Quando criança, o catarinense Lucas Recchia gostava de juntar conchas, pedras e carrinhos, organizados com cuidado em uma vitrine no quarto. “Eu era, na verdade, um acumulador”, confessa. Se o colecionismo já se insinuava na infância, o gesto se tornou experiência concreta com a aquisição do primeiro apartamento. “Comprei várias obras de arte durante o ano que durou a reforma”, conta. O imóvel, nos Jardins, em São Paulo, fica em um edifício modernista de volumetria inovadora e janelões em caixa, projetado pelo arquiteto Israel Galman (1922-1986) no fim dos anos 1950. O prédio sempre chamou sua atenção e foi o escolhido quando decidiu sair do aluguel. Uma das unidades estava disponível e, sem hesitar, Recchia arrematou o apartamento de 50 m².
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Detalhe da mesa de jantar desenhada por Lucas Recchia
Ruy Teixeira
Para adaptá-lo a seu estilo, recorreu ao arquiteto Diogo Figueiredo, cuja proposta se baseou em uma estrutura neutra, capaz de abrigar peças de design e arte de diferentes épocas e linguagens. A arquitetura original permaneceu como referência no interior, reforçada pelo piso de cimento queimado e pela geometria das janelas da fachada – elemento que o inspirou a criar a mesa de centro Quadrícula, da coleção Janelas. “Tudo aqui foi feito a quatro mãos. De um lado, eu tinha muito definido quais peças eu queria e, por outro, o Diogo me ajudou a selecionar, posicionar e idealizar um layout que valorizasse cada uma delas.”
+ Inspirado em bairro de Milão, apartamento aposta em curvas e memória afetiva
No corredor de acesso aos apartamentos, a mesa Morfa, também de Lucas, apoia máscara africana
Ruy Teixeira
Em outro ângulo do living, sofá Eshe e mesa de apoio Cavo, ambos de Lucas Recchia – nas paredes, escultura de Miguel dos Santos e políptico de Mira Schende
Ruy Teixeira
+ Texturas mil e tons terrosos vestem apartamento minimalista
No living, o colecionismo se revela como prática cotidiana, mesclando itens históricos com produção contemporânea. “Sempre desejei ter a poltrona do Oscar Niemeyer, e sua altura baixa serviu de referência para que eu criasse meu primeiro sofá, que foi pensado para esse cômodo e depois se desdobrou para a coleção Esher.” A mesa de jantar de cristal reciclado, que serve a cozinha, é outro móvel que pretende lançar. “Precisava testar o material e acabei trazendo o protótipo para cá”, lembra. Em volta dela, estão quatro cadeiras dos irmãos Campana – Flama, Sushi e uma dupla de Jenettes – que já pertenciam ao designer e acrescentaram cor ao ambiente, marcado ainda pela bancada e pela cuba de aço inoxidável, e pelos armários de lâmina de madeira que percorrem o imóvel.
Não gosto de acumular, mas gosto que as obras que coleciono impactem meu dia a dia, porque tudo o que tenho aqui é inspiração
Cerâmica peruana sobre livro de Pierre Legrain
Ruy Teixeira
Mais um ângulo do living destaca escultura de Megumi Yuasa
Ruy Teixeira
Entre as obras de arte, a escultura de Tunga é uma das favoritas. A peça de bronze, vista em uma exposição, permaneceu em sua memória desde as primeiras incursões nos circuitos artísticos de São Paulo, até surgir a oportunidade de aquisição no ano passado. “Curiosamente, faço minhas mesas de bronze no mesmo ateliê em que Tunga fazia os moldes”, conta. Seu acervo também inclui nomes como Megumi Yuasa, Paulo Pjota, Mira Schendel, Shoko Suzuki e Marina Woisky, além da escultura sonora de bronze do italiano Harry Bertoia, posicionada sobre uma mesa revestida de pergaminho – outro material em estudo pelo designer.
+ Com cores próprias, apartamento de designer eleva o ato de receber
Lucas Recchia no reflexo do espelho
Ruy Teixeira
Mesa Caco, design do morador, apoia cerâmica de Shoko Suzuki, e, na parede, tapeçaria de Marina Woisky
Ruy Teixeira
A escultura da série Morfológicas, de Tunga, na galeria Almeida & Dale, figura junto à luminária Fungo, de Gabriella Crespi, e à mesa de apoio Aura, de Lucas Recchia
Ruy Teixeira
No banheiro, espelho da coleção Distorção Mental, também de Recchia, e cuba de quartzito da Brasigran
Ruy Teixeira
+ Design como arte: tudo é escultórico em apartamento paulistano
No dormitório, separado da sala por um biombo de palhinha e madeira atribuído a Joaquim Tenreiro, o parquê original imprime uma atmosfera mais íntima. Desenhada pelo próprio Recchia, a cama dialoga com uma peça única de Giuseppe Scapinelli e a mesa Bulle, de sua autoria. “A relação entre elas é visual. Quando vi a mesinha, com escaninho de jacarandá, lembrei desse meu modelo, que tem o mesmo elemento, mas de vidro. A proporção é parecida e achei que seria uma combinação interessante”, comenta.
