A história do paisagismo na América Latina se estrutura principalmente ao longo do século 20, acompanhando a urbanização das cidades, a consolidação da arquitetura moderna e, posteriormente, a criação das primeiras escolas de formação na área. Nesse processo, a atuação das mulheres foi decisiva, ainda que, por muito tempo, pouco reconhecida.
Até meados do século passado, o paisagismo era frequentemente tratado como uma prática complementar, associada ao jardim ou à etapa final dos projetos arquitetônicos. Essa condição contribuiu para que muitas mulheres ingressassem no campo, mas também para que suas contribuições fossem vistas como secundárias.
Revisitar essa história hoje permite não apenas reconhecer essas trajetórias, mas também compreender como o próprio conceito de paisagem foi ampliado — de um elemento decorativo para uma dimensão essencial da experiência urbana.
Em 1981, a arquiteta-paisagista Rosa Grena Kliass e os arquitetos Jorge Wilheim e Jamil Kfouri criaram um novo projeto paisagístico para o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, SP
Dornicke/Wikimedia Commons
Mulheres na paisagem
Antes da consolidação do paisagismo como profissão, muitas mulheres já atuavam diretamente na construção da paisagem, ainda que fora das estruturas formais do campo.
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No Brasil, Lota de Macedo Soares foi uma figura central na construção do paisagismo moderno, mesmo sem formação acadêmica formal na área. Atuando sobretudo a partir das décadas de 1950 e 1960, foi responsável pela concepção e articulação do Parque do Flamengo, um dos maiores projetos de espaço público do país, realizado em parceria com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy (1909-1964) e o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994).
A arquiteta autodidata Lota de Macedo Soares é responsável por um dos maiores marcos paisagísticos do Brasil
Instituto Lota/Reprodução
Lota teve papel decisivo na coordenação política e institucional da obra, articulando equipes multidisciplinares e viabilizando sua execução. Sua atuação evidencia como mulheres estiveram à frente de grandes transformações urbanas, ainda que muitas vezes não tenham sido plenamente reconhecidas como autoras desses processos.
O Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, teve uma grande contribuição da arquiteta autodidata Lota Macedo Soares
Donatas Dabravolskas/Wikimedia Commons
Outro nome importante é o de Mina Klabin Warchavchik (1896–1969). Ligada ao modernismo paulista, ela desenvolveu jardins em diálogo com a arquitetura de Gregori Warchavchik (1896-1972), incluindo o entorno da Casa Modernista.
A Casa Modernista da Rua Itápolis, em São Paulo, foi palco de uma exposição para mostrar as inovações da construção. O projeto paisagístico da residência teve participação de Mina Klabin
Dianarchitect/Wikimedia Commons
Mesmo sem formação específica, sua atuação foi inovadora ao incorporar espécies tropicais. “O paisagismo que ela desenvolveu estava muito alinhado aos princípios modernistas e fazia uso de espécies tropicais, especialmente cactáceas, de forma pioneira”, explica Cristiane Alves, coordenadora da equipe educativa da Casa Museu Ema Klabin.
A relevância de sua produção, no entanto, contrasta com a escassez de registros. “O que temos hoje são fotos e uma bibliografia bastante pequena”, afirma Felipe Azevêdo, educador da mesma instituição.
Mina Klabin Warchavchik, apesar de não ter o reconhecimento merecido e poucos registros sobre sua obra, foi uma das pioneiras do paisagismo brasileiro. No sentido horário, retrato de Miná Klabin. Depois, registro do Carnaval na Cidade da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) em 1933, do qual Mina participou ativamente. Por último, retrato de Mina Klabin Warchavchik e Mina Klabin, irmã mais nova de Ema Klabin
Acervo Casa Museu Ema Klabin/Divulgação; Cedida pela Casa Museu Ema Klabin/Museu Lasar Segall – IPHAN/Divulgação; Casa Museu Ema Klabin; Acervo da Casa Museu Ema Klabin/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim
Esse apagamento não é isolado. A forma como essas mulheres aparecem na história revela um padrão recorrente: “Quando nos referimos a essas mulheres, muitas vezes precisamos falar dos maridos, embora elas tivessem uma atuação muito autônoma”, salienta Cristiane.
