A importância da casa como cenário e metáfora no filme ‘Valor Sentimental’

O filme norueguês Valor Sentimental, dirigido por Joachim Trier, é considerado um dos principais concorrentes de O Agente Secreto na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar. Ao todo, o longa estrelado por Stellan Skarsgård recebeu 9 indicações na premiação. Na trama, um pai ausente retorna a casa da família para gravar um filme, com uma das filhas como protagonista.
No novo projeto, ele quer filmar a casa da família, onde a atriz Nora e a historiadora Agnes foram criadas pela mãe, que acaba de morrer. Nora não quer nenhum tipo de aproximação e recusa o papel que Gustav lhe oferece. Já Agnes, que é casada e tem um filho, enxerga o pai e suas faltas com menos rancor.
“Com a chegada do pai e o encontro entre eles a gente começa a entender a importância dessa casa. Acho que a arte e a cenografia, da mesma forma que o enredo, aos poucos desenrola as questões do passado. A mãe, por exemplo, é representada pelo espaço da casa”, explica João Paulo Amaral Schlittler Silva, professor das disciplinas de Direção de Arte no curso de Audiovisual na ECA-USP.
A rachadura que atravessa a casa no filme ‘Valor Sentimental’ simboliza as fissuras emocionais da família e transforma o espaço em reflexo visual das tensões acumuladas ao longo dos anos
NEON/Divulgação
A casa onde se passa o filme é mais do que um cenário: é um personagem. Um arquivo afetivo familiar que guarda ecos de gerações, conflitos internos e externos. A rachadura estrutural anunciada por Gustav parece falar, simbolicamente, daquilo que não pôde ser simbolizado: o trauma transgeracional que une e, ao mesmo tempo, separa os personagens.
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“No filme, a casa é entendida como uma poética naquele espaço físico. Ela também é uma casa de memórias, de lembranças, de afetos”, explica Edmilson Felipe da Silva, psicanalista e professor assistente doutor do Departamento de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Com o cenário sendo tão importante para o enredo, o designer de produção Jørgen Stangebye Larsen criou um ambiente específico e repleto de camadas que permite compreender a casa como um espaço tanto físico como emocional.
Na trama de ‘Valor Sentimental’, as relações familiares são exploradas dentro da casa principal da família
NEON/Divulgação
“Quando você tem a casa como depósito de memórias e sentimentos, você tem a todo momento um enredo novo, alguma coisa que nos remete ao passado, e faz com que você rememore determinadas situações. A casa nada mais é do que um grande personagem que envolve a todos. Eles não conseguem se separar”, diz Edmilson.
Na cena em que a mãe morre e a família passa a separar os objetos, o filme explicita disputas de desejo e poder que se organizam em torno da casa. À medida que o espaço é esvaziado, esses conflitos se materializam nas coisas. Para o professor João Paulo, “não é a questão dos elementos fixos, mas da mutação dos objetos que definem o espaço”. As paredes permanecem, marcadas pelo tempo, enquanto os itens saem de cena e reconfiguram as relações.
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A casa também se torna cenário de reencontro quando é reconstruída em estúdio por Gustav, que tenta usar a arte para se reconectar com as filhas e enfrentar a própria história de abandono. O filme acompanha o esvaziamento, a restauração e, por fim, a venda do imóvel, marcando o encerramento de um ciclo e o confronto definitivo com memórias e ressentimentos acumulados.

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