Por que João Gomes não encontrou quem projetasse sua casa brasileira?

João Gomes, cantor e compositor pernambucano, tinha um plano: construir uma casa tipicamente brasileira no Alphaville, um dos condomínios residenciais mais conhecidos do país, na Grande São Paulo. A ideia era facilitar a rotina de shows e compromissos sem abrir mão de uma morada calorosa, com alpendre e elementos que evocassem o sertão que atravessa suas canções.
Esse sonho, no entanto, foi pausado após tentativas frustradas de encontrar um arquiteto que traduzisse esse imaginário. O relato, feito no podcast Prosa do Sertanejeiro, expõe uma ferida antiga da arquitetura residencial brasileira: a distância entre as casas que projetamos e o Brasil que de fato habitamos. O desejo de João Gomes por um lar enraizado no território ecoa a crítica de profissionais que apontam a repetição estética e o afastamento das identidades regionais.
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“Falta personalidade nas residências de hoje. Quando o João Gomes conta essa história, a gente percebe que ele não se vê ali”, acredita Maurício Arruda. Convidamos o arquiteto paranaense, assim como outros nomes da arquitetura e do design conhecidos por seus projetos brasileiríssimos, para refletir sobre o dilema do artista. Afinal, quando as casas brasileiras ficaram tão brancas, retas e genéricas? E como voltar a projetar moradas que expressem um “Brasil com s”?
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O que ficou pelo caminho
Para entender a perda, é preciso voltar às raízes da arquitetura vernacular brasileira. Seus elementos mais essenciais – materiais naturais, construção artesanal, soluções moldadas pelo clima – sempre contaram a história de cada região. “Pensar um projeto com brasilidade precisa ir além do virtual. É traduzir o que já vive no afeto e na memória. Sinto falta de casas construídas a partir de gestos simples, como a demanda de que, ali naquele canto, tomaremos um cafezinho com bolo”, conta o arquiteto baiano Nildo José.
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O saudosismo, porém, pode não ser tão positivo assim, alerta o arquiteto catarinense Marcelo Salum. “Em algum momento do passado, a elite econômica do país adotou o modernismo como sua arquitetura de referência. As pessoas nem chegam a avaliar se realmente gostam desse estilo; elas simplesmente desejam pertencer a esse grupo. Muitos profissionais entram nesse ciclo sem refletir sobre o próprio repertório, sobre sua autenticidade e, pior ainda, sem ouvir o que o cliente realmente quer.”
Há, ainda, uma questão de classe que perpassa a falta de brasilidade nas casas contemporâneas. “Outro motivo que me vem à cabeça é a ideia de que quem está numa situação econômica mais privilegiada precisa se afastar de tudo o que é visto como simples. Sentem necessidade de se cercar de elementos que não remetam ao que é associado a estilos de pessoas economicamente desfavorecidas”, aponta Marcelo.
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Arq.verso
Tudo é aesthetic
Para a arquiteta pernambucana Cecília Lemos, a estética minimalista se difundiu com a internet. “Essa linguagem visual ‘uniforme’ aparece bastante nas redes sociais, e as pessoas passam a reconhecê-la como um caminho seguro para construir.” Autora de projetos multicoloridos e cheios de arte popular, Cecília lamenta essa homogeneização. “Nossa identidade arquitetônica é tão plural: está no nosso sangue, no nosso clima, nas nossas cores. Estamos perdendo a oportunidade de trazer a verdade brasileira para dentro das casas. Arquitetura é para causar emoção. Fazer se sentir vivo”, diz, ao passo em que lista suas saudades. “Sinto falta, por exemplo, de soluções como cobogós, varandas generosas, arcos, alpendres, pé-direito que respira e do uso de materiais que carregam história: madeira, pedra natural, cerâmica, ladrilho hidráulico, palha, texturas que conversam com o clima e com o toque. Esses elementos não são apenas estéticos; eles criam conforto, pertencimento e uma relação afetiva com o espaço.”
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Crise de identidade
Pablo do Vale, arquiteto à frente do Guá Arquitetura, de Belém, junto ao sócio Luis Guedes, atribui essa perda de personalidade a uma espécie de “copia e cola” entre os autores. “Estamos imersos em um tempo de fórmulas prontas – da comida ao vestuário, da opinião ao design, tudo parece uma repetição infindável de soluções desgastadas. A arquitetura, infelizmente, não é exceção”, afirma. “Por décadas, alimentamos o mito da ‘casa ideal’, da planta padrão, da estética internacional. O resultado é uma crise de identidade: casas que poderiam estar em qualquer lugar, mas que não pertencem verdadeiramente a lugar nenhum.”
O paraense reconhece que “vivemos uma espécie de síndrome de vira-lata estética, tentando resolver problemas locais com repertórios distantes”. Para ele, arquitetos estão buscando referências nos lugares errados. “A verdadeira brasilidade está nessas soluções invisíveis ao olhar apressado, mas carregadas de sentido. Está nas palafitas do Combu, nos detalhes entalhados do Marajó, nas casas de taipa do sertão. Uma arquitetura que não é importada nem adaptada – é nascida do território, da escuta e da vida que pulsa em cada comunidade”, acredita.
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Fran Parente
Resistência pelo território
Para Pablo, resgatar elementos vernaculares da arquitetura brasileira é um ato de resistência: “O nosso arquitetar precisa deixar de ser genérico para ser específico. E isso só acontece quando olhamos de verdade para onde estamos: o bioma, o clima, a cultura, os saberes locais. A solução está sempre no território. Há beleza e sofisticação naquilo que é nosso. E que o Brasil, sobretudo o Brasil do Norte, ainda tem muito a ensinar sobre como habitar o mundo com alma”.
A solução, de acordo com Pablo, é antiga. “Os povos originários desenvolveram, ao longo de séculos, respostas arquitetônicas perfeitamente adaptadas ao nosso território. São soluções ancestrais – simples, eficientes, ecológicas – que resistem porque funcionam. O que falta não é novidade, é humildade para aprender com o Brasil ancestral, aquele que tantas vezes foi silenciado, mas que guarda os saberes e respostas para os problemas mais urgentes do nosso tempo”, defende.
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“Há quem diga que o Brasil real é caricato, exótico, até brega. Mas o exotismo, na verdade, está nas pranchetas que tentam emular arquitetura escandinava sob o sol dos trópicos. O caricato está em importar soluções europeias para problemas que são nossos, desenhados pelo calor, pela umidade, pela oralidade, pela história”, opina Pablo. “O brega – se é que ainda podemos usar esse termo de forma pejorativa – é pensar o Brasil a partir de fora, com lentes coloniais, quando já temos saberes ancestrais e tecnologias locais que falam por si. Ser ‘brasileiro demais’ nunca será o problema. O risco está em ser raso, genérico, distante do chão onde se pisa.”
Em meio a tantos caminhos possíveis, o recado é unânime: para construir uma arquitetura que reverencie o Brasil, é preciso, enfim, voltar para casa.
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