Cabana com estrutura metálica preta se integra à paisagem no interior de SP

Entre as curvas suaves da Cuesta de Botucatu, no interior de São Paulo — uma das paisagens mais belas do estado — e o silêncio generoso do campo, nasceu um refúgio pensado menos para ser visto e mais para ser sentido. Em um terreno rural de Bofete, parte desse polo turístico, um casal de veterinários encontrou o cenário ideal para realizar um desejo antigo: criar um lugar onde o luxo se traduzisse em simplicidade, respeito ao entorno e na experiência de desacelerar.
CONSTRUÇÃO | A cabana de estrutura metálica escura, executada pela CRM Serralheria, que se integra visualmente à paisagem, sem competir com ela, foi construída elevada do solo, o que garantiu menor impacto no terreno e proteção em relação aos animais da região e à umidade vinda do solo. As toras de eucalipto tratado, madeira abundante na região, são da Embrapem, e fazem um contraponto à estrutura metálica. No paisagismo da Cuesta Jardins, predominam maciços de lavandas e capins
Daniel Santo/Divulgação
O projeto, concebido desde o início como um conjunto de cabanas para fins de semana e hospedagem, parte de uma arquitetura discreta, profundamente conectada aos ritmos da natureza.
“O pedido nunca foi apenas construir cabanas, mas criar um espaço onde as pessoas pudessem realmente relaxar, ouvir o vento, acordar com a luz natural e viver sem pressa”, explica a arquiteta Juliana Fabrizzi (@julianafabrizzi_arquitetura), responsável pelo projeto.
DEQUE | No deque de cruzetas, da GerandoArt, estão as poltronas Embrapem, que são usadas para momentos junto ao fogo e contemplação do lago
Daniel Santo/Divulgação
Implantadas em um terreno amplo e ainda em fase de expansão — com oito cabanas previstas, das quais duas já estão prontas —, as construções surgem elevadas do solo, minimizando o impacto ambiental e preservando a topografia original.
FACHADA | A arquitetura promoveu uma interação entre interior e exterior, com grandes aberturas que funcionam como quadros naturais. As poltronas da Embrapem ficam à frente do maciço de filodendro-selloum
Daniel Santo/Divulgação
Cada cabana, com 90 m², é autônoma e cuidadosamente planejada para valorizar vistas específicas do entorno. A distribuição inclui sala integrada à cozinha, quarto, banheiro com abertura para o exterior, um terraço social com bancada e churrasqueira e um segundo terraço, mais íntimo, conectado ao dormitório.
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“A implantação foi pensada considerando orientação solar, ventos e o enquadramento das paisagens. As janelas funcionam como molduras para o cenário natural”, conta a arquiteta.
DETALHE | As banheiras garimpadas pelos proprietários se tornaram um dos símbolos do projeto. Posicionadas em áreas externas, permitem banho sob o céu aberto e com a brisa do campo, reforçando a proposta de um lugar simples, acolhedor e conectado ao entorno. O arremate do piso de pedras foi feito com cruzetas da GerandoArt. Metais industriais da Deca
Daniel Santo/Divulgação
O desafio logístico de construir em um terreno afastado e de acesso complexo influenciou decisões técnicas importantes. A estrutura metálica permitiu uma execução mais limpa, rápida e precisa, enquanto o fechamento metálico aliado ao isolamento interno em lambri de madeira garantiu conforto térmico e acústico frente às variações climáticas da região.
“Era fundamental que a casa fosse silenciosa, protegida e acolhedora, mesmo com ventos fortes e mudanças de temperatura”, explica a profissional.
ESTRUTURA | A estrutura metálica pintada de preto, executada pela CRM Serralheria, recebeu eucalipto tratado da Embrapem, e se mimetiza em meio às cores da natureza. Paisagismo com congéias realizado pela Cuesta Jardim
Daniel Santo/Divulgação
A estética do projeto nasce do contraste entre a precisão da estrutura metálica e a rusticidade dos materiais naturais. A escolha da cor preta, um pedido dos proprietários desde o início, faz com que as cabanas quase desapareçam entre sombras, troncos e recortes da vegetação. “O preto cria profundidade e permite que a construção se integre visualmente à paisagem, sem competir com ela”, afirma a arquiteta.
“A gente ia trazendo tudo o que gostava e a Juliana foi incorporando com naturalidade ao projeto. Parecia que lia nossos pensamentos, mas na verdade ela valoriza o mesmo que nós: uma arquitetura para sentir”, avaliam o casal Elen e Marcelo Pyles, os proprietários.
VARANDA | O espaço é composto por pia de granito preto com cuba antiga de garimpada pelos proprietários, com gabinete de madeira de demolição feita pela marcenaria Barra Mansa. A mesa é do mesmo material, executada pela Vitart. Cadeiras de polipropileno para área externa na cor marrom, da Tok&Stok. Luminárias industriais de aço preto, da Poptem. Pufe feito sob medida pela CRM Serralheria e tapeçaria com tecidos Acquablock executada por Thiago Tapeçaria
Daniel Santo/Divulgação
Outro ponto importante foi a implantação das cabanas. Para preservar ao máximo o terreno original, foram evitadas grandes movimentações de terra. “Definimos uma cota de implantação para cada unidade e elevamos todas do solo, garantindo menor impacto no terreno, melhor drenagem e mais proteção em relação aos animais da região e à umidade vinda do solo”, conta a profissional.
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Havia também a ausência da água como elemento natural no terreno. Juliana conta que identificou um ponto que pedia essa presença e desenhou o lago exatamente ali. “Ele foi construído com tanto cuidado que parece ter nascido com o lugar”, ela comemora.
COZINHA | Armários de MDF executados nos padrões Carvalho Amêndoa Naturale e Tela, da Guararapes, pela marcenaria Corte Fácil. Balcão e banquetas de madeira de demolição executados pela Vitart. Luminárias industriais da Poptem. Cortinas executadas com linho cru pela Ellere
Daniel Santo/Divulgação
No interior, a paleta é quente e serena. Tons naturais, madeira aparente, linho cru, cimento queimado, palha e texturas orgânicas definem ambientes íntimos e acolhedores. O lambri de pínus aquece visual e termicamente os espaços, enquanto o eucalipto de reflorestamento, abundante na região, aparece como contraponto natural à estrutura metálica.
“Buscamos materiais com história, textura e verdade, reforçando a intenção de trabalhar com recursos locais e sustentáveis”, pontua Lívia.
SUÍTE | A cama posicionada na meia parede de alvenaria, que delimita o banheiro, tem cabeceira de madeira e palha natural, da Westwing, com roupa de cama da Trussardi. Arandelas de aço preto, da Proptem. Materiais naturais trazem aconchego, como o teto de madeira pinus e a parede de pedra, onde está a lareira de aço preto, da Brasilena. As grandes esquadrias de alumínio e vidro, da Alutemper, além de privilegiar a vista e garantir luz natural suave, foram escolhidas pela praticidade, necessidade de baixa manutenção e vedação adequada diante do clima local, com ventos fortes e variações de temperatura. Cortinas de tecido blackout cru e gaze de linho feitas pela Ellere. Baú de madeira de demolição, da Vitart
Daniel Santo/Divulgação
O projeto também se apoia fortemente no reaproveitamento e no valor afetivo dos elementos. Banheiras e cubas antigas, garimpadas pelos proprietários, ganharam protagonismo, muitas delas posicionadas em áreas externas, permitindo banhos ao ar livre.
Móveis em madeira de demolição, mantas feitas à mão e objetos acumulados ao longo da vida rural reforçam o caráter vivido do refúgio. “São peças que carregam memória e intenção, e isso faz toda a diferença na atmosfera do lugar”, observa a arquiteta.
BANHEIRO | Aberto para o dormitório, o espaço também apresenta integração sensorial com o exterior através de aberturas estratégicas que trazem ventilação e luz. Bancada de madeira de demolição garimpada pelos proprietários e beneficiada pela marcenaria Barra Mansa, com cuba de apoio oval Ruy Ohtake Stone, da Roca. Monocomando da linha Level, da Deca, na cor preta. Toalheiros executados em serralheria
Daniel Santo/Divulgação
Sem obras de arte penduradas, a paisagem assume o papel principal. As aberturas foram desenhadas para trazer o exterior para dentro de forma contínua, enquanto fotografias feitas pelos próprios moradores e objetos produzidos por eles mesmos contam a história do lugar. “Aqui, a arquitetura não busca protagonismo. Ela serve como suporte para uma experiência sensorial verdadeira”, diz Juliana.

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