Com quase um século de vida, Pietro Maria Bardi (1900–1999) foi jornalista, historiador, marchand, galerista, crítico de arte e arquitetura, idealizador e diretor do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP.
O profissional italiano naturalizado brasileiro, lembrado pela sua proximidade às múltiplas áreas do conhecimento, também foi companheiro de vida e de trabalho da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992).
Ele deixou um legado vasto para a arte e cultura brasileira, além de reflexões importantes para o campo da museologia. Conheça sua história a seguir!
Os primeiros anos de Pietro e sua formação na Itália
Nascido na cidade de La Spezia, no norte da Itália, Pietro teve uma vida escolar bastante agitada e, ainda jovem, abandonou os estudos formais. Porém, tinha grande apreço pelos livros. “Fora da escola, ele atuou como assistente em um escritório de advocacia. O advogado deixava Bardi frequentar a biblioteca pessoal e, desde então, cultivou esse hábito de maneira muito ávida”, conta Eugênia Gorini Esmerado, jornalista, pesquisadora e ex-assistente de Pietro no MASP durante quase 40 anos.
O autodidatismo, que marcou toda a sua carreira, estabelecia-se como uma fagulha desde esse momento. Com 17 anos, publicou junto a uma editora de Milão, um importante polo italiano nesse contexto, um pequeno artigo sobre o pensamento do filósofo Jeremy Bentham (1748–1832). Porém, em 1917, acaba sendo convocado para integrar o exército italiano, o que fez com que fosse obrigado a sair de sua cidade natal.
Pietro Maria Bardi teve colaborou com diferentes áreas do conhecimento. Na fotografia, ele está sentado sobre um teto de capela barroca exposta no MASP, 1985
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Bob Wolfenson/Divulgação
Bérgamo foi o próximo destino e onde Pietro começou a consolidar a sua carreira como jornalista. Com a saída da carreira militar, começou a colaborar com diferentes veículos, inclusive o Corriere della Sera, de Milão. É para lá que ele se transfere em 1924 após se casar com Gemma Tortarolo, a sua primeira esposa, com quem manteve contato até quase o final de sua vida.
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Nessa nova cidade, Pietro inicia a sua atuação como marchand e crítico de arte. Primeiro, trabalha em galerias já existentes e, depois, abre o seu próprio espaço em 1926.
É com a fundação da chamada Galleria Bardi, dois anos depois, que o seu trabalho nesse campo ganha maior proeminência. Lá, conhece e revela inúmeros artistas e profissionais de técnicas e estilos variados, além de estabelecer contatos importantes com críticos e intelectuais do período.
Pietro Maria Bardi teve uma importante atuação na Itália como jornalista, ainda na sua cidade natal, La Spezia
Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação
Em 1930, Pietro se muda mais uma vez, agora para Roma, para dirigir a Galleria d’Arte di Roma. “Essa galeria se torna uma base para a organização do movimento de arquitetura racionalista, uma importante geração de arquitetos do período entreguerras subsequente aos futuristas, recebendo inclusive uma exposição em 1931 na galeria de Bardi”, relata Renato Anelli, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e vice-presidente do Instituto Lina B. e P. M. Bardi – Casa de Vidro.
Nesse momento, Pietro tinha uma relação de apoio ao governo de Benito Mussolini, político que liderou o Partido Nacional Fascista. “Em função disso, ele tenta criar uma situação para valorizar a arquitetura racionalista como aquela que deveria ser a proposta do Estado, em detrimento da vertente mais tradicional, que vinha sendo feita, porém é algo que não avança em função da força dos arquitetos já estabelecidos”, comenta Renato.
Apesar da aproximação com a arquitetura e da crítica, com o passar dos anos, a sua atuação como editor e escritor permaneceu. Junto a Massimo Bontempelli (1878-1960), criou a chamada revista Quadrante, uma publicação que ficou em circulação de 1933 a 1937. “A revista encerra as atividades com o alinhamento do fascismo com o nazismo e Bardi perde espaço público, inclusive, fazendo alguns artigos sobre o contexto, evidenciando essa relação dual com os ideais do regime”, aponta Renato.
