Nomes como Charlotte Perriand, Estella Aronis e Regina Gomide Graz ajudaram a moldar a história do design, mas nem sempre são lembrados. O apagamento dessas designers passa por inúmeros fatores: desde a crença de que apenas homens podiam criar algo do zero à presença feminina tardia nas universidades.
Apesar de não serem reconhecidas, as mulheres sempre produziram arte – muitas vezes, dentro de casa. “A divisão ‘sexual’ do trabalho interfere na visibilidade: a esfera doméstica, historicamente associada às mulheres, é menos valorizada do que a pública, culturalmente articulada aos homens”, aponta Maureen Schaefer França, professora do Departamento Acadêmico de Desenho Industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
No âmbito doméstico, as mulheres faziam bordados, têxteis e cerâmicas – consideradas “artes menores”. “Acreditava-se que as mulheres precisavam de atividades para os momentos de ócio. Nesse contexto, entra o artesanato. Revistas e jornais ensinavam estampas e bordados, o que levou a sociedade a associar a prática feminina a uma arte reprodutiva, e não criativa”, conta Lindsay Cresto, professora de Teoria e História do Design e Semiótica na UTFPR.
As produções das mulheres ficavam restritas ao ambiente doméstico ou eram vendidas para aumentar a renda da casa – mas de forma discreta, já que nos séculos passados era uma vergonha para os homens não conseguir sustentar a casa sozinho.
Nos livros de história do design, as peças lembradas são de homens como William Morris, do movimento Arts and Crafts – que defendia o artesanato criativo e os materiais naturais no século 19 – e fundou a empresa Morris & Co., dedicada à produção de móveis, papéis de parede e têxteis.
“Pouca gente sabe que uma de suas filhas trabalhou como designer na empresa e chegou a dirigir um setor. Isso mostra como os artefatos escolhidos para contar essa história influenciam a narrativa: quando ligados ao artesanato e às mulheres, são menos valorizados; quando feitos por homens, viram obras de gênio”, reflete Lindsay.
“Mesmo em uma área considerada feminina, quando homens se destacam nela, são atribuídas características distintas, como técnica, precisão, genialidade, ou seja, atributos que estão historicamente associados à racionalidade e à masculinidade”, complementa Maureen.
Com a criação da escola Bauhaus, na Alemanha, conhecida por revolucionar a arquitetura e o design mundial, algumas mulheres passaram a se inscrever nos cursos. Quando aceitas, a instituição era responsável por escolher qual área do design elas integrariam. A maior parte era direcionada a um mesmo segmento: o têxtil.
“Os mestres acreditavam que as mulheres não tinham capacidade de visualização tridimensional. Por isso, elas eram sistematicamente redirecionadas para a oficina de tecelagem, sendo afastadas da marcenaria e da arquitetura”, descreve Lindsay.
Já no Brasil, a presença das mulheres, independente da área, chega mais tarde. Foi na década de 1960 que surgiram cursos de design no Brasil. Algumas mulheres ganharam espaço como professoras, como Carmem Portinho e Daisy Igel – mas os homens ainda eram a maioria. “Nos anos 1970, torna-se notório o ingresso de alunas”, pontua Maureen.
“O impacto no design muda à medida que as mulheres, sobretudo as com consciência feminista, ocupam espaços de poder, quando têm mais acesso à formação acadêmica e à especialização, quando se pesquisa mais sobre as mulheres”, adiciona Maureen.
Ana Julia Melo Almeida, doutora em design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), aponta que, na década de 1980, as pesquisas acadêmicas passaram a questionar as formas como as mulheres eram representadas na arte e no design.
“Esse movimento passou a investigar como a história da arte e do design ocultou algumas trajetórias enquanto legitimou outras. Isso teve um impacto nos estudos acadêmicos, nas narrativas mobilizadas em torno de exposições e também no próprio mercado”, explica Ana.
Hoje, as designers que marcaram a história são cada vez mais alvo de pesquisas acadêmicas, contudo, ainda é difícil identificar e contar a história dessas mulheres – já que os registros são poucos e muitas vezes, não existe sequer uma foto da pessoa.
