Lucia Moholy: a fotógrafa injustiçada que documentou a Bauhaus

Ao revisitar a história da Bauhaus, escola alemã reverenciada como o berço do design e que redefiniu os caminhos da arquitetura no século 20, é comum lembrar de nomes como Walter Gropius, Paul Klee ou László Moholy-Nagy. Contudo, muito do que sabemos sobre a escola, seu movimento, seus participantes e produções, passou pelo olhar atento de uma mulher quase apagada, a fotógrafa Lucia Moholy (1894 – 1989).
Responsável por documentar edifícios, objetos e o cotidiano da escola, Lucia produziu imagens que ajudaram a consolidar a estética moderna associada à Bauhaus. Seu trabalho registrou não apenas a arquitetura e os interiores do campus em Dessau, na Alemanha, mas também o ambiente criativo onde professores e estudantes experimentavam novas formas de pensar arte, design e vida cotidiana.
“Ouso dizer que se a Bauhaus ainda ocupa um espaço significativo na educação do design é por conta da documentação que Lucia fez. São os registros dela que nos mostram a arquitetura da escola e o ‘íntimo’ daquele ambiente onde conviviam alunos e professores”, afirma Kalany Ballardin da Rosa, designer visual formada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde pesquisou as relações entre a questão de gênero e o design.
Lucia Schulz, conhecida como Lucia Moholy, desenvolveu um importante trabalho documental sobre a Bauhaus, mas também teve trabalhos anteriores e posteriores a esse período, quando seguiu atuando como fotógrafa. Fotografia de Lászlo László Moholy-Nagy, tirada entre 1924 e 1928
Metropolitan Museum of Art/Ford Motor Company Collection, Gift of Ford Motor Company and John C. Waddell, 1987/Wikimedia Commons
As fotografias produzidas por Lucia ajudaram a definir a imagem pública da escola, com linhas geométricas, espaços luminosos e uma estética racional que se tornaria símbolo da modernidade. Mais do que simples registros, suas imagens construíram uma narrativa visual que até hoje influencia a forma como a Bauhaus é lembrada.
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“Essa imagem moderna que ficou da Bauhaus — organizada, austera e racional — também é fruto da composição do olhar dela. A forma como Lucia enquadrava os espaços e objetos ajudou a consolidar essa estética que associamos ao movimento”, comenta Aline Kedman, designer de interiores, doutoranda pesquisadora sobre mulheres no design na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e fundadora do grupo labmargem.
A trajetória de Lucia Schulz
Nascida em Praga, na República Tcheca, em 1894, Lucia Schulz — seu nome de solteira — estudou história da arte e filosofia e também se qualificou como professora de alemão e inglês. Lucia morou um tempo em Berlim, na Alemanha, e mudou frequentemente de cidade em função do contexto marcado por guerras.
Antes de se tornar fotográfa, nos anos anteriores à Bauhaus, também trabalhou como editora, revisora e crítica literária, além de atuar no mercado editorial. Em 1919, Lucia já havia publicado, inclusive, poemas de caráter anarquista sob o pseudonômino de Ulrich Steffen, um nome masculino.
Dois anos depois, Lucia e László Moholy-Nagy, designer, fotógrafo e pintor húngaro, se conhecem e se casam em Berlim. Kalany conta que, pesquisando sobre a biografia de Lucia, há rumores de que isso aconteceu rapidamente para garantir a ele um visto alemão. Quando László é convidado a assumir a função de “mestre”, professor de design na Bauhaus, o casal muda-se para Weimar em 1923.
Dadaístas e construtivistas em Weimar (Alemanha), reunidos em setembro de 1922. Lucia e Lászlo estão no canto superior direito, um ao lado do outro, na parte mais alta da escada
Apic/Getty Images
A escola havia sido fundada pouco tempo antes, em 1919, por Walter Gropius, arquiteto nascido em Berlim. A proposta é de que Bauhaus fosse uma escola de design interdisciplinar com uma perspectiva internacional, em que seus alunos deveriam integrar arte, arquitetura e artesanato de forma otimizada, projetando edifícios como uma síntese das artes. A formação diversificada começava, com uma base comum em que os alunos aprendiam diferentes técnicas e vertentes da escola.
A história da Bauhaus, ao longo de 15 anos de existência, é dividida essencialmente em três fases em função das diferentes sedes: Weimar (1919-1925), Dessau (1925-1932) ⎯ período no qual a maioria dos produtos e edifícios mais conhecidos foram produzidos, e Berlim (1932-1933) ⎯ última sede e momento no qual a escola chega ao fim.