Ao se aproximar de arquitetos vanguardistas da Itália e de outras regiões, Pietro teve a possibilidade de participar do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, organizar conferências com Le Corbusier (1887-1965) — arquiteto, urbanista e pintor suíço-francês — e trazer uma exposição à Argentina sobre o tema. Foi nesse ano, e diante das viagens da exposição, que ele visitou o Brasil pela primeira vez em 1933, ainda que de forma rápida.
Pietro Maria Bardi conheceu o Brasil pela primeira vez após uma passagem pela Argentina em função de uma exposição sobre a arquitetura racionalista
Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação
Durante a viagem, Pietro carrega consigo um pequeno diário, que virou justamente o enfoque da tese de doutorado de Eugênia, desenvolvida na Unicamp. “Esse texto foi uma descoberta recente feita pela Ivani Di Grazia Costa, coordenadora da biblioteca do MASP, e estava em meio aos livros raros que Pietro e Lina doaram ao museu. É um relato pessoal que trata de assuntos como o seu primeiro contato com cidades brasileiras, como Salvador e Rio de Janeiro, e também sobre esse momento da vida de Bardi na Itália”, diz a jornalista e pesquisadora.
De volta ao seu país natal, ele teve participação importante na revista Il Vetro, que trazia questões sobre a aplicação do vidro na arquitetura e na indústria. Já em 1944, fundou o Studio d’Arte Palma. Além de o local ser um significativo centro de pesquisa e venda de arte, foi onde, o que aponta uma das versões da historiografia, ele conheceu a jovem Lina Bo, em uma visita da arquiteta a Roma.
O período em que Pietro Maria Bardi esteve vinculado ao Studio d’Arte Palma foi bastante importante para sua aproximação com a arquitetura e o mercado da arte do período. Fotografia de Pietro na Casa de Vidro, em São Paulo, em 1969
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Masaaki Minegishi/Divulgação
A chegada ao Brasil e a idealização do MASP
Após se divorciar da primeira esposa, Pietro Bardi e Lina Bo se casam em 1946 e nesse mesmo ano partem rumo ao Brasil. “A coleção de obras de arte, peças de artesanato e a biblioteca pessoal de Bardi são trazidas juntas na embarcação, mostrando esse interesse de permanecer aqui por um tempo prolongado”, conta Renato.
Em agosto de 1946, é realizado o casamento de Lina e Pietro, em Campidoglio, em Roma, na Itália
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Elio Cardone/Divulgação
Com esse material de obras, adquiridas sobretudo durante o período do Studio d’Arte Palma, Pietro é convidado a organizar a mostra Exposição de pintura italiana antiga, no atual edifício do Palácio Capanema, no Rio de Janeiro.
Nesse período ocorre o famoso encontro entre Pietro Bardi e Assis Chateaubriand (1892-1962), jornalista influente brasileiro do período, empresário e fundador do conglomerado de mídia dos Diários Associados e da TV Tupi. “Nunca se soube se esse primeiro contato se deu no Rio de Janeiro ou anteriormente em Roma, mas o que se sabe é que, a partir desse momento, Chateaubriand o convida para ajudar a criar e dirigir o museu”, coloca Eugênia.
Discurso em cerimônia no MASP de Pietro Maria Bardi (à esquerda) e Assis Chateuabriand (à direita) em 1947
Cedida pelo MASP/Rizzoli Editore – Centro Documentazione/Divulgação
A transferência do casal para São Paulo acontece no ano seguinte, em 1947. Juntos, Pietro e Lina realizaram as primeiras instalações do museu, provisoriamente situado no segundo andar da sede dos Diários Associados, na Rua Sete de Abril, no centro da capital paulista. Ele foi nomeado oficialmente o primeiro diretor da instituição naquele ano.
O primeiro momento do MASP é marcado pela aquisição de obras e doações. Até 1953, Pietro realiza uma série de viagens internacionais e, acompanhado de Chateaubriand e com apoio da equipe do Studio d’Arte Palma, adquire obras importantes e presentes no acervo até hoje.
Pietro Maria Bardi teve um importante papel na aquisição de obras e na composição do acervo do MASP, hoje ainda uma referência no mundo da arte
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Matuiti Mayezo/Divulgação
Os princípios norteadores do museu e da constituição de seu acervo e exposições eram bastante inovadores para o período. “A ideia era que o MASP fosse didático e trouxesse à população acesso à cultura e arte. Bardi escreve muitos artigos nesse momento sobre como pensava o museu e o que ele deveria possibilitar: uma arquitetura livre, com iluminação adequada e espaços para múltiplas atividades, além de sediar múltiplas expressões artísticas e profissionais”, pontua Eugênia.
