Livro resgata vivências de Rosa Kliass, figura central do paisagismo brasileiro

Ao passo que ganha urgência o debate sobre cidades mais verdes, que valorizam espaços livres e a conexão com a cultura e a história do território, revisitar trajetórias que ajudaram a construir o pensamento paisagístico no Brasil é também uma forma de projetar futuros possíveis. É a partir dessa perspectiva que O livro da Rosa – vivência e paisagens (2019), publicado pela Romano Guerra Editora, se apresenta como um mergulho na experiência de vida que moldou a obra da arquiteta paisagista brasileira Rosa Grena Kliass.
Reconhecida internacionalmente como um dos principais nomes do paisagismo, Rosa Kliass tem sua trajetória contada por meio das histórias que compartilhou ao longo da vida. O livro reúne memórias, entrevistas, fotografias e desenhos que percorrem desde a infância da paisagista, em São Roque, até sua consolidação como uma das principais referências do segmento.
A obra tem a autoria da própria Rosa Kliass, organizada pelas arquitetas Lucia Maria Sá Antunes Costa e Maria Cecília Barbieri Gorski, que estruturam o material a partir de entrevistas com a própria Rosa, além de depoimentos de familiares, amigos, colegas e profissionais que acompanharam sua trajetória.
Capa da obra “O livro da Rosa – vivência e paisagem”, de Rosa Kliass, publicado pela Romano Guerra Editora em 2019
Romano Guerra Editora/Divulgação
Ao longo das páginas, a arquiteta paisagista aparece não apenas como autora de projetos marcantes, mas como uma contadora de histórias, capaz de traduzir em palavras, desenhos e memórias a relação entre paisagem, cidade e vida cotidiana. O resultado é um relato construído em diálogo, no qual diferentes perspectivas se articulam tendo Rosa como fio condutor.
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Processo de construção do livro
A proposta surgiu do desejo da própria Rosa de reunir suas histórias de vida e seus projetos em um livro. Esse ponto de partida definiu também o modo como o material seria construído. Ao invés de uma organização tradicional centrada nos projetos, o processo se organizou a partir de um processo aberto, em que o rumo das conversas foi sempre conduzido pela própria paisagista.
“O livro da Rosa – vivência e paisagem” se propõe a trazer não só os projetos, como também as vivências de Rosa e de pessoas do seu convívio ao longo de diferentes momentos da sua trajetória. Fotografia de Rosa Grena Kliass em 1952
Romano Guerra Editora/Divulgação
“Nós, eu e Ciça, trazíamos algumas pautas, pensávamos em alguns projetos que poderíamos abordar naquele dia, mas Rosa ia redefinindo os temas ao longo das conversas”, conta Lúcia Costa, arquiteta paisagista, professora de paisagismo do programa de pós-graduação em urbanismo e do mestrado profissional em arquitetura paisagística da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A partir dessas conversas, consolidou-se a decisão de que o livro deveria preservar a voz direta de Rosa. “No começo, a gente pensou em organizar o livro de outra forma, mas depois vimos que ele tinha que ser na primeira pessoa. Era ela quem estava contando essas histórias”, afirma Lúcia.
Nessas conversas, Rosa revisita momentos-chave de sua vida e de sua carreira. A proposta do livro é justamente deslocar o olhar para aquilo que atravessa a obra: em vez de uma compilação tradicional, centrada nos projetos — já abordados em outras publicações —, a obra privilegia as experiências que deram origem a esses trabalhos.
“Quando a gente pega um livro de arquiteto, em geral, vem a obra. Aqui, a gente quis trazer as vivências”, diz Maria Cecília Barbieri Gorski. Arquiteta e urbanista, ex-presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap). Maria Cecília é uma parceira de longa data de Rosa, e tem a paisagista como uma grande referência em sua formação. Além disso, é sócio-fundadora do escritório barbieri gorski.
Fotografia da turma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, de 1955, na qual Rosa Grena Kliass é uma das poucas mulheres integrantes
Romano Guerra Editora/Divulgação
Durante as conversas, nomes de clientes, parceiros, familiares e profissionais do campo foram surgindo, guiando entrevistas também com essas pessoas. O processo completo de produção durou cerca de 3 anos.
Maria Cecília destaca os depoimentos de profissionais que iniciaram a carreira no escritório de Rosa e de clientes que acompanharam de perto o desenvolvimento dos projetos. “São relatos muito fortes, de gente que cresceu com ela profissionalmente ou que viveu transformações concretas a partir de seus projetos e do contato com Rosa”, afirma. Os momentos das entrevistas também foram marcados por esses reencontros.
Diante do material recolhido, outra etapa importante foi definir o formato da publicação, que também partiu de um desejo de Rosa. “Desde o começo, ela trazia de maneira muito enfática: eu quero um livro que caiba na bolsa”, relembra Maria Cecília.
O aspecto visual também era essencial. Maria Cecília conta que os desenhos sempre foram e continuarão sendo um elemento muito marcante de Rosa. “Ela desenhava o tempo todo, em qualquer lugar”, relembra a organizadora.
