Há artistas e artesãs que atravessam a nossa vida como fios invisíveis, costurando memórias, afetos e lugares. Dezembro me convida a revisitar esses encontros — talvez porque fechar ciclos também seja uma forma de honrar quem nos acompanha na construção da nossa própria paisagem sensível.
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Neste mês, dois pontos do mapa de Florianópolis brilham com força especial para mim: o ateliê de Clara Fernandes, em Ratones, e a Associação das Rendeiras do Sambaqui. Dois territórios distintos, unidos pelo mesmo fio: a potência da mão que cria.
Clara Fernandes: a paulista que encontrou em Ratones um portal para a criação
Clara Fernandes é paulista, mas se apaixonou por Florianópolis ainda jovem. Há 40 anos trabalha com o tear, e, ao longo desse tempo, construiu um universo próprio, uma linguagem que transcende técnica e se transforma em poesia.
Seu ateliê fica em Ratones, um bairro de natureza abundante, silêncio generoso e caminhos de terra — um cenário que parece feito sob medida para o tipo de criação que ela desenvolve.
A artesã Clara Fernandes em seu ateliê em Ratones, em Florianópolis, SC
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
Eu costumo dizer que, ali, onde ela tece suas obras, abre-se um santuário, um portal luminoso da arte têxtil. Conheço a Clara há mais de uma década e sempre me reconheci na profundidade do seu trabalho. Como ela respeita cada material, como escuta as fibras e permite que elas conduzam o processo, revela uma sensibilidade rara.
Clara transforma tudo o que encontra em matéria para suas tramas. Das fibras escondidas nas folhas que caem pelo chão às plumas das paineiras, dos descartes de sacas de cimento aos fios metálicos, restos e refugos da construção civil. Tudo, nas mãos dela, renasce. Clara reconstrói paisagens fiadas e reinventa territórios.
O ateliê de Clara Fernandes reflete o tipo de criação que ela desenvolve, em um ambiente criativo e aconchegante em Florianópolis
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
Já levei suas obras para as principais mostras do país e para muitos projetos de clientes que confiam no meu olhar. Mas, acima de tudo, a Clara habita o meu repertório afetivo.
Quanto mais de perto a gente observa suas criações, mais elas se desdobram: são mundos que se abrem em camadas, texturas que contam histórias que não são apenas dela — são nossas.
A renda de bilro da Ilha da Magia
Se Ratones me conecta ao presente pulsante da criação contemporânea, o Sambaqui me devolve à minha própria raiz. É lá, na orla voltada para o mar calmo e dourado do entardecer, que está a Associação das Rendeiras do Sambaqui, ativa desde 1945 — um dos pilares mais importantes da tradição manual de Florianópolis que conta com outros polos como no Ribeirão da Ilha, Açores, Lagoa da Conceição.
A renda de bilro faz parte dos trabalhos realizados pela Associação das Rendeiras de Sambaqui desde 1945
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
A renda de bilro faz parte da alma da Ilha da Magia, apelido carinhoso de Florianópolis, e entendo que hoje meu papel vai além de apreciar essa trabalho manual ancestral. Gostaria de estimular e inspirar as novas gerações para perpetuar essa tradição. Cresci assistindo admirada e quase hipnotizada muitas rendeiras trabalhando no ritmo compassado dos bilros, um som tão lindo aos meus ouvidos que parece uma música ritmada da minha infância e na minha casa assim como nas rodas de rendeiras de bilro se cantava a “ratoeira”.
Assim, aprendi desde cedo a valorizar o feito à mão. Mesmo sem seguir o caminho do bordado, do crochê ou do tricô, artes que sempre vi minha mãe praticar, foi a renda que me marcou como memória primordial.
A renda de bilro consiste em entrelaçar fios usando pequenos carretéis de madeira (bilros) sobre uma almofada
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
A Dona Glorinha, uma das mestras que conheci da associação, me chamou com naturalidade: “Vem cá, vem aprender”. E, com a paciência de quem carrega séculos nas pontas dos dedos, me apresentou à dança delicada dos bilros. Falava das cores, das transformações ao longo do tempo — quando jovem, fazia tudo em branco; depois descobriu o colorido, a liberdade, a possibilidade de inventar.
A Associação das Rendeiras é um organismo vivo, organizado, resistente. Um território onde tradição e comunidade se entrelaçam.
O que une Clara e as Rendeiras? O fio.
Dois territórios distintos, duas linguagens, uma mesma força: o fio que atravessa materiais, histórias e gerações.
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O fio que sustenta essa Florianópolis múltipla — ancestral e contemporânea — que habita em mim e que revelo aqui, mês a mês, no Mãos Brasileiras.