Para recuperar parte dessas trajetórias pouco conhecidas, reunimos a seguir oito designers que marcaram a história da área:
Lilly Reich
Lilly Reich começou como costureira industrial e, com o tempo, desenvolveu móveis e projetos arquitetônicos
design TOP 100/Wikimedia Commons
A alemã Lilly Reich (1885-1947) começou a carreira trabalhando como costureira industrial, uma das poucas carreiras do design disponíveis para as mulheres no início do século 20. Ela tinha domínio sobre a textura, a cor e sobre como o corpo humano ocupa o espaço – o que a levou a ser parceira de trabalho de Mies van der Rohe, arquiteto modernista alemão.
“Grande parte do mobiliário icônico associado a Mies van der Rohe surgiu durante sua parceria com Lilly Reich, com quem trabalhou intensamente entre o fim dos anos 1920 e o início dos 1930. Hoje, muitos pesquisadores destacam o papel central de Reich nesses projetos, que por décadas ficaram atribuídos quase exclusivamente a ele”, diz Maureen.
A cadeira Barcelona, criada por Ludwig Mies van der Rohe e Lilly Reich para o pavilhão alemão na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, tornou-se um dos móveis mais icônicos do modernismo
vicens/Wikimedia Commons
Uma das peças mais reconhecidas é a cadeira Barcelona, atribuída em muitas publicações como de “Ludwig Mies van der Rohe em colaboração com a designer Lilly Reich”. A cadeira se destaca pela estrutura curva em aço cromado em forma de “X”, pelas linhas minimalistas e pelas almofadas de couro com botões, que criam um visual elegante e escultural.
Charlotte Perriand
A designer Charlotte Perriand adaptou os móveis para o dia a dia e explorou o uso de materiais naturais
Robert Doisneau/Wikimedia Commons
A francesa Charlotte Perriand (1903-1999) é conhecida por adaptar a geometria rigorosa do modernismo às formas do corpo e às realidades da vida cotidiana.
Em seus projetos explorou diferentes materiais – do uso de aço tubular à adoção de materiais naturais como palha e madeira. Com eles, chegou a projetar a mesa de centro Rio, pensada para o apartamento de seu marido no Brasil.
A Chaise Longue LC4 tornou-se um ícone do design moderno ao unir estrutura metálica e ergonomia, e foi desenhada por Charlotte Perriand
jeanbaptisteparis/Wikimedia Commons
“Ela trabalhou no escritório de Le Corbusier. Ele exigia que todos os projetos fossem creditados ao escritório. Um dos seus móveis mais famosos é a Chaise Longue LC4, projeto de Charlotte Perriand”, conta Lindsay.
Leia mais
Ray Eames
Charles e Ray Eames são um casal de design reconhecido por unir praticidade e estética
Charles&RayEamesFoundation/Reprodução
Enquanto algumas mulheres eram apagadas pelos seus maridos, Ray Eames (1912-1988) tinha o seu trabalho elogiado pelo marido, Charles Eames (1907-1978). O design do casal reúne características como funcionalidade, estética e usabilidade, combinando planejamento, solução de problemas e atenção à experiência do usuário.
Por mais que fosse exaltada pelo marido, nem sempre a sociedade narrava o seu trabalho da mesma forma.
‘O que funciona bem é melhor do que o que parece bonito, porque o que funciona bem dura’, dizia Ray Eames
Picryl/Creative Commons
“Em um programa de TV nos Estados Unidos, o apresentador apontou Charles como o designer responsável pela criação e tratou Ray apenas como alguém que ‘ajudava’ o marido. O próprio Charles, no entanto, fez questão de afirmar que os dois pensavam e trabalhavam juntos em todos os projetos”, exemplifica Maureen.
