Caminhe pela Holland Park Road, em Londres, e você pode passar pela Leighton House sem sequer dar uma segunda olhada. Aninhada entre fileiras de casas vitorianas, ela se apresenta como uma elegante townhouse de tijolos, mas basta entrar para ser imediatamente transportado. Um interior fresco, revestido de azulejos, com teto abobadado e colunas de mármore — que remete mais a um pátio norte-africano do que a uma sala de estar britânica — dá as boas-vindas ao visitante no Arab Hall, o coração da antiga residência de Frederic Leighton, o célebre artista vitoriano que construiu a casa no oeste de Londres no início da década de 1880.
O Arab Hall da Leighton House
Siobhan Doran
O Arab Hall é a razão pela qual a Leighton House provoca essa sensação de deslocamento. Inspirado em parte no palácio La Zisa, do século XII, em Palermo, o espaço foi, sobretudo, moldado pelas próprias viagens de Leighton pelo Oriente Médio e pelo Mediterrâneo. Em uma época em que poucos interiores londrinos buscavam referências além da Europa, o ambiente surgiu de um contato profundo e contínuo com a arquitetura islâmica, seus ornamentos e tradições artesanais.
Outros detalhes do Arab Hall, na Leighton House
Siobhan Doran
“O que pode surpreender o público do Oriente Médio é a profundidade e a seriedade do envolvimento de Leighton com a arte e a arquitetura do mundo do Oriente Médio”, afirma a dra. Melanie Gibson, cuja nova pesquisa fundamenta a exposição The Arab Hall: Past and Present e a publicação que a acompanha, em celebração ao centenário da Leighton House. “Ele viajou extensivamente ao longo de um período de dez anos, estudando edifícios in loco, visitando sítios históricos em Granada, Cairo, Istambul e Damasco, e colecionando ativamente cerâmicas, azulejos, tapetes e outras obras de arte.”
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De forma crucial, a pesquisa de Gibson também contesta a ideia de que o Arab Hall tenha sido um acréscimo decorativo tardio. “Em vez de ter sido concebido no fim da carreira de Leighton, a pesquisa revela que ele começou a planejar o espaço já em 1870, vários anos antes do início da construção e muito antes de sua eleição como presidente da Royal Academy”, acrescenta a doutora Gibson. O Arab Hall não foi um detalhe ‘exótico’ acrescentado depois, mas um projeto intelectual e estético de longo prazo.
Hall de entrada da Leighton House
Dirk Lindner
Suas superfícies permanecem densas de significado. Paredes revestidas com azulejos cerâmicos esmaltados sob o vidrado, vindos de Damasco, Iznik e da Pérsia, formam uma pele contínua de padrões e cores. Treliças de madeira no estilo mashrabiya filtram a luz do dia pelas janelas, enquanto um espelho d’água raso ocupa o centro do espaço, projetado para refrescar o ambiente e refletir a cúpula dourada acima. A atmosfera é intencional e imersiva — a ponto de, ainda no século XIX, ter sido suficientemente desorientadora para que os artistas visitantes James McNeill Whistler e Edward Burne-Jones, absortos em conversa, atravessassem o salão e acabassem caminhando diretamente para dentro da água.
Sala de jantar da Leighton House
Dirk Lindner
Ainda assim, hoje o salão suscita questões mais complexas. Esses azulejos não são meros artefatos decorativos; são objetos que percorreram milhares de quilômetros em condições moldadas pelo poder colonial, por práticas de colecionismo e por trocas assimétricas. Retirados de seus contextos originais e remontados em Kensington, situam-se na interseção entre admiração e apropriação, entre erudição e posse.
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Ao completar 100 anos desde sua abertura como museu público, a Leighton House transforma o Arab Hall no ponto central de uma reavaliação mais ampla — não apenas do legado de Leighton, mas também de como espaços como esse são lidos, ativados e interpretados na contemporaneidade.
