Viveiro Manequinho Lopes: tudo sobre o espaço verde histórico em SP

Nas proximidades dos pavilhões do Parque Ibirapuera, um espaço resiste há quase um século: o Viveiro Manequinho Lopes. Criado em 1928, o viveiro nasceu para abastecer São Paulo com mudas ornamentais e árvores destinadas à arborização urbana. Hoje, é referência em preservação ambiental e produção de espécies nativas brasileiras, considerado um verdadeiro guardião da memória e do verde da cidade.
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As raízes do Viveiro
“Para entender a origem do Viveiro, é preciso voltar um pouco no tempo, uma vez que o histórico desse espaço dialoga com o processo de arborização e ajardinamento da cidade, ainda no século 18”, explica Andressa Freitas de Lima Rhein, engenheira agrônoma e diretora da Divisão de Produção e Herbário Municipal da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo.
Em 1798, foi inaugurado o primeiro jardim público da cidade, na região onde, hoje, fica localizado o Parque da Luz. Ao longo dos anos, esse espaço passou por diferentes melhoramentos e, em 1899, Antonio Etzel tornou-se administrador do Parque.
O Parque da Luz, inicialmente batizado de Jardim da Luz, é o mais antigo parque público do município
Flickr/Rodrigo Dionisio/Creative Commons
Nesse momento, Antônio Prado era o prefeito da cidade. Devido ao seu contato com os jardins e as áreas verdes europeias, durante sua gestão, propôs um grande programa de arborização de São Paulo, o chamado plano americano de ajardinamento. Com a introdução de novas áreas verdes, a demanda por mudas também cresceu.
“Inicialmente, foi criado um pequeno viveiro no jardim público e, depois, na região da Água Branca”, conta Andressa. Em 1916, durante o governo de Washington Luis, a prefeitura comprou um grande terreno, situado na Vila Clementino, uma área pantanosa onde futuramente seria implantado o Parque Ibirapuera.
Na gestão do prefeito Pires do Rio, em 1927, há uma retomada da necessidade por espaços verdes. “A proposta era ter grandes jardins como forma de embelezamento e ornamentação da cidade, que crescia”, destaca a engenheira agrônoma.
A atuação de Manoel Lopes de Oliveira Filho
Manoel Lopes de Oliveira Filho, conhecido como Manequinho Lopes, foi uma figura essencial para a história do Viveiro. Estudou entomologia na cidade de Heilderberg, na Alemanha, e, em 1893, retornou ao Brasil. A sua carreira começou no Instituto Biológico e, nos anos seguintes, começou a escrever para jornais sobre práticas agrícolas em linguagem descomplicada.
Em 1928, o viveiro que estava na Água Branca foi transferido para o terreno da Vila Clementino. Nesse momento, Manequinho Lopes foi nomeado diretor da recém-criada Divisão de Matas, Parques e Jardins. Diante da pressão pelo uso da área que estava até então desocupada e do aumento da demanda por mudas na cidade, o Viveiro começou suas atividades.
Manuel Lopes de Oliveira, conhecido como Manequinho Lopes, foi pioneiro no jornalismo científico brasileiro, além de chefe do Serviço Científico do Instituto Biológico de São Paulo, chefe da Divisão de Matas, Parques e Jardins de São Paulo e membro do Conselho Florestal do Estado
Felipe Lopes de Oliveira Diehl/Wikimedia Commons
Para drenar o solo úmido, Manequinho e sua equipe plantaram eucaliptos australianos, árvores que margeiam até hoje o espaço. Além dos eucaliptos, passaram a cultivar e fornecer para o projeto de ajardinamento da cidade árvores nativas e exóticas, como pau-ferro, ipê, pau-brasil, pau-jacaré, tipuana, flamboyant, sibipiruna, bem como arbustos, trepadeiras e flores.
Em meio aos preparativos das comemorações do 4º Centenário de São Paulo e o projeto de construção do Parque Ibirapuera, o Viveiro teve a sua continuidade ameaçada. O espaço era visto como um entrave para as possibilidades e os projetos de expansão futura do Parque.
