Viajei até Alagoas para conhecer as mãos que moldam o barro. A cerâmica, aqui, não é apenas técnica: é memória viva, é linguagem que atravessa gerações, traduzindo o imaginário popular em formas tangíveis.
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João das Alagoas – o contador de histórias em barro
Minha primeira parada foi em Capela, cidade que abriga um dos maiores mestres da cerâmica brasileira, João das Alagoas, reconhecido como Patrimônio Vivo do Estado em 2011. Autodidata, ele aprendeu a modelar sozinho e desenvolveu uma linguagem muito própria: figuras que narram o folclore, as festas populares, o boi-bumbá, a religiosidade e o humor do povo nordestino.
João de Alagoas com uma mostra do trabalho da sua filha e aprendiz, em seu galpão
Irineo Albiero/Divulgação
Sua produção não se limita ao objeto decorativo; em cada peça uma história é contada, como um registro simbólico da vida coletiva. João representa a continuidade de uma tradição e, ao mesmo tempo, sua reinvenção. Hoje, além de criar, dedica-se a formar novos artesãos. Foi assim que Cláudio, seu sobrinho, começou como aprendiz há 19 anos — preparando o barro, observando os gestos do tio e, pouco a pouco, encontrando sua própria voz criativa nas miniaturas que faz. João é, portanto, um elo entre passado e futuro, guardião e semeador de uma cultura que não pode se perder.
Entrada do galpão de João de Alagoas, em Canela, Alagoas
Irineo Albiero/Divulgação
Nena de Capela– continuidade e renovação
Entre os muitos aprendizes que passaram pelas mãos de João das Alagoas, está Nena. Sua trajetória é exemplo de como o barro se multiplica em vozes, não repetindo fórmulas, mas recriando caminhos. Nena traz para sua cerâmica a influência direta de João, mas imprime também delicadezas próprias, com peças lindas como os girassóis e, hoje, passa para sua filha esse dom.
Mestre Nena com uma de suas peças e a arquiteta Juliana Pippi
Irineo Albiero/Divulgação
Sua importância está em mostrar que a cultura popular não é estática: ela se renova a cada geração, adaptando-se sem perder o vínculo com a raiz.
Sil e Adriana Capela – poética da jacas
Ali também conheci de perto o trabalho das irmãs Sil e Adriana Capela, que exploram um universo poético a partir da jaqueira e de suas jacas.
Entre as novas vozes da cerâmica alagoana, o trabalho das irmãs chama atenção pela originalidade e força simbólica. Inspiradas nas jaqueiras de Capela, cidade natal da família, elas transformaram a fruta em tema central de sua pesquisa criativa. Enquanto Sil modela jaqueiras escultóricas de todos os tamanhos, Adriana molda a própria fruta em escala real e com todos os detalhes.
Jaqueira feita por Sil Capela, em sua oficina
Irineo Albiero/Divulgação
As jacas de barro que produzem não são apenas representações naturalistas, são volumes escultóricos de presença marcante, que exploram a textura, o peso e a organicidade dessa fruta tão ligada ao cotidiano do Nordeste. Em suas mãos, a jaca deixa de ser apenas um alimento e se torna metáfora da fertilidade, da abundância e da memória afetiva.
A arquiteta Juliana Pippi e a artesã Adriana Capela, na oficina das irmãs durante sua viagem para Alagoas
Irineo Albiero/Divulgação
Essas peças também dialogam com a ideia de território: cada jaca remete às árvores frondosas que marcam a paisagem de Capela e às lembranças de infância sob a sombra da jaqueira. Ao mesmo tempo, extrapolam o regionalismo e alcançam uma leitura contemporânea, que aproxima a cerâmica popular da escultura e do design do objeto.
Dona Irinéia – a guardiã da identidade alagoana
De Capela, segui até União dos Palmares, terra marcada pela resistência quilombola, para conhecer Dona Irinéia, outro Patrimônio Vivo de Alagoas. Filha de agricultores, ela começou modelando pequenas cabeças para pagadores de promessas. Com o tempo, suas mãos deram forma a uma obra-prima coletiva: figuras robustas, de traços singelos e expressivos, que se tornaram ícones da cerâmica popular brasileira.
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Entre todas, uma se destacou: o “Beijo”. Duas cabeças unidas pelo gesto de afeto e humanidade, símbolo de amor e resistência, tão forte que se transformou em monumento oficial do Estado de Alagoas.
O barro como patrimônio imaterial
Oficina dos artesãos em Capela, Alagoas. As peças de cerâmica são feitas a partir do barro e as técnicas transmitidas entre gerações
Irineo Albiero/Divulgação
Em Alagoas, cada artesão traduz a cultura do estado com suas mãos. João das Alagoas, com suas narrativas em barro, reafirma o valor do imaginário popular. Dona Irinéia, com sua força feminina, transformou um gesto simples — o beijo — em ícone universal. Nena carrega adiante a chama da tradição, revelamos cenas do dia a dias e lindos girassóis modelados em barro. Já Sil e Adriana Capela mostram que esse material ainda guarda infinitas possibilidades de leitura contemporânea e, hoje, estão presentes em muitos projetos fazendo parte de diversos tipos de morar pelo Brasil.
Mais do que uma matéria vinda da terra, o barro é patrimônio imaterial: uma herança afetiva e cultural que dá forma à identidade de Alagoas e ao orgulho de seu povo.
