O Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, é um lugar notável onde história, arquitetura e reinvenção se encontram. Esse imenso complexo aeroportuário foi construído entre 1936 e 1939, durante o infame Terceiro Reich. Posteriormente, tornou-se um exemplo da chamada “arquitetura da intimidação” do regime nazista — uma filosofia de projeto concebida para inspirar e, ao mesmo tempo, amedrontar as pessoas.
As fachadas monumentais do aeroporto, com revestimento em pedra natural, linhas geométricas marcantes, torres de aparência fortificada e fileiras intermináveis de janelas em blocos, foram cuidadosamente concebidas para transmitir poder e domínio. Até mesmo as enormes escadarias inacabadas, que levariam a arquibancadas no terraço — onde mais de 80 mil pessoas poderiam assistir a shows aéreos de propaganda da Luftwaffe —, e as gigantescas cabeças de águia em pedra, pensadas para representar a Águia de Guerra nazista, funcionam como lembranças sombrias da ideologia que as originou.
“A mãe de todos os aeroportos”
Vista aérea do Aeroporto de Tempelhof, por volta de 1930. O aeroporto foi remodelado pelo arquiteto Ernst Sagebiel entre 1936 e 1941
FPG/Getty Images
O Aeroporto de Tempelhof foi projetado por Ernst Sagebiel, que idealizou uma estrutura diferente de tudo o que o mundo já havia visto, para concretizar a visão de Adolf Hitler de um “Aeroporto Mundial”.
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O aeroporto ocupa uma área oval de 909 acres, lembrando um espelho alongado maior que o Central Park. Em sua borda noroeste, um terminal semicircular imponente se estende por mais de um quilômetro e atravessa diversos bairros de Berlim, tornando-se um dos maiores edifícios independentes do mundo. Projetado para lembrar uma águia em voo, o terminal reúne vários hangares de aço puro com curvaturas marcantes e um portão de embarque de 380 metros de extensão, sustentado por uma estrutura em balanço.
Uma fotografia aérea gigante do Aeroporto de Tempelhof no próprio aeroporto, em 29 de junho de 2007, em Berlim
Sean Gallup/Getty Images
Construído na década de 1930, o complexo traçado arquitetônico de Tempelhof — que inclui níveis separados para partidas, chegadas e transporte de cargas — estava muito à frente de seu tempo. O edifício de recepção apresenta uma fachada ornamentada, marcada por grandes relevos, uma enorme águia de alumínio e 21 portas de entrada que conduzem primeiro a um salão de honra e depois às áreas de embarque. Sua cobertura única, em estilo de dossel de aço com 40 metros de altura, ainda é considerada uma obra-prima da engenharia. Décadas mais tarde, o renomado arquiteto Norman Foster se encantaria com a escala e a ambição incomparáveis de Tempelhof, chamando-o de “a mãe de todos os aeroportos”.
Mas o destino interveio, e a Segunda Guerra Mundial frustrou os planos de Sagebiel. O Aeroporto Mundial de Hitler nunca foi concluído. Ainda assim, apesar de suas origens controversas, o aeroporto se transformou em algo muito maior do que seus idealizadores poderiam imaginar — tornou-se o “símbolo da liberdade” de Berlim.
O “símbolo da liberdade” de Berlim
Pouco utilizado pelo regime nazista e severamente danificado pela guerra, Tempelhof acabou se transformando em um símbolo de liberdade para os berlinenses, funcionando como uma linha vital para a cidade durante o Bloqueio de Berlim em 1948, como centro de acolhimento para refugiados sírios em 2015 e, mais recentemente, como espaço de entretenimento e parque urbano.
Imagem da área de embarque do Aeroporto de Tempelhof. O aeroporto, conhecido por seu papel na Ponte Aérea de Berlim de 1948, foi oficialmente fechado em 30 de outubro de 2008. Hoje, o aeroporto e sua pista são utilizados como área de lazer
Ivar Østby Simonsen/Getty Images
Durante a Ponte Aérea de Berlim (1948-49), Tempelhof tornou-se o principal elo de sobrevivência da Berlim Ocidental, com aeronaves americanas pousando ali a cada poucos minutos para entregar alimentos, combustível, medicamentos e outros itens essenciais para sustentar a cidade isolada. Os pilotos frequentemente levavam doces consigo. Um deles, Gail Halvorsen, ficou conhecido por amarrar balas a pequenos paraquedas e distribuí-las às crianças em Berlim, o que rendeu à sua aeronave o apelido de “Bombardeiro de Doces”.