Projeto do Parque Ibirapuera em meio às comemorações do 4º Centenário da cidade colocaram em xeque a manutenção do Viveiro Manequinho Lopes, que permaneceu em razão dos pedidos de seu diretor
Fundação Maria Luisa e Oscar Americano/Divulgação
“Apesar da possibilidade de retirada, acredito que o viveiro teve um papel fundamental e foi o verdadeiro guardião dessa área, onde seria Parque Ibirapuera. Ele assegurou que aquele espaço se mantivesse diante da especulação imobiliária e dos planos de remoção que surgiram ao longo dos anos”, analisa Fernanda Curi, arquiteta, urbanista e museóloga.
A proposta de retirada não foi adiante. Em 1936, inclusive, o Viveiro Manequinho Lopes foi considerado o maior e mais variado da América do Sul. Dois anos depois, Manequinho falece e, em sua homenagem, a administração municipal nomeia o Viveiro com nome do entomólogo.
O registro aéreo mostra a proximidade do Viveiro com a região do Ibirapuera, além da sua grandiosidade. Ao fundo, antiga serraria do Parque Ibirapuera
Sérgio Valle Duarte/Wikimedia Commons
Porém, a ameça de retirada não foi um episódio único e voltou à se repetir. Durante os anos 70 e 90, novos projetos de revitalização e programas para o parque retomaram a pressão, defendendo que o espaço deveria dar lugar a novas propostas culturais e turísticas, como novos pavilhões e parques de diversões, vistos como incompatíveis com o Viveiro.
“O parque sempre teve esse duelo, entre o parque concreto, construído e o parque natural. Por isso, hoje, é muito importante pensar no Viveiro público como símbolo de resistência, mesmo com o avanço da privatização do Ibirapuera”, destaca Fernanda.
A importância atual do Viveiro Manequinho Lopes
O foco do viveiro atualmente está na produção de mudas de plantas herbáceas e arbustivas
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
Atualmente, o Viveiro Manequinho Lopes ocupa 48 mil m² distribuídos em 39 quadras de matrizes e estoques de mudas envasadas. Além disso, o espaço é equipado com 10 estufas (casas de vegetação), 97 estufins (canteiros suspensos) e 3 telados (estruturas cobertas com tela de sombreamento).
O Viveiro é dedicado à produção de herbáceas, arbustivas e plantas alimentícias não convencionais, como ora-pro-nóbis e ginseng. Em 2024, foram cultivadas 920 espécies diferentes, entre nativas da Mata Atlântica e ornamentais utilizadas nos jardins da cidade. É possível conhecer as espécies disponíveis no site da prefeitura.
Os funcionários do viveiro atuam na manutenção das espécies e investem continuamente na expansão do Viveiro
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
“Nós abastecemos subprefeituras, parques, escolas e até projetos de educação ambiental. O viveiro tem um papel fundamental para preparar São Paulo frente às mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, preservar espécies nativas que estavam ameaçadas”, explica Andressa.
Recentemente, iniciou-se uma coleção de espécies de diferentes biomas: Cerrado, Caatinga e Mata atlântica. Houve também a implementação de um horto de plantas medicinais na área de visitação do viveiro.
Atuação para além da produção de mudas
Mais do que um centro de cultivo, o Viveiro Manequinho Lopes se consolidou como um espaço de troca de conhecimento. O local recebe escolas, unidades de saúde e organizações da sociedade civil, e desenvolve atividades em parcerias com outros espaços, como a Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UMAPAZ).
As atividades do Viveiro começam por uma ação de Manequinho Lopes para o uso do terreno, até então subutilizado pela prefeitura na região da Vila Clementino
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
A proposta é promover atividades de educação ambiental, visando mostrar que cada muda vai além da função ornamental, mas também carrega consigo valores de preservação, saúde e bem-estar coletivo. “Acreditamos que o contato direto com a produção de plantas é também uma forma de educação ambiental e de valorização do serviço público”, afirma Andressa.
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A visitação é aberta ao público e conta com monitoria para grupos previamente agendados, que percorrem estufas históricas, matrizeiros e trilhas temáticas. Nessas experiências, é possível conhecer espécies nativas, plantas medicinais, aromáticas e alimentícias não convencionais (PANCs), além de compreender os processos de germinação, o cultivo sustentável e o papel da vegetação no equilíbrio climático da cidade.
“O viveiro tem potencial de ser um hub de consciência ambiental próximo ao parque, conectando cultura, memória e natureza”, analisa Fernanda. Para a engenheira agrônoma, a relevância do trabalho ali desenvolvido vai muito além da paisagem. “Produzir e preservar espécies resilientes é garantir mais qualidade de vida hoje e para as próximas gerações”, finaliza Andressa.

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