A cadeira Infantil, criada por Charles e Ray Eames, combina funcionalidade e simplicidade: o recorte em forma de coração no encosto permite levantá-la com um único dedo
Eames Institute/Reprodução
“Existe uma cadeira do casal com um recorte em forma de coração no encosto: durante anos, historiadores atribuíram o detalhe a Ray, associando-o a ideias de delicadeza e afeto. Depois, descobriu-se que a escolha havia sido de Charles, o que evidencia como estereótipos podem influenciar a atribuição de autoria e contribuir para processos de invisibilização”, adiciona Lindsay.
Marie Neurath
A designer Marie Neurath (1898-1986) integrou a equipe que desenvolveu uma linguagem visual baseada em pictogramas para tornar dados estatísticos mais acessíveis ao público.
Um livro ISOTYPE em exibição no Museu Victoria and Albert, em Londres
Otto Neurath/Wikimedia Commons
Foi ela quem propôs o nome Isotype (International System of Typographic Picture Education), sistema criado para traduzir informações complexas em representações gráficas simples e compreensíveis, com o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento.
Apesar de sua contribuição decisiva para tornar os dados mais legíveis e didáticos, os resultados do método ficaram por muito tempo associados principalmente ao nome de seu marido, Otto Neurath.
Estella Aronis
A designer Estella Aronis (1931-2012) teve sua trajetória ofuscada pela do ex-marido, Alexandre Wollner, frequentemente apontado como um dos “pais” do design brasileiro.
Parceira dele no escritório Forminform, considerado o primeiro estúdio de design do país, Aronis participou de projetos importantes, embora seu nome raramente seja lembrado. “Ela foi precursora do design de uniformes ergonômicos no Brasil e desenvolveu a sinalização de aeroportos como Congonhas e Guarulhos”, conta Lindsay.
Regina Gomide Graz
Initial plugin text
A pintora, decoradora e tapeceira Regina Gomide Graz (1897-1973) participou da Semana de Arte Moderna de 1922 junto ao artista John Graz, com quem era casada.
“Ela teve uma fábrica com seu nome, produziu tecidos, almofadas, tapeçarias decorativas com grafismos abstratos e tapetes modernos. No entanto, é muito raro encontrar registros de sua produção e mesmo de sua trajetória após o casamento e a separação”, pontua Lindsay.
Irene Ruchti
A artista e paisagista Irene Ruchti (1931-2020) foi aluna da primeira turma de Desenho Industrial no Instituto de Arte Contemporânea do MASP, nos anos de 1950, antes mesmo da existência de um curso superior em design no Brasil.
Figurinos do balé As quatro estações (1954), assinados por Irene Ruchti
Acervo da Funarte Rio de Janeiro
Foi premiada pela criação de cenário e figurino para o Ballet do IV Centenário de São Paulo. Na mesma década, também trabalhou na loja Branco & Preto, produzindo desenhos para tecidos.
“A partir da década de 1960, Irene trabalhou em diversos projetos de paisagismo, sobretudo no estado de São Paulo. Essa produção ainda é pouco conhecida e Irene não teve um reconhecimento de seu trabalho em vida”, aponta Ana.
Marta Erps-Breuer
A alemã Marta Erps-Breuer durante suas pesquisas realizadas no Brasil
Acervo do Instituto de Biociências da USP/Imagem obtida da tese de Ana Julia Melo Almeida (2022)
A alemã Marta Erps-Breuer (1902–1977) construiu uma trajetória que conecta a vanguarda do design europeu à pesquisa científica no Brasil. Formada na Bauhaus entre 1921 e 1928, ela integrou a oficina de tecelagem e apresentou um tapete geométrico para a casa experimental Haus am Horn na primeira grande exposição da Bauhaus, em 1923.
Após se mudar para São Paulo em 1931, passou a trabalhar na Universidade de São Paulo, onde aplicou habilidades de desenho, fotografia e modelagem à pesquisa científica, produzindo ilustrações e esculturas utilizadas em estudos de genética e biologia, como um modelo ampliado da mosca Drosophila melanogaster.
Embora tenha transitado entre design e ciência, sua produção permaneceu por décadas pouco conhecida, reflexo tanto das barreiras impostas às mulheres na Bauhaus quanto da dispersão de seu trabalho entre diferentes áreas e países.
Apesar de não serem reconhecidas, as mulheres sempre produziram arte – muitas vezes, dentro de casa. “A divisão ‘sexual’ do trabalho interfere na visibilidade: a esfera doméstica, historicamente associada às mulheres, é menos valorizada do que a pública, culturalmente articulada aos homens”, aponta Maureen Schaefer França, professora do Departamento Acadêmico de Desenho Industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
No âmbito doméstico, as mulheres faziam bordados, têxteis e cerâmicas – consideradas “artes menores”. “Acreditava-se que as mulheres precisavam de atividades para os momentos de ócio. Nesse contexto, entra o artesanato. Revistas e jornais ensinavam estampas e bordados, o que levou a sociedade a associar a prática feminina a uma arte reprodutiva, e não criativa”, conta Lindsay Cresto, professora de Teoria e História do Design e Semiótica na UTFPR.
As produções das mulheres ficavam restritas ao ambiente doméstico ou eram vendidas para aumentar a renda da casa – mas de forma discreta, já que nos séculos passados era uma vergonha para os homens não conseguir sustentar a casa sozinho.
Nos livros de história do design, as peças lembradas são de homens como William Morris, do movimento Arts and Crafts – que defendia o artesanato criativo e os materiais naturais no século 19 – e fundou a empresa Morris & Co., dedicada à produção de móveis, papéis de parede e têxteis.
“Pouca gente sabe que uma de suas filhas trabalhou como designer na empresa e chegou a dirigir um setor. Isso mostra como os artefatos escolhidos para contar essa história influenciam a narrativa: quando ligados ao artesanato e às mulheres, são menos valorizados; quando feitos por homens, viram obras de gênio”, reflete Lindsay.
“Mesmo em uma área considerada feminina, quando homens se destacam nela, são atribuídas características distintas, como técnica, precisão, genialidade, ou seja, atributos que estão historicamente associados à racionalidade e à masculinidade”, complementa Maureen.
Com a criação da escola Bauhaus, na Alemanha, conhecida por revolucionar a arquitetura e o design mundial, algumas mulheres passaram a se inscrever nos cursos. Quando aceitas, a instituição era responsável por escolher qual área do design elas integrariam. A maior parte era direcionada a um mesmo segmento: o têxtil.
“Os mestres acreditavam que as mulheres não tinham capacidade de visualização tridimensional. Por isso, elas eram sistematicamente redirecionadas para a oficina de tecelagem, sendo afastadas da marcenaria e da arquitetura”, descreve Lindsay.
Já no Brasil, a presença das mulheres, independente da área, chega mais tarde. Foi na década de 1960 que surgiram cursos de design no Brasil. Algumas mulheres ganharam espaço como professoras, como Carmem Portinho e Daisy Igel – mas os homens ainda eram a maioria. “Nos anos 1970, torna-se notório o ingresso de alunas”, pontua Maureen.
“O impacto no design muda à medida que as mulheres, sobretudo as com consciência feminista, ocupam espaços de poder, quando têm mais acesso à formação acadêmica e à especialização, quando se pesquisa mais sobre as mulheres”, adiciona Maureen.
Ana Julia Melo Almeida, doutora em design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), aponta que, na década de 1980, as pesquisas acadêmicas passaram a questionar as formas como as mulheres eram representadas na arte e no design.
“Esse movimento passou a investigar como a história da arte e do design ocultou algumas trajetórias enquanto legitimou outras. Isso teve um impacto nos estudos acadêmicos, nas narrativas mobilizadas em torno de exposições e também no próprio mercado”, explica Ana.
Hoje, as designers que marcaram a história são cada vez mais alvo de pesquisas acadêmicas, contudo, ainda é difícil identificar e contar a história dessas mulheres – já que os registros são poucos e muitas vezes, não existe sequer uma foto da pessoa.
