iniciar uma nova etapa. A construção visual do filme, a partir da direção de arte, é fundamental para conferir a atmosfera de suspense e thriller, que acompanha o espectador durante o longa.
“Todo filme em que o trabalho da direção de arte e a produção de objetos são bem feitos, a forma que se constroem os espaços permite que a fantasia já se concretize na hora da filmagem. Montar um cenário em seus mínimos detalhes, como se fosse realmente um espaço habitado, oferece mais possibilidade de entrega aos atores, diretores e diretores de fotografia”, afirma Mariana Kinker, decoradora de cena e produtora de objetos do longa.
Os ambientes de ‘O agente secreto’ são um aspecto importante da narrativa do filme a medida que dialogam com a história dos personagens e complefixicam a imagem de Recife em 1977
Thales Junqueira/Reprodução
O filme mostra que o espaço íntimo é continuidade da cidade. “Casas, apartamentos e salas não existem isolados. Eles refletem o clima, a cultura, a economia, a história e até os conflitos do lugar onde estão inseridos”, complementa Beatriz Rufino, designer de interiores, fundadora do escritório RUBE Interiores e sobrinha da atriz Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana no longa.
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Pesquisa, referências e a construção da concepção visual
A criação dos ambientes partiu de um processo contínuo de pesquisa visual e histórica. “Quando entramos no projeto, a direção de arte apresentou para a equipe uma seleção de imagens para cada cenário do filme com referências de objetos, acabamentos, o mood geral que gostariam”, conta Mariana. A direção de arte e o designer de produção do longa ficaram a cargo de Thales Junqueira, que já havia trabalhado com Kleber em outras produções.
As imagens que serviam de referência vinham de arquivos pessoais e públicos, registros do Recife dos anos 1970, fotos de espaços reais e referências de outros filmes, inclusive, de Retratos Fantasmas (2023), documentário anterior de Kleber Mendonça Filho. Em alguns casos, a equipe teve acesso a imagens dos próprios locais décadas atrás, o que permitiu recriações extremamente precisas, como no Cinema São Luiz.
A visita em locações como a do Cinema São Luiz foi essencial para a concepção dos cenários criados para o filme ‘O agente secreto’ e na imagem de Recife que buscava se estabelecer com o longa
Direitos Urbanos/Wikimedia Commons
Além das imagens de referência, a direção de arte também trazia algumas peças-chave para cada ambiente, como um móvel, um quadro ou uma luminária, por exemplo. “Isso nos ajuda a montar a proposta para o ambiente completo, seu mobiliário e sua decoração”, indica Mariana.
Mas a pesquisa não era estática. Ao longo dos meses, novos objetos encontrados por diferentes membros da equipe em campo ajudavam a redefinir e conceber os cenários. “Algumas vezes esses objetos que aparecem para nós no mundo ajudam a criar ou guiar parte do caminho construtivo”, explica Mariana.
A etapa de pesquisa foi fundamental para a forma como os interiores foram concebidos em ‘O agente secreto’
Thales Junqueira/Reprodução
Um sofá ou uma vitrola, por exemplo, foram fundamentais para entender como seria concebida a casa de Dona Sebastiana. “Nada está ali por acaso, tudo carrega informação”, comenta Beatriz. Para ela, o filme demonstra que a arquitetura e os interiores não são apenas contexto visual, mas partes ativas da narrativa.
A construção do Recife de 1977 nos interiores e seus desafios
A proposta do O agente secreto foi criar cenários e ambientes que trouxessem a dimensão vivida para o espaço e garantissem um diálogo com a história de cada um dos personagens inseridos no tempo da narrativa.
“Ver a casa de uma pessoa sempre conta algo mais sobre ela ou seu momento, descobrimos seus interesses, as coisas que julga importante, suas lembranças. Também recebemos algum dado da situação que está vivendo”, diz Mariana.
Os interiores, por exemplo, do Instituto onde Marcelo (Wagner Moura) trabalha em Recife foi concebido de modo a colaborar com o clima de suspense da trama e reconfigurar o Ginásio Pernambucano, locação utilizada no filme
Victor Jucá/Divulgação
Um caso dentro do longa exemplar, nesse sentido, é Geisa, sobrinha de Dona Sebastiana na trama. “A figura dela conta muito do que é o trabalho da decoração de cena: montar o imóvel de uma personagem que só conhecemos pela casa, pelos objetos e pela decoração. Os móveis, como as coisas se misturam em sua própria organização, quadros, livros, discos, artesanatos e fotos de família”, pontua a decoradora de cena.
No filme, Sebastiana conta que a sobrinha “viajou”, mas a narrativa depois indica que, na verdade, Geisa foi morta ou está desaparecida em função da atuação das forças militares.
No cenário da casa de Cláudia, vizinha de Marcelo, interpretada pela atriz Hermila Guedes, a ideia foi traduzir esse lugar de passagem, importante para a compreensão da história da personagem. Nesse caso, a opção foi por um ambiente mais vazio, com a incorporação de alguns desenhos da sua filha na trama.
