Recife é a cidade com mais baobás do mundo fora da África; entenda

Árvore de formato singular, nativa de áreas tropicais da África, especialmente das savanas, zonas semiáridas e sub úmidas, o baobá (Adansonia digitata L.) encontrou na cidade de Recife, em Pernambuco, o local adequado para se desenvolver de forma abundante fora de seu país de origem.
“O clima de Recife é quente e parecido com o de várias regiões da África. Além disso, a boa quantidade de sol e o tipo de solo da região ajudaram a árvore a se desenvolver bem”, explica Rodrigo Danniel, diretor de meio ambiente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que guarda em seu campus alguns dos exemplares da espécie na cidade.
As variações sazonais de chuva, que deixam o clima relativamente úmido na capital pernambucana, também facilitaram a sobrevivência e crescimento do baobá. Hoje, Recife é considerada a cidade com mais árvores baobá do mundo fora da África, com 50 espécimes. Destas, 16 são tombadas como patrimônio local, segundo o documento Árvore – Patrimônio do Recife, elaborado pela Prefeitura da cidade em 2025.
Baobá em Recife localizado à beira do rio Capibaribe, em Ponte d’Uchoa
Paulo Camelo/Wikimedia Commons
Daniel conta que, conforme relatos históricos, as sementes de baobá chegaram ao Brasil durante o período do tráfico de escravizados, entre os séculos 17 e 19, trazidos nos navios da África para o Nordeste.
Outra versão para a introdução do baobá no Brasil diz que o conde Maurício de Nassau, administrador do Brasil Holandês, teria pedido que a árvore fosse trazida da África para compor os jardins em Recife.
Em muitos países africanos, o baobá é conhecido como a “árvore da vida”. “Ele representa resistência, sabedoria, espiritualidade e a ligação entre as pessoas e a natureza. Em Recife, também passou a representar a resistência da cultura afro-brasileira e a memória das raízes africanas presentes na história da cidade”, destaca Rodrigo.
Baobá no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Rodrigo Danniel/Arquivo Pessoal
Tronco “estranho”
De grande porte, o baobá pode medir entre 5 e 25 metros de altura, podendo ultrapassar os 30 metros quando em boas condições de cultivo. Seu formato característico, com troncos largos que lembram uma garrafa ou um barril, deve-se à capacidade da planta de armazenar milhares de litros de água para sobreviver aos períodos de estiagem.
“O baobá é conhecido pelo tronco muito grosso, que consegue guardar bastante água. Ele perde as folhas em épocas mais secas para economizar umidade. Suas flores são grandes, brancas e abrem à noite, sendo polinizadas principalmente por morcegos. É uma árvore muito resistente ao calor e à seca”, detalha Rodrigo.
Símbolo das savanas africanas, o baobá também é conhecido no Brasil com os nomes de fruta-pão-de-macaco, árvore-dos-mil-anos, adansônia, bondo, embondeiro e imbondeiro.
Baobá em Recife localizado em uma calçada do bairro do Poço da Panela
Paulo Camelo/Wikimedia Commons
O baobá pertence ao gênero botânico Adansonia, nome dado em homenagem ao botânico francês Michel Adanson. “Existem oito espécies no mundo. Seis ficam em Madagascar, uma na Austrália e uma na África continental, chamada Adansonia digitata L., que é a espécie que temos em Recife”, revela.
De crescimento lento, a árvore é conhecida por sua longevidade extrema. “É uma árvore muito longeva. Pode viver centenas de anos e alguns exemplares passam facilmente de mil anos”, conta Rodrigo.
Conforme a engenheira agrônoma Carolina Schuchovski, professora na Kent State University, nos Estados Unidos, os baobás conseguem crescer facilmente em climas onde as temperaturas passam dos 40 °C.
Precisa de bastante sol e se desenvolve melhor em solos que não acumulam muita água. “É amplamente considerado uma espécie suculenta, que sobrevive a longos períodos de seca”, diz a especialista.
O campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) reúne vários exemplares de baobás
Rodrigo Danniel/Arquivo Pessoal
Outra característica marcante é a casca do tronco, que tem uma cor castanho-avermelhada, e as suas folhas em forma de mão espalmada. “O baobá possui flores brancas e frutos do tipo cápsula, com 20 a 30 cm de comprimento, cobertos por uma camada de pelos castanho-esverdeados, com sementes duras, amarronzadas, e polpa branco-amarelada e farinhenta”, fala Carolina.
Uso alimentar e medicinal
No África, o baobá é muito importante para as populações locais, pois todas as suas partes são aproveitadas. A polpa dos frutos, rica em vitamina C, fibras e minerais, como cálcio e potássio, serve para a alimentação e a produção de bebidas.
As sementes têm óleos vegetais e engrossam sopas, e as folhas, repletas de ferro, são usadas como legumes, enquanto a casca fornece fibras para cordas e cestaria. Já o tronco pode servir como abrigo ou reservatório de água.
Baobá de pequeno porte na entrada da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Rodrigo Danniel/Arquivo Pessoal
Em várias culturas africanas, o baobá também é usado no tratamento de enfermidades por suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, além de ajudar na hidratação e na reposição de minerais. “Há registros do uso tradicional da casca para o tratamento de problemas digestivos e malária em algumas regiões da África”, aponta Rodrigo.
“A árvore é usada na medicina tradicional, com o emprego de raízes, casca, folhas, frutos e sementes para tratar uma enorme variedade de doenças. Entre as mais comuns estão deficiência de ferro, distúrbios do sistema digestivo, infecções e problemas de pele. O baobá é utilizado tanto em tratamentos humanos como veterinários”, relata Carolina.

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