Para recuperar parte dessas trajetórias pouco conhecidas, reunimos a seguir oito designers que marcaram a história da área:
Lilly Reich
Lilly Reich começou como costureira industrial e, com o tempo, desenvolveu móveis e projetos arquitetônicos
design TOP 100/Wikimedia Commons
A alemã Lilly Reich (1885-1947) começou a carreira trabalhando como costureira industrial, uma das poucas carreiras do design disponíveis para as mulheres no início do século 20. Ela tinha domínio sobre a textura, a cor e sobre como o corpo humano ocupa o espaço – o que a levou a ser parceira de trabalho de Mies van der Rohe, arquiteto modernista alemão.
“Grande parte do mobiliário icônico associado a Mies van der Rohe surgiu durante sua parceria com Lilly Reich, com quem trabalhou intensamente entre o fim dos anos 1920 e o início dos 1930. Hoje, muitos pesquisadores destacam o papel central de Reich nesses projetos, que por décadas ficaram atribuídos quase exclusivamente a ele”, diz Maureen.
A cadeira Barcelona, criada por Ludwig Mies van der Rohe e Lilly Reich para o pavilhão alemão na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, tornou-se um dos móveis mais icônicos do modernismo
vicens/Wikimedia Commons
Uma das peças mais reconhecidas é a cadeira Barcelona, atribuída em muitas publicações como de “Ludwig Mies van der Rohe em colaboração com a designer Lilly Reich”. A cadeira se destaca pela estrutura curva em aço cromado em forma de “X”, pelas linhas minimalistas e pelas almofadas de couro com botões, que criam um visual elegante e escultural.
Charlotte Perriand
A designer Charlotte Perriand adaptou os móveis para o dia a dia e explorou o uso de materiais naturais
Robert Doisneau/Wikimedia Commons
A francesa Charlotte Perriand (1903-1999) é conhecida por adaptar a geometria rigorosa do modernismo às formas do corpo e às realidades da vida cotidiana.
Em seus projetos explorou diferentes materiais – do uso de aço tubular à adoção de materiais naturais como palha e madeira. Com eles, chegou a projetar a mesa de centro Rio, pensada para o apartamento de seu marido no Brasil.
A Chaise Longue LC4 tornou-se um ícone do design moderno ao unir estrutura metálica e ergonomia, e foi desenhada por Charlotte Perriand
jeanbaptisteparis/Wikimedia Commons
“Ela trabalhou no escritório de Le Corbusier. Ele exigia que todos os projetos fossem creditados ao escritório. Um dos seus móveis mais famosos é a Chaise Longue LC4, projeto de Charlotte Perriand”, conta Lindsay.
Leia mais
Ray Eames
Charles e Ray Eames são um casal de design reconhecido por unir praticidade e estética
Charles&RayEamesFoundation/Reprodução
Enquanto algumas mulheres eram apagadas pelos seus maridos, Ray Eames (1912-1988) tinha o seu trabalho elogiado pelo marido, Charles Eames (1907-1978). O design do casal reúne características como funcionalidade, estética e usabilidade, combinando planejamento, solução de problemas e atenção à experiência do usuário.
Por mais que fosse exaltada pelo marido, nem sempre a sociedade narrava o seu trabalho da mesma forma.
‘O que funciona bem é melhor do que o que parece bonito, porque o que funciona bem dura’, dizia Ray Eames
Picryl/Creative Commons
“Em um programa de TV nos Estados Unidos, o apresentador apontou Charles como o designer responsável pela criação e tratou Ray apenas como alguém que ‘ajudava’ o marido. O próprio Charles, no entanto, fez questão de afirmar que os dois pensavam e trabalhavam juntos em todos os projetos”, exemplifica Maureen.
A cadeira Infantil, criada por Charles e Ray Eames, combina funcionalidade e simplicidade: o recorte em forma de coração no encosto permite levantá-la com um único dedo
Eames Institute/Reprodução
“Existe uma cadeira do casal com um recorte em forma de coração no encosto: durante anos, historiadores atribuíram o detalhe a Ray, associando-o a ideias de delicadeza e afeto. Depois, descobriu-se que a escolha havia sido de Charles, o que evidencia como estereótipos podem influenciar a atribuição de autoria e contribuir para processos de invisibilização”, adiciona Lindsay.
