Considerado um dos nomes mais influentes do século 20, Marcel Breuer (1902-1981) foi um arquiteto e designer húngaro-americano conhecido por suas inovações no design de mobiliário. Ele se destacou, especialmente, no uso de aço tubular, além de seu papel significativo na arquitetura, aplicando os conceitos do modernismo e do brutalismo.
Nascido em Pécs, na Hungria, o arquiteto era filho de pais judeus, Jakab Breuer e Francisca Leko, e tinha dois irmãos, Alexander e Hermina Maria. Marcel Breuer concluiu o ensino médio na escola húngara Magyar Királyi Föreáliskola.
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Apaixonado pela arte, ganhou uma bolsa de estudos para frequentar a Academia de Belas Artes de Viena, na Áustria. Insatisfeito, ele desistiu e, em seguida, conheceu a Bauhaus, onde sua carreira estava prestes a iniciar.
“Sua trajetória se refletiu em três fases: a primeira, no contexto europeu, ligada à Bauhaus e à produção de mobiliário; a segunda, nos Estados Unidos, voltada ao desenvolvimento de residências unifamiliares; e a terceira, dedicada a programas domésticos mais amplos”, conta Luma Yoshioka, professora de Design de Interiores do Centro Universitário Belas Artes e mestra em História Social.
Marcel Breuer e a Bauhaus
Em 1921, aos 18 anos, Marcel Breuer se mudou para Weimar, Alemanha, para se inscrever na Bauhaus, escola vanguardista de arquitetura e design. Ele se tornou um membro proeminente da primeira turma de formandos, concluindo a sua formação em 1924.
A Bauhaus foi uma escola de artes fundada em 1919 por Walter Gropius, em Weimar, Alemanha, conhecida por revolucionar a arquitetura e o design moderno ao integrar arte e indústria, priorizando a funcionalidade e a estética
Gunnar Klack/Wikimedia Commons
O diretor da instituição, o arquiteto Walter Gropius, reconheceu o seu talento e, em um ano, o promoveu a chefe da oficina de móveis e carpintaria da escola. O designer permaneceu como professor até 1928, período em que a escola já se encontrava na cidade de Dessau.
Lá, ele se destacou como uma figura central explorando as potencialidades do aço tubular. “Marcel Breuer aplicou o princípio de racionalidade em seu trabalho, concentrando-se na capacidade de identificar elementos comuns em experiências distintas e aparentemente heterogêneas, refletindo assim a filosofia da Bauhaus de unir funcionalidade, método e criatividade”, comenta a professora.
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Naquele período, os trabalhos de Marcel Breuer se sobressaíram pela ousadia na escolha dos materiais e pela exploração máxima de seu potencial. Enquanto aluno e docente na Bauhaus, ele desenvolveu algumas de suas criações mais revolucionárias em mobiliário. Conheça a seguir:
Cadeira Wassily
Em 1925, Marcel projetou a cadeira Wassily (originalmente chamada B3), que tornou-se uma das peças mais duradouras e icônicas do mundo. Inspirada no guidão da sua bicicleta e nos princípios do movimento De Stijl, ela foi feita de couro e tubos de aço sem solda, uma técnica inovadora para a época.
A Wassily reflete a tendência da Bauhaus em priorizar a funcionalidade e a simplicidade. Marcel Breuer via a bicicleta como um objeto que representava o paradigma do design devido ao fato de sua forma ter permanecido praticamente inalterada desde sua criação. E o aço tubular do guidão da bicicleta também o intrigava, por ser leve, durável e adequado para produção em massa.
A cadeira Wassily, também conhecida como modelo B3, do arquiteto e designer Marcel Breuer, é símbolo de estilo e inovação
Flickr/Kai ‘Oswald’ Seidler/Creative Commons
O designer dobrou as peças de aço para que não houvesse pontos de solda e elas pudessem ser cromadas e montadas gradualmente. Ele batizou a cadeira em homenagem ao pintor Wassily Kandinsky, professor da Bauhaus, que ficou tão encantado com a peça durante uma visita ao estúdio de Breuer que ele criou uma réplica para a casa de Kandinsky.