Isso se refletia também no espaço expositivo. Com o projeto expográfico e de interiores liderado por Lina Bo Bardi, também com influência da parceria com Pietro, propõe-se um sistema de estruturas destacadas da parede, inicialmente tubulares, e, posteriormente, em suportes de vidro.
Vista da construção do edifício do MASP na Avenida Paulista, na década de 1960
Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP/Luiz Hossaka/Reprodução
“O MASP não era um museu de arte moderna, propunha-se a ser um museu de arte, uma vez que Bardi não separa a arte moderna dessa arte desenvolvida anteriormente, nem a arte erudita da arte chamada popular, diante da qual Bardi e Lina detinham uma atenção e um olhar dedicado”, explica Renato.
Isso era evidente nos artigos escritos por Pietro e Lina em diferentes publicações, como a Revista Habitat, fundada pelo casal, e também propicia a criação de outras iniciativas como o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) — uma das primeiras iniciativas de ensino de design no Brasil — e a Escola de Propaganda, hoje, ESPM.
“O MASP, nessa concepção, traz marcos importantes como a criação do primeiro curso superior de desenho industrial e o primeiro desfile de moda brasileira. A ideia era transformar o museu em um verdadeiro polo ativo nessa São Paulo que pretendia se firmar como metrópole”, coloca o professor.
O edifício do MASP na Avenida Paulista pretende se abrir ao público com uma estrutura democrática. Nessa fotografia, é possível ver o novo prédio do museu (à esquerda), Pietro Maria Bardi, que homenageia o seu primeiro diretor
Leonardo Finotti/Divulgação
Após uma grande polêmica em 1953 de que o museu estava adquirindo obras falsas, o acervo do MASP circula internacionalmente. “Bardi leva essas obras para instituições importantes na França, Estados Unidos e outros destinos internacionais para reafirmar os valores das obras e da instituição”, explica Eugênia.
É a partir desse momento que o museu, com Pietro e Lina, também começa a repensar os seus próximos passos. Lina elaborou os primeiros projetos para a sede do MASP no Trianon e foi em novembro de 1968 que o museu foi efetivamente inaugurado na Avenida Paulista, em cerimônia que contou com a presença da Rainha Elizabeth II da Inglaterra.
“O prédio é concebido nessa dimensão de monumentalidade, em que se coloca a política, cultura e trabalho em três planos sobrepostos. O museu com os vidros e seu grande vão que se abre e convida a sociedade a adentrá-lo”, destaca Renato.
O desenho da Casa de Vidro — vista e perspectiva — realizado em caneta esferográfica, sem data, com hidrografia e grafite sobre papel offset, revela a essência arquitetônica do projeto
Instituto Bardi/Divulgação
Ao longo de todos os anos no Brasil, Pietro manteve-se ativo dentre as diferentes áreas de ensaísta, crítico, historiador, pesquisador a galerista. Em 1990, o casal fundou o Instituto Quadrante, hoje conhecido como Instituto Lina Bo e P.M. Bardi – Casa de Vidro, como um espaço aberto a atividades e estudos culturais, relacionados à história da arte e arquitetura.
Dois anos depois, publicou o seu último livro, História do MASP, e, em 1996, afastou-se da direção do museu. Pietro Maria Bardi manteve-se na direção do Instituto até o último dia de vida e faleceu em outubro de 1999, em função da falência múltipla de órgãos e um acidente vascular cerebral isquêmico. Seu legado, no entanto, permanece.
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Eugênia, que retornou à universidade para desenvolver o doutorado sobre sua convivência com Pietro — motivada pela percepção de certo esquecimento em torno dessa figura — afirma: “Bardi deixa um legado enorme para a cultura brasileira: o MASP, sua forma de pensar uma instituição aberta e democrática, além da própria Casa de Vidro e das inúmeras obras que doou a órgãos como o Iphan”.
Como parte do trabalho de recuperação do seu legado e atuação, foi realizada, entre outras iniciativas, a exposição Bardi 125 – uma autobiografia em casa, na celebração de 125 anos do nascimento de Pietro Bardi, em outubro de 2025. A mostra teve curadoria de Giancarlo Latorraca e Jayme Vargas e foi realizada na própria Casa de Vidro, sede do Instituto projetada por Lina Bo Bardi.