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“Tempelhof passou a ser visto como um ‘Portal para a Liberdade’ e gradualmente adquiriu um status celebrado e profundamente simbólico, especialmente — e não por acaso — entre os berlinenses do lado ocidental”, escreve Dagmar Zadrazilova, historiadora e pesquisadora da arquitetura nazista em Berlim.
Em 1951, Tempelhof foi reaberto como aeroporto civil, atendendo Berlim e conectando a cidade ao resto do mundo durante a Guerra Fria e também depois dela. No entanto, as operações comerciais acabaram sendo encerradas e, em 2008, o aeroporto foi oficialmente fechado para dar lugar ao Aeroporto de Berlim-Brandemburgo, em Schönefeld.
Aviões particulares permanecem no pátio do Aeroporto de Tempelhof em 29 de junho de 2007, em Berlim, Alemanha
Sean Gallup/Getty Images
No fim de 2015, durante a crise de refugiados sírios, os hangares de Tempelhof foram convertidos em um abrigo coletivo, que passou a acolher mais de 2.500 refugiados sírios enquanto aguardavam a concessão de asilo na Alemanha. É irônico que um edifício nascido de um regime repressivo, responsável por perseguições e deslocamentos, tenha se tornado refúgio para milhares de pessoas que fugiam do conflito em seu país de origem.
Hoje, Tempelhof é um dos espaços públicos mais queridos de Berlim. O antigo campo de aviação foi transformado em um grande parque aberto, onde é possível caminhar e pedalar pelas antigas pistas, andar de skate sobre o concreto desgastado e empinar pipas. Fazer piqueniques nos campos hoje floridos — que abrigam uma biodiversidade notável — é uma atividade popular entre os moradores.
Vista de quartos em construção leve, onde roupas estão penduradas, no abrigo para refugiados em 9 de dezembro de 2015
Tobias Schwarz/Getty Images
Dentro do impressionante edifício do terminal, é possível participar de visitas guiadas para conhecer hangares imponentes, escadarias marcantes, áreas de desembarque inacabadas e bunkers subterrâneos ocultos. Alguns desses bunkers ainda preservam pinturas originais nas paredes, feitas para entreter crianças que se abrigavam ali durante a Segunda Guerra Mundial.
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O Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, é um exemplo singular de arquitetura urbana ressignificada. Originalmente projetado para incutir medo e demonstrar poder, esse imenso complexo hoje promove criatividade e engajamento comunitário. Com o passar do tempo, essa estrutura austera e autoritária se transformou em um espaço público vibrante, refletindo a própria transição da cidade — da divisão e do conflito para a abertura e a criatividade.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Oriente Médio
As fachadas monumentais do aeroporto, com revestimento em pedra natural, linhas geométricas marcantes, torres de aparência fortificada e fileiras intermináveis de janelas em blocos, foram cuidadosamente concebidas para transmitir poder e domínio. Até mesmo as enormes escadarias inacabadas, que levariam a arquibancadas no terraço — onde mais de 80 mil pessoas poderiam assistir a shows aéreos de propaganda da Luftwaffe —, e as gigantescas cabeças de águia em pedra, pensadas para representar a Águia de Guerra nazista, funcionam como lembranças sombrias da ideologia que as originou.
“A mãe de todos os aeroportos”
Vista aérea do Aeroporto de Tempelhof, por volta de 1930. O aeroporto foi remodelado pelo arquiteto Ernst Sagebiel entre 1936 e 1941
FPG/Getty Images
O Aeroporto de Tempelhof foi projetado por Ernst Sagebiel, que idealizou uma estrutura diferente de tudo o que o mundo já havia visto, para concretizar a visão de Adolf Hitler de um “Aeroporto Mundial”.
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O aeroporto ocupa uma área oval de 909 acres, lembrando um espelho alongado maior que o Central Park. Em sua borda noroeste, um terminal semicircular imponente se estende por mais de um quilômetro e atravessa diversos bairros de Berlim, tornando-se um dos maiores edifícios independentes do mundo. Projetado para lembrar uma águia em voo, o terminal reúne vários hangares de aço puro com curvaturas marcantes e um portão de embarque de 380 metros de extensão, sustentado por uma estrutura em balanço.
Uma fotografia aérea gigante do Aeroporto de Tempelhof no próprio aeroporto, em 29 de junho de 2007, em Berlim
Sean Gallup/Getty Images
Construído na década de 1930, o complexo traçado arquitetônico de Tempelhof — que inclui níveis separados para partidas, chegadas e transporte de cargas — estava muito à frente de seu tempo. O edifício de recepção apresenta uma fachada ornamentada, marcada por grandes relevos, uma enorme águia de alumínio e 21 portas de entrada que conduzem primeiro a um salão de honra e depois às áreas de embarque. Sua cobertura única, em estilo de dossel de aço com 40 metros de altura, ainda é considerada uma obra-prima da engenharia. Décadas mais tarde, o renomado arquiteto Norman Foster se encantaria com a escala e a ambição incomparáveis de Tempelhof, chamando-o de “a mãe de todos os aeroportos”.