Produzida em massa pela Thonet, a licença de fabricação da cadeira foi adquirida após a Segunda Guerra Mundial pela empresa italiana Gavina, que por sua vez foi comprada pela empresa americana Knoll em 1968. A Knoll mantém a marca registrada do design e a cadeira continua em produção até hoje.
Cadeira Cesca
Em 1928, Breuer continuou suas explorações do aço tubular com a B32, ou cadeira Cesca como é popularmente chamada atualmente. Neste caso, ele moldou o material em um único contorno sinuoso, ao qual fixou duas estruturas de madeira de faia revestidas de junco.
A cadeira Cesca possui uma estrutura tubular de aço inox polido ou cromado, com assento e encosto em vime, palha sintética ou madeira maciça com palha, fixados em uma moldura de madeira
Flickr/Chair e Cia Design/Creative Commons
O assento e o encosto são sustentados apenas pelas pernas na frente, um feito possível devido à tubulação de aço sem costura, que resiste ao colapso quando dobrada. O projeto une os métodos tradicionais de artesanato — o junco trançado costurado à mão na estrutura de madeira — com o aço tubular produzido industrialmente em massa.
A cadeira leva o nome em homenagem à filha de do profissional, Francesca. O apelido foi sugerido pelo fabricante italiano de móveis Dino Gavina, da empresa Gavina, que também começou a fabricar a Cesca, assim como a cadeira B3 Wassily, com a permissão de Marcel Breuer na década de 1950, antes de ser comprada pela Knoll.
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Apesar do status icônico do design original, Marcel Breuer fez diversas modificações na Cesca, fabricando-a a partir de duas peças em vez de uma. Desde o seu lançamento, milhões de versões foram vendidas em todo o mundo, tornando-a a cadeira mais popular do profissional, consolidando a sua influência no design modernista.
Saída da Bauhaus e início do exílio
Em 1928, Marcel Breuer deixou a Bauhaus e foi para Berlim, onde abriu seu primeiro escritório de arquitetura, que passou a ser sua principal fonte de renda. O sucesso comercial de suas cadeiras possibilitou a sustentação de seu negócio e a continuidade de sua carreira como designer de móveis, começando com pequenas encomendas.
Após esse período, em 1933, o nazismo chegou ao poder na Alemanha. Nesse mesmo ano, a Bauhaus foi encerrada em decorrência da pressão do regime ditador, que a acusava por difundir uma arte considerada degenerada e “anti-germânica”. Como filho de judeus, Marcel Breuer foi perseguido e forçado a fugir, resultando em seu exílio inicial na Inglaterra e, posteriormente, nos Estados Unidos.
Durante seu exílio na Inglaterra, Marcel Breuer trabalhou com o grupo Isokon, uma empresa britânica especializada em móveis de madeira compensada na década de 1930, criando peças emblemáticas como a cadeira Longa
Daderot/Wikimedia Commons
Na Inglaterra, ele colaborou com o grupo inglês Isokon, criando móveis em compensado moldado, e, em 1937, mudou-se para Cambridge, Massachusetts, a convite de seu antigo professor Walter Gropius, para lecionar na Escola de Pós-Graduação em Design de Harvard. Em 1938, os dois projetaram casas modernistas, deixando uma marca significativa na arquitetura estadunidense do pós-guerra.
Em 1944, ele se tornou um cidadão dos EUA. O arquiteto produziu obras importantes no país, onde residiu até o fim de sua vida e que marcou grande parte de sua carreira profissional.
A Breuer House II, é um exemplo inicial de seus projetos do Movimento Moderno com um design em balanço com acabamentos em vidro e pedra
Piano mágico/Wikimedia Commons
Um exemplo notável é a Casa Geller, na qual ele introduziu o conceito de planta binuclear, dividindo a residência em zonas funcionais separadas. Esse conceito foi aplicado em lares posteriores, como a Breuer House I e a Breuer House II, com a primeira sendo demolida em 2022.
Seus projetos cresceram consideravelmente, assumindo cada vez mais iniciativas institucionais de maior porte e diversidade, até dar início a uma nova etapa.