Mãos Brasileiras: Florianoópolis
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Neste mês, dois pontos do mapa de Florianópolis brilham com força especial para mim: o ateliê de Clara Fernandes, em Ratones, e a Associação das Rendeiras do Sambaqui. Dois territórios distintos, unidos pelo mesmo fio: a potência da mão que cria.
Clara Fernandes: a paulista que encontrou em Ratones um portal para a criação
Clara Fernandes é paulista, mas se apaixonou por Florianópolis ainda jovem. Há 40 anos trabalha com o tear, e, ao longo desse tempo, construiu um universo próprio, uma linguagem que transcende técnica e se transforma em poesia.
Seu ateliê fica em Ratones, um bairro de natureza abundante, silêncio generoso e caminhos de terra — um cenário que parece feito sob medida para o tipo de criação que ela desenvolve.
A artesã Clara Fernandes em seu ateliê em Ratones, em Florianópolis, SC
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
Eu costumo dizer que, ali, onde ela tece suas obras, abre-se um santuário, um portal luminoso da arte têxtil. Conheço a Clara há mais de uma década e sempre me reconheci na profundidade do seu trabalho. Como ela respeita cada material, como escuta as fibras e permite que elas conduzam o processo, revela uma sensibilidade rara.
Clara transforma tudo o que encontra em matéria para suas tramas. Das fibras escondidas nas folhas que caem pelo chão às plumas das paineiras, dos descartes de sacas de cimento aos fios metálicos, restos e refugos da construção civil. Tudo, nas mãos dela, renasce. Clara reconstrói paisagens fiadas e reinventa territórios.
O ateliê de Clara Fernandes reflete o tipo de criação que ela desenvolve, em um ambiente criativo e aconchegante em Florianópolis
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
Já levei suas obras para as principais mostras do país e para muitos projetos de clientes que confiam no meu olhar. Mas, acima de tudo, a Clara habita o meu repertório afetivo.
Quanto mais de perto a gente observa suas criações, mais elas se desdobram: são mundos que se abrem em camadas, texturas que contam histórias que não são apenas dela — são nossas.
A renda de bilro da Ilha da Magia
Se Ratones me conecta ao presente pulsante da criação contemporânea, o Sambaqui me devolve à minha própria raiz. É lá, na orla voltada para o mar calmo e dourado do entardecer, que está a Associação das Rendeiras do Sambaqui, ativa desde 1945 — um dos pilares mais importantes da tradição manual de Florianópolis que conta com outros polos como no Ribeirão da Ilha, Açores, Lagoa da Conceição.
A renda de bilro faz parte dos trabalhos realizados pela Associação das Rendeiras de Sambaqui desde 1945
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
A renda de bilro faz parte da alma da Ilha da Magia, apelido carinhoso de Florianópolis, e entendo que hoje meu papel vai além de apreciar essa trabalho manual ancestral. Gostaria de estimular e inspirar as novas gerações para perpetuar essa tradição. Cresci assistindo admirada e quase hipnotizada muitas rendeiras trabalhando no ritmo compassado dos bilros, um som tão lindo aos meus ouvidos que parece uma música ritmada da minha infância e na minha casa assim como nas rodas de rendeiras de bilro se cantava a “ratoeira”.
Assim, aprendi desde cedo a valorizar o feito à mão. Mesmo sem seguir o caminho do bordado, do crochê ou do tricô, artes que sempre vi minha mãe praticar, foi a renda que me marcou como memória primordial.
A renda de bilro consiste em entrelaçar fios usando pequenos carretéis de madeira (bilros) sobre uma almofada
Juliana Pippi/Acervo Pessoal
A Dona Glorinha, uma das mestras que conheci da associação, me chamou com naturalidade: “Vem cá, vem aprender”. E, com a paciência de quem carrega séculos nas pontas dos dedos, me apresentou à dança delicada dos bilros. Falava das cores, das transformações ao longo do tempo — quando jovem, fazia tudo em branco; depois descobriu o colorido, a liberdade, a possibilidade de inventar.
A Associação das Rendeiras é um organismo vivo, organizado, resistente. Um território onde tradição e comunidade se entrelaçam.
O que une Clara e as Rendeiras? O fio.
Dois territórios distintos, duas linguagens, uma mesma força: o fio que atravessa materiais, histórias e gerações.
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O fio que sustenta essa Florianópolis múltipla — ancestral e contemporânea — que habita em mim e que revelo aqui, mês a mês, no Mãos Brasileiras.
Mãos Brasileiras: Florianoópolis



