Casas “burras”: a tendência que defende desligar a automação residencial e ligar os interruptores

Falar da relação entre lares e tecnologia implica uma história de começo difuso: do rádio e da televisão até outros eletrodomésticos mais avançados ou uma automação residencial que penetrou de forma silenciosa nas casas por meio de assistentes como a Alexa. De fato, automatizar uma casa era sinônimo de status até pouco tempo atrás. No entanto, o paradigma mudou sem que percebêssemos e, agora, os milionários querem casas analógicas, também chamadas de “casas burras”.
Novos refúgios onde se abre mão da tecnologia para se entregar a espaços tranquilos, silenciosos e “básicos”, especialmente ligados a um entorno que permita abraçar a natureza.
Desconectar para voltar a conectar: o paradoxo das casas analógicas
Na parte de trás da casa, a varanda se volta para a mata e para a cachoeira
Ruy Teixeira
O Relatório de Tendências do Lar 2026 do portal imobiliário Willow revela que a busca por “cantinhos de leitura” nas casas aumentou 48% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, alguns lares já voltaram aos telefones fixos, e o segmento de luxo abandona o auge das casas automatizadas para abraçar as casas analógicas, especialmente quando falamos de segunda residência.
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Um pied-à-terre que busca novos princípios: “casas onde a tecnologia está sempre em segundo plano, funcionando e escutando, acabam gerando ansiedade em vez de promover reparação”, afirmou o arquiteto Yan M. Wang em uma entrevista recente. “Por isso, projetar lares que minimizem a presença digital tornou-se essencial para alcançar uma sensação de restauração.”
A casa foi construída sem o auxílio de máquinas ou a derrubada de uma única árvore
Ruy Teixeira
É a tendência de trocar configurações dignas da NASA por botões, interruptores e controles de sempre como o novo luxo da desintoxicação digital dentro de um movimento de bem-estar analógico. Agora queremos recuperar os espaços dos nossos avós ou nos mudar para cabanas sem tecnologia, onde reduzir o ruído digital e priorizar conexões reais seja a norma.
“Houve uma época em que atrair um comprador de alto padrão significava ter TVs de tela plana em quase todos os ambientes, incluindo as áreas externas. No entanto, no mercado atual, excessivamente automatizado, o excesso de tecnologia pode ser um grande desestímulo”, afirmou Gillian Flynn, corretora da Pacific Sotheby’s.
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Sobre o gaveteiro vintage da Arteiro, dispõe-se uma reunião de peças caras aos moradores
Ruy Teixeira
Aspectos como a ascensão da IA intensificaram a fadiga digital e a sensação de perda de privacidade, o que nos leva a buscar a simplicidade e, na maioria dos casos, a reconectar com a natureza.
A casa analógica como atalho para a natureza
Desde o início do capitalismo, já não existe uma associação estática com a natureza, mas sim uma separação e um distanciamento total dela. No entanto, como já vimos muitas vezes na AD Espanha, diversos estúdios e arquitetos renovaram a visão da casa como extensão do próprio território. Entre Muros, com sua já icônica cozinha de pedra maiorquina, tornou-se um dos melhores exemplos e um grande marco do estúdio i-architecture, que compartilha sua visão do que deveria ser a casa analógica perfeita.
A cozinha tem vista panorâmica e telas de junco que filtram o sol
Ruy Teixeira
“Não há arquitetura mais perfeita do que a natureza. Tudo o que construímos, por mais belo que seja, é sempre uma leve perda de seu equilíbrio original”, conta à AD Espanha Jon Irigoyen, integrante da equipe do i-architecture ao lado de Miren Irigoyen, Amaia Guibert e Eneko Domínguez de Vidaurreta. “Por isso, antes de traçar uma linha, escutamos. Lemos o lugar, sua luz, seu vento, sua inclinação, sua memória. Porque somente a partir de uma compreensão profunda do entorno pode nascer uma arquitetura justa. Nem todos os lugares devem ser habitados. E aceitar isso também é uma forma de respeito.
Quando perguntados sobre a crise do lar hipertecnológico, a equipe vai além e reflete sobre o habitar: “Low tech ou high tech não é uma questão ideológica. A verdadeira pergunta é outra: como habitar sem impor? Como construir sem apagar? Como estar sem dominar? Cada terreno é irrepetível. Cada projeto também deve ser. Não buscamos objetos, mas diálogos. Não formas que se destaquem, e sim presenças que acompanhem.”
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À casa sobre palafitas somaram-se dois chalés – esta é a varanda de um deles
Ruy Teixeira
Para Jon, o verdadeiro retorno ao lar analógico e sua conexão com a natureza passa por entendê-la não como um fim, mas como um mediador silencioso entre o ser humano e o entorno natural: “A tecnologia não deve se mostrar. Deve desaparecer e se fundir à paisagem até se tornar quase invisível”, acrescenta.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Espanha

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