A seguir, assista ao segundo episódio da série “Mãos Brasileiras”:
MÃOS BRASILEIRAS | Juliana Pippi mergulha na arte do barro em Alagoas
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João das Alagoas – o contador de histórias em barro
Minha primeira parada foi em Capela, cidade que abriga um dos maiores mestres da cerâmica brasileira, João das Alagoas, reconhecido como Patrimônio Vivo do Estado em 2011. Autodidata, ele aprendeu a modelar sozinho e desenvolveu uma linguagem muito própria: figuras que narram o folclore, as festas populares, o boi-bumbá, a religiosidade e o humor do povo nordestino.
João de Alagoas com uma mostra do trabalho da sua filha e aprendiz, em seu galpão
Irineo Albiero/Divulgação
Sua produção não se limita ao objeto decorativo; em cada peça uma história é contada, como um registro simbólico da vida coletiva. João representa a continuidade de uma tradição e, ao mesmo tempo, sua reinvenção. Hoje, além de criar, dedica-se a formar novos artesãos. Foi assim que Cláudio, seu sobrinho, começou como aprendiz há 19 anos — preparando o barro, observando os gestos do tio e, pouco a pouco, encontrando sua própria voz criativa nas miniaturas que faz. João é, portanto, um elo entre passado e futuro, guardião e semeador de uma cultura que não pode se perder.
Entrada do galpão de João de Alagoas, em Canela, Alagoas
Irineo Albiero/Divulgação
Nena de Capela– continuidade e renovação
Entre os muitos aprendizes que passaram pelas mãos de João das Alagoas, está Nena. Sua trajetória é exemplo de como o barro se multiplica em vozes, não repetindo fórmulas, mas recriando caminhos. Nena traz para sua cerâmica a influência direta de João, mas imprime também delicadezas próprias, com peças lindas como os girassóis e, hoje, passa para sua filha esse dom.
Mestre Nena com uma de suas peças e a arquiteta Juliana Pippi
Irineo Albiero/Divulgação
Sua importância está em mostrar que a cultura popular não é estática: ela se renova a cada geração, adaptando-se sem perder o vínculo com a raiz.
Sil e Adriana Capela – poética da jacas
Ali também conheci de perto o trabalho das irmãs Sil e Adriana Capela, que exploram um universo poético a partir da jaqueira e de suas jacas.
Entre as novas vozes da cerâmica alagoana, o trabalho das irmãs chama atenção pela originalidade e força simbólica. Inspiradas nas jaqueiras de Capela, cidade natal da família, elas transformaram a fruta em tema central de sua pesquisa criativa. Enquanto Sil modela jaqueiras escultóricas de todos os tamanhos, Adriana molda a própria fruta em escala real e com todos os detalhes.
Jaqueira feita por Sil Capela, em sua oficina
Irineo Albiero/Divulgação
As jacas de barro que produzem não são apenas representações naturalistas, são volumes escultóricos de presença marcante, que exploram a textura, o peso e a organicidade dessa fruta tão ligada ao cotidiano do Nordeste. Em suas mãos, a jaca deixa de ser apenas um alimento e se torna metáfora da fertilidade, da abundância e da memória afetiva.
A arquiteta Juliana Pippi e a artesã Adriana Capela, na oficina das irmãs durante sua viagem para Alagoas
Irineo Albiero/Divulgação
Essas peças também dialogam com a ideia de território: cada jaca remete às árvores frondosas que marcam a paisagem de Capela e às lembranças de infância sob a sombra da jaqueira. Ao mesmo tempo, extrapolam o regionalismo e alcançam uma leitura contemporânea, que aproxima a cerâmica popular da escultura e do design do objeto.
Dona Irinéia – a guardiã da identidade alagoana
De Capela, segui até União dos Palmares, terra marcada pela resistência quilombola, para conhecer Dona Irinéia, outro Patrimônio Vivo de Alagoas. Filha de agricultores, ela começou modelando pequenas cabeças para pagadores de promessas. Com o tempo, suas mãos deram forma a uma obra-prima coletiva: figuras robustas, de traços singelos e expressivos, que se tornaram ícones da cerâmica popular brasileira.
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Entre todas, uma se destacou: o “Beijo”. Duas cabeças unidas pelo gesto de afeto e humanidade, símbolo de amor e resistência, tão forte que se transformou em monumento oficial do Estado de Alagoas.
O barro como patrimônio imaterial
Oficina dos artesãos em Capela, Alagoas. As peças de cerâmica são feitas a partir do barro e as técnicas transmitidas entre gerações
Irineo Albiero/Divulgação
Em Alagoas, cada artesão traduz a cultura do estado com suas mãos. João das Alagoas, com suas narrativas em barro, reafirma o valor do imaginário popular. Dona Irinéia, com sua força feminina, transformou um gesto simples — o beijo — em ícone universal. Nena carrega adiante a chama da tradição, revelamos cenas do dia a dias e lindos girassóis modelados em barro. Já Sil e Adriana Capela mostram que esse material ainda guarda infinitas possibilidades de leitura contemporânea e, hoje, estão presentes em muitos projetos fazendo parte de diversos tipos de morar pelo Brasil.
Mais do que uma matéria vinda da terra, o barro é patrimônio imaterial: uma herança afetiva e cultural que dá forma à identidade de Alagoas e ao orgulho de seu povo.
A seguir, assista ao segundo episódio da série “Mãos Brasileiras”:
MÃOS BRASILEIRAS | Juliana Pippi mergulha na arte do barro em Alagoas



