Entre fotografias cuidadosamente guardadas, cartas dobradas com esmero, álbuns de família, bijuterias, objetos de escritório e pequenas peças de decoração, Nery Rezende (1930-2012), uma mulher negra paulista, construiu ao longo do século 20 um significativo conjunto de registros do cotidiano da cidade de São Paulo. Hoje, o chamado Arquivo Nery Rezende integra o acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.
Com cerca de 9 mil itens, o fundo documental é um dos maiores recentemente incorporados ao museu. Fotografias, diários, recortes de jornais, embalagens e objetos guardados por Nery ajudam a conhecer o cotidiano, as redes de afeto, o trabalho, o lazer, a vida cultural e as vivências das diferentes camadas da população entre as décadas de 1920 e 1960, período decisivo de transformação de São Paulo em metrópole.
Quem foi Nery Rezende?
Registrada como Maria da Silva, ela nasceu em 13 de maio de 1930 na Fazenda Forquilha, na cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Batizada na Igreja Católica como Maria Luisa da Silva, o apelido Nery, dado pela mãe desde o berço, veio a se tornar depois o seu nome artístico: Nery Rezende.
Da esquerda para a direita, Nery Rezende, seu irmão adotivo Jackson e sua amiga Cecília em fotografia no Parque da Água Branca
Acervo do Museu Paulista da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução
Nery era filha de pais lavradores e empregados na fazenda onde nasceu e é a primeira de três irmãos naturais e um adotado: Nestor, Alice e Jackson. Diante da falta de condições financeiras, Nery e Jackson foram enviados a duas famílias, com as quais não tinham nenhum laço sanguíneo, no interior de São Paulo, para viver como “filhos de criação”.
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Na adolescência, Nery foi obrigada por seus “padrinhos” a se mudar e morar com uma nova família no bairro da Aclimação, já na capital do estado, como conta em depoimento ao Museu da Pessoa, em 1999, e no seu diário pessoal. Nesse novo local, Nery trabalhava como babá não-remunerada para assegurar a sua sobrevivência na cidade, herdando o mesmo trabalho de sua mãe.
A partir da década de 50, Nery começa a fazer diversos registros da sua vida na cidade e de seus familiares. Na foto, um registro de Nery em celebração do Terreiro de São Jerônimo
Acervo do Museu da Paulista da USP/José Rosael/Reprodução
Quando atinge a maioridade, deixa a residência para morar com a mãe e a irmã, Alice Rezende, no bairro Bela Vista. A partir da década de 1950, Nery começa a guardar inúmeros registros do seu cotidiano e dos seus familiares.
“Meus bisavós, quando nascidos, ainda eram escravos e isso levou e marcou uma perda muito grande de memória. Eu acho que, de alguma maneira, Nery tinha ideia dessa falta de memória, dessa perda da história da família, então, ela guardava todas as fotos, foi montando um álbum de família e, quando mais tarde, pôde comprar uma câmera, começou a fotografar as pessoas. Não só ela, a irmã e a mãe, mas também outras pessoas da família”, conta Greissy Rezende, filha de Nery, em entrevista ao podcast Pensar o Presente – Histórias de um museu em transformação.
Em São Paulo, Nery trabalhou como empregada doméstica e depois migrou para a indústria de tecelagem, onde começou a atuar de maneira assalariada. A sua vida na cidade, no entanto, é interrompida após contrair tuberculose, tendo que ficar internada em Campos de Jordão de 1953 a 1954.
Nery Rezende trabalhou no setor comercial e industrial na cidade de São Paulo que se modernizava naquele período
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução
Com o fim do tratamento, Nery retorna à capital, onde trabalha primeiro como balconista e depois como gerente nas Lojas Capri até 1965. Naquele ano, Nery passa a trabalhar como vendedora ambulante e depois, em 1967, como balconista no Serviço Social da Indústria, o Sesi, até se aposentar em 1991.
Durante esses anos, consumiu e produziu de forma assídua fotografias, inclusive com equipamento próprio. Além disso, consumia e frequentava diferentes espaços de lazer e cultura da cidade, setor onde sua irmã, Alice, atriz, atuava. Elas eram leitoras assíduas, ouvintes de rádio e apreciadoras de cinema, teatro e caminhadas no centro de São Paulo.
