Ocupando apenas 12,5% da área original, a Mata Atlântica é o bioma em que 70% da população brasileira reside atualmente. Apesar disso, o contato com a biodiversidade e a natureza nesse território ainda é rara, e as espécies nativas e naturalizadas dessa região seguem sendo pouco conhecidas pela maioria da população.
A proposta de elaboração do Guia de Plantas Medicinais nativas e naturalizadas na Mata Atlântica (2025), de Jorge Ferreira e Caio Antunes pela Editora Umûana, surgiu como uma forma de propor essa reaproximação.
O guia reúne 50 cartas, que trazem o nome científico, o nome popular e a ilustração botânica de espécies nativas e naturalizadas — que ocorrem nesse território — no bioma brasileiro. No verso de cada carta, há informações sobre porte, propagação e dados etnobotânicos indicando as partes utilizadas, os usos tradicionais e as curiosidades de cada planta.
O material ainda acompanha uma ficha técnica com mais informações sobre as ilustrações de domínio público, uma ficha com as formas mais comuns de uso das plantas medicinais, a infusão e a decocção, além de orientações de como se guiar na leitura das cartas. Cada espécie é acompanhada de alguns ícones, que indicam os principais benefícios da utilização de cada planta.
Além das informações mais técnicas de cada espécie, as cartas trazem os benefícios a saúde, curiosidades e uma mini descrição com a história da planta e seus usos mais comuns
Jorge Forager/Divulgação
Um projeto que germinou da prática
Jorge, natural de Cabo Frio, RJ, e criado em Paraty, RJ, nasceu em um sítio agroecológico e desde pequeno esteve em contato com a natureza. Atualmente, é botânico, pesquisador de biodiversidade e atua oferecendo expedições e trilhas sensoriais na região.
Leia mais
Caio, por sua vez, é publicitário, natural de São Paulo e mudou para o litoral fluminense durante a pandemia, onde fundou um estúdio criativo. “Minha família sempre passava férias aqui. Brinco que eu morava quatro meses aqui e o resto na cidade, o que me fez ter uma conexão, desde muito cedo, com a natureza”, conta.
Jorge Forager trabalha como educador e botânico em cursos e retiros em espaços naturais falando sobre diferentes tipos de plantas, dentre elas, as plantas medicinais. Foi, nesse contexto, que surgiu a amizade e a ideia do Guia de Plantas Medicinais Nativas e Naturalizadas na Mata Atlântica
Jorge Forager/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim
A ideia do guia surgiu em um retiro de plantas medicinais realizado no sítio onde Caio mora. Vizinhos em Paraty e amigos de anos, tiveram a ideia de mapear as espécies presentes ali naquele espaço. Nesse mesmo período, Caio começou a fazer um levantamento de ilustrações botânicas.
Com a união dessas duas pesquisas, surgiu a primeira ideia de registrar essas informações fisicamente para um curso futuro. “Propus de selecionar algumas ilustrações e usarmos de apoio durante o curso para que as pessoas não ficassem tanto no celular. Fizemos uma apostila simples, com espaço para anotação e ilustração, botânica, e o feedback foi ótimo”, relembra Caio.
O guia partiu do mapeamento de espécies feito por Jorge, ancorado em bibliografias sobre as plantas medicinais da região, e foi lançado ainda em 2025
Jorge Forager/Divulgação
Em 2025, Jorge retomou o projeto, expandiu a pesquisa para englobar mais espécies e Caio ampliou a busca pelas ilustrações. O guia foi desenvolvido ao longo de um ano e lançado durante a Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. “Fizemos um evento na Livraria das Marés e, dali, já vimos uma aceitação bem legal do público. Uma coisa foi puxando a outra, e vendemos mais de mil unidades em cerca de seis meses”, diz com orgulho Caio.
A proposta de um guia lúdico e versátil
A construção do guia foi pautada por alguns princípios definidos pela dupla de amigos, entre eles a democratização do acesso à informação sobre as plantas medicinais com um material que fosse didático, lúdico e possível de ser usado de diferentes formas.
