Sofisticação e tropicalismo: por que apagamos as cores da casa brasileira?

A casa brasileira sempre foi colorida. Basta olhar para as ruas do interior, para os azulejos coloniais ou para as fachadas pintadas em tons vibrantes que ainda resistem. Mas, em algum momento, essa autenticidade se perdeu. Como chegamos a um ponto em que o branco, o bege e o cinza passaram a ser vistos como sinônimos de sofisticação, enquanto as cores vivas foram rebaixadas à condição de “populares” ou “bregas”?
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Não é apenas uma questão de gosto. A ausência de cor virou marcador de classe. O neutro passou a representar status, ao mesmo tempo em que o excesso cromático foi estigmatizado como excesso, desordem ou improviso. Essa validação estética, no entanto, não surgiu por acaso: ela foi inserida como parte de um processo de higienização e distanciamento. Quanto mais próximo da ideia de europeu, mais sofisticado. O Brasil, que pulsa em cores tropicais e misturas, foi sendo enquadrado em paletas apagadas, como se precisasse “limpar-se” para ser reconhecido como refinado. Mas a verdade é que a casa brasileira tem punch: tem vida, contraste, ousadia e autenticidade.
A chef potiguar Irina Cordeiro na cozinha de seu apartamento em SP, onde predominam tons de verde no piso e na porta de entrada. O artesanato selecionado pela moradora domina a cena no projeto anterior do escritório Iná Arquitetura
Wesley Diego/Editora Globo
O tropicalismo também tem grande responsabilidade por manter viva essa explosão de cores e materiais na arquitetura e no design de interiores. Foi ele quem transformou a mistura em celebração estética, abrindo espaço para a liberdade em composições cromáticas, para texturas inesperadas, para a presença da natureza dentro de casa. Essa estética é mais do que visual, é identitária. A latinidade se manifesta no artesanato, nas cerâmicas, nas feiras e nos objetos do dia a dia que contam a história do nosso povo. O Brasil possui repertório abundante de cultura e criação, não há razão para buscar referências apenas fora, quando aqui a autenticidade já transborda.
A parede listrada é uma forma de adicionar cor e personalidade aos ambientes, sem pesar no visual. Projeto do arquiteto João Gabriel
Léo Silva/Divulgação
Essa disputa mostra que a cor, longe de ser apenas estética, é também política. O que está em jogo não é apenas o tom da parede, mas como escolhemos legitimar certas expressões e invisibilizar outras. Será que neutralidade realmente significa elegância ou é apenas uma forma sutil de negar a pluralidade que nos constitui?
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Resgatar a cor é resgatar a identidade. Pintar uma casa de amarelo, azul, verde ou vermelho é relembrar que habitar também é narrar que a casa pode e deve vibrar com a mesma intensidade da vida brasileira. E que a sofisticação não precisa ser sinônimo de apagamento.
No fundo, a pergunta que fica é simples e provocadora: em um país tropical, múltiplo e inventivo como o nosso, por que ainda insistimos em morar em casas sem cor?

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