Tanto Nery quanto Alice tinham uma participação ativa na cena cultural da cidade
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Do arquivo íntimo ao patrimônio público
Inicialmente mantido no âmbito familiar, o conjunto passou a ser reconhecido como arquivo histórico após o contato do antropólogo Alexandre Araújo Bispo durante o mestrado com a filha de Nery, Greissy Rezende, que descobriu os materiais após a morte da mãe.
Alexandre conheceu o acervo e pesquisou a coleção por mais de sete anos, o que veio a se tornar a sua tese de doutorado. O antropólogo, junto a Greissy, organizou o material e mediou a sua doação ao museu em 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Ao trazer em seu acervo o Arquivo Nery Rezende, o Museu do Ipiranga oferece uma possibilidade de revisitar a história da cidade e problematizá-la
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Para Simone Ferraz de Lima, historiadora e curadora visual do Museu Paulista, a incorporação do fundo faz parte de um processo de repensar a coleção do museu e das memórias ali representadas. “Quando a gente olha para as coleções mais antigas do museu, a maioria leva o nome de homens e está ligada a trajetórias masculinas das elites. A entrada de um arquivo dessa dimensão, de uma mulher negra dos estratos médios urbanos, é muito significativa”, afirma.
Simone também ressalta que o material chegou à instituição já pesquisado e organizado. “É um arquivo muito especial, não apenas pelo volume e pela diversidade de documentos, mas porque ele já vinha sendo estudado. Isso amplia as possibilidades de pesquisa e de diálogo com outros acervos do museu”, complementa a pesquisadora.
Com um amigo (não identificado), Nery Rezende circula na região central da cidade, mais especificamente, no Viaduto do Chá
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução
Papéis do cotidiano como fonte histórica
Parte da força do Arquivo Nery Rezende está nos chamados documentos efêmeros. Recibos, cartões comerciais, folhetos, ingressos e pequenos impressos que normalmente não são preservados fazem parte desse grande conjunto de itens armazenados. “Esses papéis, que parecem muitas vezes banais, podem colaborar para entender, por exemplo, as práticas de consumo e as formas de circulação na cidade nesse período”, explica Simone.
O acervo de Nery Rezende é múltiplo e conta com itens como anúncios, recibos e papéis efêmeros que trazem o cotidiano e o comportamento da cidade naquele período
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Por meio desses registros, é possível acompanhar deslocamentos pelo centro da capital, idas a cinemas, lojas e espaços culturais, compondo um retrato concreto da experiência urbana de mulheres negras na primeira metade do século 20.
“Quando colocados em relação com outros fundos documentais, eles ajudam a responder perguntas sobre preços, acesso a bens e serviços, e sobre como se organizava a vida material naquele contexto”, complementa Simone.
Nessa foto, Nery está no Parque da Água Branca junto com sua amiga Cecília enquanto trabalha como ambulante
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução
Redes culturais e protagonismo negro
O acervo também ilumina a trajetória de Alice Rezende (1932-1961), irmã de Nery, atriz, cantora, vedete e modelo vivo, atuante na cena cultural paulistana dos anos 1950 e ligada ao Teatro Experimental do Negro. Apesar do falecimento precoce em função de um tumor, Alice atuou em diferentes agrupamentos culturais.
“Muito se fala da sua atuação como vedete, e a tendência midiática é aprisionar artistas negras no papel de artistas do entretenimento, invisibilizando sua dedicação a múltiplos gêneros artísticos e seus demais talentos, como Alice tinha”, destaca Liliane Braga, Ndembwemi, pós-doutoranda em história e cultura material.
Seu talento para papéis dramáticos pode ser atestado no filme Veneno, de 1952, dirigido por Gianni Pons e produzido pela Cia Vera Cruz, como também por críticos da imprensa que escreveram sobre as peças nas quais a artista atuou, como Filho Prodígio, e que integram o Arquivo Nery Rezende. Alice também participou do Radiatro Experimental do Negro, dirigido por Augusto Barone, na Rádio São Paulo.
