Construção civil avança em metas para reduzir emissões e impacto ambiental

Tornar as cidades mais sustentáveis, resilientes e seguras é uma das metas da Organização das Nações Unidas (ONU) para esta década. O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 prevê que, até 2030, países e municípios adotem medidas para reduzir o impacto ambiental urbano, melhorar a qualidade de vida e tornar os assentamentos humanos mais preparados para as mudanças climáticas.
Nesse cenário, a construção civil passa a ocupar um papel central, visto que edifícios, infraestrutura e o próprio modelo de urbanização estão diretamente ligados ao consumo de energia, emissão de carbono e uso de recursos naturais.
Esse movimento ganhou ainda mais força internacionalmente quando cerca de 70 países concordaram em revisar e adaptar modelos de construção durante o Fórum Mundial sobre Edifícios e Clima, organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O encontro culminou na Declaração de Chaillot, acordo internacional assinado em março de 2024, que estabelece metas para descarbonizar o setor.
De acordo com relatório do PNUMA, até 2050, 68% da população mundial viverá em áreas urbanas, e espera-se que a demanda global por matérias-primas dobre até 2060
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Em comunicado à imprensa, o PNUMA declarou: “Com a aceleração das mudanças climáticas, os edifícios estarão cada vez mais expostos a riscos relacionados ao clima, afetando particularmente países e cidades em desenvolvimento. Além disso, até 2050, 68% da população mundial viverá em áreas urbanas, e espera-se que a demanda global por matérias-primas dobre até 2060”.
Por que a construção civil está no centro da crise climática?
A construção civil é hoje um dos setores com maior impacto ambiental no mundo, especialmente pelo uso intensivo de materiais como o concreto — relatório divulgado pelo PNUMA aponta que essa área representa mais de um quinto das emissões globais de gases de efeito estufa.
Além disso, o cimento, principal componente do concreto tradicional, demanda grande quantidade de energia para ser produzido, o que coloca o material no centro do debate ambiental, e próprio modelo de urbanização contribui para o aumento das emissões.

O arquiteto belga Laurent Troost, mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo Instituto Victor Horta, em Bruxelas, chama a atenção para um ponto muitas vezes ignorado: o impacto do uso do edifício ao longo do tempo. “A construção de um prédio representa apenas 20% do consumo energético da sua vida útil. O resto, 80%, é de manutenção, ou seja, o uso do prédio”, diz. Isso significa que pensar em ventilação, iluminação natural e eficiência energética no projeto é tão ou mais importante do que apenas os materiais utilizados na obra.
Os compromissos internacionais ajudam a direcionar investimentos e a criar linhas de financiamento para construções sustentáveis
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Laurent também destaca que, no contexto do mercado imobiliário, as decisões sustentáveis passam por uma lógica financeira. “Quando a gente trabalha para o mercado imobiliário, o tema sempre vai ser entender se certos custos de construção têm retorno financeiro”, afirma.
A importância do financiamento verde
Os acordos internacionais também têm impacto econômico, pois ajudam a orientar investimentos e linhas de financiamento voltadas para projetos sustentáveis.
Segundo relatório divulgado pelo PNUMA o setor de construção representa mais de um quinto das emissões globais de gases de efeito estufa
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Segundo Marcus Nakagawa, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (ABRAPS), “os compromissos internacionais são fundamentais para que se alastre um novo modelo de pensamento de direcionamento e, principalmente, para que o capital possa ser inserido nesse tipo de investimento”.
Neste contexto, o especialista ainda aponta que, principalmente os bancos, “que cada vez mais têm linhas de crédito de investimentos verdes, sustentáveis, e com baixo carbono ou zero carbono”, têm a capacidade de viabilizar essas iniciativas com juros mais baixos.

Desta maneira, fóruns e declarações internacionais se tornam importantes porque estabelecem diretrizes que, primeiro, orientam empresas pioneiras e, depois, tendem a se transformar em legislações nacionais e em critérios para financiamentos mais acessíveis voltados a construções sustentáveis.
Mas o que está mudando na construção civil brasileira?
A título de exemplificação, propuseram-se mudanças no programa Minha Casa, Minha Vida, que passará a contar com uso de energia limpa e obras idealizadas pensando no impacto de eventos causados por mudanças climáticas.
Essa iniciativa parte do entendimento de que o setor de edificações tem papel central na crise climática e que a transição para construções mais sustentáveis precisa acontecer em toda a cadeia produtiva, desde o projeto até o uso e a manutenção dos edifícios.

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