Em meio ao ritmo intenso da vida urbana, transformar a casa em um verdadeiro refúgio de calma e bem-estar deixou de ser luxo para se tornar uma necessidade. Nesse cenário, elementos como jardins terapêuticos, paletas de cores acolhedoras e uma iluminação cuidadosamente planejada revelam-se aliados poderosos.
Mais do que estética, essas escolhas ajudam a reduzir a ansiedade, despertam os sentidos e criam ambientes que nutrem corpo e mente.
Segundo Amanda Saba Ruggiero, arquiteta e urbanista do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), o primeiro passo é identificar quais características espaciais mais agradam e fazem sentido, ou seja, se há preferência por ambientes amplos e claros, ou por cômodos menores, acolhedores e intimistas.
Estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health em 2023 revelou que quem pratica jardinagem apresenta menores índices de estresse e ansiedade
Freepik/Creative Commons
“As pessoas têm necessidades, gostos e interesses diferentes e particulares. Há pessoas, por exemplo, que colecionam objetos, reúnem fotos, quadros ou recordações em paredes e cômodos da casa, enquanto outras preferem ambientes mais lisos e vazios, com poucos elementos expostos”, ela comenta.
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Depois de reconhecer quais características espaciais mais agradam e fazem sentido, o segundo passo é observar atentamente os elementos que compõem o imóvel em que se vive, como cores de paredes, pisos e tetos, materiais utilizados na construção, móveis e objetos funcionais ou decorativos.
O corredor lateral da casa foi aproveitado com um jardim, trazendo luminosidade e integração interior/exterior, o que é essencial para o bem-estar doméstico
Marcus Camargo/Divulgação | Projeto do escritório Rogoski Arquitetura
“Em ambientes de descanso e relaxamento, é importante ter a possibilidade de controlar a luminosidade, de modo que se possa reduzir os estímulos visuais quando se pretende descansar”, ressalta a arquiteta.
Quais cores e tipos de iluminação escolher?
No livro A psicologia das cores, a autora Eva Heller afirma que a relação das cores com nossos sentimentos não acontece ao acaso, pois são experiências universais profundamente enraizadas na linguagem e no pensamento. Um exemplo é o vermelho, que pode produzir desde um efeito erótico e brutal até nobre e vulgar.
Cores suaves, madeira clara e materiais naturais constroem um ambiente social que convida ao relaxamento
Lília Mendel/Divulgação | Projeto do escritório MBV Arquitetura
Por isso, depois de reconhecer as qualidades espaciais do lar, é essencial refletir sobre o significado que cada tonalidade tem para você. Isso não exclui o valor das percepções coletivas: de modo geral, as cores frias são associadas à calma e à tranquilidade, sendo interpretadas como tons que favorecem o relaxamento e a serenidade.
André Pinto, arquiteto especializado em gestão da construção civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que tons de verde são frequentemente associados à natureza e à sorte, enquanto o roxo remete à espiritualidade e o rosa à calma. “Se aplicados com equilíbrio e intenção, podem induzir ao relaxamento.”
A tonalidade roxa remete à espiritualidade, o que pode ser muito benéfico para o bem-estar dentro de casa
Favaro JR/Divulgação | Projeto do escritório Volar Interiores
Em relação às texturas, o arquiteto orienta que materiais táteis quentes e texturizados, como tecido e madeira, promovem aconchego e proximidade, em contraponto com superfícies lisas e neutras, que reforçam a ordem e o foco.
“Já na iluminação, é possível simular o ciclo circadiano dos seres vivos. A luz quente (até 3000k) não inibe a produção de melatonina, promovendo o relaxamento, enquanto a luz fria (acima de 4000k) tem relação direta com o aumento dos níveis de cortisol, mantendo o cérebro em estado de alerta”, afirma André.
Luminárias em pontos estratégicos e, de preferência com luz quente, são ideais para garantir conforto
Eduardo Macarios/Divulgação | Projeto da arquiteta Jéssica Gnoatto
Plantas podem ajudar
Ter plantas também pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, principalmente quando o hábito ganha traços de jardinagem. Um estudo produzido por pesquisadores dos Estados Unidos, publicado na revista The Lancet Planetary Health em 2023, mostrou que quem participa da jardinagem coletiva tende a aumentar a ingestão diária de fibras, praticar mais atividades físicas e apresentar menores índices de estresse e ansiedade.