Mas o destino interveio, e a Segunda Guerra Mundial frustrou os planos de Sagebiel. O Aeroporto Mundial de Hitler nunca foi concluído. Ainda assim, apesar de suas origens controversas, o aeroporto se transformou em algo muito maior do que seus idealizadores poderiam imaginar — tornou-se o “símbolo da liberdade” de Berlim.
O “símbolo da liberdade” de Berlim
Pouco utilizado pelo regime nazista e severamente danificado pela guerra, Tempelhof acabou se transformando em um símbolo de liberdade para os berlinenses, funcionando como uma linha vital para a cidade durante o Bloqueio de Berlim em 1948, como centro de acolhimento para refugiados sírios em 2015 e, mais recentemente, como espaço de entretenimento e parque urbano.
Imagem da área de embarque do Aeroporto de Tempelhof. O aeroporto, conhecido por seu papel na Ponte Aérea de Berlim de 1948, foi oficialmente fechado em 30 de outubro de 2008. Hoje, o aeroporto e sua pista são utilizados como área de lazer
Ivar Østby Simonsen/Getty Images
Durante a Ponte Aérea de Berlim (1948-49), Tempelhof tornou-se o principal elo de sobrevivência da Berlim Ocidental, com aeronaves americanas pousando ali a cada poucos minutos para entregar alimentos, combustível, medicamentos e outros itens essenciais para sustentar a cidade isolada. Os pilotos frequentemente levavam doces consigo. Um deles, Gail Halvorsen, ficou conhecido por amarrar balas a pequenos paraquedas e distribuí-las às crianças em Berlim, o que rendeu à sua aeronave o apelido de “Bombardeiro de Doces”.
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“Tempelhof passou a ser visto como um ‘Portal para a Liberdade’ e gradualmente adquiriu um status celebrado e profundamente simbólico, especialmente — e não por acaso — entre os berlinenses do lado ocidental”, escreve Dagmar Zadrazilova, historiadora e pesquisadora da arquitetura nazista em Berlim.
Em 1951, Tempelhof foi reaberto como aeroporto civil, atendendo Berlim e conectando a cidade ao resto do mundo durante a Guerra Fria e também depois dela. No entanto, as operações comerciais acabaram sendo encerradas e, em 2008, o aeroporto foi oficialmente fechado para dar lugar ao Aeroporto de Berlim-Brandemburgo, em Schönefeld.
Aviões particulares permanecem no pátio do Aeroporto de Tempelhof em 29 de junho de 2007, em Berlim, Alemanha
Sean Gallup/Getty Images
No fim de 2015, durante a crise de refugiados sírios, os hangares de Tempelhof foram convertidos em um abrigo coletivo, que passou a acolher mais de 2.500 refugiados sírios enquanto aguardavam a concessão de asilo na Alemanha. É irônico que um edifício nascido de um regime repressivo, responsável por perseguições e deslocamentos, tenha se tornado refúgio para milhares de pessoas que fugiam do conflito em seu país de origem.
Hoje, Tempelhof é um dos espaços públicos mais queridos de Berlim. O antigo campo de aviação foi transformado em um grande parque aberto, onde é possível caminhar e pedalar pelas antigas pistas, andar de skate sobre o concreto desgastado e empinar pipas. Fazer piqueniques nos campos hoje floridos — que abrigam uma biodiversidade notável — é uma atividade popular entre os moradores.
Vista de quartos em construção leve, onde roupas estão penduradas, no abrigo para refugiados em 9 de dezembro de 2015
Tobias Schwarz/Getty Images
Dentro do impressionante edifício do terminal, é possível participar de visitas guiadas para conhecer hangares imponentes, escadarias marcantes, áreas de desembarque inacabadas e bunkers subterrâneos ocultos. Alguns desses bunkers ainda preservam pinturas originais nas paredes, feitas para entreter crianças que se abrigavam ali durante a Segunda Guerra Mundial.
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O Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, é um exemplo singular de arquitetura urbana ressignificada. Originalmente projetado para incutir medo e demonstrar poder, esse imenso complexo hoje promove criatividade e engajamento comunitário. Com o passar do tempo, essa estrutura austera e autoritária se transformou em um espaço público vibrante, refletindo a própria transição da cidade — da divisão e do conflito para a abertura e a criatividade.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Oriente Médio