“Entendemos o formato de cards como algo mais democrático, uma porta de entrada que convida as pessoas para quererem saber mais sobre o tema. A pessoa não precisa ter experiência nenhuma, só curiosidade”, explica Caio. Apesar da dificuldade de viabilização em um curto espaço de tempo e dos custos envolvidos na impressão de cartas desse tipo, raras no contexto de autopublicações, o formato foi mantido.
Outro desafio foi a seleção de quais espécies e quais informações eram relevantes para as cartas. “A escolha foi guiada por uma pesquisa prévia em uma plataforma do Ministério da Saúde sobre plantas medicinais, em um portal referência de fitoterapia e em livros referências, como Plantas Medicinais no Brasil, do Instituto Plantarum”, conta Jorge.
O formato do guia em cartas e com dimensões menores busca aproximar diferentes públicos e ampliar os tipos de uso do material
Jorge Forager/Divulgação
O material ainda contou com a consultoria de um colega médico, para garantir a qualidade das informações ali inserida.
A partir desses dados, a pesquisa foi refinada pela busca iconográfica. Foram selecionadas espécies que tinham ilustrações botânicas de domínio público e alinhadas ao projeto gráfico idealizado pelo guia. Como material de apoio complementar, no site de venda do guia, estão disponíveis os dados dos autores das ilustrações.
O guia também tem como pressuposto explorar e dialogar com a memória coletiva e afetiva de quem o lê. Muitas espécies retratadas fazem parte de práticas de cuidado transmitidas entre gerações. “Muita gente conhece essas plantas pela relação com avós e mães, que sempre cuidaram da gente com plantas medicinais”, comenta Jorge.
Muitas plantas medicinais podem ser consumidas na forma de chá e na alimentação. O guia busca também dialogar com essa memória afetiva do botânico e de outras famílias que compartilham esse tipo de saber
Freepik/Creative Commons
Essa experiência faz parte da própria trajetória e história de vida do botânico. “Meu amor pelas plantas nasceu de lembranças vivas: minhã mãe no quintal de nosso sítio, colhendo ervas para a cozinha e preparando chás para a família. Esta coleção é também uma homenagem às nossas mães e avós, que nos ensinaram, com gestos e afetos, o valor de cuidar com o que a terra nos dá”, escreve Jorge.
O material pode ser usado como jogo, ferramenta pedagógica ou ritual pessoal de observação da natureza para públicos diversos, desde crianças a adultos, especialistas ou não no tema, e suas diferentes perspectivas.
As informações colocadas foram selecionadas em função do objetivo do material e do projeto: trazer dados práticos, acessíveis e úteis para quem está tendo o primeiro contato com as plantas medicinais
Jorge Forager/Divulgação
Um ponto fundamental é que o material deve ser entendido como um passo inicial na busca de conhecimento sobre essa categoria de plantas. “O guia não substitui o acompanhamento médico, nem a busca por outras referências bibliográficas”, salienta Jorge. Nas próprias cartas, são indicados portais de referência sobre a temática e suas aplicações.
Leia mais
Desdobramentos futuros e a produção de novos guias
Embora não tenha sido pensado exclusivamente para crianças, o guia encontrou forte ressonância na educação. “Tem sido muito legal ver professores usando as cartas como apoio nas escolas ou para fazer trilhas botânicas sensoriais com crianças e adolescentes”, conta Jorge.
Novos passos já são previstos para este ano. “O nosso desejo é fazer uma coleção de guias, e estamos pensando como próximos temas espécies de cogumelos e de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), inclusive com algumas receitas”, afirma Caio.
A busca de imagens segue sendo um desafio e a ideia é traçar novas parcerias, com artistas e ilustradores botânicos para catalogar espécies menos pesquisadas ou ainda não catalogadas.
