Berghain: conheça o projeto arquitetônico do imponente clube techno em Berlim

Berlim guarda diversos segredos e um dos mais pulsantes se ergue como um monólito de concreto entre os bairros Kreuzberg e Friedrichshain: Berghain — nome derivado da junção dos finais berg e hain —, considerado um templo da música eletrônica. Além da curadoria sonora rigorosa e a política de entrada enigmática, sua arquitetura brutalista o consolidou como um dos clubes mais influentes e importantes do mundo, bem como símbolo de liberdade artística.
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Antes da batida, o vapor: a origem industrial
O edifício que hoje abriga Berghain nasceu nos anos 1950 como a Usina de Cogeração de Friedrichshain, parte de um plano de reconstrução da Berlim Oriental pós-guerra. Encomendado pela República Democrática Alemã (RDA), o prédio foi projetado para fornecer calor e eletricidade, uma solução moderna para uma capital em ruínas.
A construção integrava um conjunto habitacional público, que incluiu uma arena esportiva, uma escola, uma delegacia de polícia e bombeiros, entre outros. Como o sistema de aquecimento do leste da cidade não gerava energia suficiente para a região, o governo optou por erguer uma usina especificamente para Friedrichshain.
Fachada do clube de música eletrônica Berghain, que fica no antigo salão de turbinas da Usina de Cogeração de Friedrichshain, em Berlim, na Alemanha
Flickr/Stefan/Creative Commons
O prédio foi erguido em duas fases, formando dois blocos de 40 x 40 metros. A primeira etapa consistiu na casa de caldeiras, destinada ao aquecimento urbano, com duas chaminés (hoje demolidas). A segunda fase incluiu a casa de turbinas e geradores, responsável pela geração de eletricidade.
Depois, uma expansão incorporou a fachada sul da casa de caldeiras como parede interna, criando uma sobreposição arquitetônica que ainda é visível. Elementos originais, como os funis de carvão suspensos, permanecem preservados.
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Embora os arquitetos responsáveis pela antiga usina permaneçam desconhecidos, o edifício revela uma filiação estética ao programa de reconstrução nacional da RDA. Projetos de Richard Paulick, Hermann Henselmann e Hanns Hopp são apontados como influências significativas na sua concepção.
Inaugurada em 1953, a usina funcionou até 1988. O imóvel permaneceu inutilizado por mais de uma década após seu fechamento. Até que, nos anos 2000, artistas e empreendedores da cena techno berlinense enxergaram ali não ruínas, mas possibilidades.
A revitalização que respeita a memória
A transformação da estrutura foi liderada pelos arquitetos Thomas Karsten e Alexandra Erhard, do Studio Karhard. “Quando entramos pela primeira vez na usina, em fevereiro de 2003, o que mais nos impressionou foi o tamanho e a rusticidade do edifício. Estava em estado selvagem, havia árvores jovens crescendo dentro dele e pássaros nidificavam ali. Desde o primeiro minuto ficou claro que seria perfeito para um ‘templo techno’”, relembra Thomas.
Em vez de apagar o passado industrial, os arquitetos optaram por preservar e destacar os elementos originais, como vigas, janelas e texturas de concreto. O conceito foi parecer como se quase nada tivesse sido alterado — mesmo que, na prática, houvesse adaptações complexas para atender às exigências técnicas de segurança e ventilação.
Marcas cobrem as paredes da entrada do Berghain como vestígios de uma cultura que pulsa
Gunnar Klack/Wikimedia Commons
A revitalização incluiu soluções técnicas para acústica, segurança, circulação e iluminação. “O maior desafio foi tornar seguro para operação um edifício industrial que recebe grandes públicos. Isso significou conceber rotas de fuga, áreas de logística e todos os espaços necessários para o funcionamento seguro — espaços que os visitantes nunca veem”, explica Thomas.
Berghain foi inaugurado em 2004, fundado pelos empresários Norbert Thormann e Michael Teufele – mantendo a estética industrial e a essência do clube Ostgut (1998-2003), também criado por eles.
A entrada do Berghain carrega as marcas de quem passou por ali
Gunnar Klack/Wikimedia Commons
O Studio Karhard projetou mais dois espaços. Ocupando a antiga casa de caldeiras, o Halle am Berghain tem 1.180 m² e pé-direito alto, dedicado a instalações de arte contemporânea, exposições e eventos culturais. Já na antiga adega de carvão, no porão, está localizado outro clube, com entrada e funcionamento independente: o Lab.oratory, voltado ao público masculino queer.
Texturas e luzes que contam histórias
Além do concreto, a revitalização arquitetônica incorporou aço, vidro, alumínio e madeira. Os acabamentos seguem uma lógica intencional: superfícies não polidas, ferrugem preservada, pintura descascada — tudo isso compõe uma linguagem que valoriza o desgaste como memória e a imperfeição como identidade.
Lado norte do prédio do clube de música eletrônica Berghain
Gunnar Klack/Wikimedia Commons
O projeto luminotécnico foi concebido para preservar a escuridão. A iluminação indireta destaca texturas do concreto, evidencia colunas e cria áreas de sombra que reforçam o clima de mistério. No Panorama Bar, a entrada de luz natural pelas janelas contrasta com a penumbra do térreo, estabelecendo uma transição entre ambientes mais introspectivos e expansivos.
“Poucos feixes, sombras densas, escuridão controlada. Você enxerga apenas o essencial para existir e dançar”, relata a carioca Chang Rodrigues, produtora musical e DJ que vive em Berlim. Para ela, o Funktion-One — sistema de som usado em muitos clubes da capital alemã — é outro destaque. “O som ganha uma presença quase física que não vem só do equipamento. É como se toda a estrutura ressoasse junto”, ela explica.
O Berghain em dia funcionamento, com pessoas que aguardam ansiosas na fila
Lear 21/Wikimedia Commons
Ainda, murais, esculturas e intervenções visuais estão espalhados pelos ambientes, muitas vezes em diálogo direto com a brutalidade do concreto e a penumbra arquitetônica. O clube já funcionou como galeria temporária e mantém uma curadoria que reforça sua identidade como espaço de experimentação estética.
A distribuição dos ambientes
Com capacidade para até 1.500 pessoas, o clube ocupa cerca de 7.300 m², divididos em múltiplas áreas que não se revelam de imediato.
Foyer
Inicialmente, abrigava a instalação artística Rituals of Disappearance, de Piotr Nathan — composta por 175 placas de alumínio com representações de forças primordiais como fogo, água e vento. Atualmente, a obra exposta é Antropofagia II, de Norbert Bisky.
Pista principal
O coração do clube ocupa o antigo salão de turbinas da usina, no térreo, com cerca de 18 metros de pé-direito e uma área de aproximadamente 500 m². O espaço mantém a estrutura original de concreto bruto, com colunas maciças e janelas verticais. Para Thomas, o hall de colunas, composto por pilares de concreto maciço, é um dos elementos mais distintivos de Berghain.
Panorama Bar
Localizado no andar superior, na antiga sala de controle da usina, o Panorama Bar tem cerca de 250 m², é mais iluminado e arejado, com grandes janelas que oferecem vista para o horizonte urbano de Berlim. “São as janelas voltadas para o exterior que se tornam protagonistas, utilizadas também como recurso de iluminação por meio das persianas móveis”, comenta Thomas.
A arquitetura aqui dialoga com o lúdico: painéis de madeira, iluminação suave e obras de arte contemporânea criam uma atmosfera mais acolhedora. É o espaço dedicado ao house e suas variações.
Säule
Inaugurada em 2017, a pista de dança Säule é menor e mais experimental, localizada na parte norte da casa da turbina e do gerador, abaixo do Panorama Bar. Com cerca de 150 m², o espaço é marcado por colunas de concreto que criam uma geometria fragmentada e intimista. A iluminação é mínima e o som é mais introspectivo, voltado para vertentes como techno experimental.
Garten
Nos meses mais quentes, Berghain abre seu jardim de aproximadamente 800 m², o qual mistura vegetação espontânea com estruturas industriais reaproveitadas. A arquitetura mantém o espírito do clube: cercas metálicas e concreto exposto.
Banheiros
Distribuídos em diferentes áreas e andares, eles mantêm a estética industrial do edifício, com concreto aparente, iluminação mínima e divisórias metálicas. A ausência de distinções rígidas entre gêneros em certos sanitários também reflete a filosofia do clube: liberdade, anonimato e fluidez.
Dark rooms
Berghain é conhecido por sua abordagem liberal em relação à sexualidade. O dark room é explicitamente destinado a práticas sexuais com respeito mútuo. Geralmente são salas sem janelas, com pouca ou nenhuma iluminação, projetadas para preservar a privacidade e a liberdade dos frequentadores.
Escadas
Construídas em metal bruto e concreto, com corrimãos industriais e iluminação pontual, elas criam uma sensação de deslocamento físico e psicológico. “As escadas foram pensadas como parte da dramaturgia do espaço, preparando o corpo para novas atmosferas”, afirma Thomas.
Mezaninos
Estruturas elevadas dão vistas para a pista e servem como refúgios visuais. Esses níveis superiores também abrigam áreas técnicas e pontos de observação.
As regras não ditas
Berghain é conhecido por manter uma política rigorosa de sigilo visual: não é permitido fotografar ou gravar o interior, justamente para preservar o mistério e a experiênciade quem entra. Por isso, imagens dos espaços internos não circulam na internet. As únicas fotos disponíveis são as do projeto arquitetônico, publicadas exclusivamente no site oficial do Studio Karhard, que não é autorizado a disponibilizar para a imprensa.
No Instagram do Berghain, há apenas uma publicação que enfatiza a proibição de fotos e vídeos no local
Instagram/@berghain_panoramabar/Reprodução
Além disso, o clube é famoso pela dificuldade de entrar e a alta taxa de rejeições. A entrada é decidida por seguranças que avaliam aspectos não revelados. O objetivo é garantir um recinto seguro, diverso e respeitoso para diversas expressões de gênero, sexualidades e subculturas.
“Não se trata de elitização, mas de proteger um ecossistema social onde todos podem existir de forma autêntica. Quando o olhar externo desaparece, o corpo se liberta. Sem celulares, sem registros, sem a pressão da performance social, as pessoas se tornam muito mais verdadeiras”, comenta a DJ Chang.
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As festas em Berghain duram o fim de semana inteiro, sem interrupções. Embora os horários exatos possam variar conforme o evento, geralmente abre no sábado, à meia-noite (00h), e fecha na segunda-feira, às 5h da manhã. Os eventos são divulgados com antecedência, mas não há uma programação oficial detalhada.
Em outubro de 2025, a cantora espanhola Rosalía lançou o single Berghain, uma faixa que mistura ópera, techno e transcendência, que vai além de uma homenagem ao lendário clube. Com participações de Björk e Yves Tumor, a música não foi gravada na antiga usina, mas carrega sua atual essência: liberdade, intensidade e mistério. A faixa, cantada em três idiomas — espanhol, inglês e alemão —, evoca o ritual de atravessar fronteiras internas, como quem passa pelas portas do clube e deixa o mundo lá fora.

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