Amanda aconselha que, caso a pessoa queira desenvolver um jardim em casa, é preciso, em primeiro lugar, conhecer o local onde se pretende instalar as plantas — em jardineiras, na terra ou em vasos. “A incidência de sol e luz são os primeiros pontos a serem observados nestes espaços. Assim, ao escolher as espécies que irá colocar, elas poderão se adaptar e se desenvolver.”
Apostar em uma jardineira dentro de casa vai oferecer um canto de respiro e contemplação
Guilherme Pucci/Divulgação | Projeto do escritório Zalc Arquitetura
Outro ponto importante é estar atento à quantidade de água que a espécie necessita e alimentá-la constantemente com adubos variados, para que esteja sempre nutrida e produza flores e frutos. “O que traz a dimensão terapêutica para o cuidado com as plantas e jardins é justamente a atenção plena, a conexão, a observação dos fenômenos do crescimento, da floração e a possibilidade de um estudo constante”, reflete a arquiteta.
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O arquiteto André destaca que trazer a natureza para o dia a dia é uma excelente forma de desacelerar. “Em apartamentos pequenos, a mera presença de vasos já altera a percepção do espaço.” Em ambientes maiores, é possível cultivar ervas, temperos, plantas medicinais e flores comestíveis, o que, por si só, representa um benefício à saúde.
A estante metálica que separa o ambiente do hall social traz prateleiras envolvidas por jiboia, além da floreira com costelas-de-adão, maranta-zebrina, filodendro, xanadu e maranta-melancia
Maíra Acayaba/Editora Globo | Projeto do escritório Península Arquitetura
Para o arquiteto, o Brasil tem o privilégio de ser o país com a maior biodiversidade do mundo. Com isso, ele recomenda priorizar espécies dos nossos biomas. “Além das nativas, existem plantas capazes de retirar toxinas e poluentes do ar, como a jibóia, o lírio-da-paz, a espada-de-são-jorge e o clorofito”, ele pontua.
Também é aconselhável o plantio de plantas aromáticas, como lavanda, arruda, alecrim e manjericão, pois ela podem reduzir a ansiedade ao estimular os sentidos. “Desde os tempos da pandemia de Covid-19, pessoas no mundo inteiro foram forçadas a olhar mais para a relação entre saúde e ambiente construído. Soma-se a isso o estilo de vida corrido que a maioria das pessoas atualmente vive. Assim, ter uma casa que reduz a ansiedade vai se tornar não só uma tendência consolidada como uma necessidade”, coloca André.
Mais do que estética, essas escolhas ajudam a reduzir a ansiedade, despertam os sentidos e criam ambientes que nutrem corpo e mente.
Segundo Amanda Saba Ruggiero, arquiteta e urbanista do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), o primeiro passo é identificar quais características espaciais mais agradam e fazem sentido, ou seja, se há preferência por ambientes amplos e claros, ou por cômodos menores, acolhedores e intimistas.
Estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health em 2023 revelou que quem pratica jardinagem apresenta menores índices de estresse e ansiedade
Freepik/Creative Commons
“As pessoas têm necessidades, gostos e interesses diferentes e particulares. Há pessoas, por exemplo, que colecionam objetos, reúnem fotos, quadros ou recordações em paredes e cômodos da casa, enquanto outras preferem ambientes mais lisos e vazios, com poucos elementos expostos”, ela comenta.
Leia mais
Depois de reconhecer quais características espaciais mais agradam e fazem sentido, o segundo passo é observar atentamente os elementos que compõem o imóvel em que se vive, como cores de paredes, pisos e tetos, materiais utilizados na construção, móveis e objetos funcionais ou decorativos.
O corredor lateral da casa foi aproveitado com um jardim, trazendo luminosidade e integração interior/exterior, o que é essencial para o bem-estar doméstico
Marcus Camargo/Divulgação | Projeto do escritório Rogoski Arquitetura
“Em ambientes de descanso e relaxamento, é importante ter a possibilidade de controlar a luminosidade, de modo que se possa reduzir os estímulos visuais quando se pretende descansar”, ressalta a arquiteta.
Quais cores e tipos de iluminação escolher?
No livro A psicologia das cores, a autora Eva Heller afirma que a relação das cores com nossos sentimentos não acontece ao acaso, pois são experiências universais profundamente enraizadas na linguagem e no pensamento. Um exemplo é o vermelho, que pode produzir desde um efeito erótico e brutal até nobre e vulgar.