“A ideia é construir uma biblioteca de biodiversidade da Mata Atlântica, que é onde praticamente a maior parte da população brasileira vive, mas nem sempre é tão falada; e o projeto auxilia a trazer mais informações e pessoas para perto desse tema que é urgente e tão caro hoje em dia”, reflete Jorge.
A proposta de elaboração do Guia de Plantas Medicinais nativas e naturalizadas na Mata Atlântica (2025), de Jorge Ferreira e Caio Antunes pela Editora Umûana, surgiu como uma forma de propor essa reaproximação.
O guia reúne 50 cartas, que trazem o nome científico, o nome popular e a ilustração botânica de espécies nativas e naturalizadas — que ocorrem nesse território — no bioma brasileiro. No verso de cada carta, há informações sobre porte, propagação e dados etnobotânicos indicando as partes utilizadas, os usos tradicionais e as curiosidades de cada planta.
O material ainda acompanha uma ficha técnica com mais informações sobre as ilustrações de domínio público, uma ficha com as formas mais comuns de uso das plantas medicinais, a infusão e a decocção, além de orientações de como se guiar na leitura das cartas. Cada espécie é acompanhada de alguns ícones, que indicam os principais benefícios da utilização de cada planta.
Além das informações mais técnicas de cada espécie, as cartas trazem os benefícios a saúde, curiosidades e uma mini descrição com a história da planta e seus usos mais comuns
Jorge Forager/Divulgação
Um projeto que germinou da prática
Jorge, natural de Cabo Frio, RJ, e criado em Paraty, RJ, nasceu em um sítio agroecológico e desde pequeno esteve em contato com a natureza. Atualmente, é botânico, pesquisador de biodiversidade e atua oferecendo expedições e trilhas sensoriais na região.
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Caio, por sua vez, é publicitário, natural de São Paulo e mudou para o litoral fluminense durante a pandemia, onde fundou um estúdio criativo. “Minha família sempre passava férias aqui. Brinco que eu morava quatro meses aqui e o resto na cidade, o que me fez ter uma conexão, desde muito cedo, com a natureza”, conta.
Jorge Forager trabalha como educador e botânico em cursos e retiros em espaços naturais falando sobre diferentes tipos de plantas, dentre elas, as plantas medicinais. Foi, nesse contexto, que surgiu a amizade e a ideia do Guia de Plantas Medicinais Nativas e Naturalizadas na Mata Atlântica
Jorge Forager/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim
A ideia do guia surgiu em um retiro de plantas medicinais realizado no sítio onde Caio mora. Vizinhos em Paraty e amigos de anos, tiveram a ideia de mapear as espécies presentes ali naquele espaço. Nesse mesmo período, Caio começou a fazer um levantamento de ilustrações botânicas.
Com a união dessas duas pesquisas, surgiu a primeira ideia de registrar essas informações fisicamente para um curso futuro. “Propus de selecionar algumas ilustrações e usarmos de apoio durante o curso para que as pessoas não ficassem tanto no celular. Fizemos uma apostila simples, com espaço para anotação e ilustração, botânica, e o feedback foi ótimo”, relembra Caio.
O guia partiu do mapeamento de espécies feito por Jorge, ancorado em bibliografias sobre as plantas medicinais da região, e foi lançado ainda em 2025
Jorge Forager/Divulgação
Em 2025, Jorge retomou o projeto, expandiu a pesquisa para englobar mais espécies e Caio ampliou a busca pelas ilustrações. O guia foi desenvolvido ao longo de um ano e lançado durante a Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. “Fizemos um evento na Livraria das Marés e, dali, já vimos uma aceitação bem legal do público. Uma coisa foi puxando a outra, e vendemos mais de mil unidades em cerca de seis meses”, diz com orgulho Caio.
A proposta de um guia lúdico e versátil
A construção do guia foi pautada por alguns princípios definidos pela dupla de amigos, entre eles a democratização do acesso à informação sobre as plantas medicinais com um material que fosse didático, lúdico e possível de ser usado de diferentes formas.