Esse cenário também pode ser observado em outros contextos latino-americanos. No México, por exemplo, destacam-se Catarina Kramis e Helen Fowler.
“Ambas compartilhavam uma paixão pelas plantas. Catarina, artista por natureza, deu livre curso à sua criatividade ao projetar o jardim da Casa Cetto, em perfeita harmonia com a arquitetura”, afirma Bettina Cetto, pesquisadora independente, diretora de gestão documental na Fundación Max Cetto, filha de Catarina Kramis e Max Cetto (1903-1980) e afilhada de Juan O’Gorman (1905-1982), além de autora do ensaio Casa Cetto y Casa O’Gorman: Los Jardines que crearon ellas.
Catarina Kramis Cetto no terraço da parte de trás da Casa Cetto, em fotografia de 1960, de Max Cetto
Max Cetto/Cortesia de Bettina Cetto
A Casa Cetto, projetada pelo arquiteto alemão-mexicano Max Cetto no bairro de Pedregal de San Ángel, na Cidade do México, é um exemplar da arquitetura modernista.
Seu jardim é de autoria de Catarina Kramis Cetto, estilista de alta-costura e agente de viagens, além de companheira do arquiteto. Implantado sobre um terreno vulcânico, o projeto combinava espécies de diferentes origens, como cactos, orquídeas, suculentas, além de plantas como palo bobo, tigrídias, plúmbago e pasionaria, conhecida popularmente como flor-da-paixão.
A composição era organizada em manchas de cor e construída a partir de um olhar atento às condições do solo. “Catarina trazia sementes da Europa e coletava mudas em diferentes regiões do México, criando um espaço descrito como um jardim botânico dos cinco continentes”, explica Bettina.
Jardim da Casa Cetto, projetado por Catarina Kramis. Na foto, um exemplar de babosa e anemonas, uma espécie de planta ornalmental. Fotografia de Max Cetto, de 1975
Max Cetto/Cortesia de Bettina Cetto
Mais do que um gesto ornamental, o jardim refletia uma tentativa de adaptação ao ambiente do Pedregal, preservando a natureza vulcânica do terreno. O uso de gramado, por exemplo, era mínimo, apenas o essencial para as crianças, sem alterar o terreno vulcânico original.
Helen Fowler O’Gorman, por sua vez, foi uma escultora e ilustradora botânica norte-americana cujo trabalho se concentrou na flora nativa do México, onde viveu grande parte de sua vida. Ao lado do marido, o artista e arquiteto Juan O’Gorman, projetou e construiu a Casa Cueva, um importante exemplo de arquitetura orgânica modernista, demolido em 1969.
Seu jardim partia de outra abordagem. “Helen concentrou seu trabalho em cactos, samambaias, orquídeas e suculentas, muitas delas trazidas de suas viagens pelo México”, explica Bettina.
Jardim de Helen na Casa O’Gorman, em fotografia de 1960
UAM-Azcapotzalco/Arquivo pessoal do arquiteto Max Cetto/Cortesia de Bettina Cetto.
Autora do livro Mexican Flowering Trees and Plants (1961), Helen desenvolveu uma prática profundamente conectada ao território. “Ao privilegiar espécies adaptadas e resistentes, ela antecipou preocupações atuais com a escassez de água”, afirma Bettina.
Naquele momento, porém, o desafio era tornar habitável um território considerado inóspito. Os jardins funcionavam como mediadores entre arquitetura e natureza, criando formas de convivência com o ambiente sem eliminá-lo.
A construção do campo profissional e a participação das mulheres
Embora muitas vezes utilizados como sinônimos, os termos paisagismo e arquitetura paisagística não são equivalentes.