Estúdio da Leighton House
Dirk Lindner
Essa reavaliação se desdobra em um programa de exposições. Leighton House: A Journey Through 100 Years (outubro de 2025 a março de 2026) traça a evolução do edifício desde 1926 por meio de fotografias de arquivo, depoimentos pessoais e filmes. Em paralelo, Ghost Objects: Summoning Leighton’s Lost Collection é uma encomenda à artista holandesa do papel Annemarieke Kloosterhof, que reconstrói quatro objetos desaparecidos da coleção original de Leighton utilizando milhares de pedaços de papel branco — substitutos frágeis para histórias que se perderam com o tempo.
“Como acontece com todos os sítios históricos, cuidado e conservação são essenciais”, afirma Daniel Robbins, curador sênior da Leighton House. “Mas edifícios como este só podem realmente prosperar se continuarem a ter significado e relevância.”
Essa relevância ganha contornos mais nítidos com The View from Here, exposição de outono que reúne artistas contemporâneos do Oriente Médio e do Norte da África, reafirmando que o Arab Hall não é um artefato histórico fechado, mas parte de um diálogo cultural em curso. O programa culmina na primavera de 2026 com The Arab Hall: Past and Present, a exposição central do centenário. Estruturada como um projeto em três partes, ela inclui um curta-metragem recém-encomendado da cineasta síria Soudade Kaadan, When the Tiles Spoke, que traça a trajetória dos azulejos do salão desde a Damasco do século XVI até sua recontextualização em Londres; uma apresentação baseada em pesquisa sobre a construção e a procedência do espaço; e intervenções site-specific dos artistas Ramzi Mallat, Kamilah Ahmed e Soraya Syed.
Silk Room da Leighton House
Dirk Lindner
“Acredito que exista um dever de cuidado ao trabalhar em um espaço como este”, afirma Mallat, artista multidisciplinar do Líbano. “Diferentemente de uma galeria do tipo cubo branco, qualquer intervenção aqui será lida em relação ao peso simbólico do ambiente.” Seu trabalho parte da curiosidade de Leighton pelas tradições artesanais do Oriente Médio, mas reformula o patrimônio como algo vivo, em disputa e continuamente reinterpretado.
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Fachada da Leighton House
Dirk Lindner
Como um raro exemplo sobrevivente da arquitetura orientalista na Europa — e um espaço agora ativamente moldado por vozes contemporâneas — o programa do centenário convida os visitantes a olhar novamente. Não apenas para a beleza ou o virtuosismo artesanal, mas para questões de deslocamento, circulação e autoria: o que essas jornadas significaram no passado, o que significam hoje e quais novas narrativas podem emergir em um espaço moldado por tantas mãos.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Oriente Médio
O Arab Hall da Leighton House
Siobhan Doran
O Arab Hall é a razão pela qual a Leighton House provoca essa sensação de deslocamento. Inspirado em parte no palácio La Zisa, do século XII, em Palermo, o espaço foi, sobretudo, moldado pelas próprias viagens de Leighton pelo Oriente Médio e pelo Mediterrâneo. Em uma época em que poucos interiores londrinos buscavam referências além da Europa, o ambiente surgiu de um contato profundo e contínuo com a arquitetura islâmica, seus ornamentos e tradições artesanais.
Outros detalhes do Arab Hall, na Leighton House
Siobhan Doran
“O que pode surpreender o público do Oriente Médio é a profundidade e a seriedade do envolvimento de Leighton com a arte e a arquitetura do mundo do Oriente Médio”, afirma a dra. Melanie Gibson, cuja nova pesquisa fundamenta a exposição The Arab Hall: Past and Present e a publicação que a acompanha, em celebração ao centenário da Leighton House. “Ele viajou extensivamente ao longo de um período de dez anos, estudando edifícios in loco, visitando sítios históricos em Granada, Cairo, Istambul e Damasco, e colecionando ativamente cerâmicas, azulejos, tapetes e outras obras de arte.”
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De forma crucial, a pesquisa de Gibson também contesta a ideia de que o Arab Hall tenha sido um acréscimo decorativo tardio. “Em vez de ter sido concebido no fim da carreira de Leighton, a pesquisa revela que ele começou a planejar o espaço já em 1870, vários anos antes do início da construção e muito antes de sua eleição como presidente da Royal Academy”, acrescenta a doutora Gibson. O Arab Hall não foi um detalhe ‘exótico’ acrescentado depois, mas um projeto intelectual e estético de longo prazo.