A Bauhaus foi uma escola de artes fundada em 1919 por Walter Gropius, em Weimar, Alemanha, conhecida por revolucionar a arquitetura e o design moderno ao integrar arte e indústria, priorizando a funcionalidade e a estética
Gunnar Klack/Wikimedia Commons
Lucia e o registro da Bauhaus
Chegando a Weimar, Lucia ficou responsável por sustentar financeiramente o casal com seu trabalho como editora. Foi na cidade que ela também se envolveu com fotografia, sendo uma das aprendizes do fotógrafo Otto Eckner, que tinha um estúdio na escola. Nos anos seguintes, entre 1925 e 1926, Lucia estudou na Academy of Graphics Arts and Book Production, na cidade alemã de Leipzig.
Essa formação ampla contribuiu para a maneira rigorosa com que ela passou a documentar o ambiente da escola. Ao chegar à Bauhaus, Lucia começou a desenvolver técnicas fotográficas e de impressão, além de aprender processos de produção gráfica. “Essa bagagem intelectual também aparece na maneira como ela documentava o mundo”, destaca Kalany.
Varanda em estúdio do prédio da Bauhaus, em Dessau. Fotografia de Lucia Moholy
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026
Além de registrar a arquitetura da escola, Lucia também fotografou objetos criados nos ateliês e atividades realizadas por alunos e professores. Muitas peças hoje consideradas icônicas do design moderno foram preservadas visualmente graças a esse trabalho. A fotógrafa também desenvolveu uma série de retratos dos alunos e mestres da escola durante o período que a documentou.
“Ela fotografou práticas e workshops que aconteciam na escola, além de trabalhos produzidos por alunos e alunas. Se hoje conhecemos muitos desses projetos, é porque as fotografias de Lucia sobreviveram e circularam”, afirma Kalany.
Retrato de Eva Weininger, arquiteta e designer alemã, nos degraus da varanda da casa de um mestre artesão em Dessau, 1927. Fotografia de Lucia Moholy
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026
Ainda que não fosse estudante ou docente da escola, Lucia estava presente cotidianamente nos espaços e acompanhava as produções ali desenvolvidas. “Muitas das imagens que conhecemos hoje da Bauhaus com seus prédios, ateliês e espaços internos, vêm do olhar de Lucia. Ela não apenas registrava a escola, mas também fazia parte daquela comunidade”, complementa a designer.
Tais registros eram feitos a partir de uma relação de trabalho que Lucia tinha com a Bauhaus, que inclusive não era remunerado. “Ela desenvolve toda uma pesquisa e um trabalho documentando a escola, como uma fotógrafa não oficial e que depois é apropriado pela escola e por Walter Gropius”, explica Aline.
Lucia Moholy teve um importante trabalho de retratos quando esteve dentro da Bauhaus e posteriomente enquanto fotógrafa independente. Retrato de Clara Zetkin, figura central do feminismo marxista e do Partido Comunista da Alemanha, feito por Lucia Moholy na década de 1930
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026
Parceria criativa com László e a invisibilização do trabalho
Lucia e László Moholy-Nagy desenvolveram ao longo de 8 anos uma parceria de vida e também de trabalho. “Foi uma parceira profícua, em que Lucia foi responsável por prover grande parte do conhecimento técnico necessário para o processo de revelação da produção não só dela, como de László”, conta Aline. Os negativos feitos à base de prata e vidro demandavam um grande cuidado e conhecimento no trato, para além do fotografar em si.
Fotografia de László Moholy-Nagy feita por Hugo Erfurth na década de 1930
Hugo Erfurth/Domínio Público/Wikimedia Commons
Em 1925, um movimento violento, que marcou a trajetória de Lucia nos anos seguintes, abala a relação do casal. László retira o nome da fotógrafa de trechos e fotografias da importante publicação Malerei, Fotografie, Film, de 1925 (Painting, Photography, Film), até hoje considerado um manifesto da fotografia moderna, com grande circulação também na época.
Quatro anos depois, em 1929, o casamento do casal Moholy chega ao fim. “Apesar de lembrarem deles como um casal, é muito importante afirmar que Lucia teve uma produção grande antes e depois disso, que vai muito além da parceria desenvolvida entre eles”, salienta Aline.
No livro Malerei, Fotografie, Film, Lászlo retira o crédito da autoria de fotos de Lucia Moholy
Amazon/Divulgação
A disputa pelos negativos com Walter Gropius
Em função do regime nazista que vigorava na Alemanha e suas origens judaicas, além de sua relação com Lászlo, comunista, Lucia precisa fugir do país em 1933, deixando para trás os negativos das suas fotografias.