Do design para a arquitetura
No final dos anos 1950 e início dos 1960, Marcel Breuer fez a transição do design de móveis para a arquitetura brutalista, motivado pelo desejo de criar formas mais robustas após a Segunda Guerra Mundial. Ele incorporou os princípios da Bauhaus em seus projetos, evidenciando a estrutura e os materiais, como o uso de concreto aparente, o que o colocou como precursor do Estilo Internacional e, posteriormente, do Brutalismo, com sua abordagem autêntica e inovadora.
De acordo com Paulo Luso, arquiteto, desenhista industrial e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), o uso do concreto aparente reforçou a idéia da “honestidade do material” e na organização dos espaços compartilhados. “Em vez de compartimentar as áreas, elas passaram a ser conectadas naturalmente, facilitando o acesso e a circulação. Isso significa que as funções de cada espaço passaram a funcionar em conjunto”, destaca.
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Marcel Breuer aplicou os princípios do design da Bauhaus nos projetos posteriores através do conceito de “forma segue a função”.
“Esse conceito, que prioriza a função sobre a forma, foi aplicado nos projetos arquitetônicos de Marcel Breuer com o uso de formas geométricas funcionais, volumes minimalistas e materiais industrializados como o aço e o concreto, características marcantes no estilo do design da Bauhaus”, acrescenta o arquiteto.
Outro exemplo notável da arquitetura modernista de Marcel Breuer é a loja de departamentos Bijenkorf em Roterdã, que se distingue por sua fachada em formato de colmeia, revestida com pedra travertina e forma hexagonal
Fototechnische Dienst Rotterdam/Wikimedia Commons
“Ele transformava o lugar considerando os materiais e técnicas locais, criando uma relação harmoniosa entre forma, volume, luz e natureza. Esses aspectos fizeram de seu trabalho um elo entre o rigor conceitual da Bauhaus e a expressividade material que viria a caracterizar o Brutalismo”, reflete Luma.
Em 1956, o arquiteto fundou o próprio escritório Marcel Breuer and Associates, em Nova York, formando uma parceria com vários jovens arquitetos que já haviam trabalhado para ele.
Foi nesta fase que ele alcançou reconhecimento internacional na arquitetura e se distanciou do mobiliário tubular. O escritório projetou obras de grande relevância, que incluem edifícios monumentais e formas esculturais, bem como edifícios institucionais. Confira algumas delas:
Sede da Unesco
A Sede da UNESCO em Paris, uma colaboração de Marcel Breuer, Bernard Zehrfuss e Pier Luigi Nervi, é marcada pela icônica planta em “Y”, que representa a união de culturas
Flickr/Anna Armstrong/Creative Commons
A construção da sede da UNESCO em Paris, foi um marco da arquitetura modernista projetada por Marcel Breuer, em colaboração com Bernard Zehrfuss e Pier Luigi Nervi. Este complexo icônico, com um plano em forma de “Y” integra arquitetura e arte, simbolizando a inovação no pós-guerra, caracterizado por linhas definidas, design funcional e uso de materiais como vidro, concreto e aço.
Whitney Museum of American Art
O edifício antigo do Whitney Museum of American Art, projetado pelo arquiteto Marcel Breuer, foi um ícone controverso de Nova York, conhecido pela sua fachada de concreto e granito cinza, em estilo brutalista
Ajay Suresh/Wikimedia Commons
O antigo edifício Whitney Museum of American Art, projetado por Marcel Breuer, é um marco brutalista feito de concreto, com um design distinto em forma de “zigurate invertido”. Após o Whitney se mudar para um novo local, o edifício serviu como o museu The Met Breuer e depois a galeria Frick Madison, antes de ser adquirido pela empresa Sotheby’s em 2023. Hoje, o novo edifício do Whitney em Nova York, projetado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, tem uma forma diferente, com uma estrutura de blocos.