Hall de entrada da Leighton House
Dirk Lindner
Suas superfícies permanecem densas de significado. Paredes revestidas com azulejos cerâmicos esmaltados sob o vidrado, vindos de Damasco, Iznik e da Pérsia, formam uma pele contínua de padrões e cores. Treliças de madeira no estilo mashrabiya filtram a luz do dia pelas janelas, enquanto um espelho d’água raso ocupa o centro do espaço, projetado para refrescar o ambiente e refletir a cúpula dourada acima. A atmosfera é intencional e imersiva — a ponto de, ainda no século XIX, ter sido suficientemente desorientadora para que os artistas visitantes James McNeill Whistler e Edward Burne-Jones, absortos em conversa, atravessassem o salão e acabassem caminhando diretamente para dentro da água.
Sala de jantar da Leighton House
Dirk Lindner
Ainda assim, hoje o salão suscita questões mais complexas. Esses azulejos não são meros artefatos decorativos; são objetos que percorreram milhares de quilômetros em condições moldadas pelo poder colonial, por práticas de colecionismo e por trocas assimétricas. Retirados de seus contextos originais e remontados em Kensington, situam-se na interseção entre admiração e apropriação, entre erudição e posse.
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Ao completar 100 anos desde sua abertura como museu público, a Leighton House transforma o Arab Hall no ponto central de uma reavaliação mais ampla — não apenas do legado de Leighton, mas também de como espaços como esse são lidos, ativados e interpretados na contemporaneidade.
Estúdio da Leighton House
Dirk Lindner
Essa reavaliação se desdobra em um programa de exposições. Leighton House: A Journey Through 100 Years (outubro de 2025 a março de 2026) traça a evolução do edifício desde 1926 por meio de fotografias de arquivo, depoimentos pessoais e filmes. Em paralelo, Ghost Objects: Summoning Leighton’s Lost Collection é uma encomenda à artista holandesa do papel Annemarieke Kloosterhof, que reconstrói quatro objetos desaparecidos da coleção original de Leighton utilizando milhares de pedaços de papel branco — substitutos frágeis para histórias que se perderam com o tempo.
“Como acontece com todos os sítios históricos, cuidado e conservação são essenciais”, afirma Daniel Robbins, curador sênior da Leighton House. “Mas edifícios como este só podem realmente prosperar se continuarem a ter significado e relevância.”
Essa relevância ganha contornos mais nítidos com The View from Here, exposição de outono que reúne artistas contemporâneos do Oriente Médio e do Norte da África, reafirmando que o Arab Hall não é um artefato histórico fechado, mas parte de um diálogo cultural em curso. O programa culmina na primavera de 2026 com The Arab Hall: Past and Present, a exposição central do centenário. Estruturada como um projeto em três partes, ela inclui um curta-metragem recém-encomendado da cineasta síria Soudade Kaadan, When the Tiles Spoke, que traça a trajetória dos azulejos do salão desde a Damasco do século XVI até sua recontextualização em Londres; uma apresentação baseada em pesquisa sobre a construção e a procedência do espaço; e intervenções site-specific dos artistas Ramzi Mallat, Kamilah Ahmed e Soraya Syed.
Silk Room da Leighton House
Dirk Lindner
“Acredito que exista um dever de cuidado ao trabalhar em um espaço como este”, afirma Mallat, artista multidisciplinar do Líbano. “Diferentemente de uma galeria do tipo cubo branco, qualquer intervenção aqui será lida em relação ao peso simbólico do ambiente.” Seu trabalho parte da curiosidade de Leighton pelas tradições artesanais do Oriente Médio, mas reformula o patrimônio como algo vivo, em disputa e continuamente reinterpretado.
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Fachada da Leighton House
Dirk Lindner
Como um raro exemplo sobrevivente da arquitetura orientalista na Europa — e um espaço agora ativamente moldado por vozes contemporâneas — o programa do centenário convida os visitantes a olhar novamente. Não apenas para a beleza ou o virtuosismo artesanal, mas para questões de deslocamento, circulação e autoria: o que essas jornadas significaram no passado, o que significam hoje e quais novas narrativas podem emergir em um espaço moldado por tantas mãos.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Oriente Médio