Tais negativos tornam-se motivo de uma luta que ocupa um bom período da vida de Lucia. Ao reconhecer suas próprias fotos em um catálogo de uma exposição no MoMA, em Nova Iorque, com o crédito atribuído de maneira errônea, a fotógrafa descobriu que Walter Gropius deteve a produção original de Lucia e explorou tais imagens para construir seu legado.
Walter Gropius, fundador da escola e ex-diretor, deteve durante muitos anos os negativos das fotografias de Lucia Moholy. Na foto, Walter Gropius no terraço da Escola de Design de Ulm (HfG) em 1º de outubro de 1955, durante a cerimônia de inauguração dos edifícios
René Spitz/Wikimedia Commons
Após negar inicialmente que estava com material, Gropius recusou-se a devolver o material à fotógrafa. Muitas das imagens feitas por Lucia passaram a circular amplamente em publicações, exposições e livros dedicados à Bauhaus, frequentemente, sem a devida atribuição de autoria. Entre essas publicações está o livro The New Architecture and the Bauhaus, lançado por Gropius, que utilizou diversas fotografias produzidas por Lucia Moholy.
Depois, Lucia passa um bom tempo em Londres atuando como fotógrafa, quando publica o livro A Hundred Years of Photography 1839-1939. “A partir desse trabalho, principalmente, Lucia se firma como uma pesquisadora, uma pessoa que publica, unindo a sua formação como historiadora e crítica de arte, e fundamentando de forma teórica tudo aquilo que havia vivenciado de forma prática na sua carreira como fotógrafa”, diz Aline.
O livro A Hundred Years of Photography 1839-1939 consolida Lucia Moholy consolida a artista não só como fotógrafa, mas também como teórica e reúne a sua formação em história da arte
Amazon/Divulgação
“Sem acesso aos próprios negativos e sem o reconhecimento formal dessas imagens, Lucia não conseguia demonstrar plenamente o trabalho que havia realizado. Isso teve um impacto direto também na possibilidade de continuar sua carreira em outros lugares”, indica Aline.
Em 1941, ao tentar se estabecelecer nos Estados Unidos para fugir da perseguição nazista, Lucia teve seu visto negado diante da impossibilidade de provar sua experiência como fotógrafa ou professora. Mas a sua luta não parou. Cinco anos depois, trabalhou com a Unesco em documentários culturais no Oriente Médio, e buscou a ajuda de um advogado para recuperar suas obras.
Em 1957, a fotógrafa conseguiu recuperar entre duzentos e trezentos negativos, longe da totalidade do que havia produzido, porém um primeiro passo importante. Depois, em 1972, Lucia também publicou o livro Moholy-Nagy Marginal Notes, para expor seu papel no projeto em que László havia retirado o seu nome.
Ainda hoje, parte de suas obras seguem creditadas como de autoria desconhecida, e parte do acervo de Lucia Moholy está vinculado ao Bauhaus Archiv, que reúne materiais vinculados aos artistas da escola. Os negativos resgatados foram doados para o arquivo em 1992, após a morte da fotógrafa. Kalany pontua que outra parte de sua obra integra a coleção de arte da Universidade de Harvard, possivelmente, doado por Ise Gropius, esposa de Walter, após a sua morte em 1969.
Lucia Moholy recupera após anos de luta judicial os direitos de seus negativos. Na imagem, um negativo de um retrato da fotógrafa
Metropolitan Museum of Art/Warner Communications Inc. Purchase Fund, 1981/Wikimedia Commons
Uma memória construída em imagens
Mesmo com uma trajetória extensa, seu nome permaneceu durante décadas em segundo plano na história da Bauhaus. Hoje, pesquisadores e historiadores vêm revisitando arquivos, publicações e documentos para reconhecer a dimensão de sua contribuição.
“Revisitar trajetórias como a de Lucia é uma forma de justiça histórica. Quando ampliamos o olhar sobre essas histórias, percebemos que a produção cultural foi muito mais diversa do que durante muito tempo nos fizeram acreditar”, reflete Aline.
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A revisitação recente tem se dado também em prol de identificar e reconhecer o trabalho de diversas mulheres de outros períodos históricos, movimentos e espaços, e não apenas de Lucia Moholy e outras mulheres presentes na Bauhaus. Kalany destaca que, apesar do design ser uma área relativamente nova, permanece profundamente masculina nos nomes levados adiante na historiografia, no que se aprende e se referencia.
“As mulheres estavam lá e falamos pouco disso ainda. O interesse no tópico é muito importante para que se mantenha viva a pesquisa, a troca de informações e a curiosidade por novas publicações. Precisamos de nomes, exemplos, compilados que tratem disso, para que assim se consolidem entre nós e levem a próxima geração ainda mais além”, analisa a designer visual.

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