A nova sala de estar brasileira: integração e múltiplos usos na área social

A sala de estar brasileira não é mais a mesma. Se antes era um ambiente dedicado quase exclusivamente ao convívio e à recepção, hoje ela concentra funções diversas e, muitas vezes, simultâneas.
Trabalho, descanso, entretenimento, refeições rápidas e até atividades físicas passam a coexistir — e essa transformação, intensificada a partir da pandemia, redesenha a forma como pensamos e usamos a casa.
“Os espaços deixaram de ser rígidos e passaram a atender mais necessidades individuais. Hoje, vemos salas que viram pista de dança, espaço de yoga ou até um local para tomar sol”, afirma a arquiteta Marina Vilaça, do escritório MBV Arquitetura.
Elementos como tapetes e iluminação ajudam a delimitar usos em ambientes integrados. Nesse projet,o a marcenaria de todo o apê foi executada pela Net Marcenaria
Carolina Lacaz/Divulgação | Projeto do escritório Sobre Interiores comandado pela arquiteta Ana Luisa Lima
Essa fluidez também se reflete na integração cada vez mais comum entre sala, cozinha e varanda. Se antes havia resistência em relação a cheiros e ruídos, hoje a possibilidade de interação durante o preparo de refeições tem pesado mais na decisão.
“A cozinha aberta proporciona uma convivência infinitamente maior com familiares e convidados”, comenta Marina.
Salas ampliadas e livings integrados refletem novas dinâmicas do morar, que unem convívio, home office, streaming e refeições rápidas em um mesmo espaço
Carolina Lacaz/Divulgação | Produção: Miú Interiores/Divulgação | Projeto dos arquitetos Kiko Castello Branco e Lucas Cunha
Essa transformação, no entanto, não começa na pandemia — embora tenha sido acelerada por ela. Segundo o arquiteto Raphael Wittmann, do escritório Rawi Arquitetura, o modelo tradicional de moradias compartimentadas já vinha sendo questionado desde o século 20. “A pandemia intensifica esse processo ao concentrar trabalho, lazer e descanso dentro de casa. A sala de estar, nesse contexto, ganha protagonismo”, ele coloca.

Com isso, o que antes era improviso se torna projeto. A demanda por cômodos capazes de acomodar múltiplas funções levou a uma reorganização mais estruturada dos espaços, equilibrando eficiência e conforto.
Deste ângulo, é possível perceber a integração de ambientes no living, ressaltada pelo piso de porcelanato Burlington Stone Cream, da Gardênia, na Ekko Revestimentos, e o telhado aparente original. Ao fundo, par de poltronas Press, com estofamento em tom terracota, na Arquivo Contemporâneo
Denilson Machado/MCA Estúdio/Divulgação | Produção: Andrea Falchi/Divulgação | Projeto do escritório PN+ | Paula Neder Arquitetura
O home office invade — e transforma — o living
Um dos principais agentes dessa mudança é o trabalho remoto. Se antes bastava um cômodo adaptado como escritório, hoje a realidade é outra: muitos lares precisam comportar duas ou mais pessoas trabalhando ao mesmo tempo.
O living integrado proporciona um espaço multifuncional, onde a sala também acomoda reuniões de trabalho
Gisele Rampazzo/Divulgação | Projeto do escritório ARQVentura
“No início da pandemia, chegamos a projetar cabines fechadas para garantir privacidade. Depois, surgiram pedidos por múltiplos pontos de trabalho espalhados pela casa — no quarto, na varanda, na sala e até em áreas de circulação”, conta Marina.
A integração dos ambientes valoriza a luz natural e cria uma atmosfera mais fluida. Nesse projeto os dois blocos de pilares da sala, revestidos com ripas de concreto, da Tresuno Revestimentos, ganham destaque na área social, que foi ampliada com a integração da varanda
Rafael Renzo/Divulgação | Projeto do escritório Rawi Arquitetura + Design
Raphael complementa que o living acabou se tornando um dos principais suportes para essa nova função, justamente por sua amplitude. “O desafio é integrar o trabalho sem transformar a sala em um escritório. Por isso, o uso da marcenaria planejada e de soluções que permitam ocultar esses elementos no dia a dia se torna essencial”, pontua.
A integração das salas de estar e de jantar à cozinha é um dos pontos fortes do projeto, garantindo amplitude e fluidez. A estética segue o estilo industrial, com vigas aparentes e pilares descascados que valorizam o concreto original da estrutura
Mariana Orsi/Divulgação | Projeto do escritório Rodra Arquitetura, do arquiteto Rodra Cunha
Organização, conforto e limites invisíveis
Com tantas funções coexistindo, a organização deixa de ser apenas questão de hábito e passa a depender diretamente do projeto. Elementos como marcenaria inteligente, móveis multifuncionais e divisórias são fundamentais.
O uso de cores e objetos pessoais traz identidade ao living integrado. Nesse projeto, com a retirada da parede da entrada, a cozinha foi integrada à sala. À frente, composição de quatro obras de Thomaz Velho e, ao fundo, par de quadros do mesmo autor. A planta pendente traz toque de verde
Lília Mendel/Divulgação | Projeto do escritório MBV Arquitetura
Portas de correr, biombos, painéis, cortinas e até elementos vazados, como muxarabis e cobogós, ajudam a criar delimitações sutis sem interromper a fluidez do espaço. “A setorização hoje é muito mais sensorial do que física”, comenta Raphael.
Iluminação direcionada, tapetes, variações de revestimento e o uso estratégico de plantas contribuem para definir áreas dentro do ambiente integrado.
Conectado com a varanda, o estar pode ser isolado com a porta de marcenaria e vidro. Sofá da Decameron e objetos em tons claros evitam que o ambiente fique escuro. Poltrona da Lider
Rafael Renzo / Divulgação | Produção: Deborah Apsan | Projeto da arquiteta Beatriz Quinelato
Menos paredes, mais amplitude
Em apartamentos compactos, a integração é aliada da sensação de espaço. Unir sala e varanda, por exemplo, é uma das estratégias mais eficazes para ampliar o ambiente.
Outros recursos incluem o uso de cores claras e homogêneas, mobiliário com desenho leve, peças suspensas e soluções que valorizem a verticalidade. “Elementos contínuos, como bancadas e estantes, ajudam a conduzir o olhar e reforçar a sensação de profundidade”, destaca Raphael.
Sala de estar e jantar convivem com a cozinha no living integrado, cujos acabamentos neutros ajudam a dar continuidade visual. Piso de porcelanato Superquadra Cru NAT, da Portobello. Paredes pintadas de Branco, da Coral
Carolina Lacaz/Divulgação | Projeto do escritório Triz Arquitetura e RMAA – Reinach Mendonça Arquitetos Associados
A sala como cenário e refúgio
O avanço das videochamadas e do streaming também trouxe novas demandas técnicas para o living. Iluminação frontal para reuniões, fundos bem compostos — com estantes, plantas e objetos — e soluções acústicas passaram a fazer parte dos projetos.

Tapetes, cortinas, painéis de madeira e até tratamentos internos nas paredes ajudam a melhorar o conforto acústico, especialmente em espaços integrados, onde o som tende a se espalhar mais.
Nesse projeto o apartamento é totalmente integrado, inclusive com o quarto conectado ao estar, porém podendo ser isolado pela cortina deslizante da Hunter Douglas. A marcenaria é um item importante no projeto, com desenho do escritório, para que os móveis se concentrem nas paredes, liberando o máximo espaço possível para o uso, como a estante, a meia-parede da cama e o bar na varanda, executados em MDF laminado pela Casttini e montada pela Dell Ambiente Studio
Carolina Lacaz/Divulgação | Projeto dos arquitetos Raphael Souza e Daniel Zahoul
Mas, para além da técnica, há uma mudança mais subjetiva em curso: a busca por identidade e acolhimento. “As pessoas estão deixando de lado o excesso de neutralidade e buscando mais cor, mais personalidade”, observa Marina.
O futuro é híbrido — e personalizado
Se antes a casa seguia padrões rígidos, hoje ela se molda ao estilo de vida de quem a habita — e isso deve se intensificar nos próximos anos. Para Marina, a sala de estar tende a ficar cada vez mais livre de amarras. “Ela pode ser tudo: cinema, pista de dança, biblioteca, restaurante. Cada pessoa vai determinar seu uso.”
Nesse projeto, os ambientes sociais integrados têm base neutra, com parede de mármore travertino rockface, da Ikê Pedras. Sofá da Lider. Ao redor da mesa Geometric Redonda, cadeiras Papier, ambas da Cremme. Luminária pendente Gamela, da Lumini. Ao fundo, sob a janela, banco de concreto abriga o vaso da Petit Jardin e adiciona assentos quando necessário
Joana França/Divulgação | Projeto do escritório Orla Arquitetura
Raphael aponta ainda para um equilíbrio entre tecnologia e natureza. “Ao mesmo tempo em que os ambientes se tornam mais automatizados, há uma valorização crescente de materiais naturais e soluções artesanais. A sala de estar do futuro será híbrida, mas também mais sensível.”
Integração e funcionalidade marcam o novo desenho das salas de estar brasileiras. Nesse projeto, a sala de estar é composta por sofá Hug, da Lider, e mesa de centro Mínima, do Atelier Fernando Jaeger, que também forneceu o par de poltronas Giulia
Guilherme Pucci/Divulgação | Projeto do escritório Conectarq
O desafio do equilíbrio
Integrar trabalho e vida doméstica, no entanto, não é simples. Há um risco real de que o living perca sua essência acolhedora ao incorporar funções mais técnicas.
Nesse projeto a cozinha e a lavanderia, antes fechadas, junto da despensa e dos armários excedentes, foram repensados para dar lugar a um amplo espaço de convivência. Sala de estar, mesa de jantar e cozinha se integram de forma contínua e iluminada. O piso original de tacos de madeira foi preservado, assim como o concreto aparente das vigas e pilares
Leila Viegas/Divulgação | Projeto do escritório COTA760 Arquitetura
“O projeto precisa criar limites — mesmo que sutis — para evitar que o trabalho invada completamente a vida pessoal”, alerta Raphael. Marina reforça com uma regra prática: “Nunca use a mesa de refeições como local de trabalho. Isso já ajuda muito a estabelecer essa separação”.

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