SQN 107 Norte: entenda os prédios que destoam na paisagem de Brasília

Um projeto interrompido levou uma área de Brasília, conhecida como Superquadra 107 (SQN 107 Norte), a ficar com três edifícios que parecem destoar do seu entorno. “Perdidos” entre prédios construídos alguns anos depois, os blocos F, G e I são feitos de concreto armado aparente ao estilo modernista. A história dos edifícios remonta à construção da capital federal.
No Plano Piloto de Brasília apresentado pelo arquiteto Lúcio Costa, que ganhou o concurso para projetar a nova capital, entre os anos 1956 e 1957, os setores residenciais da cidade seriam organizados em grupos de quatro “superquadras”, cada uma delas tendo escola, igreja, comércio e equipamentos coletivos.
Segundo a arquiteta e urbanista Maria Fernanda Derntl, professora da Universidade de Brasília (UnB), as superquadras nasceram do conceito de “unidade de vizinhança”, desenvolvido na década de 1920 pelo urbanista americano Clarence A. Perry, e serviu de base para a concepção de Brasília.
O projeto dos edifícios da SQN 107 foi elaborado pela arquiteta Mayumi Watanabe Souza Lima
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
A ideia era definir a composição de uma parte da cidade, criando um ambiente que estimulasse a formação de laços sociais entre seus moradores. “Para isso, previa-se a presença de escola, comércio e equipamentos coletivos, formando um conjunto capaz de atender às necessidades cotidianas e que poderia ser percorrido internamente a pé, reduzindo a interferência do tráfego de automóveis”, conta.
A chamada Unidade de Vizinhança nº 1, na Asa Sul — formada pelas superquadras 107, 108, 307 e 308 Sul —, foi a primeira a ser construída. “Até hoje, é a mais completa em equipamentos urbanos”, explica Maria Fernanda.
Já a Unidade de Vizinhança São Miguel, pensada segundo esse mesmo princípio, ocuparia as Superquadras 107, 108, 307 e 308 Norte, em terrenos pertencentes à UnB. “O nome São Miguel está ligado à intenção de construir uma igreja dedicada a este santo”, conta a docente.
A construção começou em 1965, mas foi interrompida durante o regime militar e nunca finalizada por completo. O conjunto, que teria originalmente de 36 blocos de apartamentos, escolas e paisagismo elaborado, destinava-se à moradia de diplomatas, funcionários do Ministério das Relações Exteriores, além de professores e funcionários da UnB.
Os montantes de concreto, regularmente espaçados, formam uma fachada contínua nos prédios da SQN 107
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
Segundo a pesquisa A invenção da Superquadra, escrita por Marcílio Mendes Ferreira e Matheus Gorovitz, publicada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Área de Vizinhança São Miguel possuiria cerca de 404 mil m² construídos, se tivesse sido finalizada.
“Iniciou-se em 1965 a construção de três blocos tipo torre desse conjunto, com 72 apartamentos de 2 quartos, e um bloco tipo lâmina com 36 apartamentos de 4 quartos, segundo relatório da Novacap [Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil] de 1966”, detalha o documento.
Com o fim das obras, apenas as três torres foram erguidas seguindo o desenho original. Esses edifícios possuem quatro apartamentos de 123 m² por pavimento. Uma lâmina — tipo de prédio estreito e alongado, também foi concluída, mas teve o desenho inteiramente modificado pelo arquiteto Hélio Ferreira Pinto, ligado aos militares.
O projeto dos três edifícios que saíram do papel foi elaborado por Mayumi Watanabe Souza Lima, arquiteta nascida no Japão e formada pela Universidade de São Paulo (USP), e seu marido, o arquiteto Sérgio Souza Lima, com a participação de Oscar Kneipp. O desenho se distingue pelo uso do concreto armado aparente, seguindo a tradição da arquitetura paulista.
Os edifícios da SQN 107 Norte, em Brasília, são de concreto armado aparente moldado in loco
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
Conforme mostra pesquisa de Maribel Aliaga, professora de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (PPG-FAU) da UnB, o projeto da unidade de vizinhança São Miguel foi desenvolvido por Mayumi como parte de sua dissertação de mestrado no Centro de Estudos e Planejamento Arquitetônicos e Urbanísticos da UnB (Ceplan), na década de 1960.
Criado em 1962 com a UnB, sob coordenação do arquiteto Oscar Niemeyer, o Ceplan tinha como objetivo projetar os edifícios da universidade e funcionar como um laboratório de experimentação de técnicas construtivas, com foco na industrialização da construção e no uso de elementos pré-fabricados e produzidos em série para montagem no canteiro de obras.
A dissertação de Mayumi, realizada entre 1963 e 1965, intitulada Aspectos da habitação urbana: projeto de habitação coletiva para a unidade de vizinhança São Miguel, foi orientada pelo arquiteto João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, secretário-executivo do Ceplan e referência em industrialização da construção à época.