“Entendemos o formato de cards como algo mais democrático, uma porta de entrada que convida as pessoas para quererem saber mais sobre o tema. A pessoa não precisa ter experiência nenhuma, só curiosidade”, explica Caio. Apesar da dificuldade de viabilização em um curto espaço de tempo e dos custos envolvidos na impressão de cartas desse tipo, raras no contexto de autopublicações, o formato foi mantido.
Outro desafio foi a seleção de quais espécies e quais informações eram relevantes para as cartas. “A escolha foi guiada por uma pesquisa prévia em uma plataforma do Ministério da Saúde sobre plantas medicinais, em um portal referência de fitoterapia e em livros referências, como Plantas Medicinais no Brasil, do Instituto Plantarum”, conta Jorge.
O formato do guia em cartas e com dimensões menores busca aproximar diferentes públicos e ampliar os tipos de uso do material
Jorge Forager/Divulgação
O material ainda contou com a consultoria de um colega médico, para garantir a qualidade das informações ali inserida.
A partir desses dados, a pesquisa foi refinada pela busca iconográfica. Foram selecionadas espécies que tinham ilustrações botânicas de domínio público e alinhadas ao projeto gráfico idealizado pelo guia. Como material de apoio complementar, no site de venda do guia, estão disponíveis os dados dos autores das ilustrações.
O guia também tem como pressuposto explorar e dialogar com a memória coletiva e afetiva de quem o lê. Muitas espécies retratadas fazem parte de práticas de cuidado transmitidas entre gerações. “Muita gente conhece essas plantas pela relação com avós e mães, que sempre cuidaram da gente com plantas medicinais”, comenta Jorge.
Muitas plantas medicinais podem ser consumidas na forma de chá e na alimentação. O guia busca também dialogar com essa memória afetiva do botânico e de outras famílias que compartilham esse tipo de saber
Freepik/Creative Commons
Essa experiência faz parte da própria trajetória e história de vida do botânico. “Meu amor pelas plantas nasceu de lembranças vivas: minhã mãe no quintal de nosso sítio, colhendo ervas para a cozinha e preparando chás para a família. Esta coleção é também uma homenagem às nossas mães e avós, que nos ensinaram, com gestos e afetos, o valor de cuidar com o que a terra nos dá”, escreve Jorge.
O material pode ser usado como jogo, ferramenta pedagógica ou ritual pessoal de observação da natureza para públicos diversos, desde crianças a adultos, especialistas ou não no tema, e suas diferentes perspectivas.
As informações colocadas foram selecionadas em função do objetivo do material e do projeto: trazer dados práticos, acessíveis e úteis para quem está tendo o primeiro contato com as plantas medicinais
Jorge Forager/Divulgação
Um ponto fundamental é que o material deve ser entendido como um passo inicial na busca de conhecimento sobre essa categoria de plantas. “O guia não substitui o acompanhamento médico, nem a busca por outras referências bibliográficas”, salienta Jorge. Nas próprias cartas, são indicados portais de referência sobre a temática e suas aplicações.
Leia mais
Desdobramentos futuros e a produção de novos guias
Embora não tenha sido pensado exclusivamente para crianças, o guia encontrou forte ressonância na educação. “Tem sido muito legal ver professores usando as cartas como apoio nas escolas ou para fazer trilhas botânicas sensoriais com crianças e adolescentes”, conta Jorge.
Novos passos já são previstos para este ano. “O nosso desejo é fazer uma coleção de guias, e estamos pensando como próximos temas espécies de cogumelos e de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), inclusive com algumas receitas”, afirma Caio.
A busca de imagens segue sendo um desafio e a ideia é traçar novas parcerias, com artistas e ilustradores botânicos para catalogar espécies menos pesquisadas ou ainda não catalogadas.
“A ideia é construir uma biblioteca de biodiversidade da Mata Atlântica, que é onde praticamente a maior parte da população brasileira vive, mas nem sempre é tão falada; e o projeto auxilia a trazer mais informações e pessoas para perto desse tema que é urgente e tão caro hoje em dia”, reflete Jorge.