“Historicamente, o paisagismo abrange práticas diversas de organização de jardins e espaços abertos, nem sempre formalizadas como campo disciplinar. Já a arquitetura paisagística se consolida ao longo do século 20 como uma área profissional estruturada, com formação específica, abordagem projetual e atuação integrada ao planejamento urbano”, explica Saide Kahtouni, arquiteta urbanista, ex-presidente da ABAP, consultora ambiental e diretora da LPK Arquitetura e Urbanismo.
A partir das décadas de 1940 e 1950, o paisagismo começa a se consolidar como campo profissional na América Latina, com a criação das primeiras sequencias de disciplinas de projeto paisagístico nas escolas de arquitetura e urbanismo. No Brasil, esse processo ganha força no Rio de Janeiro e em São Paulo, com a formação de uma geração pioneira de arquitetas paisagistas.
Rosa Grena Kliass é responsável por grandes marcos do paisagismo contemporâneo do Brasil
CAU-SP/Divulgação
Entre elas, destacam-se Rosa Grena Kliass e Miranda Martinelli Magnoli (1932-2017), formadas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) na década de 1950, em um contexto ainda majoritariamente masculino. “Elas são pioneiras na construção da arquitetura paisagística em São Paulo”, afirma Cássia Mariano, arquiteta urbanista e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Prancha do projeto do Centro Estadual de Civismo e Cultura de São Paulo, dos arquitetos Jorge Wilheim e Rosa Grena Kliass. Imagem do acervo iconográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo
Domínio Público/Wikimedia Commons
Apesar de contemporâneas, suas trajetórias seguiram caminhos distintos. “Rosa percorre uma trajetória mais voltada ao projeto, enquanto Miranda se dedica mais à academia”, explica Cássia.
Rosa se destacou por sua atuação em projetos urbanos de grande escala e pelo diálogo com o poder público. Entre seus trabalhos estão o Vale do Anhangabaú, o Parque da Juventude, o paisagismo da Avenida Paulista, em São Paulo, e o Parque Mangal das Garças, em Belém, onde incorporou referências da cultura local.
A Biblioteca de São Paulo se localiza no Parque da Juventude, com paisagismo de Rosa Grena Kliass, onde antes funcionava o presídio Carandiru
Peter Louiz/Wikimedia Commons
Já Miranda teve papel decisivo na consolidação acadêmica do paisagismo no Brasil. Professora da FAU-USP, formou diversas gerações de profissionais e contribuiu para estruturar o campo como área de conhecimento.
Além da universidade, desenvolveu projetos de espaços públicos. “Miranda Magnoli, juntamente com Rosa Grena Kliass, elaborou o Plano de Áreas Verdes para a cidade de São Paulo, em 1969, e ambas realizaram muitos projetos, especialmente, de praças na capital paulista entre as décadas de 1960 e 1970, com foco na vivência cotidiana e na importância dos espaços livres nas áreas urbanas”, afirma Saide.
Mais do que a escolha de espécies, essas profissionais ajudaram a redefinir o papel da arquitetura paisagística. “Não se trata de decorar o espaço com vegetação, mas de transformar a experiência do espaço livre de edificações e de urbanização, em meio à cidade”, comenta Saide.
Miranda Magnoli teve uma contribuição importante na introdução do conceito de “espaços livres” nos centros urbanos
Revista Paisagem e Ambiente da USP/Reprodução
Apesar das diferenças de estilo, havia um ponto comum entre essas profissionais: “As preocupações urbanísticas, com paisagens urbanas e espaços coletivos, estavam sempre presentes, ainda que cada uma com sua linguagem”, destaca Saide.
No cenário latino-americano, algumas das mulheres contemporâneas dessa geração que também se destacam são: Martha Marengo de Taphia, da Argentina; Marguerita Montanez, do Uruguai; e Diana Henríquez, da Venezuela.