Cores suaves, madeira clara e materiais naturais constroem um ambiente social que convida ao relaxamento
Lília Mendel/Divulgação | Projeto do escritório MBV Arquitetura
Por isso, depois de reconhecer as qualidades espaciais do lar, é essencial refletir sobre o significado que cada tonalidade tem para você. Isso não exclui o valor das percepções coletivas: de modo geral, as cores frias são associadas à calma e à tranquilidade, sendo interpretadas como tons que favorecem o relaxamento e a serenidade.
André Pinto, arquiteto especializado em gestão da construção civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que tons de verde são frequentemente associados à natureza e à sorte, enquanto o roxo remete à espiritualidade e o rosa à calma. “Se aplicados com equilíbrio e intenção, podem induzir ao relaxamento.”
A tonalidade roxa remete à espiritualidade, o que pode ser muito benéfico para o bem-estar dentro de casa
Favaro JR/Divulgação | Projeto do escritório Volar Interiores
Em relação às texturas, o arquiteto orienta que materiais táteis quentes e texturizados, como tecido e madeira, promovem aconchego e proximidade, em contraponto com superfícies lisas e neutras, que reforçam a ordem e o foco.
“Já na iluminação, é possível simular o ciclo circadiano dos seres vivos. A luz quente (até 3000k) não inibe a produção de melatonina, promovendo o relaxamento, enquanto a luz fria (acima de 4000k) tem relação direta com o aumento dos níveis de cortisol, mantendo o cérebro em estado de alerta”, afirma André.
Luminárias em pontos estratégicos e, de preferência com luz quente, são ideais para garantir conforto
Eduardo Macarios/Divulgação | Projeto da arquiteta Jéssica Gnoatto
Plantas podem ajudar
Ter plantas também pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, principalmente quando o hábito ganha traços de jardinagem. Um estudo produzido por pesquisadores dos Estados Unidos, publicado na revista The Lancet Planetary Health em 2023, mostrou que quem participa da jardinagem coletiva tende a aumentar a ingestão diária de fibras, praticar mais atividades físicas e apresentar menores índices de estresse e ansiedade.
Amanda aconselha que, caso a pessoa queira desenvolver um jardim em casa, é preciso, em primeiro lugar, conhecer o local onde se pretende instalar as plantas — em jardineiras, na terra ou em vasos. “A incidência de sol e luz são os primeiros pontos a serem observados nestes espaços. Assim, ao escolher as espécies que irá colocar, elas poderão se adaptar e se desenvolver.”
Apostar em uma jardineira dentro de casa vai oferecer um canto de respiro e contemplação
Guilherme Pucci/Divulgação | Projeto do escritório Zalc Arquitetura
Outro ponto importante é estar atento à quantidade de água que a espécie necessita e alimentá-la constantemente com adubos variados, para que esteja sempre nutrida e produza flores e frutos. “O que traz a dimensão terapêutica para o cuidado com as plantas e jardins é justamente a atenção plena, a conexão, a observação dos fenômenos do crescimento, da floração e a possibilidade de um estudo constante”, reflete a arquiteta.
Leia mais
O arquiteto André destaca que trazer a natureza para o dia a dia é uma excelente forma de desacelerar. “Em apartamentos pequenos, a mera presença de vasos já altera a percepção do espaço.” Em ambientes maiores, é possível cultivar ervas, temperos, plantas medicinais e flores comestíveis, o que, por si só, representa um benefício à saúde.
A estante metálica que separa o ambiente do hall social traz prateleiras envolvidas por jiboia, além da floreira com costelas-de-adão, maranta-zebrina, filodendro, xanadu e maranta-melancia
Maíra Acayaba/Editora Globo | Projeto do escritório Península Arquitetura
Para o arquiteto, o Brasil tem o privilégio de ser o país com a maior biodiversidade do mundo. Com isso, ele recomenda priorizar espécies dos nossos biomas. “Além das nativas, existem plantas capazes de retirar toxinas e poluentes do ar, como a jibóia, o lírio-da-paz, a espada-de-são-jorge e o clorofito”, ele pontua.
Também é aconselhável o plantio de plantas aromáticas, como lavanda, arruda, alecrim e manjericão, pois ela podem reduzir a ansiedade ao estimular os sentidos. “Desde os tempos da pandemia de Covid-19, pessoas no mundo inteiro foram forçadas a olhar mais para a relação entre saúde e ambiente construído. Soma-se a isso o estilo de vida corrido que a maioria das pessoas atualmente vive. Assim, ter uma casa que reduz a ansiedade vai se tornar não só uma tendência consolidada como uma necessidade”, coloca André.



