Por dentro da mente inquieta de Nuno Ramos em sua fase mais intensa

Uma das mentes mais inquietas da cultura brasileira, Nuno Ramos é um homem multilinguagem. Desde quando despontou no histórico Grupo Casa 7, nos anos 1980, o paulistano construiu uma trajetória que opera no cruzamento entre as artes visuais, a literatura, o teatro e o cinema.
Depois de criar uma instalação retratando fisicamente cada uma das vítimas do massacre do Carandiru (111, 1992), montar uma gigantesca gaiola com urubus na 29ª Bienal de São Paulo (Bandeira Branca, 2010) e fazer uma performance-protesto pública durante a pandemia, com uma centena de carros atravessando a Avenida Paulista engatando ré (Marcha à Ré, 2020), o artista de 66 anos acaba de trocar de galeria, passando a ser representado pela Almeida & Dale e Cerrado Galeria, e desbrava a encenação de uma ópera. Convidado a dirigir Intolleranza, de Luigi Nono (1924-1990), prevista para estrear no Theatro Municipal de São Paulo em 29 de maio, Nuno transpõe sua investigação sobre entropia e tragédia para o palco, propondo uma materialidade cênica que evoca a destruição de Hiroshima.
A voracidade de sua produção não para por aí. Nesta entrevista, feita na casa do artista no bairro paulistano da Vila Romana, ele detalha o cotidiano de seu ateliê e antecipa o lançamento de Minha Voz de Volta, projeto literário de contornos biográficos que lhe consumiu 11 anos. Entre reflexões sobre a conjuntura política, a dissolução das fronteiras da intimidade pelas redes, sua relação com a casa e o universo do design, Nuno revela as engrenagens de um pensamento em ebulição.
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Como é o dia a dia de um processo criativo que transita entre a escrita, uma obra plástica, espetáculos…
Eu sou muito tomado pelo meu trabalho, que vai de situações em que faço tudo sozinho a situações em que há uma equipe mais técnica. A escrita acontece logo pela manhã. Depois começam as reuniões mais práticas. À tarde dou uma caída, costuma ser o momento mais difícil. E, lá pelas 18h, o estúdio se acalma e eu vou para meu ateliê, para uma produção mais solitária, atualmente com tinta e vidro, que dura até as 21h30, 22h. É o fim da jornada, mas eu me sinto muito bem nesse horário.
Você é um artista visual que já trabalhou com teatro, performance, mas que atua pela primeira vez com a encenação de uma ópera. Pode contar um pouco sobre o processo de produção?
Intolleranza é um poema sonoro de 1961 em torno de um trabalhador da mineração que, durante a guerra, vai preso, é torturado e mais adiante se defronta com um desastre ecológico. É curto, pouco mais de uma hora, com citações de Sartre, de Brecht, e que conversa muito com os temas do nosso tempo. A Andrea [Saturnino, diretora], do Theatro Municipal, me convidou e eu chamei o Eduardo Climachauska para pensarmos tudo juntos. Fazer ópera me deixa com uma sensação meio desamparada de quem vê tudo pela primeira vez. São 80 pessoas no coro, cinco solistas, a orquestra e 18 bailarinos que o Alejandro Ahmed vai coreografar para a gente. Por um lado, lhe dá a chance de ir por um caminho de criação menos óbvio, mas é também um pouco assustador, porque são só três ensaios com todo mundo junto e pouca margem de manobra – cada coisa que você muda é uma cadeia enorme envolvida.
Detalhe da sua mesa de trabalho
Franco Amendola
Como vocês estão pensando a parte visual?
Não é um visual diretamente colado à ação. Como Hiroshima é uma refe- rência importante, estamos partindo do desenho de uma cúpula de metal que sobrou da destruição – está hoje no Memorial da Paz. Essa estrutura enorme vai descer do teto e boa parte da ação vai se dar ali dentro. Como o Luigi Nono é desconhecido, eu espero que ninguém tenha expectativa. Se fosse um Giuseppe Verdi seria mais complexo, porque todo mundo tem seu Verdi na cabeça. Aqui estamos na experimentação entre cenário, luz e os figurinos do João Pimenta.