O profissional italiano naturalizado brasileiro, lembrado pela sua proximidade às múltiplas áreas do conhecimento, também foi companheiro de vida e de trabalho da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992).
Ele deixou um legado vasto para a arte e cultura brasileira, além de reflexões importantes para o campo da museologia. Conheça sua história a seguir!
Os primeiros anos de Pietro e sua formação na Itália
Nascido na cidade de La Spezia, no norte da Itália, Pietro teve uma vida escolar bastante agitada e, ainda jovem, abandonou os estudos formais. Porém, tinha grande apreço pelos livros. “Fora da escola, ele atuou como assistente em um escritório de advocacia. O advogado deixava Bardi frequentar a biblioteca pessoal e, desde então, cultivou esse hábito de maneira muito ávida”, conta Eugênia Gorini Esmerado, jornalista, pesquisadora e ex-assistente de Pietro no MASP durante quase 40 anos.
O autodidatismo, que marcou toda a sua carreira, estabelecia-se como uma fagulha desde esse momento. Com 17 anos, publicou junto a uma editora de Milão, um importante polo italiano nesse contexto, um pequeno artigo sobre o pensamento do filósofo Jeremy Bentham (1748–1832). Porém, em 1917, acaba sendo convocado para integrar o exército italiano, o que fez com que fosse obrigado a sair de sua cidade natal.
Pietro Maria Bardi teve colaborou com diferentes áreas do conhecimento. Na fotografia, ele está sentado sobre um teto de capela barroca exposta no MASP, 1985
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Bob Wolfenson/Divulgação
Bérgamo foi o próximo destino e onde Pietro começou a consolidar a sua carreira como jornalista. Com a saída da carreira militar, começou a colaborar com diferentes veículos, inclusive o Corriere della Sera, de Milão. É para lá que ele se transfere em 1924 após se casar com Gemma Tortarolo, a sua primeira esposa, com quem manteve contato até quase o final de sua vida.
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Nessa nova cidade, Pietro inicia a sua atuação como marchand e crítico de arte. Primeiro, trabalha em galerias já existentes e, depois, abre o seu próprio espaço em 1926.
É com a fundação da chamada Galleria Bardi, dois anos depois, que o seu trabalho nesse campo ganha maior proeminência. Lá, conhece e revela inúmeros artistas e profissionais de técnicas e estilos variados, além de estabelecer contatos importantes com críticos e intelectuais do período.
Pietro Maria Bardi teve uma importante atuação na Itália como jornalista, ainda na sua cidade natal, La Spezia
Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação
Em 1930, Pietro se muda mais uma vez, agora para Roma, para dirigir a Galleria d’Arte di Roma. “Essa galeria se torna uma base para a organização do movimento de arquitetura racionalista, uma importante geração de arquitetos do período entreguerras subsequente aos futuristas, recebendo inclusive uma exposição em 1931 na galeria de Bardi”, relata Renato Anelli, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e vice-presidente do Instituto Lina B. e P. M. Bardi – Casa de Vidro.
Nesse momento, Pietro tinha uma relação de apoio ao governo de Benito Mussolini, político que liderou o Partido Nacional Fascista. “Em função disso, ele tenta criar uma situação para valorizar a arquitetura racionalista como aquela que deveria ser a proposta do Estado, em detrimento da vertente mais tradicional, que vinha sendo feita, porém é algo que não avança em função da força dos arquitetos já estabelecidos”, comenta Renato.
Apesar da aproximação com a arquitetura e da crítica, com o passar dos anos, a sua atuação como editor e escritor permaneceu. Junto a Massimo Bontempelli (1878-1960), criou a chamada revista Quadrante, uma publicação que ficou em circulação de 1933 a 1937. “A revista encerra as atividades com o alinhamento do fascismo com o nazismo e Bardi perde espaço público, inclusive, fazendo alguns artigos sobre o contexto, evidenciando essa relação dual com os ideais do regime”, aponta Renato.
Ao se aproximar de arquitetos vanguardistas da Itália e de outras regiões, Pietro teve a possibilidade de participar do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, organizar conferências com Le Corbusier (1887-1965) — arquiteto, urbanista e pintor suíço-francês — e trazer uma exposição à Argentina sobre o tema. Foi nesse ano, e diante das viagens da exposição, que ele visitou o Brasil pela primeira vez em 1933, ainda que de forma rápida.