A institucionalização e as redes latino-americanas
A consolidação do campo também passou pela criação de entidades profissionais. No México, a Sociedad de Arquitectos Paisajistas foi uma das pioneiras na região, fundada pelo arquiteto Luis Barragán, assim como a Universidade Nacional do México (UNAM), ainda com forte presença masculina em seus quadros.
“Esse grupo de mulheres das primeiras gerações passa a formar as sociedades nacionais de arquitetos paisagistas e a assumir suas primeiras presidências em períodos próximos”, explica Saide.
No Brasil, a Associação Brasileira de Arquitetura Paisagística (ABAP) foi fundada em 1976, liderada por Rosa Kliass. A entidade teve papel fundamental na articulação da categoria e na construção de uma consciência coletiva sobre o paisagismo como disciplina estratégica para o planejamento urbano e ambiental.
A colombiana Martha Fajardo é uma referência na arquitetura paisagística e urbanismo ainda em atuação
LALI/Divulgação
Esse movimento também se articulou internacionalmente, especialmente a partir de encontros da International Federation of Landscape Architects (IFLA).
Nesse contexto, destaca-se a atuação da arquiteta paisagista colombiana Martha Fajardo, que teve papel importante na inserção da produção latino-americana no debate global e chegou a presidir a IFLA. “Essas mulheres levaram a voz da paisagem de seus países ao mundo”, ressalta Saide.
Fajardo também foi uma das fundadoras da Iniciativa Latino-Americana de Paisagem (LALI), criada em 2012 para promover políticas de valorização, proteção e planejamento da paisagem no continente. A iniciativa atua como rede de colaboração entre países, incentivando legislações específicas e o intercâmbio de conhecimento.
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O presente e a contínua construção de visibilidade
Hoje, o paisagismo é um campo amplamente ocupado por mulheres, mas o reconhecimento histórico dessas trajetórias ainda está em construção. A ausência de registros, a perda de projetos e a associação recorrente dessas profissionais a figuras masculinas ajudam a explicar por que tantas permaneceram à margem da historiografia.
A revisão dessas histórias, no entanto, vem ganhando força por meio de pesquisas, instituições culturais e publicações, ampliando o entendimento sobre a formação da paisagem latino-americana, e o papel fundamental das mulheres nesse processo.
Até meados do século passado, o paisagismo era frequentemente tratado como uma prática complementar, associada ao jardim ou à etapa final dos projetos arquitetônicos. Essa condição contribuiu para que muitas mulheres ingressassem no campo, mas também para que suas contribuições fossem vistas como secundárias.
Revisitar essa história hoje permite não apenas reconhecer essas trajetórias, mas também compreender como o próprio conceito de paisagem foi ampliado — de um elemento decorativo para uma dimensão essencial da experiência urbana.
Em 1981, a arquiteta-paisagista Rosa Grena Kliass e os arquitetos Jorge Wilheim e Jamil Kfouri criaram um novo projeto paisagístico para o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, SP
Dornicke/Wikimedia Commons
Mulheres na paisagem
Antes da consolidação do paisagismo como profissão, muitas mulheres já atuavam diretamente na construção da paisagem, ainda que fora das estruturas formais do campo.
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No Brasil, Lota de Macedo Soares foi uma figura central na construção do paisagismo moderno, mesmo sem formação acadêmica formal na área. Atuando sobretudo a partir das décadas de 1950 e 1960, foi responsável pela concepção e articulação do Parque do Flamengo, um dos maiores projetos de espaço público do país, realizado em parceria com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy (1909-1964) e o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994).
A arquiteta autodidata Lota de Macedo Soares é responsável por um dos maiores marcos paisagísticos do Brasil
Instituto Lota/Reprodução
Lota teve papel decisivo na coordenação política e institucional da obra, articulando equipes multidisciplinares e viabilizando sua execução. Sua atuação evidencia como mulheres estiveram à frente de grandes transformações urbanas, ainda que muitas vezes não tenham sido plenamente reconhecidas como autoras desses processos.
O Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, teve uma grande contribuição da arquiteta autodidata Lota Macedo Soares
Donatas Dabravolskas/Wikimedia Commons
Outro nome importante é o de Mina Klabin Warchavchik (1896–1969). Ligada ao modernismo paulista, ela desenvolveu jardins em diálogo com a arquitetura de Gregori Warchavchik (1896-1972), incluindo o entorno da Casa Modernista.
A Casa Modernista da Rua Itápolis, em São Paulo, foi palco de uma exposição para mostrar as inovações da construção. O projeto paisagístico da residência teve participação de Mina Klabin
Dianarchitect/Wikimedia Commons
Mesmo sem formação específica, sua atuação foi inovadora ao incorporar espécies tropicais. “O paisagismo que ela desenvolveu estava muito alinhado aos princípios modernistas e fazia uso de espécies tropicais, especialmente cactáceas, de forma pioneira”, explica Cristiane Alves, coordenadora da equipe educativa da Casa Museu Ema Klabin.
A relevância de sua produção, no entanto, contrasta com a escassez de registros. “O que temos hoje são fotos e uma bibliografia bastante pequena”, afirma Felipe Azevêdo, educador da mesma instituição.
Mina Klabin Warchavchik, apesar de não ter o reconhecimento merecido e poucos registros sobre sua obra, foi uma das pioneiras do paisagismo brasileiro. No sentido horário, retrato de Miná Klabin. Depois, registro do Carnaval na Cidade da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) em 1933, do qual Mina participou ativamente. Por último, retrato de Mina Klabin Warchavchik e Mina Klabin, irmã mais nova de Ema Klabin
Acervo Casa Museu Ema Klabin/Divulgação; Cedida pela Casa Museu Ema Klabin/Museu Lasar Segall – IPHAN/Divulgação; Casa Museu Ema Klabin; Acervo da Casa Museu Ema Klabin/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim
Esse apagamento não é isolado. A forma como essas mulheres aparecem na história revela um padrão recorrente: “Quando nos referimos a essas mulheres, muitas vezes precisamos falar dos maridos, embora elas tivessem uma atuação muito autônoma”, salienta Cristiane.
Esse cenário também pode ser observado em outros contextos latino-americanos. No México, por exemplo, destacam-se Catarina Kramis e Helen Fowler.
“Ambas compartilhavam uma paixão pelas plantas. Catarina, artista por natureza, deu livre curso à sua criatividade ao projetar o jardim da Casa Cetto, em perfeita harmonia com a arquitetura”, afirma Bettina Cetto, pesquisadora independente, diretora de gestão documental na Fundación Max Cetto, filha de Catarina Kramis e Max Cetto (1903-1980) e afilhada de Juan O’Gorman (1905-1982), além de autora do ensaio Casa Cetto y Casa O’Gorman: Los Jardines que crearon ellas.
Catarina Kramis Cetto no terraço da parte de trás da Casa Cetto, em fotografia de 1960, de Max Cetto
Max Cetto/Cortesia de Bettina Cetto
A Casa Cetto, projetada pelo arquiteto alemão-mexicano Max Cetto no bairro de Pedregal de San Ángel, na Cidade do México, é um exemplar da arquitetura modernista.
Seu jardim é de autoria de Catarina Kramis Cetto, estilista de alta-costura e agente de viagens, além de companheira do arquiteto. Implantado sobre um terreno vulcânico, o projeto combinava espécies de diferentes origens, como cactos, orquídeas, suculentas, além de plantas como palo bobo, tigrídias, plúmbago e pasionaria, conhecida popularmente como flor-da-paixão.
A composição era organizada em manchas de cor e construída a partir de um olhar atento às condições do solo. “Catarina trazia sementes da Europa e coletava mudas em diferentes regiões do México, criando um espaço descrito como um jardim botânico dos cinco continentes”, explica Bettina.