As fotos, o pequeno altar e os objetos afetivos e irreverentes ajudam a construir a atmosfera da casa de Dona Sebastiana e a construção da sua personagem
Thales Junqueira/Reprodução
De outro lado, está a casa de Dona Sebastiana, administradora de um conjunto de apartamentos no Edifício Ofir para abrigar opositores da ditadura, como Marcelo. O imóvel carrega toda sua história. Há um altar de lembranças, móveis mais pesados e antigos do que nos outros cenários, mas com um ar irreverente na decoração e nas estampas.
Os objetos e também outros elementos como os revestimentos trazem não só o reforço da história e da afetividade dos personagens e suas relações com a narrativa, como também da regionalidade e dos aspectos culturais da época. Isso fica claro na escolha dos quadros de Bajado e Wellington Virgolino, nas cadeiras pernambucanas da mesa de jantar de Dona Sebastiana ou na cristaleira da casa de Alexandre.
“O piso de taco de madeira, os revestimentos hidráulicos, os produtos locais nos armários, as toalhas bordadas sobre a mesa e as plantas adaptadas ao clima são outros exemplos. Tudo isso constrói um jeito de morar que é profundamente recifense e nordestino”, comenta Beatriz.
A casa de Alexandre, sogro de Marcelo no filme, traz elementos como o piso de ladrilho hidráulico para compor a paleta de cores e dialogar com as casas do período
Thales Junqueira/Reprodução
Outros tinham como objetivo trazer produtos da época, como a mesa de jantar redonda da casa de Geisa. Essa peça foi construída a partir de um modelo que era vendido na Mesbla, uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil, ícone de consumo entre os anos 1960 e 1980.
Os desafios na criação dos cenários
A criação dos cenários para O agente secreto envolveu alguns desafios. Um deles foi elaborar, da forma mais rápida, um levantamento de móveis e objetos dentro e fora de Recife, inclusive, abrindo contato em órgãos públicos como as universidades federais. “A rapidez era essencial principalmente porque boa parte dos objetos tinha de ser transportado de outra cidade ou estado, construído do zero ou reformado para ser usado”, conta Mariana.
A produção envolveu aluguel em acervos de São Paulo e Rio de Janeiro, uso de móveis e objetos de pessoas e instituições parceiras no Recife, além da produção de móveis e cenários do zero.
O posto, que aparece logo no início do filme ‘O agente secreto’, foi construído do zero para o longa-metragem
Thales Junqueira/Reprodução
“Os eletrônicos também são um desafio a parte, principalmente se queremos que eles funcionem – o que sempre é mais interessante, mas também instável, já que muitas vezes eles são temperamentais”, afirma a decoradora.
Outro aspecto desafiador é articular a produção e o orçamento. “Temos que tomar decisões que não são exatamente as que mais amamos, mas que ainda funcionam e são as que cabem no orçamento do filme, com um controle atento durante todo processo”, ressalta Mariana.
Quando não era possível encontrar objetos já prontos para os cenários, a produção era feita do zero. Um dos casos foi a necessidade da elaboração de um projetores do Cinema São Luiz. Na foto, cena em que Marcelo fala sobre a sua vida em São Paulo na sala superior do Cinema
Cinemascopio/Divulgação
O espaço como personagem em O agente secreto
Para além de um mero território onde o filme é situado, Recife assume um papel central no desenvolvimento do longa-metragem. “O conjunto dos cenários nesse filme cria uma grande colcha de retalhos espacial que é um personagem, o Recife dos anos 70”, ressalta Mariana.
O Cinema São Luiz fica localizado no centro de Recife e foi uma locação importante para constituir a concepção visual da trama do filme ‘O agente secreto’, indicado ao Oscar 2026
Hilary Shirley Carneiro dos Santos/Wikimedia Commons
Ainda que majoritariamente situada no passado, a narrativa também ajuda a entender o tempo presente. A partir dos cenários e das locações escolhidas, o filme propõe uma reflexão sobre a memória em uma cidade, que hoje enfrenta questões sociais e urbanas como a especulação imobiliária e a manutenção de construções e patrimônios históricos e culturais.
“Quando o filme vai para o Cinema São Luiz, por exemplo, isso fica ainda mais forte, com o interior monumental. Os vitrais, as colunas, as poltronas de veludo falam de memória coletiva. A forma como as pessoas se sentam, olham, esperam, também constrói cidade: Recife aparece ali como experiência vivida, não como paisagem”, analisa Beatriz.
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Para Mariana, a experiência de participar do longa foi uma forma de conhecer e viver Recife de maneira interessante e intensa. “Foi um mergulho bonito nessa época, na cidade e na memória. Pude ver também a importância que Kleber tem no Recife, como tanta gente tem carinho por ele contar e lutar pela memória da cidade”, conta a decoradora de cena.
Na visão de Beatriz, o longa-metragem foi uma oportunidade para reconhecer suas habilidades e os aspectos de sua atuação como designer de interiores, além de fortalecer a criação de vínculos. “Quando o espaço respeita o contexto e a história, ele emociona, aproxima e cria pertencimento. Foi exatamente isso que o filme conseguiu fazer comigo”, reflete a designer.

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