A história da Artefacto: como uma dívida criou uma das marcas de móveis de luxo mais desejadas do Brasil

A história de uma das marcas de mobiliário de luxo mais desejadas do Brasil começa com uma dívida não saldada. Na década de 1960, o paranaense Albino Bacchi (1945-2025) comandava, aos 18 anos, uma empresa de laticínios, quando seu principal cliente, sem dinheiro para quitá-la, ofereceu máquinas de carpintaria como pagamento. O que parecia um grande prejuízo revelou-se uma mudança de rota decisiva.
Entre ferramentas e madeira bruta, ele passou a produzir móveis de estilo colonial ao lado de um experiente marceneiro italiano. O novo negócio prosperou por alguns anos até Albino vendê-lo, ao sentir que esse mercado entrava em decadência. Com o dinheiro, partiu para a Europa em busca de novidades e lá identificou que móveis de fibras naturais estavam em alta. Não havia nada parecido no Brasil. O empresário viu então a oportunidade de fundar uma companhia voltada às matérias-primas naturais e baseada no feito à mão. Surgia a Artefacto. Sem concorrentes, a marca caiu no gosto do público e cresceu rapidamente, tornando-se referência na decoração de varandas e depois de toda a casa.
CUIDADO COM AS PESSOAS
A primeira loja, inaugurada em 1976, ocupou um imóvel na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo, equipado com ar-condicionado, um conforto inexistente no comércio daquela época. “O cuidado com o atendimento ao cliente sempre foi uma preocupação de meu pai e um dos nossos principais diferenciais”, afirma Paulo Bacchi, filho de Albino e atual CEO da empresa.
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A fachada da primeira loja, na Rua Teodoro Sampaio, em São Paulo
Divulgação
Formado em publicidade, Paulo ingressou no negócio aos 18 anos, com a missão de profissionalizar as áreas de vendas, logística e finanças, por vezes ocupadas por parentes. “Eu também trabalhei para glamurizar a marca”, confessa. Dez anos depois, a Artefacto já contava com duas lojas em São Paulo, além de unidades no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Nessa época, Albino resolveu se aposentar e transferiu o comando para Paulo.
Vista de cima da mesa de jantar Minos, da coleção Psyché, de 2022, assinada por Patricia Anastassiadis e exposta na vitrine do showroom da Rua Haddock Lobo, também em São Paulo
Marco Antonio
Em expansão contínua, a Artefacto chegou a 17 lojas em 2001, mas os planos eram ainda mais ambiciosos: fincar bandeira também nos Estados Unidos. “Aos 33 anos, me mudei com minha família para a Flórida, e pedi para meu pai reassumir o posto no Brasil”, conta. “Fiz uma ampla pesquisa de mercado em Miami, e verifiquei que o atendimento no segmento de luxo era ruim, assim como o prazo de entrega. Alugamos então um galpão para o estoque e entramos com o mote: ‘entregas em duas semanas’.” Além disso, Paulo permaneceu dois anos na loja, atendendo pessoalmente os clientes. “Essas ações, junto ao nosso eficiente pós-venda, resultaram em um sucesso estrondoso, e hoje nos orgulhamos de liderar o segmento na Flórida.”
EMPRESA GLOBAL, BASE FAMILIAR
Acima, duas gerações da família Bacchi: Pietro e Bruno com o pai Paulo, CEO da empresa
Deco Cury
Cinco décadas depois, a escala da Artefacto impressiona. São 2 mil funcionários e colaboradores, e um parque industrial autossuficiente recém-ampliado em Iperó, no interior paulista, com cerca de 100 mil m² de área. Somam-se a isso 18 lojas no Brasil e quatro nos Estados Unidos, e uma crescente atuação no setor imobiliário de alto padrão, desenvolvendo projetos em parceria com incorporadoras. A marca conta mais de 250 casas e apartamentos mobiliados em empreendimentos de estrelas da arquitetura nacional e internacional, além de um plano para inaugurar cinco hotéis com a assinatura Artefacto em 2027, quatro no Nordeste e um em São Paulo. A essa área, Paulo Bacchi pretende se dedicar quando fizer a sucessão da empresa para os filhos gêmeos.
A loja de Coral Gables, na Flórida, com 4 mil m² e projeto do Domo Architecture + Design
Divulgação
Com 29 anos, Bruno e Pietro Bacchi já exercem papéis estratégicos. Formado em administração, Bruno, baseado em São Paulo, responde pela parte operacional. Pietro, formado em finanças, assumiu a área comercial nos Estados Unidos. Ambos iniciaram o treinamento durante a pandemia no showroom de Coral Gables, em Miami. A experiência serviu para abrir a flagship na Madison Avenue, em Nova York, endereço que reúne algumas das principais marcas de decoração do mundo. “Recentemente assinamos um dos apartamentos mais altos dos Estados Unidos, com vista para o Central Park. É um conceito diferente: entregamos tudo pronto para o cliente chegar apenas com a mala”, conta Pietro.
Apartamento decorado pela Artefacto no edifício Eighty Seven Park, assinado por Renzo Piano, em Miami;
