A artista Nádia Taquary reverencia ancestralidade da mulher negra em seu ateliê em Salvador

“É impossível nascer aqui e não ser formado por essa africanidade forte, potente, viva, onde a presença da mulher negra é fundamental”, afirma, com conhecimento de causa, Nádia Taquary, sobre sua Bahia natal. Mulher preta, nascida em Valença, interior do estado, ela conta que desde a infância, vivida entre festividades diretamente ligadas à cultura de origem africana, a conexão com essa raiz sempre foi uma constante.
A mudança para Salvador, onde vive e trabalha até hoje, se deu aos 17 anos. Na capital, Nádia graduou-se em letras na Universidade Católica do Salvador (UCSal), e fez pós em Educação, Estética, Semiótica e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Não tendo seguido uma carreira acadêmica estritamente voltada para as artes visuais, foi aos 40 anos que Nádia mergulhou de vez nesse universo, como forma de atravessar o luto após perder um ente querido.
Peça da série Dinka Orixá com as cores do orixá Ossain, prestes a ser finalizada – na varanda, painel de azulejos cujos desenhos retratam as sete portas da Bahia, original do edifício dos anos 1970
Uendel Galter
No recolhimento e introspecção que o momento lhe demandava, deu início a uma pesquisa aprofundada sobre arte africana, começando pela joalheria afro–brasileira, com a qual entrou em contato no Museu Carlos Costa Pinto, detentor do maior acervo do tipo no Brasil. O destaque dessa herança é a penca de balangandãs, tradicional adorno utilizado por negras de ganho e forras na Bahia dos sécs. 18 e 19, repleto de conotações de libertação e fé. A partir dele nasceu a primeira obra de Nádia, Abre Caminhos, videoinstalação que reproduz o amuleto prateado em larga escala.
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Dando continuidade ao protagonismo dessa memória afrofeminina, sua série Oríkì (do iorubá, orí significa cabeça, e kì, saudação) é constituída por esculturas de bronze ou madeira cujas cabeças, parte mais sagrada do corpo, recebem espécies de penteados escultóricos de palha, búzios e miçangas, itens recorrentes em sua produção. “É nessa reverência ao orí que me entendo como mulher negra brasileira, detentora desse legado, trazendo essa diáspora viva nos dias de hoje. Trata-se de um pensamento ao mesmo tempo ancestral e presente no aqui e agora”, pontua.
A alusão às “joias de axé”, caracterizadas por fios de contas coloridas, se faz ainda mais evidente em Dinkas Orixás, totens que manifestam os tons, adereços e atributos dos deuses do panteão iorubano. O ponto de partida desse conjunto de obras é, mais uma vez, fortemente feminino. “As primeiras Dinkas que realizei são das Yabás [Rainhas Mães das religiões afro-brasileiras] Oxum, Iemanjá e Iansã, que trazem, respectivamente, o amarelo, o azul e o marrom. Cada cor conta uma história e evoca essas presenças”, aponta Nádia.
Nádia posa em seu ateliê segurando obra inacabada da série Dinka Orixá dedicada a Oxum, feita com miçangas de vidro, búzios africanos e cobre, enquanto a parede exibe quadros com fotos retiradas de um livro sobre a iconografia de Angola de 1930 – foi a partir dessas imagens de penteados africanos que nasceu a sua instalação Oríki
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O processo criativo é intuitivo: “Estou falando de energias muito fortes, então nunca é uma decisão racional, vem de uma conexão maior”. Por isso, nem sempre uma divindade do candomblé vai inspirar um mesmo resultado formal. Por exemplo, em sua mostra individual Ònà Irin: Caminho de Ferro, a instalação imersiva dedicada a Ogum, orixá do ferro, da tecnologia e dos caminhos, se materializa em trilhos multiplicados ao infinito por espelhos que rodeiam a sala expositiva, recebendo e desnorteando os visitantes. A exposição, com curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos, reúne 22 obras da carreira da baiana, e fica em cartaz até 22 de fevereiro no Sesc Belenzinho, em São Paulo, tendo passado pelo Museu de Arte do Rio e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, em Salvador, entre 2023 e 2024.
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Indo além, Nádia elege o bronze para dar forma às Ìyámìs, as grandes mães ancestrais da cultura iorubá, símbolo de criação primordial e, novamente, de força e ancestralidade da mulher. A escolha do metal também evoca uma carga diaspórica– a referência aqui é da técnica de fundição Ashanti, trazida da África ao Brasil por ourives escravizados. Assumindo feições de peixe, sereia ou pássaro, essas figuras míticas são reveladas à artista por meio do documentário Ìyámi Agbá, narrado pelo poeta e escritor Ferreira Gullar.
Estou falando de energias muito fortes, então nunca é uma decisão racional, vem de uma conexão maior
São elas que fazem a ligação entre o ar e a água, o céu e a terra, e que ganharam destaque na última edição da Bienal de São Paulo, intitulada Nem todo viandante anda estradas– Da humanidade como prática. Nesse contexto, as esculturas da Mulher e Menina Pássaro circundavam Ìrókó: A Árvore Cósmica, realizada especialmente para a mostra internacional. Na cosmogonia de matriz africana, Ìrókó é o senhor do tempo, origem do ciclo da vida, ponte entre humanos e divindades, cuja copa frondosa é pouso das feiticeiras Ìyámìs. O resultado do comissionamento é uma instalação majestosa que remete a uma gameleira com ramificações superiores e inferiores encobertas por centenas de milhares de miçangas de fibra de vidro. “Foram necessários nove meses e uma equipe de 25 mulheres para dar vida à árvore”, conta a artista, que agora está dedicada a um projeto sobre a obra do Mestre Didi.
No ateliê, escultura da série de Oríkìs totêmicos na qual Nádia apresenta as Geledés, integrantes de sociedades secretas africanas femininas com caráter religioso, ao lado de túnica de miçangas da realeza do povo iorubá, da Nigéria, adquirida em um antiquário em Salvador.
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Exceto nos casos em que a produção exige um espaço mais amplo, como no trabalho apresentado na Bienal, no dia a dia, e há quase 20 anos, a magia acontece no luminoso ateliê de 300 m², reformado pela arquiteta Ana Paula Magalhães. Na cobertura do nono andar de um prédio às margens da Baía de Todos-os-Santos, o local garante vista para o mar e, consequentemente, para Iemanjá, de quem a artista é filha.
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“Meu desejo é desconstruir o olhar único, descolonizar o pensamento e trazer novas percepções para que o maior número de pessoas acesse a nossa história e as narrativas que nos aproximam da potência que somos”, conclui Nádia, sobre aquela que acredita ser a sua missão no mundo da arte.
*Matéria originalmente publicada na edição de fevereiro/2026 da Casa Vogue (CV 480), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.

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