Armstrong Rubber Company
Construído entre 1968 e 1970, o edifício da Armstrong Rubber Company tornou-se um marco icônico em New Haven, Connecticut, sendo notável tanto pelo seu estilo brutalista quanto pela inovação na sua organização
Kenneth C. Zirkel/Wikimedia Commons
O Armstrong Rubber Company é outro exemplo de arquitetura brutalista projetado pelo profissional. O edifício, que abrigou originalmente a sede da Armstrong e depois a Pirelli Building, foi transformado em um hotel sustentável, reabrindo em 2022 como Hotel Marcel, em New Heaven, nos EUA. Ele utilizou concreto armado, suspendendo a estrutura do piso sobre as treliças cantilever superiores, que sustentam os blocos de estrutura de aço que estão abaixo delas.
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Saint John’s Abbey
A Igreja da Abadia de São João é considerada uma obra-prima da arquitetura religiosa moderna, sendo um marco no uso do concreto moldado e na fusão de forma, função e espiritualidade
Lorie Shaull/Wikimedia Commons
Um marco na arquitetura religiosa dos Estados Unidos, a Saint John’s Abbey, em Collegeville, em Minnesota, também exemplifica um símbolo do modernismo arquitetônico de Marcel Breuer com influência brutalista. O projeto se destaca pelo uso do concreto moldado e um campanário imponente, projetado para refletir a liturgia beneditina e as paredes de concreto foram moldadas com a textura de madeira.
Meister Hall
Marcel Breuer projetou o salão Meister Hall em 1967, com referências brutalistas que se destacaram no campus do Bronx Community College, em Nova York
Hugo L. González/Wikimedia Commons
O Meister Hall é um edifício brutalista localizado no Bronx Community College, projetado pelo arquiteto em conjunto com Hamilton Smith, durante a Guerra Fria, como parte da expansão do campus da universidade. A estrutura, com suas características superfícies de concreto armado e geometria marcante, ganhou destaque recente em um videoclipe de música do cantor porto-riquenho Bad Bunny, servindo como um cenário poderoso para a narrativa visual.
Atlanta Central Library
Após um projeto de remodelação, a Biblioteca Central de Atlanta reabriu em 2021, preservando a arquitetura em cubos de concreto de Marcel Breuer. Essa foi uma das últimas criações do famoso arquiteto
Aleksandr Zykov/Wikimedia Commons
A última obra projetada por Breuer foi a Atlanta Central Library, concluída em 1980, um ano antes de sua morte. O imóvel caracteriza-se por uma estrutura escultural que utiliza formas cúbicas e ângulos retos. A obra representa o ápice da sua capacidade de criar volumes “pesados” que parecem leves, uma marca registrada de sua arquitetura brutalista.
Legado de Marcel Breuer
Marcel Breuer valorizava a honestidade dos materiais, a precisão e a busca por soluções inovadoras. Ele defendia que o edifício deveria ser tanto um objeto funcional quanto uma obra artística. Sua habilidade de transitar entre o design de interiores e a arquitetura de grande escala o colocou entre os criadores mais versáteis do modernismo.
Nesta cozinha, destaque para as cadeiras Cesca, de Marcel Breuer, no Sttudio 17. Projeto da arquiteta Solange Calio
Denilson Machado/MCA Estúdio/Divulgação
Para além do mobiliário, ele foi um importante pensador dos modos de morar. “O que vemos hoje como tendência no design de interiores e mobiliário é, de certo modo, a continuidade do legado de Breuer: consciência dos materiais e técnicas construtivas para produtos mais sustentáveis; processos projetuais conectados ao contexto geográfico e aos usuários; e a retomada de uma casa voltada a felicidade e a natureza”, observa Luma.
A sala de jantar tem cadeiras Cesca, de Marcel Breuer, adquiridas no antiquário Thomaz Saavedra. Projeto do escritório Casulo
Joana França/Editora Globo
“O seu trabalho continua influenciando e conectando o design à arquitetura contemporânea até os dias atuais, através do uso de linhas limpas, das formas minimalistas e funcionais. Podemos aprender que a clareza da forma pode e deve andar junta com a organização funcional, referindo-se aos aspectos estéticos e práticos na arquitetura”, pontua Paulo.
O interesse contínuo de Marcel Breuer na exploração de novos materiais e tecnologias, bem como na reavaliação das tendências na prática arquitetônica, o destaca como um importante praticante da teoria modernista. O profissional faleceu em 1981, em Nova York, e teve dois filhos, Tamás e Francesca, do seu segundo casamento com Constance Crocker Leighton, mais conhecida como Connie.