E soube que também tem um livro novo prestes a ser lançado…
Sim, Minha Voz de Volta deve sair em novembro pela editora Todavia e é talvez o projeto a que eu mais me dediquei. Foram 11 anos trabalhando nele. Começa com um livro de poemas, uma espécie de conversa com meu pai, e aí entra uma narrativa em três vozes: a voz itálico, a voz negrito e a voz vermelha. A voz itálico é uma voz de primeira infância, uma memória nebulosa. A voz negrito é uma voz da primeira sexualidade, primeira adolescência. E a voz vermelha é uma conversa com o jabuti que comia tomates na casa dos meus avós, outra vez uma coisa de infância, mas um pouco deslocada.
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Sua ideia sempre foi partir de uma imersão autobiográfica?
Era. Mas aí escapou para todo lado, como sempre acontece comigo. Depois de toda essa primeira parte, o livro tem uma segunda onde eu recupero temas da primeira e faço experiências meio amalucadas. São cinco pequenas novelinhas absurdamente fantasiosas. Eu espero que o leitor atravesse, que leia tudo. Eu brinco que eu vou dar uma gravura para quem ler até o final.
Desde 111 (1992), sobre o massacre do Carandiru, até a remontagem de Três Casas no contexto das enchentes de Porto Alegre (2025), muitos dos seus trabalhos costumam responder a eventos externos, da conjuntura do Brasil. Nesse sentido, tem algo neste momento que o inquieta especialmente?
Eu acho que a gente continua dentro de uma estratégia da extrema direita que é a de se colocar como parte de um jogo que ela mesma destrói. Há uma balança em que tudo supostamente se equaliza – você teria a esquerda de um lado, a direita do outro, a polaridade. A questão é que de um dos lados há uma violência intragável contra todo o sistema. Enquanto isso, no mundo, parece haver uma espécie de euforia em torno das energias de destruição. Essa história de que quem não tem bomba atômica está ferrado. Quando a gente precisa da bomba atômica para segurar alguma respeitabilidade de fronteira, de soberania ou do que seja, então, acabou, né?
Como essas transformações repercutem na vida privada?
O fato de a gente ter entregue a vida para a economia já é parte dessa loucura. Parece que a circulação das coisas vazou, entrou pelas redes devassando a intimidade. Quando a barreira da pele, do sonho, do estranho, daquilo que você é é quebrada e tudo passa a ser modulado pela tela fica muito difícil. A gente virou uma peneira vazada, uma coisa muito nova que eu nunca pensei que iria viver. Para mim é algo que já foi, mesmo antes da inteligência artificial e de toda essa discussão que ela traz.
Eu sou muito tomado pelo meu trabalho, há situações em que faço tudo sozinho, e outras em que há uma equipe
Na companhia da cachorra Maria, Nuno lê na poltrona Eames que, segundo ele, é menos confortável do que imaginava
Franco Amendola
Queria perguntar um pouco sobre sua relação com a casa, com o morar.
Esta é uma casa dos anos 1940. A gente olhou, sem exagero, umas 200 casas até comprar esta, que foi a primeira que a gente viu, no começo dos anos 2000. Eu tenho fetiche com janela, com olhar do alto, poder ver o Jaraguá… E gosto das casas com cara de casa de avó, com bastante árvores de frutas. De lá para cá foram duas reformas: a primeira feita pelo Clóvis Cunha, a segunda pelo Antonio Carlos Barossi, professor da FAU-USP que eu conheço desde que nasci. Eu me envolvi profundamente nos dois processos.
E como é sua relação com o universo do design?
Acho que a minha relação com a vida imediata é uma relação de uso, não de luxo, de gastar. Sou muito avacalhado, me visto mal. Comprei uma poltrona Eames e achei que nem é tão confortável quanto eu gostaria. Enfim, é uma relação mais distante do que próxima. Agora, se alguém que tem a ver comigo me convidasse para desenhar uma cadeira junto, eu adoraria. Estou, na verdade, fazendo um projeto que toca essa área em parceria com um designer jovem, o Pedro Ávila. A ideia é pegar, por exemplo, dois copos e fazer algo como se tivesse um saindo do outro. Uma série de coisas siamesas começando a se separar, objetos de “dis-fusão”. Estamos correndo atrás de patrocínio para poder viabilizar isso.

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