Ashwagandha: conheça a planta indiana com prescrição restrita no Brasil

Discreta no jardim, poderosa nas prateleiras de suplementos. Conhecida popularmente como ashwagandha, aWithania somnifera é utilizada há mais de 3 mil anos na medicina indiana, mas acaba de virar uma tendência global. Celebrada como aliada do sono, do foco e da vitalidade, também entrou no radar das autoridades sanitárias e da comunidade científica.
Nativa da Índia, a ashwagandha é um subarbusto perene da família das solanáceas, que pode atingir de 1 a 1,5 metro de altura, prefere clima quente e seco, e se desenvolve melhor em solos arenosos e bem drenados. Seus frutos alaranjados lembram a fisális, mas é na raiz — longa, robusta e tuberosa — que se concentram os compostos de interesse medicinal.
Base da Ayurveda, a planta é descrita como um tônico geral. Segundo a naturóloga e mestranda da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), Margarete Mota, a ashwagandha é considerada uma planta “coringa” dentro desse sistema. “Ela é uma planta tônica e anabólica, constrói e fortalece músculos. Atua na musculatura de forma geral, tanto tonificando músculo visíveis do corpo, quanto órgãos internos, como coração, útero e fígado, sendo vista como cardiotônica”, explica.
A ashwagandha, nome popular da ‘Withania somnifera’, é utilizada desde 1.500 a.C. na medicina popular indiana
Pixabay/NutriScanApp/Creative Commons
Do ponto de vista científico, a professora Ana Flávia Marçal Pessoa, do Laboratório de Plantas Medicinais e Nutrição (La PlanNta), do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental (FCF/USP) e coordenadora da Especialização em Fitoterapia Avançada da USP, explica que a planta contém diversas classes de compostos bioativos: alcaloides, flavonoides, taninos, ácido clorogênico e, principalmente, withanolídeos — lactonas esteroidais relacionadas a efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e imunomoduladores.
“Podemos entender que a ashwagandha possui compostos com atividades farmacológicas importantes e também impacto metabólico relevante.”

Nos últimos anos, a ashwagandha deixou de ser restrita às práticas tradicionais e passou a ocupar espaço nas prateleiras de farmácias, lojas naturais e e-commerces. Comercializada principalmente em cápsulas de extrato seco da raiz, ela é associada a promessas de melhora na qualidade do sono, redução da ansiedade, aumento da disposição e até apoio em quadros de diabetes e hipertensão.
Essa popularização, impulsionada pelas redes sociais e pelo mercado de bem-estar, fez com que o consumo crescesse rapidamente no Brasil e, consequentemente, a preocupação com a automedicação cresceu no meio dos especialistas e da vigilância sanitária.
A planta ashwagandha contém diversas classes de compostos bioativos relacionados a efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e imunomoduladores
Flickr/Dinesh Valke/Creative Commons
Margarete alerta que, apesar de ser considerada segura dentro das práticas tradicionais, a ashwagandha é uma planta medicinal e, como tal, exige indicação individualizada. “Existe um erro muito grande em achar que, se é natural, mal não vai fazer. Isso é absolutamente equivocado”, afirma a naturóloga.
Ana Flávia também destaca que, embora existam estudos apontando potenciais efeitos metabólicos e anti-inflamatórios, isso não significa que o suplemento seja isento de riscos ou indicado para todos os perfis: “Embora existam estudos em humanos, muitos resultados positivos ainda vêm de pesquisas com animais. Em alguns ensaios clínicos, os efeitos não diferiram do placebo”.
Acredita-se que a ashwagandha pode auxiliar na construção e fortalecimento dos músculos
Piyush Kothari/Wikimedia Commons
A orientação, portanto, é evitar a automedicação, especialmente para pessoas que já fazem uso de medicamentos contínuos ou convivem com doenças crônicas.

Regulamentação brasileira e limites do consumo da Ashwagandha
Se de um lado a tradição é milenar, de outro a regulamentação é recente. Em 2022, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma nota técnica restringindo a comercialização da planta no Brasil. Segundo a orientação do órgão, a ashwagandha não pode ser vendida, divulgada ou prescrita livremente como suplemento alimentar comum. O uso deve ser feito mediante prescrição individualizada por profissionais de saúde habilitados a indicar plantas medicinais.
A ashwagandha é um subarbusto perene da família das solanáceas, que pode atingir entre 1 e 1,5 metros de altura
Ton Rulkens00/Wikimedia Commons
“Somente seis categorias de profissionais de saúde estão habilitadas a prescrever plantas medicinais no Brasil: médicos, nutricionistas, farmacêuticos, enfermeiros, dentistas e fisioterapeutas, desde que tenham formação específica na área”, diz Margarete. Isso evita que pessoas comprem a substância pela internet, sem avaliação prévia.
O uso da Ashwagandha deve ser feito mediante prescrição individualizada por profissionais de saúde habilitados a indicar plantas medicinais
Flickr/Formulate Health/Creative Commons
Ana Flávia ressalta que ainda há lacunas importantes para a definição do tratamento: “Precisamos de mais estudos clínicos robustos, com amostras maiores e padronização de extratos, para entender melhor a real magnitude dos efeitos e a segurança em longo prazo.”
A professora lembra que diferentes concentrações de withanolídeos podem gerar respostas distintas no organismo, o que torna ainda mais importante a orientação profissional para o consumo da planta medicinal.

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