Pietro Maria Bardi conheceu o Brasil pela primeira vez após uma passagem pela Argentina em função de uma exposição sobre a arquitetura racionalista
Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP/Divulgação
Durante a viagem, Pietro carrega consigo um pequeno diário, que virou justamente o enfoque da tese de doutorado de Eugênia, desenvolvida na Unicamp. “Esse texto foi uma descoberta recente feita pela Ivani Di Grazia Costa, coordenadora da biblioteca do MASP, e estava em meio aos livros raros que Pietro e Lina doaram ao museu. É um relato pessoal que trata de assuntos como o seu primeiro contato com cidades brasileiras, como Salvador e Rio de Janeiro, e também sobre esse momento da vida de Bardi na Itália”, diz a jornalista e pesquisadora.
De volta ao seu país natal, ele teve participação importante na revista Il Vetro, que trazia questões sobre a aplicação do vidro na arquitetura e na indústria. Já em 1944, fundou o Studio d’Arte Palma. Além de o local ser um significativo centro de pesquisa e venda de arte, foi onde, o que aponta uma das versões da historiografia, ele conheceu a jovem Lina Bo, em uma visita da arquiteta a Roma.
O período em que Pietro Maria Bardi esteve vinculado ao Studio d’Arte Palma foi bastante importante para sua aproximação com a arquitetura e o mercado da arte do período. Fotografia de Pietro na Casa de Vidro, em São Paulo, em 1969
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Masaaki Minegishi/Divulgação
A chegada ao Brasil e a idealização do MASP
Após se divorciar da primeira esposa, Pietro Bardi e Lina Bo se casam em 1946 e nesse mesmo ano partem rumo ao Brasil. “A coleção de obras de arte, peças de artesanato e a biblioteca pessoal de Bardi são trazidas juntas na embarcação, mostrando esse interesse de permanecer aqui por um tempo prolongado”, conta Renato.
Em agosto de 1946, é realizado o casamento de Lina e Pietro, em Campidoglio, em Roma, na Itália
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Elio Cardone/Divulgação
Com esse material de obras, adquiridas sobretudo durante o período do Studio d’Arte Palma, Pietro é convidado a organizar a mostra Exposição de pintura italiana antiga, no atual edifício do Palácio Capanema, no Rio de Janeiro.
Nesse período ocorre o famoso encontro entre Pietro Bardi e Assis Chateaubriand (1892-1962), jornalista influente brasileiro do período, empresário e fundador do conglomerado de mídia dos Diários Associados e da TV Tupi. “Nunca se soube se esse primeiro contato se deu no Rio de Janeiro ou anteriormente em Roma, mas o que se sabe é que, a partir desse momento, Chateaubriand o convida para ajudar a criar e dirigir o museu”, coloca Eugênia.
Discurso em cerimônia no MASP de Pietro Maria Bardi (à esquerda) e Assis Chateuabriand (à direita) em 1947
Cedida pelo MASP/Rizzoli Editore – Centro Documentazione/Divulgação
A transferência do casal para São Paulo acontece no ano seguinte, em 1947. Juntos, Pietro e Lina realizaram as primeiras instalações do museu, provisoriamente situado no segundo andar da sede dos Diários Associados, na Rua Sete de Abril, no centro da capital paulista. Ele foi nomeado oficialmente o primeiro diretor da instituição naquele ano.
O primeiro momento do MASP é marcado pela aquisição de obras e doações. Até 1953, Pietro realiza uma série de viagens internacionais e, acompanhado de Chateaubriand e com apoio da equipe do Studio d’Arte Palma, adquire obras importantes e presentes no acervo até hoje.
Pietro Maria Bardi teve um importante papel na aquisição de obras e na composição do acervo do MASP, hoje ainda uma referência no mundo da arte
Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/Matuiti Mayezo/Divulgação
Os princípios norteadores do museu e da constituição de seu acervo e exposições eram bastante inovadores para o período. “A ideia era que o MASP fosse didático e trouxesse à população acesso à cultura e arte. Bardi escreve muitos artigos nesse momento sobre como pensava o museu e o que ele deveria possibilitar: uma arquitetura livre, com iluminação adequada e espaços para múltiplas atividades, além de sediar múltiplas expressões artísticas e profissionais”, pontua Eugênia.