Não costumo chamar pessoas para virem aqui, é meu momento sozinho. As obras de arte são minha companhia
Três obras de Megumi Yuasa (na prateleira no alto e no piso) e tela de Paulo Pjota – ao fundo, no quarto, quadro de Niobe Xandó
Ruy Teixeira
Entre o quarto e o living, o biombo de Joaquim Tenreiro ampara a cama desenhada por Lucas Recchia, e a mesa lateral de Giuseppe Scapinelli, na Galeria Teo, apoia cerâmica de Megumi Yuasa e escultura de Nazareno
Ruy Teixeira
Mesa Bulle, de Lucas Recchia
Ruy Teixeira
A fachada do edifício nos Jardins
Ruy Teixeira
No living, poltronas Módulo, de Oscar Niemeyer, da Etel, e modelo azul vintage de autoria desconhecida, mesas de apoio de Lucas Recchia e escultura de Harry Bertoia (em primeiro plano, à esq.) – na cozinha (ao fundo), bancada de aço inoxidável da Mekal, mesa de jantar de Lucas Recchia e cadeiras Flama, Jenette e Sushi, de Fernando e Humberto Campana
Ruy Teixeira
Não à toa, suas escolhas são guiadas por afinidade. “Tudo o que está aqui tem impacto no meu dia a dia. Essa é minha forma de conviver com as obras e respeitar esses artistas, assim como espero que minhas peças sejam vistas e respeitadas no futuro.” Em meio a uma rotina intensa de uma carreira que deslanchou internacionalmente – com exposições em Nova York, Paris, Melbourne e Moscou –, o apartamento revela-se como lugar de recolhimento. É ali que Recchia encontra pausa e silêncio entre as obras que escolheu colecionar. “Considero que cheguei ao limite de peças neste espaço”, admite, reconhecendo que design, arte e arquitetura se entrelaçam em sua vida em permanente construção. “Tenho bem definidas as coisas que eu quero e, quando as encontro, não coloco limites para adquiri-las. Então, ou terei de reorganizar tudo por aqui, ou terei de mudar de apartamento.” Aguardemos os próximos capítulos.
*Matéria originalmente publicada na edição de abril/2026 da Casa Vogue (CV 482), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual, e para assinantes no app Globo Mais.
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Detalhe da mesa de jantar desenhada por Lucas Recchia
Ruy Teixeira
Para adaptá-lo a seu estilo, recorreu ao arquiteto Diogo Figueiredo, cuja proposta se baseou em uma estrutura neutra, capaz de abrigar peças de design e arte de diferentes épocas e linguagens. A arquitetura original permaneceu como referência no interior, reforçada pelo piso de cimento queimado e pela geometria das janelas da fachada – elemento que o inspirou a criar a mesa de centro Quadrícula, da coleção Janelas. “Tudo aqui foi feito a quatro mãos. De um lado, eu tinha muito definido quais peças eu queria e, por outro, o Diogo me ajudou a selecionar, posicionar e idealizar um layout que valorizasse cada uma delas.”
+ Inspirado em bairro de Milão, apartamento aposta em curvas e memória afetiva
No corredor de acesso aos apartamentos, a mesa Morfa, também de Lucas, apoia máscara africana
Ruy Teixeira
Em outro ângulo do living, sofá Eshe e mesa de apoio Cavo, ambos de Lucas Recchia – nas paredes, escultura de Miguel dos Santos e políptico de Mira Schende
Ruy Teixeira
+ Texturas mil e tons terrosos vestem apartamento minimalista
No living, o colecionismo se revela como prática cotidiana, mesclando itens históricos com produção contemporânea. “Sempre desejei ter a poltrona do Oscar Niemeyer, e sua altura baixa serviu de referência para que eu criasse meu primeiro sofá, que foi pensado para esse cômodo e depois se desdobrou para a coleção Esher.” A mesa de jantar de cristal reciclado, que serve a cozinha, é outro móvel que pretende lançar. “Precisava testar o material e acabei trazendo o protótipo para cá”, lembra. Em volta dela, estão quatro cadeiras dos irmãos Campana – Flama, Sushi e uma dupla de Jenettes – que já pertenciam ao designer e acrescentaram cor ao ambiente, marcado ainda pela bancada e pela cuba de aço inoxidável, e pelos armários de lâmina de madeira que percorrem o imóvel.