Alice Rezende além de atriz, foi cantora e modelo vivo de alguns artistas do período. Sua atuação foi destacada pela mídia e pela crítica da época
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução
O arquivo permite rever narrativas consolidadas sobre a presença negra na cidade. “Estamos falando de mulheres negras que frequentavam cinemas, teatros e outros espaços culturais do centro de São Paulo. O arquivo mostra essas experiências de circulação e participação que muitas vezes não aparecem nos registros oficiais”, comenta Liliane.
A preservação de diários, cartas e recortes de jornais amplia as possibilidades de investigação. “A existência desses documentos permite reconstruir trajetórias artísticas e redes de sociabilidade que foram pouco documentadas em outras fontes”, aponta Liliane.
Um dos capítulos da história de Alice sobre o qual Liliane tem se debruçado é justamente o período em que a atriz atuou como modelo vivo, sobretudo, para o artista Nelson Nóbrega, um dos fundadores do Clube dos Artistas, conhecido como “Clubinho”, integrado por artistas plásticos e também por arquitetos. “Nesse momento, temos buscado obras desse artista, como forma de entender mais esse período da vida da Alice e conhecer mais sobre a história e o trabalho também de Nelson, que podem estar na guarda de colecionadores e em outros espaços”, conta Liliane.
Casa, escrita e memória
Itens variados compõem o significativo conjunto de objetos do arquivo de Nery Rezende. Dentre eles, estão revistas e publicações impressas, chaveiros, lápis e coleções de caneta
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Além da documentação escrita, itens pessoais e objetos domésticos estão presentes no arquivo de Nery. Há materiais de escritório, como inúmeras canetas, um conjunto de canecas, fotografias organizadas em álbuns e correspondências preservadas ao longo de décadas.
“Estamos diante de uma família que investiu na escolarização e na escrita como forma de registro e afirmação. A própria decisão de guardar cartas, fotografias e objetos cotidianos revela uma consciência da importância da memória”, destaca Liliane.
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Ao incorporar o Arquivo Nery Rezende, o museu também atua em prol de um reconhecimento científico, histórico e institucional do valor histórico dessas experiências. “Quando um arquivo como esse passa a integrar o acervo institucional, ele amplia a noção de quem produz história e de quais trajetórias também merecem ser preservadas em um contexto de silenciamento histórico da população negra e suas memórias”, reflete Simone.
Com cerca de 9 mil itens, o fundo documental é um dos maiores recentemente incorporados ao museu. Fotografias, diários, recortes de jornais, embalagens e objetos guardados por Nery ajudam a conhecer o cotidiano, as redes de afeto, o trabalho, o lazer, a vida cultural e as vivências das diferentes camadas da população entre as décadas de 1920 e 1960, período decisivo de transformação de São Paulo em metrópole.
Quem foi Nery Rezende?
Registrada como Maria da Silva, ela nasceu em 13 de maio de 1930 na Fazenda Forquilha, na cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Batizada na Igreja Católica como Maria Luisa da Silva, o apelido Nery, dado pela mãe desde o berço, veio a se tornar depois o seu nome artístico: Nery Rezende.
Da esquerda para a direita, Nery Rezende, seu irmão adotivo Jackson e sua amiga Cecília em fotografia no Parque da Água Branca
Acervo do Museu Paulista da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução
Nery era filha de pais lavradores e empregados na fazenda onde nasceu e é a primeira de três irmãos naturais e um adotado: Nestor, Alice e Jackson. Diante da falta de condições financeiras, Nery e Jackson foram enviados a duas famílias, com as quais não tinham nenhum laço sanguíneo, no interior de São Paulo, para viver como “filhos de criação”.
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Na adolescência, Nery foi obrigada por seus “padrinhos” a se mudar e morar com uma nova família no bairro da Aclimação, já na capital do estado, como conta em depoimento ao Museu da Pessoa, em 1999, e no seu diário pessoal. Nesse novo local, Nery trabalhava como babá não-remunerada para assegurar a sua sobrevivência na cidade, herdando o mesmo trabalho de sua mãe.
A partir da década de 50, Nery começa a fazer diversos registros da sua vida na cidade e de seus familiares. Na foto, um registro de Nery em celebração do Terreiro de São Jerônimo
Acervo do Museu da Paulista da USP/José Rosael/Reprodução
Quando atinge a maioridade, deixa a residência para morar com a mãe e a irmã, Alice Rezende, no bairro Bela Vista. A partir da década de 1950, Nery começa a guardar inúmeros registros do seu cotidiano e dos seus familiares.