Nascido em Pécs, na Hungria, o arquiteto era filho de pais judeus, Jakab Breuer e Francisca Leko, e tinha dois irmãos, Alexander e Hermina Maria. Marcel Breuer concluiu o ensino médio na escola húngara Magyar Királyi Föreáliskola.
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Apaixonado pela arte, ganhou uma bolsa de estudos para frequentar a Academia de Belas Artes de Viena, na Áustria. Insatisfeito, ele desistiu e, em seguida, conheceu a Bauhaus, onde sua carreira estava prestes a iniciar.
“Sua trajetória se refletiu em três fases: a primeira, no contexto europeu, ligada à Bauhaus e à produção de mobiliário; a segunda, nos Estados Unidos, voltada ao desenvolvimento de residências unifamiliares; e a terceira, dedicada a programas domésticos mais amplos”, conta Luma Yoshioka, professora de Design de Interiores do Centro Universitário Belas Artes e mestra em História Social.
Marcel Breuer e a Bauhaus
Em 1921, aos 18 anos, Marcel Breuer se mudou para Weimar, Alemanha, para se inscrever na Bauhaus, escola vanguardista de arquitetura e design. Ele se tornou um membro proeminente da primeira turma de formandos, concluindo a sua formação em 1924.
A Bauhaus foi uma escola de artes fundada em 1919 por Walter Gropius, em Weimar, Alemanha, conhecida por revolucionar a arquitetura e o design moderno ao integrar arte e indústria, priorizando a funcionalidade e a estética
Gunnar Klack/Wikimedia Commons
O diretor da instituição, o arquiteto Walter Gropius, reconheceu o seu talento e, em um ano, o promoveu a chefe da oficina de móveis e carpintaria da escola. O designer permaneceu como professor até 1928, período em que a escola já se encontrava na cidade de Dessau.
Lá, ele se destacou como uma figura central explorando as potencialidades do aço tubular. “Marcel Breuer aplicou o princípio de racionalidade em seu trabalho, concentrando-se na capacidade de identificar elementos comuns em experiências distintas e aparentemente heterogêneas, refletindo assim a filosofia da Bauhaus de unir funcionalidade, método e criatividade”, comenta a professora.
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Naquele período, os trabalhos de Marcel Breuer se sobressaíram pela ousadia na escolha dos materiais e pela exploração máxima de seu potencial. Enquanto aluno e docente na Bauhaus, ele desenvolveu algumas de suas criações mais revolucionárias em mobiliário. Conheça a seguir:
Cadeira Wassily
Em 1925, Marcel projetou a cadeira Wassily (originalmente chamada B3), que tornou-se uma das peças mais duradouras e icônicas do mundo. Inspirada no guidão da sua bicicleta e nos princípios do movimento De Stijl, ela foi feita de couro e tubos de aço sem solda, uma técnica inovadora para a época.
A Wassily reflete a tendência da Bauhaus em priorizar a funcionalidade e a simplicidade. Marcel Breuer via a bicicleta como um objeto que representava o paradigma do design devido ao fato de sua forma ter permanecido praticamente inalterada desde sua criação. E o aço tubular do guidão da bicicleta também o intrigava, por ser leve, durável e adequado para produção em massa.
A cadeira Wassily, também conhecida como modelo B3, do arquiteto e designer Marcel Breuer, é símbolo de estilo e inovação
Flickr/Kai ‘Oswald’ Seidler/Creative Commons
O designer dobrou as peças de aço para que não houvesse pontos de solda e elas pudessem ser cromadas e montadas gradualmente. Ele batizou a cadeira em homenagem ao pintor Wassily Kandinsky, professor da Bauhaus, que ficou tão encantado com a peça durante uma visita ao estúdio de Breuer que ele criou uma réplica para a casa de Kandinsky.
Produzida em massa pela Thonet, a licença de fabricação da cadeira foi adquirida após a Segunda Guerra Mundial pela empresa italiana Gavina, que por sua vez foi comprada pela empresa americana Knoll em 1968. A Knoll mantém a marca registrada do design e a cadeira continua em produção até hoje.
Cadeira Cesca
Em 1928, Breuer continuou suas explorações do aço tubular com a B32, ou cadeira Cesca como é popularmente chamada atualmente. Neste caso, ele moldou o material em um único contorno sinuoso, ao qual fixou duas estruturas de madeira de faia revestidas de junco.
A cadeira Cesca possui uma estrutura tubular de aço inox polido ou cromado, com assento e encosto em vime, palha sintética ou madeira maciça com palha, fixados em uma moldura de madeira
Flickr/Chair e Cia Design/Creative Commons
O assento e o encosto são sustentados apenas pelas pernas na frente, um feito possível devido à tubulação de aço sem costura, que resiste ao colapso quando dobrada. O projeto une os métodos tradicionais de artesanato — o junco trançado costurado à mão na estrutura de madeira — com o aço tubular produzido industrialmente em massa.
A cadeira leva o nome em homenagem à filha de do profissional, Francesca. O apelido foi sugerido pelo fabricante italiano de móveis Dino Gavina, da empresa Gavina, que também começou a fabricar a Cesca, assim como a cadeira B3 Wassily, com a permissão de Marcel Breuer na década de 1950, antes de ser comprada pela Knoll.
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Apesar do status icônico do design original, Marcel Breuer fez diversas modificações na Cesca, fabricando-a a partir de duas peças em vez de uma. Desde o seu lançamento, milhões de versões foram vendidas em todo o mundo, tornando-a a cadeira mais popular do profissional, consolidando a sua influência no design modernista.
Saída da Bauhaus e início do exílio
Em 1928, Marcel Breuer deixou a Bauhaus e foi para Berlim, onde abriu seu primeiro escritório de arquitetura, que passou a ser sua principal fonte de renda. O sucesso comercial de suas cadeiras possibilitou a sustentação de seu negócio e a continuidade de sua carreira como designer de móveis, começando com pequenas encomendas.
Após esse período, em 1933, o nazismo chegou ao poder na Alemanha. Nesse mesmo ano, a Bauhaus foi encerrada em decorrência da pressão do regime ditador, que a acusava por difundir uma arte considerada degenerada e “anti-germânica”. Como filho de judeus, Marcel Breuer foi perseguido e forçado a fugir, resultando em seu exílio inicial na Inglaterra e, posteriormente, nos Estados Unidos.
Durante seu exílio na Inglaterra, Marcel Breuer trabalhou com o grupo Isokon, uma empresa britânica especializada em móveis de madeira compensada na década de 1930, criando peças emblemáticas como a cadeira Longa
Daderot/Wikimedia Commons
Na Inglaterra, ele colaborou com o grupo inglês Isokon, criando móveis em compensado moldado, e, em 1937, mudou-se para Cambridge, Massachusetts, a convite de seu antigo professor Walter Gropius, para lecionar na Escola de Pós-Graduação em Design de Harvard. Em 1938, os dois projetaram casas modernistas, deixando uma marca significativa na arquitetura estadunidense do pós-guerra.
Em 1944, ele se tornou um cidadão dos EUA. O arquiteto produziu obras importantes no país, onde residiu até o fim de sua vida e que marcou grande parte de sua carreira profissional.
A Breuer House II, é um exemplo inicial de seus projetos do Movimento Moderno com um design em balanço com acabamentos em vidro e pedra
Piano mágico/Wikimedia Commons
Um exemplo notável é a Casa Geller, na qual ele introduziu o conceito de planta binuclear, dividindo a residência em zonas funcionais separadas. Esse conceito foi aplicado em lares posteriores, como a Breuer House I e a Breuer House II, com a primeira sendo demolida em 2022.
Seus projetos cresceram consideravelmente, assumindo cada vez mais iniciativas institucionais de maior porte e diversidade, até dar início a uma nova etapa.