Não gosto de acumular, mas gosto que as obras que coleciono impactem meu dia a dia, porque tudo o que tenho aqui é inspiração
Cerâmica peruana sobre livro de Pierre Legrain
Ruy Teixeira
Mais um ângulo do living destaca escultura de Megumi Yuasa
Ruy Teixeira
Entre as obras de arte, a escultura de Tunga é uma das favoritas. A peça de bronze, vista em uma exposição, permaneceu em sua memória desde as primeiras incursões nos circuitos artísticos de São Paulo, até surgir a oportunidade de aquisição no ano passado. “Curiosamente, faço minhas mesas de bronze no mesmo ateliê em que Tunga fazia os moldes”, conta. Seu acervo também inclui nomes como Megumi Yuasa, Paulo Pjota, Mira Schendel, Shoko Suzuki e Marina Woisky, além da escultura sonora de bronze do italiano Harry Bertoia, posicionada sobre uma mesa revestida de pergaminho – outro material em estudo pelo designer.
+ Com cores próprias, apartamento de designer eleva o ato de receber
Lucas Recchia no reflexo do espelho
Ruy Teixeira
Mesa Caco, design do morador, apoia cerâmica de Shoko Suzuki, e, na parede, tapeçaria de Marina Woisky
Ruy Teixeira
A escultura da série Morfológicas, de Tunga, na galeria Almeida & Dale, figura junto à luminária Fungo, de Gabriella Crespi, e à mesa de apoio Aura, de Lucas Recchia
Ruy Teixeira
No banheiro, espelho da coleção Distorção Mental, também de Recchia, e cuba de quartzito da Brasigran
Ruy Teixeira
+ Design como arte: tudo é escultórico em apartamento paulistano
No dormitório, separado da sala por um biombo de palhinha e madeira atribuído a Joaquim Tenreiro, o parquê original imprime uma atmosfera mais íntima. Desenhada pelo próprio Recchia, a cama dialoga com uma peça única de Giuseppe Scapinelli e a mesa Bulle, de sua autoria. “A relação entre elas é visual. Quando vi a mesinha, com escaninho de jacarandá, lembrei desse meu modelo, que tem o mesmo elemento, mas de vidro. A proporção é parecida e achei que seria uma combinação interessante”, comenta.
Não costumo chamar pessoas para virem aqui, é meu momento sozinho. As obras de arte são minha companhia
Três obras de Megumi Yuasa (na prateleira no alto e no piso) e tela de Paulo Pjota – ao fundo, no quarto, quadro de Niobe Xandó
Ruy Teixeira
Entre o quarto e o living, o biombo de Joaquim Tenreiro ampara a cama desenhada por Lucas Recchia, e a mesa lateral de Giuseppe Scapinelli, na Galeria Teo, apoia cerâmica de Megumi Yuasa e escultura de Nazareno
Ruy Teixeira
Mesa Bulle, de Lucas Recchia
Ruy Teixeira
A fachada do edifício nos Jardins
Ruy Teixeira
No living, poltronas Módulo, de Oscar Niemeyer, da Etel, e modelo azul vintage de autoria desconhecida, mesas de apoio de Lucas Recchia e escultura de Harry Bertoia (em primeiro plano, à esq.) – na cozinha (ao fundo), bancada de aço inoxidável da Mekal, mesa de jantar de Lucas Recchia e cadeiras Flama, Jenette e Sushi, de Fernando e Humberto Campana
Ruy Teixeira
Não à toa, suas escolhas são guiadas por afinidade. “Tudo o que está aqui tem impacto no meu dia a dia. Essa é minha forma de conviver com as obras e respeitar esses artistas, assim como espero que minhas peças sejam vistas e respeitadas no futuro.” Em meio a uma rotina intensa de uma carreira que deslanchou internacionalmente – com exposições em Nova York, Paris, Melbourne e Moscou –, o apartamento revela-se como lugar de recolhimento. É ali que Recchia encontra pausa e silêncio entre as obras que escolheu colecionar. “Considero que cheguei ao limite de peças neste espaço”, admite, reconhecendo que design, arte e arquitetura se entrelaçam em sua vida em permanente construção. “Tenho bem definidas as coisas que eu quero e, quando as encontro, não coloco limites para adquiri-las. Então, ou terei de reorganizar tudo por aqui, ou terei de mudar de apartamento.” Aguardemos os próximos capítulos.
*Matéria originalmente publicada na edição de abril/2026 da Casa Vogue (CV 482), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual, e para assinantes no app Globo Mais.
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