Jardim da Casa Cetto, projetado por Catarina Kramis. Na foto, um exemplar de babosa e anemonas, uma espécie de planta ornalmental. Fotografia de Max Cetto, de 1975
Max Cetto/Cortesia de Bettina Cetto
Mais do que um gesto ornamental, o jardim refletia uma tentativa de adaptação ao ambiente do Pedregal, preservando a natureza vulcânica do terreno. O uso de gramado, por exemplo, era mínimo, apenas o essencial para as crianças, sem alterar o terreno vulcânico original.
Helen Fowler O’Gorman, por sua vez, foi uma escultora e ilustradora botânica norte-americana cujo trabalho se concentrou na flora nativa do México, onde viveu grande parte de sua vida. Ao lado do marido, o artista e arquiteto Juan O’Gorman, projetou e construiu a Casa Cueva, um importante exemplo de arquitetura orgânica modernista, demolido em 1969.
Seu jardim partia de outra abordagem. “Helen concentrou seu trabalho em cactos, samambaias, orquídeas e suculentas, muitas delas trazidas de suas viagens pelo México”, explica Bettina.
Jardim de Helen na Casa O’Gorman, em fotografia de 1960
UAM-Azcapotzalco/Arquivo pessoal do arquiteto Max Cetto/Cortesia de Bettina Cetto.
Autora do livro Mexican Flowering Trees and Plants (1961), Helen desenvolveu uma prática profundamente conectada ao território. “Ao privilegiar espécies adaptadas e resistentes, ela antecipou preocupações atuais com a escassez de água”, afirma Bettina.
Naquele momento, porém, o desafio era tornar habitável um território considerado inóspito. Os jardins funcionavam como mediadores entre arquitetura e natureza, criando formas de convivência com o ambiente sem eliminá-lo.
A construção do campo profissional e a participação das mulheres
Embora muitas vezes utilizados como sinônimos, os termos paisagismo e arquitetura paisagística não são equivalentes.
“Historicamente, o paisagismo abrange práticas diversas de organização de jardins e espaços abertos, nem sempre formalizadas como campo disciplinar. Já a arquitetura paisagística se consolida ao longo do século 20 como uma área profissional estruturada, com formação específica, abordagem projetual e atuação integrada ao planejamento urbano”, explica Saide Kahtouni, arquiteta urbanista, ex-presidente da ABAP, consultora ambiental e diretora da LPK Arquitetura e Urbanismo.
A partir das décadas de 1940 e 1950, o paisagismo começa a se consolidar como campo profissional na América Latina, com a criação das primeiras sequencias de disciplinas de projeto paisagístico nas escolas de arquitetura e urbanismo. No Brasil, esse processo ganha força no Rio de Janeiro e em São Paulo, com a formação de uma geração pioneira de arquitetas paisagistas.
Rosa Grena Kliass é responsável por grandes marcos do paisagismo contemporâneo do Brasil
CAU-SP/Divulgação
Entre elas, destacam-se Rosa Grena Kliass e Miranda Martinelli Magnoli (1932-2017), formadas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) na década de 1950, em um contexto ainda majoritariamente masculino. “Elas são pioneiras na construção da arquitetura paisagística em São Paulo”, afirma Cássia Mariano, arquiteta urbanista e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Prancha do projeto do Centro Estadual de Civismo e Cultura de São Paulo, dos arquitetos Jorge Wilheim e Rosa Grena Kliass. Imagem do acervo iconográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo
Domínio Público/Wikimedia Commons
Apesar de contemporâneas, suas trajetórias seguiram caminhos distintos. “Rosa percorre uma trajetória mais voltada ao projeto, enquanto Miranda se dedica mais à academia”, explica Cássia.
Rosa se destacou por sua atuação em projetos urbanos de grande escala e pelo diálogo com o poder público. Entre seus trabalhos estão o Vale do Anhangabaú, o Parque da Juventude, o paisagismo da Avenida Paulista, em São Paulo, e o Parque Mangal das Garças, em Belém, onde incorporou referências da cultura local.