Isso se refletia também no espaço expositivo. Com o projeto expográfico e de interiores liderado por Lina Bo Bardi, também com influência da parceria com Pietro, propõe-se um sistema de estruturas destacadas da parede, inicialmente tubulares, e, posteriormente, em suportes de vidro.
Vista da construção do edifício do MASP na Avenida Paulista, na década de 1960
Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP/Luiz Hossaka/Reprodução
“O MASP não era um museu de arte moderna, propunha-se a ser um museu de arte, uma vez que Bardi não separa a arte moderna dessa arte desenvolvida anteriormente, nem a arte erudita da arte chamada popular, diante da qual Bardi e Lina detinham uma atenção e um olhar dedicado”, explica Renato.
Isso era evidente nos artigos escritos por Pietro e Lina em diferentes publicações, como a Revista Habitat, fundada pelo casal, e também propicia a criação de outras iniciativas como o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) — uma das primeiras iniciativas de ensino de design no Brasil — e a Escola de Propaganda, hoje, ESPM.
“O MASP, nessa concepção, traz marcos importantes como a criação do primeiro curso superior de desenho industrial e o primeiro desfile de moda brasileira. A ideia era transformar o museu em um verdadeiro polo ativo nessa São Paulo que pretendia se firmar como metrópole”, coloca o professor.
O edifício do MASP na Avenida Paulista pretende se abrir ao público com uma estrutura democrática. Nessa fotografia, é possível ver o novo prédio do museu (à esquerda), Pietro Maria Bardi, que homenageia o seu primeiro diretor
Leonardo Finotti/Divulgação
Após uma grande polêmica em 1953 de que o museu estava adquirindo obras falsas, o acervo do MASP circula internacionalmente. “Bardi leva essas obras para instituições importantes na França, Estados Unidos e outros destinos internacionais para reafirmar os valores das obras e da instituição”, explica Eugênia.
É a partir desse momento que o museu, com Pietro e Lina, também começa a repensar os seus próximos passos. Lina elaborou os primeiros projetos para a sede do MASP no Trianon e foi em novembro de 1968 que o museu foi efetivamente inaugurado na Avenida Paulista, em cerimônia que contou com a presença da Rainha Elizabeth II da Inglaterra.
“O prédio é concebido nessa dimensão de monumentalidade, em que se coloca a política, cultura e trabalho em três planos sobrepostos. O museu com os vidros e seu grande vão que se abre e convida a sociedade a adentrá-lo”, destaca Renato.
O desenho da Casa de Vidro — vista e perspectiva — realizado em caneta esferográfica, sem data, com hidrografia e grafite sobre papel offset, revela a essência arquitetônica do projeto
Instituto Bardi/Divulgação
Ao longo de todos os anos no Brasil, Pietro manteve-se ativo dentre as diferentes áreas de ensaísta, crítico, historiador, pesquisador a galerista. Em 1990, o casal fundou o Instituto Quadrante, hoje conhecido como Instituto Lina Bo e P.M. Bardi – Casa de Vidro, como um espaço aberto a atividades e estudos culturais, relacionados à história da arte e arquitetura.
Dois anos depois, publicou o seu último livro, História do MASP, e, em 1996, afastou-se da direção do museu. Pietro Maria Bardi manteve-se na direção do Instituto até o último dia de vida e faleceu em outubro de 1999, em função da falência múltipla de órgãos e um acidente vascular cerebral isquêmico. Seu legado, no entanto, permanece.
Leia mais
Eugênia, que retornou à universidade para desenvolver o doutorado sobre sua convivência com Pietro — motivada pela percepção de certo esquecimento em torno dessa figura — afirma: “Bardi deixa um legado enorme para a cultura brasileira: o MASP, sua forma de pensar uma instituição aberta e democrática, além da própria Casa de Vidro e das inúmeras obras que doou a órgãos como o Iphan”.
Como parte do trabalho de recuperação do seu legado e atuação, foi realizada, entre outras iniciativas, a exposição Bardi 125 – uma autobiografia em casa, na celebração de 125 anos do nascimento de Pietro Bardi, em outubro de 2025. A mostra teve curadoria de Giancarlo Latorraca e Jayme Vargas e foi realizada na própria Casa de Vidro, sede do Instituto projetada por Lina Bo Bardi.