Marie Neurath
A designer Marie Neurath (1898-1986) integrou a equipe que desenvolveu uma linguagem visual baseada em pictogramas para tornar dados estatísticos mais acessíveis ao público.
Um livro ISOTYPE em exibição no Museu Victoria and Albert, em Londres
Otto Neurath/Wikimedia Commons
Foi ela quem propôs o nome Isotype (International System of Typographic Picture Education), sistema criado para traduzir informações complexas em representações gráficas simples e compreensíveis, com o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento.
Apesar de sua contribuição decisiva para tornar os dados mais legíveis e didáticos, os resultados do método ficaram por muito tempo associados principalmente ao nome de seu marido, Otto Neurath.
Estella Aronis
A designer Estella Aronis (1931-2012) teve sua trajetória ofuscada pela do ex-marido, Alexandre Wollner, frequentemente apontado como um dos “pais” do design brasileiro.
Parceira dele no escritório Forminform, considerado o primeiro estúdio de design do país, Aronis participou de projetos importantes, embora seu nome raramente seja lembrado. “Ela foi precursora do design de uniformes ergonômicos no Brasil e desenvolveu a sinalização de aeroportos como Congonhas e Guarulhos”, conta Lindsay.
Regina Gomide Graz
Initial plugin text
A pintora, decoradora e tapeceira Regina Gomide Graz (1897-1973) participou da Semana de Arte Moderna de 1922 junto ao artista John Graz, com quem era casada.
“Ela teve uma fábrica com seu nome, produziu tecidos, almofadas, tapeçarias decorativas com grafismos abstratos e tapetes modernos. No entanto, é muito raro encontrar registros de sua produção e mesmo de sua trajetória após o casamento e a separação”, pontua Lindsay.
Irene Ruchti
A artista e paisagista Irene Ruchti (1931-2020) foi aluna da primeira turma de Desenho Industrial no Instituto de Arte Contemporânea do MASP, nos anos de 1950, antes mesmo da existência de um curso superior em design no Brasil.
Figurinos do balé As quatro estações (1954), assinados por Irene Ruchti
Acervo da Funarte Rio de Janeiro
Foi premiada pela criação de cenário e figurino para o Ballet do IV Centenário de São Paulo. Na mesma década, também trabalhou na loja Branco & Preto, produzindo desenhos para tecidos.
“A partir da década de 1960, Irene trabalhou em diversos projetos de paisagismo, sobretudo no estado de São Paulo. Essa produção ainda é pouco conhecida e Irene não teve um reconhecimento de seu trabalho em vida”, aponta Ana.
Marta Erps-Breuer
A alemã Marta Erps-Breuer durante suas pesquisas realizadas no Brasil
Acervo do Instituto de Biociências da USP/Imagem obtida da tese de Ana Julia Melo Almeida (2022)
A alemã Marta Erps-Breuer (1902–1977) construiu uma trajetória que conecta a vanguarda do design europeu à pesquisa científica no Brasil. Formada na Bauhaus entre 1921 e 1928, ela integrou a oficina de tecelagem e apresentou um tapete geométrico para a casa experimental Haus am Horn na primeira grande exposição da Bauhaus, em 1923.
Após se mudar para São Paulo em 1931, passou a trabalhar na Universidade de São Paulo, onde aplicou habilidades de desenho, fotografia e modelagem à pesquisa científica, produzindo ilustrações e esculturas utilizadas em estudos de genética e biologia, como um modelo ampliado da mosca Drosophila melanogaster.
Embora tenha transitado entre design e ciência, sua produção permaneceu por décadas pouco conhecida, reflexo tanto das barreiras impostas às mulheres na Bauhaus quanto da dispersão de seu trabalho entre diferentes áreas e países.