“Meus bisavós, quando nascidos, ainda eram escravos e isso levou e marcou uma perda muito grande de memória. Eu acho que, de alguma maneira, Nery tinha ideia dessa falta de memória, dessa perda da história da família, então, ela guardava todas as fotos, foi montando um álbum de família e, quando mais tarde, pôde comprar uma câmera, começou a fotografar as pessoas. Não só ela, a irmã e a mãe, mas também outras pessoas da família”, conta Greissy Rezende, filha de Nery, em entrevista ao podcast Pensar o Presente – Histórias de um museu em transformação.
Em São Paulo, Nery trabalhou como empregada doméstica e depois migrou para a indústria de tecelagem, onde começou a atuar de maneira assalariada. A sua vida na cidade, no entanto, é interrompida após contrair tuberculose, tendo que ficar internada em Campos de Jordão de 1953 a 1954.
Nery Rezende trabalhou no setor comercial e industrial na cidade de São Paulo que se modernizava naquele período
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução
Com o fim do tratamento, Nery retorna à capital, onde trabalha primeiro como balconista e depois como gerente nas Lojas Capri até 1965. Naquele ano, Nery passa a trabalhar como vendedora ambulante e depois, em 1967, como balconista no Serviço Social da Indústria, o Sesi, até se aposentar em 1991.
Durante esses anos, consumiu e produziu de forma assídua fotografias, inclusive com equipamento próprio. Além disso, consumia e frequentava diferentes espaços de lazer e cultura da cidade, setor onde sua irmã, Alice, atriz, atuava. Elas eram leitoras assíduas, ouvintes de rádio e apreciadoras de cinema, teatro e caminhadas no centro de São Paulo.
Tanto Nery quanto Alice tinham uma participação ativa na cena cultural da cidade
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Do arquivo íntimo ao patrimônio público
Inicialmente mantido no âmbito familiar, o conjunto passou a ser reconhecido como arquivo histórico após o contato do antropólogo Alexandre Araújo Bispo durante o mestrado com a filha de Nery, Greissy Rezende, que descobriu os materiais após a morte da mãe.
Alexandre conheceu o acervo e pesquisou a coleção por mais de sete anos, o que veio a se tornar a sua tese de doutorado. O antropólogo, junto a Greissy, organizou o material e mediou a sua doação ao museu em 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Ao trazer em seu acervo o Arquivo Nery Rezende, o Museu do Ipiranga oferece uma possibilidade de revisitar a história da cidade e problematizá-la
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Para Simone Ferraz de Lima, historiadora e curadora visual do Museu Paulista, a incorporação do fundo faz parte de um processo de repensar a coleção do museu e das memórias ali representadas. “Quando a gente olha para as coleções mais antigas do museu, a maioria leva o nome de homens e está ligada a trajetórias masculinas das elites. A entrada de um arquivo dessa dimensão, de uma mulher negra dos estratos médios urbanos, é muito significativa”, afirma.
Simone também ressalta que o material chegou à instituição já pesquisado e organizado. “É um arquivo muito especial, não apenas pelo volume e pela diversidade de documentos, mas porque ele já vinha sendo estudado. Isso amplia as possibilidades de pesquisa e de diálogo com outros acervos do museu”, complementa a pesquisadora.
Com um amigo (não identificado), Nery Rezende circula na região central da cidade, mais especificamente, no Viaduto do Chá
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução
Papéis do cotidiano como fonte histórica
Parte da força do Arquivo Nery Rezende está nos chamados documentos efêmeros. Recibos, cartões comerciais, folhetos, ingressos e pequenos impressos que normalmente não são preservados fazem parte desse grande conjunto de itens armazenados. “Esses papéis, que parecem muitas vezes banais, podem colaborar para entender, por exemplo, as práticas de consumo e as formas de circulação na cidade nesse período”, explica Simone.