A Biblioteca de São Paulo se localiza no Parque da Juventude, com paisagismo de Rosa Grena Kliass, onde antes funcionava o presídio Carandiru
Peter Louiz/Wikimedia Commons
Já Miranda teve papel decisivo na consolidação acadêmica do paisagismo no Brasil. Professora da FAU-USP, formou diversas gerações de profissionais e contribuiu para estruturar o campo como área de conhecimento.
Além da universidade, desenvolveu projetos de espaços públicos. “Miranda Magnoli, juntamente com Rosa Grena Kliass, elaborou o Plano de Áreas Verdes para a cidade de São Paulo, em 1969, e ambas realizaram muitos projetos, especialmente, de praças na capital paulista entre as décadas de 1960 e 1970, com foco na vivência cotidiana e na importância dos espaços livres nas áreas urbanas”, afirma Saide.
Mais do que a escolha de espécies, essas profissionais ajudaram a redefinir o papel da arquitetura paisagística. “Não se trata de decorar o espaço com vegetação, mas de transformar a experiência do espaço livre de edificações e de urbanização, em meio à cidade”, comenta Saide.
Miranda Magnoli teve uma contribuição importante na introdução do conceito de “espaços livres” nos centros urbanos
Revista Paisagem e Ambiente da USP/Reprodução
Apesar das diferenças de estilo, havia um ponto comum entre essas profissionais: “As preocupações urbanísticas, com paisagens urbanas e espaços coletivos, estavam sempre presentes, ainda que cada uma com sua linguagem”, destaca Saide.
No cenário latino-americano, algumas das mulheres contemporâneas dessa geração que também se destacam são: Martha Marengo de Taphia, da Argentina; Marguerita Montanez, do Uruguai; e Diana Henríquez, da Venezuela.
A institucionalização e as redes latino-americanas
A consolidação do campo também passou pela criação de entidades profissionais. No México, a Sociedad de Arquitectos Paisajistas foi uma das pioneiras na região, fundada pelo arquiteto Luis Barragán, assim como a Universidade Nacional do México (UNAM), ainda com forte presença masculina em seus quadros.
“Esse grupo de mulheres das primeiras gerações passa a formar as sociedades nacionais de arquitetos paisagistas e a assumir suas primeiras presidências em períodos próximos”, explica Saide.
No Brasil, a Associação Brasileira de Arquitetura Paisagística (ABAP) foi fundada em 1976, liderada por Rosa Kliass. A entidade teve papel fundamental na articulação da categoria e na construção de uma consciência coletiva sobre o paisagismo como disciplina estratégica para o planejamento urbano e ambiental.
A colombiana Martha Fajardo é uma referência na arquitetura paisagística e urbanismo ainda em atuação
LALI/Divulgação
Esse movimento também se articulou internacionalmente, especialmente a partir de encontros da International Federation of Landscape Architects (IFLA).
Nesse contexto, destaca-se a atuação da arquiteta paisagista colombiana Martha Fajardo, que teve papel importante na inserção da produção latino-americana no debate global e chegou a presidir a IFLA. “Essas mulheres levaram a voz da paisagem de seus países ao mundo”, ressalta Saide.
Fajardo também foi uma das fundadoras da Iniciativa Latino-Americana de Paisagem (LALI), criada em 2012 para promover políticas de valorização, proteção e planejamento da paisagem no continente. A iniciativa atua como rede de colaboração entre países, incentivando legislações específicas e o intercâmbio de conhecimento.
Leia mais
O presente e a contínua construção de visibilidade
Hoje, o paisagismo é um campo amplamente ocupado por mulheres, mas o reconhecimento histórico dessas trajetórias ainda está em construção. A ausência de registros, a perda de projetos e a associação recorrente dessas profissionais a figuras masculinas ajudam a explicar por que tantas permaneceram à margem da historiografia.
A revisão dessas histórias, no entanto, vem ganhando força por meio de pesquisas, instituições culturais e publicações, ampliando o entendimento sobre a formação da paisagem latino-americana, e o papel fundamental das mulheres nesse processo.