Parque das Esculturas Solar do Unhão, em Salvador. Croquis de Rosa Grena Kliass de 1995
Romano Guerra Editora/Divulgação
O acervo de Rosa era amplo e a seleção foi feita em etapas. “Primeiro, tivemos uma seleção afetiva, feita por mim, Ciça, Josi, a secretária de Rosa e a própria Rosa. Indicamos o que precisava estar e depois novas seleções foram feitas pela equipe de editores e designers do livro”, conta Lúcia. “As fotografias não só ilustram, elas faziam parte do fio da narrativa”, complementa.
Trajetória de Rosa e a organização do livro
Dividido ao longo de nove capítulos, o livro acompanha a trajetória da arquiteta paisagista de maneira cronológica. Cada capítulo compreende em torno de uma década da vida de Rosa. “É uma trajetória ampla que também passa a contar um pouco a história das cidades brasileiras, do país”, pontua Lúcia.
O percurso do leitor começa na primeira paisagem de Rosa, ainda nos anos 1930, em São Roque, SP, onde a arquiteta paisagista nasceu e viveu parte da infância.
Aos onze anos, ao se mudar para São Paulo, SP, amplia seu horizonte e inicia o caminho que a levaria à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde se forma em 1955. A vida na capital paulista e o contexto familiar dos Kliass estruturam os capítulos seguintes, que ajudam a compreender a formação de seu repertório e de seu olhar sobre a cidade.
Rosa Kliass foi responsável por desenvolver o projeto paisagístico da Avenida Paulista. Na foto, projeto datado de 1972
Romano Guerra Editora/Divulgação
A partir daí, a arquiteta paisagista desenvolve uma carreira marcada por projetos que se tornaram referência em diferentes cidades brasileiras. Em São Paulo, SP, destacam-se intervenções no Vale do Anhangabaú, na Avenida Paulista e no Parque da Juventude. Em Salvador, BA, o Parque do Abaeté e o Parque de Esculturas do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA).
O Vale do Anhagabaú é outro projeto da arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass que guarda parte da memória de São Paulo
Romano Guerra Editora/Divulgação
Paralelamente à prática profissional, sua atuação institucional também foi decisiva. Fundadora da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap), entidade que presidiu por anos, Rosa contribuiu diretamente para a consolidação e valorização do paisagismo como campo profissional no Brasil.
Ao longo dos capítulos, o livro evidencia ainda o interesse constante da paisagista pelo espaço público e pelo diálogo entre arquitetura, arte e paisagem, além de destacar sua atuação em diferentes regiões do país, especialmente no norte, onde desenvolveu projetos importantes para a construção de uma leitura mais integrada entre natureza e cidade.
Projeto de implementação do Mangal das Garças, em Belém, feito por Rosa Kliass
Romano Guerra Editora/Divulgação
Em Belém, PA, por exemplo, destaca-se o Parque Mangal das Garças e o projeto Feliz Lusitânia. Este segundo consistia em uma intervenção urbana voltada à valorização do núcleo histórico da cidade. A paisagista propôs um olhar para os espaços livres, criando áreas de permanência e promovendo a conexão entre arquitetura, natureza e cidade, com atenção às características ambientais e culturais da região amazônica.
Fotografia de Rosa Grena Kliass, em 2006
Romano Guerra Editora/Divulgação
Esse percurso se estende até o nono capítulo do livro, intitulado Paisagista rebelde, que se volta para seus anos mais recentes e ativos. Nele, Rosa aparece engajada em debates, congressos e discussões sobre o futuro das cidades, reafirmando sua postura crítica e sua presença constante no campo do paisagismo. “Ela nunca parou, sempre esteve presente, discutindo, participando, se posicionando”, afirma Maria Cecília. “Mesmo nos últimos anos, ela continuava muito ativa nos debates e acompanhando o que estava acontecendo”, completa.
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O lançamento e os sentidos do livro
O lançamento do livro reuniu profissionais, colaboradores e pessoas próximas à paisagista em um encontro marcado pela emoção e pela celebração de sua trajetória. “Foi uma coisa muito emocionante, com uma fila que não acabava nunca”, relembra Maria Cecília.
Mais do que um evento de celebração, o momento também reafirmou a importância da obra como registro coletivo de uma trajetória que atravessa o campo do paisagismo no Brasil. A publicação consolida um conjunto abrangente de experiências e reflexões que permanecem fundamentais para pensar o futuro das cidades brasileiras.
Para Lúcia, esse alcance não está apenas no conteúdo final do livro, mas no próprio modo como ele se constrói ao longo de um percurso de produção coletivo, que vai assumindo novos sentidos. “O livro não é só papel impresso, ele carrega a história de vida, tudo junto e misturado; é um objeto simbólico, afetivo, cheio de valores e significados atribuídos”, pontua Lúcia.
Para as organizadoras, essa compreensão reforça a função do livro como forma de transmissão de legado. “Rosa tem uma trajetória importantíssima em vários campos, inclusive por abrir caminhos para consolidar a profissão de arquitetura paisagística no Brasil. Ela tem uma capacidade extraordinária de trabalhar conectando pessoas, de forma cooperativa”, reflete Lúcia.

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