A casa brasileira ficou refém do ar-condicionado? O que fazer para refrescá-la?

Janelas largas, portas generosas e pé-direito alto garantiam ventilação cruzada e ambientes naturalmente frescos nos antigos imóveis brasileiros. Hoje, com fachadas envidraçadas, aberturas reduzidas e tetos baixos, as construções retêm o calor, tornando as residências mais quentes e dependentes do ar-condicionado.
Esse movimento ganhou força a partir da segunda metade do século 20, quando os aparelhos se popularizaram junto ao avanço dos edifícios modernistas, caracterizados por estruturas seladas e grandes superfícies de vidro.
“Esses elementos eliminaram a ventilação cruzada e o sombreamento, substituindo soluções passivas que garantiam conforto térmico antes mesmo da existência da climatização mecânica”, explica Loyde Abreu, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
Em São Paulo, essa casa tradicional do século 20 tem a entrada pela lateral e janelões voltados para a rua, os quais garantem abundância de ventilação natural
Guilherme Pucci/Divulgação | Projeto do escritório Arquitetura Meridional
Paredes tradicionais de taipa, adobe e tijolo maciço — que atrasavam a transferência de calor para o interior entre quatro e oito horas — foram substituídas por paredes leves, cuja defasagem térmica varia de 40 a 90 minutos.
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Da mesma forma, as coberturas de telha cerâmica, capazes de reduzir a temperatura interna em 3 °C a 5 °C graças ao colchão de ar, deram lugar a lajes planas sem beirais, que intensificam o aquecimento.
Casa de vila no Rio de Janeiro tem vitral na porta e janelas laterais que contribuem com a circulação de ar e a entrada de luz natural
Juliano Colodeti/MCA Estúdio/Divulgação | Projeto do escritório Studioduas Arquitetura
“As construções antigas, com janelas amplas, portas largas e pé-direito elevado, favoreciam uma ventilação natural muito mais eficiente do que as edificações atuais. Abrir completamente janelas e portas podia gerar até 40 trocas de ar por hora (ACH), como observado em edificações históricas de Lima, no Peru. Hoje, construções modernas, com aberturas reduzidas, registram apenas 17 ACH nas mesmas condições”, afirma Loyde.
Por que imóveis atuais são mais quentes?
A arquiteta e urbanista Fernanda Basques Moura Quintão, conselheira federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), explica que os imóveis atuais parecem mais quentes porque foram concebidos com menor adequação climática.
Margeando o gramado em patamar inferior, a área externa conta com espada-de-são-jorge. A vegetação contribui com o clima fresco na casa
OKA Fotografia/Divulgação | Projeto dos arquitetos João Gabriel Rosa e Marinna Alves de Paula
“Ao longo das últimas décadas, a produção imobiliária se padronizou muito, repetindo soluções semelhantes em diferentes regiões do país, sem considerar o clima, a orientação solar e a ventilação natural. Em vez de adaptar a arquitetura às condições locais, em muitos casos passamos a repetir modelos prontos e a compensar depois com climatização artificial”, ressalta.
Para ela, mais do que “andar para trás”, o Brasil deixou de aplicar um conhecimento que já dominava em suas construções. “O Brasil tem tradição em arquitetura adaptada ao clima, mas parte desse repertório foi sendo deixada de lado.”
A grande esquadria de vidro conecta a cozinha ao paisagismo da área externa, trazendo frescor visual e ventilação ao ambiente
Yuri Mazará/Divulgação | Projeto do escritório GDL Arquitetura, do arquiteto Gabriel de Lucca | Paisagismo de Filippo Motta
Segundo Loyde, as edificações recentes se tornaram mais quentes devido a três fatores:
Combinação de pé-direito baixo e uso excessivo de vidro sem proteção solar: com tetos mais baixos, o volume de ar interno diminui, concentrando o calor na altura das pessoas. Estudos mostram que a diferença térmica vertical em ambientes com pé-direito reduzido pode chegar a 4 °C, pois o ar quente encontra menos espaço para se estratificar, acelerando o aquecimento interno.
Fachadas contemporâneas com grandes áreas envidraçadas sem sombreamento: em climas quentes e úmidos, isso eleva a temperatura média radiante próxima às janelas para acima de 50 °C quando o vidro simples está exposto ao sol, aumentando o desconforto térmico e a carga de resfriamento exigida pelo ar-condicionado.
Reformas que fecham aberturas naturais e prejudicam a ventilação cruzada: nas construções antigas, janelas amplas e portas largas permitiam que o ar quente fosse rapidamente expelido e substituído por ar mais fresco. Hoje, com aberturas mais estreitas, há uma redução significativa na renovação do ar, o que aumenta o acúmulo de calor e obriga os moradores a recorrer com maior frequência a ventiladores ou ao ar-condicionado. Como resultado, os imóveis atuais tendem a aquecer mais do que os antigos.
Externamente, o piso de tijolo maciço, comprado em loja local, traz um ar rústico à piscina, revestida de pedra hijau
Daniela Magario/Divulgação | Produção: Alay Riba/Divulgação | Projeto do escritório Sabugosa Arquitetura, do arquiteto Gabriel Sabugosa
O que pode ser feito?
Pesquisas indicam que, sem ventilação natural e sombreamento adequados, cidades como Belo Horizonte, MG, podem registrar aumento de até 77% no consumo total de energia à medida que as temperaturas extremas se intensificam.
De olho nesse cenário, especialistas orientam que a primeira medida para tornar a residência mais fresca e menos dependente do ar-condicionado é compreender o clima local e ajustar a operação do imóvel de acordo com ele.
A casa de taipa em Itaipava, no interior do Rio de Janeiro, usou barro, bambu e madeira em sua construção
André Nazareth/Divulgação | Projeto da arquiteta Nathália Moraes, em parceria com a paisagista Sonia Infante
“Mas esse repensar o jeito de construir não significa inventar tudo de novo. Significa recuperar e atualizar um conhecimento que já existe na arquitetura brasileira: construir com inteligência climática”, coloca Fernanda.
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Também é preciso voltar a projetar construções considerando a orientação solar, a ventilação cruzada, o sombreamento, o desempenho das coberturas, o uso de materiais adequados ao clima e a integração com a vegetação e o microclima urbano.
A parede curva feita com adobe de taipa pela Taipal envolve parte do térreo e parece apoiar o volume superior, que tem estrutura de concreto e paredes de alvenaria com pintura da Tintas e Cores
Fran Parente/Divulgação | Projeto do escritório Meireles + Pavan
“O Brasil é um país de clima predominantemente quente. Não faz sentido continuar reproduzindo soluções genéricas, iguais para norte, sul, leste e oeste. A resposta precisa ser mais técnica, mais local e mais arquitetônica”, defende a arquiteta do CAU/BR.
Medidas para refrescar seu imóvel
Fernanda ainda destaca medidas que podem ajudar a reduzir o aquecimento interno dos imóveis e aumentar o conforto térmico, mesmo sem grandes reformas:
Melhorar a circulação de ar: é essencial criar trajetos de entrada e saída para o fluxo de ar. Apenas abrir uma janela não garante ventilação eficiente se não houver passagem para o ar atravessar o ambiente. A chamada ventilação cruzada é uma ótima medida, ela ocorre quando aberturas estão posicionadas em fachadas opostas ou complementares, permitindo maior renovação do ar e redução da sensação de abafamento.
Proteger as fachadas da radiação solar direta: cortinas, persianas, brises, películas de controle solar e elementos de sombreamento externo reduzem a carga térmica que incide sobre paredes e janelas. Essa barreira diminui a temperatura média radiante e reduz a necessidade de climatização artificial.
Plantas liberam vapor de água por meio da transpiração, o que ajuda a reduzir a sensação de calor e o ar seco dentro de casa
André Scarpa/Divulgação | Produção: Deborah Apsan/Divulgação | Projeto do escritório Nitsche Arquitetos | Paisagismo de Catê Poli
Reduzir fontes internas de calor: equipamentos eletrônicos e iluminação artificial geram calor adicional. Por isso, evitar o uso excessivo desses elementos contribui para manter a temperatura interna mais baixa e reduzir o desconforto térmico.
Tratar cobertura e esquadrias: o telhado e as janelas são pontos críticos de ganho de calor. Esquadrias bem vedadas e com vidros adequados ao clima ajudam a controlar a transferência de calor.
Utilizar vegetação: árvores, trepadeiras e jardins verticais funcionam como barreiras naturais de sombreamento e contribuem para a melhoria do microclima urbano. Além de reduzir a temperatura ao redor da edificação, aumentam a umidade relativa do ar e favorecem o conforto térmico.
Árvores e trepadeiras reduzem a incidência direta do sol sobre paredes, janelas e telhados, diminuindo o aquecimento interno
Claudio Fonseca/Divulgação | Projeto do arquiteto Maurício Pinheiro Lima | Paisagismo por Roberto Riscala
Loyde, da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), também orienta manter janelas abertas por pelo menos duas horas por dia para garantir a renovação do ar e a remoção do CO₂ acumulado, especialmente no início da manhã e à noite.
“No Brasil, pesquisas mostram que janelas com aberturas amplas e portas parcialmente abertas reduzem o desconforto térmico em até 60% em edificações desse tipo, justamente por potencializar a ventilação cruzada e a renovação do ar”, ela pontua.

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