O acervo de Nery Rezende é múltiplo e conta com itens como anúncios, recibos e papéis efêmeros que trazem o cotidiano e o comportamento da cidade naquele período
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Por meio desses registros, é possível acompanhar deslocamentos pelo centro da capital, idas a cinemas, lojas e espaços culturais, compondo um retrato concreto da experiência urbana de mulheres negras na primeira metade do século 20.
“Quando colocados em relação com outros fundos documentais, eles ajudam a responder perguntas sobre preços, acesso a bens e serviços, e sobre como se organizava a vida material naquele contexto”, complementa Simone.
Nessa foto, Nery está no Parque da Água Branca junto com sua amiga Cecília enquanto trabalha como ambulante
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/José Rosael/Reprodução
Redes culturais e protagonismo negro
O acervo também ilumina a trajetória de Alice Rezende (1932-1961), irmã de Nery, atriz, cantora, vedete e modelo vivo, atuante na cena cultural paulistana dos anos 1950 e ligada ao Teatro Experimental do Negro. Apesar do falecimento precoce em função de um tumor, Alice atuou em diferentes agrupamentos culturais.
“Muito se fala da sua atuação como vedete, e a tendência midiática é aprisionar artistas negras no papel de artistas do entretenimento, invisibilizando sua dedicação a múltiplos gêneros artísticos e seus demais talentos, como Alice tinha”, destaca Liliane Braga, Ndembwemi, pós-doutoranda em história e cultura material.
Seu talento para papéis dramáticos pode ser atestado no filme Veneno, de 1952, dirigido por Gianni Pons e produzido pela Cia Vera Cruz, como também por críticos da imprensa que escreveram sobre as peças nas quais a artista atuou, como Filho Prodígio, e que integram o Arquivo Nery Rezende. Alice também participou do Radiatro Experimental do Negro, dirigido por Augusto Barone, na Rádio São Paulo.
Alice Rezende além de atriz, foi cantora e modelo vivo de alguns artistas do período. Sua atuação foi destacada pela mídia e pela crítica da época
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução
O arquivo permite rever narrativas consolidadas sobre a presença negra na cidade. “Estamos falando de mulheres negras que frequentavam cinemas, teatros e outros espaços culturais do centro de São Paulo. O arquivo mostra essas experiências de circulação e participação que muitas vezes não aparecem nos registros oficiais”, comenta Liliane.
A preservação de diários, cartas e recortes de jornais amplia as possibilidades de investigação. “A existência desses documentos permite reconstruir trajetórias artísticas e redes de sociabilidade que foram pouco documentadas em outras fontes”, aponta Liliane.
Um dos capítulos da história de Alice sobre o qual Liliane tem se debruçado é justamente o período em que a atriz atuou como modelo vivo, sobretudo, para o artista Nelson Nóbrega, um dos fundadores do Clube dos Artistas, conhecido como “Clubinho”, integrado por artistas plásticos e também por arquitetos. “Nesse momento, temos buscado obras desse artista, como forma de entender mais esse período da vida da Alice e conhecer mais sobre a história e o trabalho também de Nelson, que podem estar na guarda de colecionadores e em outros espaços”, conta Liliane.
Casa, escrita e memória
Itens variados compõem o significativo conjunto de objetos do arquivo de Nery Rezende. Dentre eles, estão revistas e publicações impressas, chaveiros, lápis e coleções de caneta
Acervo do Museu do Ipiranga da USP – Arquivo Nery Rezende/Hélio Nobre/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Além da documentação escrita, itens pessoais e objetos domésticos estão presentes no arquivo de Nery. Há materiais de escritório, como inúmeras canetas, um conjunto de canecas, fotografias organizadas em álbuns e correspondências preservadas ao longo de décadas.
“Estamos diante de uma família que investiu na escolarização e na escrita como forma de registro e afirmação. A própria decisão de guardar cartas, fotografias e objetos cotidianos revela uma consciência da importância da memória”, destaca Liliane.
Leia mais
Ao incorporar o Arquivo Nery Rezende, o museu também atua em prol de um reconhecimento científico, histórico e institucional do valor histórico dessas experiências. “Quando um arquivo como esse passa a integrar o acervo institucional, ele amplia a noção de quem produz história e de quais trajetórias também merecem ser preservadas em um contexto de silenciamento histórico da população negra e suas memórias”, reflete Simone.



