Quem caminha pela orla do Rio de Janeiro talvez não saiba, mas percorre os traços vivos de Luiz Eduardo Indio da Costa. Responsável por redesenhar cenários que são o cartão-postal carioca, o arquiteto e urbanista transita livremente do racional ao orgânico, transformando paisagens urbanas em uma extensão da própria natureza.
Sua assinatura é marcada por uma profunda integração com o entorno, unindo o minimalismo do concreto aos vãos livres. Sem jamais competir com a paisagem, a estética prioriza a fluidez dos espaços sob a premissa da sustentabilidade e da economia, entregando uma funcionalidade que se adapta com precisão à dinâmica da vida contemporânea.
“Esse desafio permanece em todos os meus projetos para locais onde a natureza é tão forte que leva o projeto arquitetônico a se submeter a ela. Às vezes, a arquitetura pode se impor à paisagem, mas, em outros momentos, deve se mimetizar e tornar-se parte integrante dela”, define o arquiteto.
A arte como ponto de partida
Indio da Costa encontrou na arquitetura o caminho ideal para transformar seu dom para o desenho em projetos reais, unindo a liberdade do traço artístico ao rigor exigido pelas grandes construções
Luiz Garrido/Divulgação
Nascido no Rio Grande do Sul e radicado no Rio de Janeiro, Indio da Costa sentiu-se atraído pelo universo das artes ainda na infância, esde o cinema à escultura. Mas foi na pintura e no desenho — praticados em aulas “especialmente gratificantes”, como ele relembra — que encontrou sua maior afinidade.
Aos 17 anos, embora pendesse para as Belas Artes, a pressão familiar o induziu a buscar uma carreira mais estável na época. “A arquitetura me pareceu conciliar o meu prazer com uma profissão considerada mais sólida — apesar de ser, na época, ainda bastante marginal se comparada à engenharia, à medicina e à advocacia, que eram as três opções mais óbvias”, conta o arquiteto.
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O despertar do propósito
Movido pela busca do equilíbrio entre a arte e a solidez na profissão, Luiz decidiu ingressar na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Se no início da graduação o futuro parecia incerto, a clareza sobre seu propósito surgiu aos 21 anos, em sua primeira viagem à Europa, quando foi convidado para estagiar com Le Corbusier — episódio que, embora não tenha se concretizado, tornou-se um marco de prestígio em sua trajetória.
Ele aproveitou os seis meses de estadia para mergulhar na história da arte e da arquitetura, estudando grandes obras de perto. “Quando eu entrei pela primeira vez numa catedral gótica, tive a certeza de que queria dedicar a minha vida àquela alquimia, que transformava um monte de pedra e areia em algo tão sensacional e comovente. A minha decisão de fazer arquitetura se consolidou naquele momento. A viagem me ampliou horizontes”, ele recorda. Indio formou-se em 1960 e fundou seu próprio escritório em 1972.
Referências e inspirações
Com influências que transitam do rigor da Bauhaus ao modernismo de Lucio Costa, Afonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer, a trajetória de Indio da Costa foi moldada pelas principais referências de sua época. Embora profundamente enraizado nesse legado de vanguarda, o arquiteto nunca deixou de olhar para o futuro, mantendo-se em constante diálogo com as transformações da arquitetura global.
“No decorrer da vida, passei a acompanhar o trabalho e admirar vários outros arquitetos, em especial, Renzo Piano e Norman Foster, cujos trabalhos sempre me surpreendem pela seriedade, pelo justo equilíbrio entre a forma e a função, e pela preocupação com o meio ambiente e a vanguarda tecnológica”, diz Indio.
Ousadia estrutural e consolidação profissional
Ao analisar a trajetória construída, o profissional destaca a Residência Luis Affonso Otero como um divisor de águas em sua carreira. Erguida em 1970, na encosta acima do Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro, a obra foi o seu primeiro projeto de grande porte e a responsável por consolidar seu nome como arquiteto de residências ainda no início.
A Residência Luis Affonso Otero é frequentemente citada em retrospectivas sobre a evolução da moradia urbana no Rio, reconhecida pela ousadia estrutural e pelo respeito à vegetação nativa
Luiz Garrido/Divulgação
A estrutura em concreto armado parece flutuar sobre o declive, minimizando o impacto no terreno ao descortinar o Oceano Atlântico. Enquanto grandes planos de vidro e espaços integrados potencializam a luz e a ventilação natural, o contraste entre o concreto bruto e a madeira define sua assinatura estética no período.
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Essa ascensão contínua culminou em reconhecimentos máximos, como a Comenda Niemeyer. Concedida em 2006 pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), a distinção o tornou o primeiro profissional laureado com a honraria, selando definitivamente seu lugar na história da arquitetura brasileira.
Entre o rigor científico e a escala humana
Na década de 70, Indio da Costa assumiu seus primeiros grandes desafios em equipamentos públicos no Rio de Janeiro. O Inmetro, projetado em 1973, e o Sesc Madureira, finalizado no ano seguinte, tornaram-se pilares de uma atuação que passaria à escala institucional, demonstrando sua capacidade de articular programas complexos que exigiam, ao mesmo tempo, rigor normativo e sensibilidade para o uso coletivo.
O projeto do Inmetro em Xerém, no Rio de Janeiro, é uma das obras emblemáticas de Luiz Eduardo Indio da Costa, caracterizada por prédios de concreto e laboratórios semienterrados que minimizam variações térmicas e interferências
Celso Brando/Divulgação
Embora contemporâneos, Luiz pontua que ambos representaram abordagens distintas. O primeiro exigiu um rigor técnico quase científico. “O Inmetro é um projeto que envolveu cientistas e viagens internacionais para maior compreensão do tema; um projeto fechado em si mesmo, onde essa compreensão resultou em formas diferentes e herméticas. Ele se impõe pela forma, pela força e por um programa de necessidades muito específico de laboratórios de alta tecnologia”, justifica.
Projetado por Indio da Costa sob o conceito de arquitetura evolutiva, o Sesc Madureira funciona como um organismo vivo capaz de se adaptar e sofrer modificações ao longo do tempo sem comprometer a sua essência arquitetônica
Acervo Indio da Costa AUDT/Divulgação
Em uma direção contrária, o Sesc Madureira surge como uma obra aberta e multifacetada, estruturada para futuras expansões. “É o que eu poderia chamar de uma arquitetura evolutiva. Isso resultou em uma solução doce, muito voltada para a escala humana, com volumes diferenciados e interligados, propícia a acréscimos futuros, sem desconfigurar a concepção global”, ele complementa.
Evolução multidisciplinar
A carreira de Indio da Costa expandiu-se para além das fronteiras da arquitetura tradicional ao abraçar diferentes escalas do cotidiano. Em 1996, com a incorporação de seu filho, Guto Indio da Costa, formado em Design Industrial, o escritório fundou seu núcleo de design e transporte, consolidando o escritório como atual Indio da Costa A.U.D.T (Arquitetura, Urbanismo, Design e Transporte).
Luiz Eduardo Indio da Costa e seu filho, Guto Indio da Costa, formam uma das mais influentes parcerias no cenário de arquitetura, urbanismo e design industrial do Brasil, atuando juntos na Indio da Costa AUDT no Rio de Janeiro
Acervo Indio da Costa AUDT/Divulgação
Essa sinergia entrega uma visão holística da metrópole ao unir o planejamento de fluxos à experiência do movimento. Enquanto Luiz domina o urbanismo e o plano diretor, Guto imprime sua expertise em design industrial no desenho de veículos e mobiliários. O resultado são marcos de mobilidade e renovação urbana, como o VLT Carioca, no Rio, e o BHLS Transoceânica, em Niterói.
O VLT Carioca é fruto da parceria entre o designer Guto Indio da Costa e seu pai, o arquiteto Luiz Eduardo Indio da Costa, que aplicou sua experiência em urbanismo para integrar o sistema à malha urbana do Rio de Janeiro
Wagner Ziegelmeyer/Divulgação
“Com a entrada do Guto, ampliamos a nossa atuação para o design de produtos e o transporte, numa evolução natural e complementar. A experiência é enriquecedora e está sempre em plena evolução. Hoje, atuamos do micro ao macro, do desenho de uma lapiseira a projetos de escala gigante, como masterplans de cidades e municípios. Essa diversidade é estimulante e desafiadora”, ele celebra com entusiasmo a parceria com o filho.
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Confira outros projetos marcantes de Indio da Costa, que abrangem desde residências a grandes complexos institucionais e urbanísticos:
Residência Mata Atlântica
A Residência Mata Atlântica utiliza sua posição de mirante para explorar a amplitude e a simplicidade, estabelecendo uma conexão tão íntima com o terreno que se torna uma continuidade natural da paisagem
Leonardo Lopes/Divulgação
Considerada um de seus projetos mais icônicos, a Residência Mata Atlântica é um marco da arquitetura de alto padrão, concluída em 2010, no Rio de Janeiro. Situada em uma encosta íngreme, a construção de 2.200 m² desafia a topografia acentuada ao integrar-se à floresta nativa através de uma estrutura em concreto armado, mármore travertino e vidro. O projeto resulta em uma casa-mirante de três níveis, onde o uso de pés-direitos duplos e terraços suspensos potencializa a conexão com a paisagem e as vistas panorâmicas da região.
Residência Leblon
A Residência Leblon integra interiores e jardins através de grandes vãos e planos de vidro, priorizando a amplitude e a continuidade espacial
Renan Cepeda/Divulgação
A Residência Leblon une simplicidade e detalhe em 2.300 m², estabelecendo uma integração sutil com a paisagem urbana do bairro. O projeto utiliza o jogo de luz e sombra como elemento central para conferir profundidade e dinamismo às fachadas, enquanto sua estrutura busca leveza visual através de grandes planos e ambientes fluidos. O resultado é um exemplo emblemático de como a arquitetura de alto padrão pode se inserir com elegância e discrição nos terrenos planos e densos da Zona Sul.
Residência Encosta do Corcovado
A Residência Encosta do Corcovado foca no diálogo imediato com a textura da montanha e da mata que a circunda, estabelecendo um contraponto entre a rigidez geométrica da estrutura e a organicidade exuberante da floresta
Mario Grisolli/Divulgação
A Residência Encosta do Corcovado compartilha a filosofia de integração radical com a natureza em 880 m². Sua arquitetura acompanha o aclive do terreno e prioriza a transparência, utilizando concreto e pedra para dialogar com a umidade da mata. Grandes panos de vidro garantem a integração visual e a ventilação natural constante, resultando em um projeto focado na introspecção da floresta e na abertura para a Lagoa Rodrigo de Freitas, o mar, o Morro Dois Irmãos e a Baía de Guanabara.
Escola de Ensino Médio Sesc Barra
O Polo Educacional Sesc, frequentemente chamado de Sesc Barra, é uma das unidades mais singulares da rede, operando sob o conceito de cidade educativa ao integrar moradia, ensino e cultura em um campus sustentável, refletindo a assinatura do arquiteto ao integrar grandes estruturas à paisagem natural
Mario Grisolli/Divulgação
A Escola Sesc de Ensino Médio, situada em um terreno de 131 mil m² na Barra da Tijuca, figura como uma das criações mais complexas do arquiteto, concluída em 2007. Concebida como uma cidade educativa, a estrutura articula blocos residenciais e pedagógicos em um campus sustentável que prioriza a convivência. O projeto alia soluções ecoeficientes, como ventilação natural e o uso de aço e vidro, a uma infraestrutura completa e harmonizada à paisagem. O resultado é uma referência em arquitetura escolar, transformando um programa extenso em um espaço humano de aprendizado.
Rio Cidade Leblon
O Rio Cidade Leblon foi uma das intervenções urbanísticas mais marcantes do programa Rio Cidade na década de 90, redesenhando a Avenida Ataulfo de Paiva e seus arredores para priorizar a circulação de pedestres e integrar o mobiliário urbano
Tiago Santana/Divulgação
Vencedor de concurso público e executado em 1996, o Rio Cidade Leblon é uma intervenção urbanística de Indio da Costa que redefiniu 100 mil m² do bairro. Focada na experiência humana, a obra ampliou calçadas, organizou o trânsito e introduziu mobiliário acessível, especialmente na Avenida Ataulfo de Paiva. Ao resgatar pedras portuguesas e reorganizar a Praça Antero de Quental, o projeto consagrou a trajetória do arquiteto ao transformar a relação entre as pessoas e a cidade.
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Portfólio em expansão e projetos marcantes
Além das obras mencionadas, seu portfólio abrange outros marcos significativos que reafirmam sua habilidade em unir arquitetura, urbanismo e design. Entre eles, destacam o Centro Cultural Sesc Paraty, atualmente em construção, e a Marina da Glória, cujo projeto foi vencedor de concurso internacional, embora não tenha sido executado. Sua trajetória é ainda pontuada por inúmeras outras residências de prestígio e premiadas.
O novo Centro Cultural Sesc Paraty, assinado por Indio da Costa e atualmente em construção, visa ampliar as ações culturais e de preservação na cidade, complementando o polo sociocultural já existente no centro histórico
Ana Paula Pontes/Divulgação
Na escala urbana, sobressaem intervenções como a Orla de Maceió — cujo projeto já foi entregue e está em processo de licitação — e o Parque da Orla de Balneário Camboriú, que inicia agora sua fase de obras. Soma-se a eles a Orla de Charitas, projeto vencedor de concurso público do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que ainda aguarda execução.
Mesmo diante de um legado tão vasto, Indio da Costa mantém o olhar no horizonte: “espero fortemente que esses marcos sejam superados por projetos futuros, cada vez mais desafiadores”, anseia o arquiteto.
Sua assinatura é marcada por uma profunda integração com o entorno, unindo o minimalismo do concreto aos vãos livres. Sem jamais competir com a paisagem, a estética prioriza a fluidez dos espaços sob a premissa da sustentabilidade e da economia, entregando uma funcionalidade que se adapta com precisão à dinâmica da vida contemporânea.
“Esse desafio permanece em todos os meus projetos para locais onde a natureza é tão forte que leva o projeto arquitetônico a se submeter a ela. Às vezes, a arquitetura pode se impor à paisagem, mas, em outros momentos, deve se mimetizar e tornar-se parte integrante dela”, define o arquiteto.
A arte como ponto de partida
Indio da Costa encontrou na arquitetura o caminho ideal para transformar seu dom para o desenho em projetos reais, unindo a liberdade do traço artístico ao rigor exigido pelas grandes construções
Luiz Garrido/Divulgação
Nascido no Rio Grande do Sul e radicado no Rio de Janeiro, Indio da Costa sentiu-se atraído pelo universo das artes ainda na infância, esde o cinema à escultura. Mas foi na pintura e no desenho — praticados em aulas “especialmente gratificantes”, como ele relembra — que encontrou sua maior afinidade.
Aos 17 anos, embora pendesse para as Belas Artes, a pressão familiar o induziu a buscar uma carreira mais estável na época. “A arquitetura me pareceu conciliar o meu prazer com uma profissão considerada mais sólida — apesar de ser, na época, ainda bastante marginal se comparada à engenharia, à medicina e à advocacia, que eram as três opções mais óbvias”, conta o arquiteto.
Leia mais
O despertar do propósito
Movido pela busca do equilíbrio entre a arte e a solidez na profissão, Luiz decidiu ingressar na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Se no início da graduação o futuro parecia incerto, a clareza sobre seu propósito surgiu aos 21 anos, em sua primeira viagem à Europa, quando foi convidado para estagiar com Le Corbusier — episódio que, embora não tenha se concretizado, tornou-se um marco de prestígio em sua trajetória.
Ele aproveitou os seis meses de estadia para mergulhar na história da arte e da arquitetura, estudando grandes obras de perto. “Quando eu entrei pela primeira vez numa catedral gótica, tive a certeza de que queria dedicar a minha vida àquela alquimia, que transformava um monte de pedra e areia em algo tão sensacional e comovente. A minha decisão de fazer arquitetura se consolidou naquele momento. A viagem me ampliou horizontes”, ele recorda. Indio formou-se em 1960 e fundou seu próprio escritório em 1972.
Referências e inspirações
Com influências que transitam do rigor da Bauhaus ao modernismo de Lucio Costa, Afonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer, a trajetória de Indio da Costa foi moldada pelas principais referências de sua época. Embora profundamente enraizado nesse legado de vanguarda, o arquiteto nunca deixou de olhar para o futuro, mantendo-se em constante diálogo com as transformações da arquitetura global.
“No decorrer da vida, passei a acompanhar o trabalho e admirar vários outros arquitetos, em especial, Renzo Piano e Norman Foster, cujos trabalhos sempre me surpreendem pela seriedade, pelo justo equilíbrio entre a forma e a função, e pela preocupação com o meio ambiente e a vanguarda tecnológica”, diz Indio.
Ousadia estrutural e consolidação profissional
Ao analisar a trajetória construída, o profissional destaca a Residência Luis Affonso Otero como um divisor de águas em sua carreira. Erguida em 1970, na encosta acima do Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro, a obra foi o seu primeiro projeto de grande porte e a responsável por consolidar seu nome como arquiteto de residências ainda no início.
A Residência Luis Affonso Otero é frequentemente citada em retrospectivas sobre a evolução da moradia urbana no Rio, reconhecida pela ousadia estrutural e pelo respeito à vegetação nativa
Luiz Garrido/Divulgação
A estrutura em concreto armado parece flutuar sobre o declive, minimizando o impacto no terreno ao descortinar o Oceano Atlântico. Enquanto grandes planos de vidro e espaços integrados potencializam a luz e a ventilação natural, o contraste entre o concreto bruto e a madeira define sua assinatura estética no período.
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Essa ascensão contínua culminou em reconhecimentos máximos, como a Comenda Niemeyer. Concedida em 2006 pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), a distinção o tornou o primeiro profissional laureado com a honraria, selando definitivamente seu lugar na história da arquitetura brasileira.
Entre o rigor científico e a escala humana
Na década de 70, Indio da Costa assumiu seus primeiros grandes desafios em equipamentos públicos no Rio de Janeiro. O Inmetro, projetado em 1973, e o Sesc Madureira, finalizado no ano seguinte, tornaram-se pilares de uma atuação que passaria à escala institucional, demonstrando sua capacidade de articular programas complexos que exigiam, ao mesmo tempo, rigor normativo e sensibilidade para o uso coletivo.
O projeto do Inmetro em Xerém, no Rio de Janeiro, é uma das obras emblemáticas de Luiz Eduardo Indio da Costa, caracterizada por prédios de concreto e laboratórios semienterrados que minimizam variações térmicas e interferências
Celso Brando/Divulgação
Embora contemporâneos, Luiz pontua que ambos representaram abordagens distintas. O primeiro exigiu um rigor técnico quase científico. “O Inmetro é um projeto que envolveu cientistas e viagens internacionais para maior compreensão do tema; um projeto fechado em si mesmo, onde essa compreensão resultou em formas diferentes e herméticas. Ele se impõe pela forma, pela força e por um programa de necessidades muito específico de laboratórios de alta tecnologia”, justifica.
Projetado por Indio da Costa sob o conceito de arquitetura evolutiva, o Sesc Madureira funciona como um organismo vivo capaz de se adaptar e sofrer modificações ao longo do tempo sem comprometer a sua essência arquitetônica
Acervo Indio da Costa AUDT/Divulgação
Em uma direção contrária, o Sesc Madureira surge como uma obra aberta e multifacetada, estruturada para futuras expansões. “É o que eu poderia chamar de uma arquitetura evolutiva. Isso resultou em uma solução doce, muito voltada para a escala humana, com volumes diferenciados e interligados, propícia a acréscimos futuros, sem desconfigurar a concepção global”, ele complementa.
Evolução multidisciplinar
A carreira de Indio da Costa expandiu-se para além das fronteiras da arquitetura tradicional ao abraçar diferentes escalas do cotidiano. Em 1996, com a incorporação de seu filho, Guto Indio da Costa, formado em Design Industrial, o escritório fundou seu núcleo de design e transporte, consolidando o escritório como atual Indio da Costa A.U.D.T (Arquitetura, Urbanismo, Design e Transporte).
Luiz Eduardo Indio da Costa e seu filho, Guto Indio da Costa, formam uma das mais influentes parcerias no cenário de arquitetura, urbanismo e design industrial do Brasil, atuando juntos na Indio da Costa AUDT no Rio de Janeiro
Acervo Indio da Costa AUDT/Divulgação
Essa sinergia entrega uma visão holística da metrópole ao unir o planejamento de fluxos à experiência do movimento. Enquanto Luiz domina o urbanismo e o plano diretor, Guto imprime sua expertise em design industrial no desenho de veículos e mobiliários. O resultado são marcos de mobilidade e renovação urbana, como o VLT Carioca, no Rio, e o BHLS Transoceânica, em Niterói.
O VLT Carioca é fruto da parceria entre o designer Guto Indio da Costa e seu pai, o arquiteto Luiz Eduardo Indio da Costa, que aplicou sua experiência em urbanismo para integrar o sistema à malha urbana do Rio de Janeiro
Wagner Ziegelmeyer/Divulgação
“Com a entrada do Guto, ampliamos a nossa atuação para o design de produtos e o transporte, numa evolução natural e complementar. A experiência é enriquecedora e está sempre em plena evolução. Hoje, atuamos do micro ao macro, do desenho de uma lapiseira a projetos de escala gigante, como masterplans de cidades e municípios. Essa diversidade é estimulante e desafiadora”, ele celebra com entusiasmo a parceria com o filho.
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Confira outros projetos marcantes de Indio da Costa, que abrangem desde residências a grandes complexos institucionais e urbanísticos:
Residência Mata Atlântica
A Residência Mata Atlântica utiliza sua posição de mirante para explorar a amplitude e a simplicidade, estabelecendo uma conexão tão íntima com o terreno que se torna uma continuidade natural da paisagem
Leonardo Lopes/Divulgação
Considerada um de seus projetos mais icônicos, a Residência Mata Atlântica é um marco da arquitetura de alto padrão, concluída em 2010, no Rio de Janeiro. Situada em uma encosta íngreme, a construção de 2.200 m² desafia a topografia acentuada ao integrar-se à floresta nativa através de uma estrutura em concreto armado, mármore travertino e vidro. O projeto resulta em uma casa-mirante de três níveis, onde o uso de pés-direitos duplos e terraços suspensos potencializa a conexão com a paisagem e as vistas panorâmicas da região.
Residência Leblon
A Residência Leblon integra interiores e jardins através de grandes vãos e planos de vidro, priorizando a amplitude e a continuidade espacial
Renan Cepeda/Divulgação
A Residência Leblon une simplicidade e detalhe em 2.300 m², estabelecendo uma integração sutil com a paisagem urbana do bairro. O projeto utiliza o jogo de luz e sombra como elemento central para conferir profundidade e dinamismo às fachadas, enquanto sua estrutura busca leveza visual através de grandes planos e ambientes fluidos. O resultado é um exemplo emblemático de como a arquitetura de alto padrão pode se inserir com elegância e discrição nos terrenos planos e densos da Zona Sul.
Residência Encosta do Corcovado
A Residência Encosta do Corcovado foca no diálogo imediato com a textura da montanha e da mata que a circunda, estabelecendo um contraponto entre a rigidez geométrica da estrutura e a organicidade exuberante da floresta
Mario Grisolli/Divulgação
A Residência Encosta do Corcovado compartilha a filosofia de integração radical com a natureza em 880 m². Sua arquitetura acompanha o aclive do terreno e prioriza a transparência, utilizando concreto e pedra para dialogar com a umidade da mata. Grandes panos de vidro garantem a integração visual e a ventilação natural constante, resultando em um projeto focado na introspecção da floresta e na abertura para a Lagoa Rodrigo de Freitas, o mar, o Morro Dois Irmãos e a Baía de Guanabara.
Escola de Ensino Médio Sesc Barra
O Polo Educacional Sesc, frequentemente chamado de Sesc Barra, é uma das unidades mais singulares da rede, operando sob o conceito de cidade educativa ao integrar moradia, ensino e cultura em um campus sustentável, refletindo a assinatura do arquiteto ao integrar grandes estruturas à paisagem natural
Mario Grisolli/Divulgação
A Escola Sesc de Ensino Médio, situada em um terreno de 131 mil m² na Barra da Tijuca, figura como uma das criações mais complexas do arquiteto, concluída em 2007. Concebida como uma cidade educativa, a estrutura articula blocos residenciais e pedagógicos em um campus sustentável que prioriza a convivência. O projeto alia soluções ecoeficientes, como ventilação natural e o uso de aço e vidro, a uma infraestrutura completa e harmonizada à paisagem. O resultado é uma referência em arquitetura escolar, transformando um programa extenso em um espaço humano de aprendizado.
Rio Cidade Leblon
O Rio Cidade Leblon foi uma das intervenções urbanísticas mais marcantes do programa Rio Cidade na década de 90, redesenhando a Avenida Ataulfo de Paiva e seus arredores para priorizar a circulação de pedestres e integrar o mobiliário urbano
Tiago Santana/Divulgação
Vencedor de concurso público e executado em 1996, o Rio Cidade Leblon é uma intervenção urbanística de Indio da Costa que redefiniu 100 mil m² do bairro. Focada na experiência humana, a obra ampliou calçadas, organizou o trânsito e introduziu mobiliário acessível, especialmente na Avenida Ataulfo de Paiva. Ao resgatar pedras portuguesas e reorganizar a Praça Antero de Quental, o projeto consagrou a trajetória do arquiteto ao transformar a relação entre as pessoas e a cidade.
Leia mais
Portfólio em expansão e projetos marcantes
Além das obras mencionadas, seu portfólio abrange outros marcos significativos que reafirmam sua habilidade em unir arquitetura, urbanismo e design. Entre eles, destacam o Centro Cultural Sesc Paraty, atualmente em construção, e a Marina da Glória, cujo projeto foi vencedor de concurso internacional, embora não tenha sido executado. Sua trajetória é ainda pontuada por inúmeras outras residências de prestígio e premiadas.
O novo Centro Cultural Sesc Paraty, assinado por Indio da Costa e atualmente em construção, visa ampliar as ações culturais e de preservação na cidade, complementando o polo sociocultural já existente no centro histórico
Ana Paula Pontes/Divulgação
Na escala urbana, sobressaem intervenções como a Orla de Maceió — cujo projeto já foi entregue e está em processo de licitação — e o Parque da Orla de Balneário Camboriú, que inicia agora sua fase de obras. Soma-se a eles a Orla de Charitas, projeto vencedor de concurso público do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que ainda aguarda execução.
Mesmo diante de um legado tão vasto, Indio da Costa mantém o olhar no horizonte: “espero fortemente que esses marcos sejam superados por projetos futuros, cada vez mais desafiadores”, anseia o arquiteto.