“O projeto de Mayumi inseria-se no inovador projeto político-pedagógico da UnB, que unia a teoria e a prática aplicada à construção da capital”, destaca Maria Fernanda. “O fato de a unidade de vizinhança não ter sido construída de forma completa, nem integralmente conforme o sistema construtivo originalmente previsto, evidencia as dificuldades de concretizar o projeto de desenvolvimento então idealizado e sinaliza a mudança de rumos do país após o golpe de 1964”, continua ela.
Os montantes de concreto dos prédios da SQN 107 Norte chegam até o chão, criando uma arquitetura única
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
Arquitetura diferenciada
A docente Maria Fernanda conta que as três torres da SQN 107 foram inicialmente concebidas para serem construídas com elementos pré-moldados, mas acabaram sendo executadas de forma mais convencional, com concreto aparente e formas de madeira no próprio canteiro de obras — processo que deixou marcas visíveis nas empenas.
Para a especialista, a arquitetura diferenciada dos prédios projetados por Mayumi na SQN 107 reinterpreta, de forma própria, características comuns aos edifícios residenciais do Plano Piloto.
“Os montantes de concreto, regularmente espaçados a cada 75 cm, formam uma fachada contínua que garante boa iluminação aos ambientes, enquanto preserva a privacidade. No térreo, esses montantes se transformam em pilotis mais próximos entre si do que nos demais blocos da cidade, criando espaços livres com um caráter mais íntimo e protegido”, detalha.
O pavimento térreo expressa outros ideais ligados à arquitetura moderna, como a presença de jardins no entorno dos edifícios, os azulejos de Athos Bulcão adornando espaços de uso comum dentro dos bloco e os bancos de concreto integrados ao projeto.
A construção da Área de Vizinhança São Miguel, onde fica a SQN 107, foi interrompida pelo regime militar
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
“Os edifícios têm planta quadrada, diferindo da solução mais comum de blocos alongados em forma de prisma. Foram construídos em concreto aparente moldado in loco, com paredes internas de concreto celular, revestimento cerâmico preto em todos os pisos internos e ambientes amplos”, comenta Maria Fernanda.
Posteriormente, as torres foram vendidas a proprietários particulares. “Embora não sejam tombados, seu valor arquitetônico é amplamente reconhecido e apreciado. Os edifícios encontram-se bem conservados, tanto pela qualidade construtiva quanto pelo engajamento dos moradores na preservação e na realização de obras de manutenção e renovação das áreas comuns do térreo”, diz a docente.
Relevância arquitetônica
Na avaliação da docente da UnB, os edifícios projetados por Mayumi na SQN 107 reúnem valores centrais da concepção modernista de Brasília. “Mais do que uma cidade marcada por monumentos e edifícios político-administrativos, Brasília foi pensada com atenção especial às áreas residenciais, e esses edifícios evidenciam a importância atribuída à sua organização”, aponta.
A lâmina da SQN 107 Norte, um tipo de prédio estreito e alongado, teve o desenho original modificado
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
Concebidas como unidades de vizinhança, essas áreas deveriam articular moradia, espaços de uso coletivo e equipamentos urbanos em um conjunto integrado, pensado para o deslocamento livre dos pedestres. “Daí a adoção dos pilotis, que permitem que os térreos façam parte da cidade, sem barreiras para quem caminha”, analisa.
Segundo a arquiteta, esses edifícios também expressam a crença no potencial das técnicas de construção em concreto armado pré-moldado como meio de construir em grande escala, de forma mais econômica e eficiente.
O desenvolvimento dessas técnicas integrava um projeto mais amplo de modernização do país, baseado na superação de condições consideradas atrasadas. O uso do concreto aparente tinha ainda um sentido ético, ao valorizar o essencial e torná-lo visível, evitando revestimentos caros ou desnecessários”, argumenta.
Além disso, a obra de Mayumi reforça o caráter inovador de Brasília e da produção arquitetônica brasileira daquele período, marcada pela experimentação nos campos arquitetônico, urbanístico e técnico, e pelo propósito de estimular novas formas de convivência no espaço urbano.
Projeto de reforma de apartamento na lâmina da SQN 107, em Brasília, inspirado na arquitetura modernista do prédio
Joana França/Divulgação | Projeto do escritório CODA Arquitetura
“Embora Oscar Niemeyer e Lúcio Costa sejam os nomes mais conhecidos associados à cidade, esses edifícios mostram que muitos outros arquitetos — e arquitetas! — participaram desse processo. O conjunto demonstra que é possível alcançar alta qualidade arquitetônica com materiais simples e um desenho cuidadoso”, comenta Maria Fernanda.
“A intenção era que isso fosse acessível a amplas parcelas da população, e não criar uma obra excepcional para poucas pessoas, como acontece hoje”, finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima