Amplamente usado nos interiores dos lares brasileiros, em superfícies que vão de bancadas a revestimentos de banheiros e cozinhas, o mármore bege Bahia, também conhecido como travertino nacional, acaba de ganhar novo significado que vai além da estética.
Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade de São Paulo (USP) revelou que essa rocha ornamental registra a entrada de águas salinas no território brasileiro há milhões de anos — antes mesmo da formação do Oceano Atlântico.
Publicado na revista Journal of South American Earth Sciences, o trabalho identificou, na rocha bege Bahia — extraída da Bacia de Irecê, no nordeste baiano — os primeiros registros de “evaporitos desaparecidos”, isto é, sais que foram dissolvidos ao longo do tempo.
O estudo revela que a popular rocha ornamental bege Bahia, extraída na Bacia de Irecê, contém os primeiros registros de “evaporitos desaparecidos” (sais dissolvidos) na Formação Caatinga. A descoberta evidencia que a região foi invadida por grandes corpos de água salgada ou hipersalina durante o Cretáceo Inferior, período anterior à formação do Oceano Atlântico
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação
Essas estruturas microscópicas comprovam a presença de antigos depósitos de sal, hoje dissolvidos — um achado que confirma a invasão da região por grandes corpos de água salgada ou hipersalina durante o Cretáceo Inferior, entre 145 milhões e 100,5 milhões de anos atrás. Esse período foi decisivo, marcado pela fragmentação do supercontinente Pangeia e pelo início da formação do Oceano Atlântico.
A pesquisa analisou as texturas do carbonato,amplamente utilizado na construção civil, extraído na região da Bacia de Irecê, no nordeste da Bahia. No mapa, à direita, é possível visualizar a área onde se insere a chamada Formação Caatinga
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim
Como começou o estudo
A ideia surgiu durante o pós-doutorado de Emiliano Castro de Oliveira, professor do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) — Campus Baixada Santista — e pesquisador principal do estudo, vinculado à UnB. O trabalho analisou a Formação Caatinga, localizada na Bacia de Irecê, composta por depósitos de calcários conhecidos como travertinos, bege Bahia ou calcretes. O objetivo central foi reconstruir a história dos depósitos minerais dessa unidade geológica.
Leia mais
“Percebemos que os estudos da parte da gênese, isto é, estudos da origem, tinham parado na década de 1990. Depois, seguiram alguns estudos técnicos, de dimensionamento de lavra, mas já focados na parte comercial do material”, ele conta.
A proposta da pesquisa foi investigar a estrutura do bege Bahia, com o objetivo de compreender melhor sua gênese e avaliar a possibilidade de ocorrências semelhantes em outras regiões do país
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação
Para isso, Emiliano, junto aos demais pesquisadores — Lucieth Cruz Vieira, Gabriella Talamo Fontaneta e Francisco Hilario Bezerra —, analisou não apenas a rocha em sua totalidade, mas também detalhes microscópicos, como texturas, e os diferentes tipos de minerais presentes.
Como foi feita a pesquisa
A metodologia adotada foi abrangente, combinando investigações de campo com análises laboratoriais. Os pesquisadores examinaram 52 afloramentos e pedreiras distribuídos ao longo dos rios Verde, Jacaré e Salitre, todos na Bahia.
O estudo empregou uma metodologia diversificada, utilizando diferentes tipos de análise dos fragmentos coletados. Os pesquisadores observaram tanto a rocha em sua totalidade quanto seus aspectos microscópicos (como ilustrado no quadro à direita do artigo)
Artigo ‘When the Salt Vanished: Unveiling evaporite record in the continental carbonate succession of Caatinga Formation’/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Durante o trabalho de campo, foram coletadas 74 amostras de rocha, parte delas destinada à análise microscópica. Além disso, os pesquisadores construíram mosaicos petrográficos — um método que permite uma avaliação espacial minuciosa das texturas e estruturas presentes nas rochas.
Isso se fez necessário porque a composição atual não revela diretamente sua origem, já que os minerais originais foram substituídos ao longo do tempo. “Hoje elas são carbonato de cálcio, mas o formato dos cristais não corresponde às formas típicas desse mineral”, explica Emiliano. “Eles eram compatíveis com o gesso e com a halita.”
A presença de pseudomorfos de sal no bege Bahia constitui prova concreta da incursão de águas marinhas ou de grandes lagos salinos no interior do continente. Esse tipo de registro geológico é fundamental para compreender o processo de abertura do Oceano Atlântico Sul, quando a América do Sul se separava da África
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação
Esse fenômeno, conhecido como substituição mineral, preserva a forma externa dos cristais originais mesmo após a mudança de sua composição interna, permitindo a identificação dos chamados “cristais fantasmas”.
A pesquisa teve início a partir de uma amostra já disponível, graças à exploração para construção civil e outras aplicações. O avanço da extração da rocha foi decisivo para a descoberta, pois possibilitou o acesso a camadas mais profundas das jazidas. “Tivemos uma vantagem histórica de acessar esses depósitos e observar esse material por dentro”, comenta Emiliano.
Neste lavabo, a bancada esculpida foi confeccionada em mármore bege Bahia, utilizado no formato casqueiro
Edgard Cesar/Divulgação | Projeto do escritório Studio FP02
Resultados da pesquisa e descobertas sobre o bege Bahia
Os resultados permitiram organizar a história geológica da Formação Caatinga. A pesquisa também mostra que o bege Bahia contém pseudomorfos, que são estruturas que preservam a forma de cristais de sais como halita e gipsita, mesmo após sua dissolução.
Esses vestígios indicam que, durante o período Cretáceo Inferior, a região onde hoje está o interior da Bahia foi ocupada por ambientes salinos ou hipersalinos, como grandes lagos ou incursões marinhas temporárias. “Descobrimos mais um local onde o mar entrou no território brasileiro antes da formação do Oceano Atlântico”, afirma Emiliano.
No living, a textura das cortinas de linho da Abaeté Cortinas dialoga com a parede revestida por lascas brutas de bege Bahia, em acabamento escovado
Jomar Bragança/Divulgação | Projeto do estúdio Arca Arquitetos
Um dos aspectos mais curiosos é que esse registro estava presente em um material amplamente conhecido, inclusive fora do meio científico.
“Provavelmente todos os geólogos e geólogas do país já viram a rocha, mesmo que em um banheiro, e até hoje, ninguém havia feito uma investigação mais profunda e se dado conta deste histórico ambiental registrado”, destaca o pesquisador.
Conexão com o pré-sal e novos caminhos
Além de ampliar o conhecimento sobre a geologia do Nordeste, o estudo abre caminhos para pesquisas em outras áreas, como a exploração do pré-sal. Compreender os processos de formação da Caatinga contribui para entender reservatórios complexos de petróleo, como os do pré-sal brasileiro, visto que apresentam texturas e sistemas deposicionais análogos.
Ao entrar nesta casa, o caminho de piso de mármore bege Bahia, da MCunha Mármores & Granitos, com um espelho d’água, leva à porta de vidro com esquadrias de inox numa linha minimalista
Júlia Tótoli/Divulgação | Projeto do escritório Morada 31.12 Arquitetura e Interiores | Paisagismo de Ana Paula Roseo
“Estamos olhando nessas rochas lugares onde tiveram algumas entradinhas de água do mar, mas que não viraram o oceano. A comparação é com esses momentos finais do pré-sal”, destaca Emiliano.
Da formação geológica ao uso na decoração
Ainda que o objetivo não fosse investigar a aplicação do bege Bahia na construção civil e na decoração, o estudo identificou fatores que podem ser relevantes, por apontar aquilo que pode comprometer a qualidade da rocha em determinadas áreas.
Na área gourmet, o piso e a bancada foram revestidos com mármore bege Bahia, fornecido pela RP Mármores
Estudio NY18/Divulgação | Produção: Tiago Cappi/Editora Globo | Projeto do escritório Studio Arquitetônico
“A presença de argila, excesso de circulação de água e impurezas são alguns desses elementos que podem gerar fragilidade e inviabilizar a extração”, pontua Emiliano.
Antes de chegar ao consumidor, o material passa por um processo rigoroso de seleção e beneficiamento, garantindo o padrão estético e estrutural conhecido no mercado.
O material apresenta uma tonalidade suave que transmite calor aos ambientes onde é aplicado, além de oferecer alta resistência. Este lavabo é totalmente revestido em travertino bege Bahia escovado, enquanto a cuba esculpida foi confeccionada em quartzo Intense Beige
Keniche Santos/Divulgação | Projeto de interiores de Cacau Ribeiro | Projeto de arquitetura de Luiz Geraldo Avelino, do Arch 3
“É um material muito nosso, não só pela origem, mas pela forma como dialoga com o clima e com a luz brasileira. A sua tonalidade clara, levemente aquecida, responde de maneira muito bonita à luminosidade natural, criando ambientes suaves, sem contrastes duros”, indica Sílvia Aline Rodrigues de Rodrigues, arquiteta e historiadora, especialista em patrimônio cultural, design e mobiliário.
Leia mais
Apesar da relevância científica, a descoberta não altera o uso do bege Bahia na construção civil. Suas propriedades — como resistência, uniformidade e facilidade de acabamento — continuam sendo resultado de processos naturais que ocorreram ao longo de milhões de anos.
O bege Bahia é um material que facilita a integração entre os espaços com uma proposta rústica e sofisticada. O móvel baixo da sala é feito de bege Bahia levigado, da Marmoraria Sigramar
Carolina Mossin/Divulgação | Projeto do arquiteto Thiago Manarelli
A principal contribuição da pesquisa está na mudança de perspectiva que ela propõe. O bege Bahia, muitas vezes associado apenas à decoração, passa a ser reconhecido como um registro da história geológica do planeta, sendo um material originalmente brasileiro.
“Ele ganha força no Brasil a partir das décadas de 1980 e 1990, acompanhando um movimento de valorização de materiais nacionais na arquitetura e no design de interiores”, explica a arquiteta.
A cuba esculpida de mármore travertino bege Bahia, com execução da Castorino Mármores, destaca-se na parede preta
Caio César/Divulgação | Projeto do escritório Levy Netto Studio + Arquitetura
Inicialmente utilizado como alternativa sofisticada, porém mais acessível e alinhada ao contexto brasileiro, o bege Bahia teve seu uso ampliado nos anos 2000. Passou a ser aplicado em escadas, bancadas, lavabos e superfícies contínuas.
Recentemente, o material retornou com uma leitura contemporânea. “Menos associado ao clássico tradicional, o bege Bahia vem atrelado a uma estética natural, leve e atemporal. Hoje, também aparece em peças de design e aplicações autorais, além de ser bastante exportada e valorizada no cenário internacional, justamente por essa neutralidade e versatilidade”, afirma Sílvia.
Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade de São Paulo (USP) revelou que essa rocha ornamental registra a entrada de águas salinas no território brasileiro há milhões de anos — antes mesmo da formação do Oceano Atlântico.
Publicado na revista Journal of South American Earth Sciences, o trabalho identificou, na rocha bege Bahia — extraída da Bacia de Irecê, no nordeste baiano — os primeiros registros de “evaporitos desaparecidos”, isto é, sais que foram dissolvidos ao longo do tempo.
O estudo revela que a popular rocha ornamental bege Bahia, extraída na Bacia de Irecê, contém os primeiros registros de “evaporitos desaparecidos” (sais dissolvidos) na Formação Caatinga. A descoberta evidencia que a região foi invadida por grandes corpos de água salgada ou hipersalina durante o Cretáceo Inferior, período anterior à formação do Oceano Atlântico
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação
Essas estruturas microscópicas comprovam a presença de antigos depósitos de sal, hoje dissolvidos — um achado que confirma a invasão da região por grandes corpos de água salgada ou hipersalina durante o Cretáceo Inferior, entre 145 milhões e 100,5 milhões de anos atrás. Esse período foi decisivo, marcado pela fragmentação do supercontinente Pangeia e pelo início da formação do Oceano Atlântico.
A pesquisa analisou as texturas do carbonato,amplamente utilizado na construção civil, extraído na região da Bacia de Irecê, no nordeste da Bahia. No mapa, à direita, é possível visualizar a área onde se insere a chamada Formação Caatinga
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim
Como começou o estudo
A ideia surgiu durante o pós-doutorado de Emiliano Castro de Oliveira, professor do Instituto do Mar (IMar/Unifesp) — Campus Baixada Santista — e pesquisador principal do estudo, vinculado à UnB. O trabalho analisou a Formação Caatinga, localizada na Bacia de Irecê, composta por depósitos de calcários conhecidos como travertinos, bege Bahia ou calcretes. O objetivo central foi reconstruir a história dos depósitos minerais dessa unidade geológica.
Leia mais
“Percebemos que os estudos da parte da gênese, isto é, estudos da origem, tinham parado na década de 1990. Depois, seguiram alguns estudos técnicos, de dimensionamento de lavra, mas já focados na parte comercial do material”, ele conta.
A proposta da pesquisa foi investigar a estrutura do bege Bahia, com o objetivo de compreender melhor sua gênese e avaliar a possibilidade de ocorrências semelhantes em outras regiões do país
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação
Para isso, Emiliano, junto aos demais pesquisadores — Lucieth Cruz Vieira, Gabriella Talamo Fontaneta e Francisco Hilario Bezerra —, analisou não apenas a rocha em sua totalidade, mas também detalhes microscópicos, como texturas, e os diferentes tipos de minerais presentes.
Como foi feita a pesquisa
A metodologia adotada foi abrangente, combinando investigações de campo com análises laboratoriais. Os pesquisadores examinaram 52 afloramentos e pedreiras distribuídos ao longo dos rios Verde, Jacaré e Salitre, todos na Bahia.
O estudo empregou uma metodologia diversificada, utilizando diferentes tipos de análise dos fragmentos coletados. Os pesquisadores observaram tanto a rocha em sua totalidade quanto seus aspectos microscópicos (como ilustrado no quadro à direita do artigo)
Artigo ‘When the Salt Vanished: Unveiling evaporite record in the continental carbonate succession of Caatinga Formation’/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Durante o trabalho de campo, foram coletadas 74 amostras de rocha, parte delas destinada à análise microscópica. Além disso, os pesquisadores construíram mosaicos petrográficos — um método que permite uma avaliação espacial minuciosa das texturas e estruturas presentes nas rochas.
Isso se fez necessário porque a composição atual não revela diretamente sua origem, já que os minerais originais foram substituídos ao longo do tempo. “Hoje elas são carbonato de cálcio, mas o formato dos cristais não corresponde às formas típicas desse mineral”, explica Emiliano. “Eles eram compatíveis com o gesso e com a halita.”
A presença de pseudomorfos de sal no bege Bahia constitui prova concreta da incursão de águas marinhas ou de grandes lagos salinos no interior do continente. Esse tipo de registro geológico é fundamental para compreender o processo de abertura do Oceano Atlântico Sul, quando a América do Sul se separava da África
Cedida por Emiliano Castro de Oliveira/Divulgação
Esse fenômeno, conhecido como substituição mineral, preserva a forma externa dos cristais originais mesmo após a mudança de sua composição interna, permitindo a identificação dos chamados “cristais fantasmas”.
A pesquisa teve início a partir de uma amostra já disponível, graças à exploração para construção civil e outras aplicações. O avanço da extração da rocha foi decisivo para a descoberta, pois possibilitou o acesso a camadas mais profundas das jazidas. “Tivemos uma vantagem histórica de acessar esses depósitos e observar esse material por dentro”, comenta Emiliano.
Neste lavabo, a bancada esculpida foi confeccionada em mármore bege Bahia, utilizado no formato casqueiro
Edgard Cesar/Divulgação | Projeto do escritório Studio FP02
Resultados da pesquisa e descobertas sobre o bege Bahia
Os resultados permitiram organizar a história geológica da Formação Caatinga. A pesquisa também mostra que o bege Bahia contém pseudomorfos, que são estruturas que preservam a forma de cristais de sais como halita e gipsita, mesmo após sua dissolução.
Esses vestígios indicam que, durante o período Cretáceo Inferior, a região onde hoje está o interior da Bahia foi ocupada por ambientes salinos ou hipersalinos, como grandes lagos ou incursões marinhas temporárias. “Descobrimos mais um local onde o mar entrou no território brasileiro antes da formação do Oceano Atlântico”, afirma Emiliano.
No living, a textura das cortinas de linho da Abaeté Cortinas dialoga com a parede revestida por lascas brutas de bege Bahia, em acabamento escovado
Jomar Bragança/Divulgação | Projeto do estúdio Arca Arquitetos
Um dos aspectos mais curiosos é que esse registro estava presente em um material amplamente conhecido, inclusive fora do meio científico.
“Provavelmente todos os geólogos e geólogas do país já viram a rocha, mesmo que em um banheiro, e até hoje, ninguém havia feito uma investigação mais profunda e se dado conta deste histórico ambiental registrado”, destaca o pesquisador.
Conexão com o pré-sal e novos caminhos
Além de ampliar o conhecimento sobre a geologia do Nordeste, o estudo abre caminhos para pesquisas em outras áreas, como a exploração do pré-sal. Compreender os processos de formação da Caatinga contribui para entender reservatórios complexos de petróleo, como os do pré-sal brasileiro, visto que apresentam texturas e sistemas deposicionais análogos.
Ao entrar nesta casa, o caminho de piso de mármore bege Bahia, da MCunha Mármores & Granitos, com um espelho d’água, leva à porta de vidro com esquadrias de inox numa linha minimalista
Júlia Tótoli/Divulgação | Projeto do escritório Morada 31.12 Arquitetura e Interiores | Paisagismo de Ana Paula Roseo
“Estamos olhando nessas rochas lugares onde tiveram algumas entradinhas de água do mar, mas que não viraram o oceano. A comparação é com esses momentos finais do pré-sal”, destaca Emiliano.
Da formação geológica ao uso na decoração
Ainda que o objetivo não fosse investigar a aplicação do bege Bahia na construção civil e na decoração, o estudo identificou fatores que podem ser relevantes, por apontar aquilo que pode comprometer a qualidade da rocha em determinadas áreas.
Na área gourmet, o piso e a bancada foram revestidos com mármore bege Bahia, fornecido pela RP Mármores
Estudio NY18/Divulgação | Produção: Tiago Cappi/Editora Globo | Projeto do escritório Studio Arquitetônico
“A presença de argila, excesso de circulação de água e impurezas são alguns desses elementos que podem gerar fragilidade e inviabilizar a extração”, pontua Emiliano.
Antes de chegar ao consumidor, o material passa por um processo rigoroso de seleção e beneficiamento, garantindo o padrão estético e estrutural conhecido no mercado.
O material apresenta uma tonalidade suave que transmite calor aos ambientes onde é aplicado, além de oferecer alta resistência. Este lavabo é totalmente revestido em travertino bege Bahia escovado, enquanto a cuba esculpida foi confeccionada em quartzo Intense Beige
Keniche Santos/Divulgação | Projeto de interiores de Cacau Ribeiro | Projeto de arquitetura de Luiz Geraldo Avelino, do Arch 3
“É um material muito nosso, não só pela origem, mas pela forma como dialoga com o clima e com a luz brasileira. A sua tonalidade clara, levemente aquecida, responde de maneira muito bonita à luminosidade natural, criando ambientes suaves, sem contrastes duros”, indica Sílvia Aline Rodrigues de Rodrigues, arquiteta e historiadora, especialista em patrimônio cultural, design e mobiliário.
Leia mais
Apesar da relevância científica, a descoberta não altera o uso do bege Bahia na construção civil. Suas propriedades — como resistência, uniformidade e facilidade de acabamento — continuam sendo resultado de processos naturais que ocorreram ao longo de milhões de anos.
O bege Bahia é um material que facilita a integração entre os espaços com uma proposta rústica e sofisticada. O móvel baixo da sala é feito de bege Bahia levigado, da Marmoraria Sigramar
Carolina Mossin/Divulgação | Projeto do arquiteto Thiago Manarelli
A principal contribuição da pesquisa está na mudança de perspectiva que ela propõe. O bege Bahia, muitas vezes associado apenas à decoração, passa a ser reconhecido como um registro da história geológica do planeta, sendo um material originalmente brasileiro.
“Ele ganha força no Brasil a partir das décadas de 1980 e 1990, acompanhando um movimento de valorização de materiais nacionais na arquitetura e no design de interiores”, explica a arquiteta.
A cuba esculpida de mármore travertino bege Bahia, com execução da Castorino Mármores, destaca-se na parede preta
Caio César/Divulgação | Projeto do escritório Levy Netto Studio + Arquitetura
Inicialmente utilizado como alternativa sofisticada, porém mais acessível e alinhada ao contexto brasileiro, o bege Bahia teve seu uso ampliado nos anos 2000. Passou a ser aplicado em escadas, bancadas, lavabos e superfícies contínuas.
Recentemente, o material retornou com uma leitura contemporânea. “Menos associado ao clássico tradicional, o bege Bahia vem atrelado a uma estética natural, leve e atemporal. Hoje, também aparece em peças de design e aplicações autorais, além de ser bastante exportada e valorizada no cenário internacional, justamente por essa neutralidade e versatilidade”, afirma Sílvia.