Do design para a arquitetura
No final dos anos 1950 e início dos 1960, Marcel Breuer fez a transição do design de móveis para a arquitetura brutalista, motivado pelo desejo de criar formas mais robustas após a Segunda Guerra Mundial. Ele incorporou os princípios da Bauhaus em seus projetos, evidenciando a estrutura e os materiais, como o uso de concreto aparente, o que o colocou como precursor do Estilo Internacional e, posteriormente, do Brutalismo, com sua abordagem autêntica e inovadora.
De acordo com Paulo Luso, arquiteto, desenhista industrial e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), o uso do concreto aparente reforçou a idéia da “honestidade do material” e na organização dos espaços compartilhados. “Em vez de compartimentar as áreas, elas passaram a ser conectadas naturalmente, facilitando o acesso e a circulação. Isso significa que as funções de cada espaço passaram a funcionar em conjunto”, destaca.
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Marcel Breuer aplicou os princípios do design da Bauhaus nos projetos posteriores através do conceito de “forma segue a função”.
“Esse conceito, que prioriza a função sobre a forma, foi aplicado nos projetos arquitetônicos de Marcel Breuer com o uso de formas geométricas funcionais, volumes minimalistas e materiais industrializados como o aço e o concreto, características marcantes no estilo do design da Bauhaus”, acrescenta o arquiteto.
Outro exemplo notável da arquitetura modernista de Marcel Breuer é a loja de departamentos Bijenkorf em Roterdã, que se distingue por sua fachada em formato de colmeia, revestida com pedra travertina e forma hexagonal
Fototechnische Dienst Rotterdam/Wikimedia Commons
“Ele transformava o lugar considerando os materiais e técnicas locais, criando uma relação harmoniosa entre forma, volume, luz e natureza. Esses aspectos fizeram de seu trabalho um elo entre o rigor conceitual da Bauhaus e a expressividade material que viria a caracterizar o Brutalismo”, reflete Luma.
Em 1956, o arquiteto fundou o próprio escritório Marcel Breuer and Associates, em Nova York, formando uma parceria com vários jovens arquitetos que já haviam trabalhado para ele.
Foi nesta fase que ele alcançou reconhecimento internacional na arquitetura e se distanciou do mobiliário tubular. O escritório projetou obras de grande relevância, que incluem edifícios monumentais e formas esculturais, bem como edifícios institucionais. Confira algumas delas:
Sede da Unesco
A Sede da UNESCO em Paris, uma colaboração de Marcel Breuer, Bernard Zehrfuss e Pier Luigi Nervi, é marcada pela icônica planta em “Y”, que representa a união de culturas
Flickr/Anna Armstrong/Creative Commons
A construção da sede da UNESCO em Paris, foi um marco da arquitetura modernista projetada por Marcel Breuer, em colaboração com Bernard Zehrfuss e Pier Luigi Nervi. Este complexo icônico, com um plano em forma de “Y” integra arquitetura e arte, simbolizando a inovação no pós-guerra, caracterizado por linhas definidas, design funcional e uso de materiais como vidro, concreto e aço.
Whitney Museum of American Art
O edifício antigo do Whitney Museum of American Art, projetado pelo arquiteto Marcel Breuer, foi um ícone controverso de Nova York, conhecido pela sua fachada de concreto e granito cinza, em estilo brutalista
Ajay Suresh/Wikimedia Commons
O antigo edifício Whitney Museum of American Art, projetado por Marcel Breuer, é um marco brutalista feito de concreto, com um design distinto em forma de “zigurate invertido”. Após o Whitney se mudar para um novo local, o edifício serviu como o museu The Met Breuer e depois a galeria Frick Madison, antes de ser adquirido pela empresa Sotheby’s em 2023. Hoje, o novo edifício do Whitney em Nova York, projetado pelo arquiteto italiano Renzo Piano, tem uma forma diferente, com uma estrutura de blocos.
Armstrong Rubber Company
Construído entre 1968 e 1970, o edifício da Armstrong Rubber Company tornou-se um marco icônico em New Haven, Connecticut, sendo notável tanto pelo seu estilo brutalista quanto pela inovação na sua organização
Kenneth C. Zirkel/Wikimedia Commons
O Armstrong Rubber Company é outro exemplo de arquitetura brutalista projetado pelo profissional. O edifício, que abrigou originalmente a sede da Armstrong e depois a Pirelli Building, foi transformado em um hotel sustentável, reabrindo em 2022 como Hotel Marcel, em New Heaven, nos EUA. Ele utilizou concreto armado, suspendendo a estrutura do piso sobre as treliças cantilever superiores, que sustentam os blocos de estrutura de aço que estão abaixo delas.
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Saint John’s Abbey
A Igreja da Abadia de São João é considerada uma obra-prima da arquitetura religiosa moderna, sendo um marco no uso do concreto moldado e na fusão de forma, função e espiritualidade
Lorie Shaull/Wikimedia Commons
Um marco na arquitetura religiosa dos Estados Unidos, a Saint John’s Abbey, em Collegeville, em Minnesota, também exemplifica um símbolo do modernismo arquitetônico de Marcel Breuer com influência brutalista. O projeto se destaca pelo uso do concreto moldado e um campanário imponente, projetado para refletir a liturgia beneditina e as paredes de concreto foram moldadas com a textura de madeira.
Meister Hall
Marcel Breuer projetou o salão Meister Hall em 1967, com referências brutalistas que se destacaram no campus do Bronx Community College, em Nova York
Hugo L. González/Wikimedia Commons
O Meister Hall é um edifício brutalista localizado no Bronx Community College, projetado pelo arquiteto em conjunto com Hamilton Smith, durante a Guerra Fria, como parte da expansão do campus da universidade. A estrutura, com suas características superfícies de concreto armado e geometria marcante, ganhou destaque recente em um videoclipe de música do cantor porto-riquenho Bad Bunny, servindo como um cenário poderoso para a narrativa visual.
Atlanta Central Library
Após um projeto de remodelação, a Biblioteca Central de Atlanta reabriu em 2021, preservando a arquitetura em cubos de concreto de Marcel Breuer. Essa foi uma das últimas criações do famoso arquiteto
Aleksandr Zykov/Wikimedia Commons
A última obra projetada por Breuer foi a Atlanta Central Library, concluída em 1980, um ano antes de sua morte. O imóvel caracteriza-se por uma estrutura escultural que utiliza formas cúbicas e ângulos retos. A obra representa o ápice da sua capacidade de criar volumes “pesados” que parecem leves, uma marca registrada de sua arquitetura brutalista.
Legado de Marcel Breuer
Marcel Breuer valorizava a honestidade dos materiais, a precisão e a busca por soluções inovadoras. Ele defendia que o edifício deveria ser tanto um objeto funcional quanto uma obra artística. Sua habilidade de transitar entre o design de interiores e a arquitetura de grande escala o colocou entre os criadores mais versáteis do modernismo.
Nesta cozinha, destaque para as cadeiras Cesca, de Marcel Breuer, no Sttudio 17. Projeto da arquiteta Solange Calio
Denilson Machado/MCA Estúdio/Divulgação
Para além do mobiliário, ele foi um importante pensador dos modos de morar. “O que vemos hoje como tendência no design de interiores e mobiliário é, de certo modo, a continuidade do legado de Breuer: consciência dos materiais e técnicas construtivas para produtos mais sustentáveis; processos projetuais conectados ao contexto geográfico e aos usuários; e a retomada de uma casa voltada a felicidade e a natureza”, observa Luma.
A sala de jantar tem cadeiras Cesca, de Marcel Breuer, adquiridas no antiquário Thomaz Saavedra. Projeto do escritório Casulo
Joana França/Editora Globo
“O seu trabalho continua influenciando e conectando o design à arquitetura contemporânea até os dias atuais, através do uso de linhas limpas, das formas minimalistas e funcionais. Podemos aprender que a clareza da forma pode e deve andar junta com a organização funcional, referindo-se aos aspectos estéticos e práticos na arquitetura”, pontua Paulo.
O interesse contínuo de Marcel Breuer na exploração de novos materiais e tecnologias, bem como na reavaliação das tendências na prática arquitetônica, o destaca como um importante praticante da teoria modernista. O profissional faleceu em 1981, em Nova York, e teve dois filhos, Tamás e Francesca, do seu segundo casamento com Constance Crocker Leighton, mais conhecida como Connie.