Marco Antonio
A nova geração também reconhece a importância do legado familiar. “Meu avô era muito realista, analisava pontos fortes e fracos com papel e caneta. Meu pai tem um olhar mais artístico, enxerga como valorizar espaços e peças que vão vender. Com eles, aprendemos pelo exemplo”, diz Bruno.
A dupla também lidera novas frentes, como a criação de um departamento de Inteligência Artificial, voltado a apoiar os arquitetos em suas decisões de compra. Bruno e Pietro estudam ainda expandir para outros mercados, como o da Califórnia, e, no futuro, quem sabe, conquistar a Europa e o Oriente Médio. “Queremos abrir lojas de formatos mais enxutos, que permitam crescer com mais agilidade”, afirmam.
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DESIGN AUTORAL
Poltrona NYX, de Patricia Anastassiadis
Victor Affaro
Outra novidade é a ampliação do showroom da Artefacto na Rua Haddock Lobo, em São Paulo, após a aquisição do imóvel vizinho. O local apresenta os lançamentos assinados pela arquiteta Patricia Anastassiadis, responsável pelo design das coleções e também pelo projeto do novo espaço. “Eu conheço a Artefacto há 30 anos. Fui convidada pelo Albino para fazer um pequeno hall na Mostra Artefacto, quando era recém-formada. Mas o convite para integrar oficialmente a empresa veio há cerca de dez anos. Paulo me propôs a parceria e eu aceitei”, conta. Ao assumir a direção criativa, Patricia debruçou-se sobre o portfólio existente, selecionando as peças que permaneceriam. Era o início da transição para um design mais autoral.
Desde então, ela introduziu novos materiais e processos, sempre em diálogo com a fábrica. “A criação é totalmente livre, o que permite construir uma identidade consistente. O mais importante é ver a cadeia se movimentando, com novos fornecedores surgindo, técnicas sendo desenvolvidas e consumidores valorizando cada vez mais o design.” Para a coleção de 2026, batizada Cosmos, ela lança cerca de 15 peças, que incluem de móveis a tapetes. “Fiz um sistema de sofá, o Solar System, que tem um ponto central e tudo gira em torno dele. Há também mesa de jantar e uma caixa-bar de que eu gosto muito”, diz. “Essa criação aconteceu durante a passagem do Albino no ano passado e, diferentemente de 2025, que era matéria sobre matéria, essa me deu a sensação de estar mais fluida. É como se o mesmo material estivesse passando do sólido para o líquido e fosse parar no gasoso. Cosmos é o todo, e isso me remeteu ao universo da Artefacto, a esses 50 anos. A coleção tem relação direta com a história da marca e essa história merece ser contada, porque poucas empresas no Brasil conquistaram essa trajetória.”
Patricia Anastassiadis, responsável pela direção criativa, posa no banco Janus, da nova coleção Cosmos
Victor Affaro
Mesa de centro Geo, outra novidade da linha
Victor Affaro
Imagem de um anúncio antigo pintado à mão
Divulgação
AS BOAS PARCERIAS
Realizada há mais de três décadas, a Mostra Artefacto é outro exemplo de colaboração criativa que promove o talento de arquitetos e designers. O evento expõe, nas lojas, ambientes decorados por profissionais de destaque no mercado, e tornou-se uma das principais estratégias para fortalecer vínculos duradouros. “Os especificadores conhecem melhor nossos produtos e passam a escolhê-los em seus trabalhos. Ajudar o cliente a ter sucesso é o segredo do crescimento”, diz Paulo, convicto.
Ambiente de Sig Bergamin e Murilo Lomas na Mostra Artefacto Beach & Country de 2024
Marco Antonio
As boas parcerias se refletem ainda na recente chegada de Sérgio Matos à Beach & Country, outra marca da companhia, focada em outdoor e casas de veraneio. O designer mato-grossense se une a Roberto Cimino e Nelson Amorim na direção criativa, reforçando o investimento em design autoral. O convite formal veio em dezembro, com um contrato de dez anos e a proposta de exclusividade no desenvolvimento de mobiliário, mantendo, ao mesmo tempo, o estúdio autoral de Sérgio, que ganhará um espaço próprio dentro do showroom da B&C, na Avenida Brasil, em São Paulo.
Detalhe de ambiente decorado por Debora Aguiar, com móveis da marca
MCA Estúdio

Para o designer, a entrada na empresa representa a oportunidade de ampliar sua pesquisa em materiais e prototipagem. “É como um parque de diversões, com infinitas possibilidades”, afirma, referindo-se à estrutura industrial e à liberdade de experimentação que encontra no grupo. Esses dois elementos seguem impulsionando a Artefacto em sua constante reinvenção e mantém-na como uma das principais referências do design brasileiro no mundo.
*Matéria originalmente publicada na Casa Vogue de março (CV481), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual, e para assinantes no app Globo Mais.

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