A história da arquitetura art déco em Nova York e seus edifícios mais icônicos

Centenário, o movimento art déco nasceu em Paris, durante a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais de 1925, como expressão do otimismo associado ao avanço tecnológico no início do século 20. Espalhou-se pelo mundo e encontrou em Nova York um terreno promissor.
Ali, entre 1920 e 1930, a arquitetura art déco traduziu em pedra, vidro e metal o espírito glamuroso da era do jazz, a confiança no progresso do maquinário e a ambição de uma metrópole que buscava se reinventar após a Primeira Guerra Mundial.
“O estilo celebrava a promessa de prosperidade, adotando formas aerodinâmicas. Era ousado e moderno, incorporava simetria e ferramentas tradicionais de composição, mas também se deleitava na ornamentação”, explica o historiador e escritor Thomas Mellins, guia vinculado ao American Institute of Architects – New York (AIANY) na empresa Classic Harbor Line, especializada em cruzeiros turísticos sobre a arquitetura nova-iorquina.
Inaugurado em 1930, o Chrysler Building é um dos ícones da arquitetura art déco em Nova York. Com sua coroa metálica em aço inoxidável e detalhes inspirados na indústria automobilística, o edifício se tornou símbolo da modernidade e do crescimento vertiginoso da cidade no início do século 20
GettyImages
Segundo Roberta Nusim, presidente da Art Deco Society of New York (ADSNY), embora os Estados Unidos não tenham participado oficialmente do evento francês, o impacto do movimento foi imediato. “Muitos designers nova-iorquinos visitaram Paris e trouxeram esse conceito. O Metropolitan Museum of Art organizou uma exposição, e grandes varejistas criaram showrooms exibindo ambientes completos de móveis no novo estilo”, ela conta.
Assim, a cidade adaptou o art déco europeu ao seu contexto urbano e vertical. “Antes prevalecia o neoclássico, marcado por obras complexas e caras de executar. Com o art déco, os edifícios passaram a ser pré-fabricados, industrializados e erguidos em estruturas de ferro, mais altos e rápidos de construir”, completa Ivan Shumkov, arquiteto fundador da Build Tours, empresa de passeios guiados.
Projetado por William Van Alen (1883–1954), o Chrysler Building é um dos maiores ícones da arquitetura art déco em Nova York. Tem gárgulas inspiradas em tampas de radiador e elementos que remetem aos carros Chrysler
GettyImages
Apesar da Grande Depressão de 1929 — a crise econômica que devastou os EUA —, foi justamente nesse período que surgiram vários prédios famosos e luxuosos, símbolos de triunfo sobre a adversidade. Entre eles está o Chrysler Building, inaugurado em 1930, projetado pelo arquiteto William Van Alen.
“Os elementos decorativos remetem às formas das máquinas industriais e fazem referência aos automóveis que enriqueceram seu proprietário. Os frisos de aço evocam calotas, os tijolos negros sugerem formas semelhantes a estribos, e as águias monumentais em cromo lembram ornamentos de capô dos carros Chrysler. Já o pináculo angular sugere os raios de uma roda”, detalha Thomas.
O icônico Empire State Building, projetado em 1931 pelos arquitetos Richmond Shreve, William Lamb e Arthur Harmon
GettyImages
Pouco depois, em 1931, a firma Shreve, Lamb & Harmon entregou o Empire State Building, que se tornaria o arranha-céu mais alto do planeta na época. Erguido em apenas 410 dias, o edifício impressiona pelos ambientes revestidos de mármore e alumínio, como o icônico lobby.
O Empire State Building preserva um lobby ornamentado em mármore e detalhes geométricos, considerado um dos interiores mais emblemáticos do art déco
Empire State Realty Trust/Divulgação
No mesmo ano, o arquiteto Ralph Walker projetou o One Wall Street, cuja notoriedade se deve em grande parte ao interior conhecido como Red Room — uma sala inteiramente revestida por mosaicos vermelhos e dourados, criados pela muralista Hildreth Meière. Hoje, o espaço integra a loja francesa Printemps e permanece aberto ao público para visitação.
A sala Red Room, do One Wall Street, criada pela muralista Hildreth Meière nos anos 1930, impressiona com mosaicos vibrantes em vermelho e dourado. É um dos exemplos mais marcantes da estética art déco aplicada ao design de interiores
Gieves Anderson/Divulgação
Além dos interiores bem trabalhados, um aspecto singular da arquitetura art déco é a atenção às fachadas, geralmente compostas por colunas repletas de janelas que reforçam a sensação de grandeza, além de topos incrementados com espirais, mastros e coroas.
“Esses prédios funcionavam como símbolos corporativos e peças de publicidade arquitetônica, exibindo nos detalhes ornamentais referências diretas às empresas que representavam”, coloca Anthony Robins, vice-presidente da ADSNY.
Fachada do American Radiator Building, assinado por Raymond Hood, John Mead Howells e Jacques André Fouilhoux
GettyImages
Exemplos são o American Radiator Building (1924, Raymond Hood, John Mead Howells e André Fouilhoux), que inovou ao usar tijolos negros e detalhes dourados para simbolizar carvão e fogo; e o General Electric Building (1931, Cross & Cross), cuja torre ornamentada em terracota com motivos radiantes simboliza a energia elétrica.
O prédio da General Electric Building, projetado pelo escritório Cross & Cross em 1931, com ornamentação no topo em forma de coroa e padrões geométricos que lembram faíscas e raios
GettyImages
Ambição métlica
A estética também foi aplicada em residenciais, lojas, hotéis, cinemas, edificações públicas e igrejas. “O art déco tornou-se acessível, adaptando-se a edifícios modestos e populares, sem perder o caráter moderno e vibrante”, diz Anthony.
O conjunto residencial Eldorado, assinado pelo escritório Margon & Holde em parceria com o arquiteto Emery Roth, localizado em Uptown Manhattan, próximo ao Central Park
GettyImages
Os residenciais notórios são o Eldorado (1931, Margon & Holde, e Emery Roth), com duas torres idênticas; e o Majestic Apartments (do mesmo ano, de Emery Roth). Já o Master Apartments, de Harvey Wiley Corbett (1929), chama a atenção por ser pioneiro ao combinar uso residencial e espaços culturais, incluindo uma galeria de arte.
O Rockefeller Center conta com 19 edifícios projetados por Raymond Hood e outros arquitetos. Mais que construções, tornou-se uma “cidade dentro da cidade”, moldando o skyline e a identidade moderna de Nova York
GettyImages
Neste quesito funcionalidade mista, um grande destaque é o complexo Rockefeller Center, construído entre 1933 e 1939 sob coordenação do arquiteto Raymond Hood e sua equipe. Tornou-se um dos maiores conjuntos art déco do planeta, com 19 prédios comerciais ornamentados com várias esculturas, murais e artes em relevo.
O painel The Story of Mankind, de Lee Lawrie e Leon V. Solon, acima da entrada do International Building, no complexo Rockefeller Center, representa o progresso humano, o comércio internacional e a comunicação global
GettyImages
No universo da hotelaria, o Waldorf Astoria, projetado por Schultze & Weaver em 1931, consolidou-se como um dos principais ícones art déco da Big Apple. Na inauguração, era o maior hotel do mundo, com salões suntuosos e detalhes metálicos luxuosos. Curiosamente, no fim do século 19, o empreendimento ocupava outro endereço — exatamente o terreno onde está o Empire State Building.
No interior do hotel Waldorf Astoria, o Peacock Alley (beco do pavão), lounge central do estabelecimento que recebe hóspedes e visitantes, onde há um relógio original encomendado pela Rainha Vitória em 1893 e um piano que pertenceu ao músico Cole Porter
Waldorf Astoria Hotel/Divulgação
Após a venda e demolição da antiga propriedade, nasceu o projeto que se tornaria referência até hoje. Ao longo das décadas, o hotel passou por diferentes administrações, até ser fechado por oito anos para a restauração de revestimentos e pinturas cobertos ou deteriorados. Reaberto em julho deste ano, o Waldorf Astoria agora também tem apartamentos residenciais.
O Silver Corridor (corredor prateado), passagem que conecta vários espaços no interior do hotel Waldorf Astoria
Waldorf Astoria Hotel/Divulgação
Entre as edificações públicas, merece destaque a biblioteca Brooklyn Public Library, inaugurada em 1941 e projetada por Githens & Keally. Sua fachada, que lembra um livro aberto, é revestida em pedra calcária e adornada com baixos-relevos dourados que retratam figuras da literatura e da história estadunidenses.
A biblioteca Brooklyn Public Library, projetada pelos arquitetos Alfred Morton Githens (1876–1973) e Francis J. Keally (1889–1978), foi revestida em calcário e tem formato de livro aberto, a fim de celebrar o conhecimento e o progresso
David Shankbone/Wikimedia Commons
Cuidado monumental
As construções art déco estão distribuídas pelos cinco distritos de Nova York — Brooklyn, Manhattan, Queens, Staten Island e Bronx. “Não existe uma contagem precisa, visto que os edifícios se espalham por todos os bairros e muitos correspondem a pequenos residenciais”, revela Roberta.
O Master Apartments, projetado por Harvey Wiley Corbett (1873–1954), foi o primeiro arranha-céu residencial art déco de Nova York
Niznoz/Creative Commons
Um levantamento independente realizado pela Art Deco Society of New York (ADSNY) já identificou mais de 900. Desses, ao menos 80 integram a lista do Landmarks Preservation Commission (LPC), órgão responsável por reconhecer marcos históricos na cidade e regulamentar intervenções arquitetônicas.
“Felizmente, os prédios mais importantes estão protegidos por lei, não podem ser alterados sem autorização. O art déco tornou-se tão popular que, mesmo sem proteção oficial, muitas estruturas são restauradas em vez de demolidas. Ainda assim, centenas de outras construções não contam com essa salvaguarda”, comenta Anthony.
O hotel Waldorf Astoria, projetado por Schultze & Weaver, é um dos principais ícones art déco de Nova York, nos EUA
Hennem08/Creative Commons
O LPC surgiu em 1965 — um ano antes da oficialização do termo art déco, inspirado no nome da Exposição Internacional de Artes Decorativas realizada em Paris — e a ASDNY foi criada em 1980. Desde então, ambas instituições têm papel fundamental na conservação desse patrimônio, promovendo, por exemplo, passeios, eventos e publicações.
Isso é importante porque, na visão do historiador Thomas, o estilo ainda influencia a arquitetura da cidade. “Após a Primeira Guerra Mundial, marcada pelo uso de aviões, tanques e metralhadoras, havia a sensação de que a modernidade tinha custado caro para vidas humanas. O art déco trouxe uma resposta otimista: a máquina poderia, sim, melhorar a vida das pessoas e inspirar beleza”, ele pontua. De fato, o movimento, além de moldar o skyline nova-iorquino, permanece como símbolo da confiança no futuro.
Localizado na Central Park West, o The Majestic é um dos exemplos da arquitetura art déco residencial da cidade. Projetado pela firma Irwin S. Chanin, o edifício se destaca por suas torres gêmeas, linhas verticais marcantes e ornamentação geométrica
Flickr/Diana Robinson/Creative Commons
*A jornalista viajou a convite da Delta e do NYCTourism and Conventions

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima