Cabreúva: tudo sobre a árvore nativa do Brasil

Símbolo de regeneração e resistência, a cabreúva (Myroxylon peruiferum) é uma árvore nativa cuja seiva guarda propriedades medicinais ancestrais. Hoje, mais do que uma fonte de matéria-prima, a planta é protagonista em projetos de reflorestamento.
Leia mais
Essa relevância histórica e ecológica é fortalecida pela sua origem. “A cabreúva é uma árvore nativa da Mata Atlântica e do Cerrado, e desenvolve-se plenamente em condições que simulam seu habitat natural. O termo ‘cabreúva’ provém do tupi antigo kaburé’yba, que significa “planta do caburé”, um símbolo local de força e resistência”, conta João Carlos Lof, proprietário do Viveiro Lof.
Características da cabreúva
As folhas da cabreúva são compostas pinadas, apresentando de 9 a 13 folíolos ovais a elípticos, alternados ao longo da raque (eixo principal da folha)
Plantnet/zamoravillalobosn/Creative Commons
Também conhecida como bálsamo, a espécie impressiona pelo vigor, com uma copa densa que proporciona sombra generosa e perene.
“É uma árvore de médio a grande porte, podendo atingir mais de 20 metros de altura. Suas folhas são verdes, estendidas e compostas, o que significa que cada folha é formada por vários folíolos. O crescimento é lento, mas a árvore é muito resistente e pode sobreviver por muitos anos”, descreve Lucimara Venancio, responsável pelo projeto de reflorestamento Plante Árvore do Instituto Brasileiro de Florestas – IBF.
A cabreúva pode ser cultivada em jardins residenciais?
A resposta é sim. “Desde que o local tenha espaço suficiente. Como é uma árvore grande, ela é mais indicada para quintais amplos, sítios, fazendas, parques e áreas verdes. O cultivo não é recomendado em locais pequenos ou próximo a estruturas e concentrações elétricas”, esclarece Lucimara.
Além da questão do espaço, o cultivo exige paciência e atenção técnica ao manejo. “Ela pode ser usada em jardins residenciais, mas com considerações importantes devido ao seu porte e às características. Ela é ideal para arborização urbana e recuperação de áreas degradadas, apesar do crescimento moderado e dificuldade inicial das mudas pegarem”, pondera João.
Leia mais
Como cuidar da cabreúva
O cultivo da cabreúva em pequenos sacos plásticos, conhecidos como ‘polybags’, é um método tradicional em viveiros para garantir a viabilidade da muda antes do plantio definitivo
Plantnet/Melo Carlos Walter/Creative Commons
A cabreúva é considerada uma planta resistente e de baixa manutenção. No entanto, seu cultivo exige cuidados específicos nos estágios iniciais. “Os fatores-chave para seu crescimento são um solo bem drenado e fértil, clima tropical ou subtropical, e umidade adequada, especialmente no começo. A melhor época para o plantio é no início da estação chuvosa, embora em cultivos irrigados possa ser feito em qualquer época do ano”, acredita João.
Para a árvore crescer saudável, confira as recomendações dos profissionais:
Solo: firme, profundo, bem drenados e rico em matéria orgânica.
Luz: necessita de muita luz solar direta.
Temperatura: climas tropicais e subtropicais.
Adubação: a adubação orgânica pode ajudar no desenvolvimento inicial.
Rega: a irrigação deve ser feita regularmente, especialmente nos primeiros anos de vida. Logo após o plantio, regue a muda em abundância para assentar as raízes e eliminar bolsões de ar. Evite encharcar o solo.
Poda: apenas quando necessário, principalmente para formação da árvore jovem.
Propagação da cabreúva
A reprodução da cabreúva ocorre por sementes ou via estaquia. “O método mais comum e recomendado para reflorestamento e produção de mudas é a partir de sementes”, diz João.
Sobre o manejo das sementes, Lucimara orienta: “o ideal é plantar as sementes logo após a coleta, pois elas perdem a capacidade de germinar com o tempo. A germinação é lenta e exige paciência, mas o resultado é uma árvore forte e rigorosa”.
Floração da cabreúva
As flores da cabreúva possuem pétalas ovais e lanceoladas em botões globosos, organizando-se em rácemos que superam o tamanho das folhas e se destacam na copa
Plantnet/Makoto Makoto/Creative Commons
A época exata pode variar conforme as condições climáticas. No geral, a floração da cabreúva ocorre entre julho e outubro, que coincide com a estação seca e a transição para a estação chuvosa em diversas regiões do Brasil.
Ela produz flores melíferas, cujo néctar atrai insetos polinizadores. “As suas flores são pequenas e dispostas em cachos, de coloração branca ou verde-amarelada. Elas são perfumadas e atraem muitas abelhas, que produzem mel de boa qualidade”, comenta João.
Leia mais
Os frutos da cabreúva são comestíveis?
Os frutos da cabreúva, do tipo sâmara alada, possuem uma expansão semelhante a uma asa, que auxilia na dispersão pelo vento, e têm formato alongado, contendo uma única semente que ocupa quase toda a extensão do fruto
Plantnet/Armando José Maccori/Creative Commons
Não, mas desempenham um papel vital na fauna. Segundo Lucimara, embora não sejam próprios para consumo humano, os frutos são muito importantes para a natureza. “Eles servem de alimento para aves e outros animais, que ajudam a espalhar as sementes e a manter o equilíbrio do ecossistema”, afirma.
João destaca também a importância econômica e medicinal dos frutos. “Os frutos são vagens contendo sementes da cabreúva. Essas sementes produzem um óleo aromático com diversas aplicações, principalmente na medicina tradicional e na indústria farmacêutica”, conta.
Usos da cabreúva
Além de seu valor ornamental, a cabreúva possui uma vasta gama de aplicações, sendo a mais conhecida delas o fornecimento de madeira de lei, extremamente valorizada na alta marcenaria para a confecção de móveis finos e duráveis. “A madeira é muito resistente, dura e perfumada, sendo usada na fabricação de móveis de alta qualidade”, afirma Lucimara.
Na medicina popular, a casca e o óleo/bálsamo (extraído do tronco e sementes) são as principais partes da cabreúva utilizadas terapeuticamente. “A ciência tem investigado suas propriedades, confirmando ações anti-inflamatórias, cicatrizantes e antissépticas, principalmente devido à presença de compostos como o nerolidol, na forma de extratos ou xaropes”, aponta João.
O tronco da cabreúva é valorizado por sua madeira dura e resistente, aplicada em móveis e construção, e por liberar um bálsamo aromático quando lesionado, empregado na perfumaria
Plantnet/seckler marcelo/Creative Commons
A versatilidade do produto se estende aos cuidados estéticos. O óleo ou bálsamo é utilizado topicamente para cuidados com a pele e cabelos; enquanto o aroma marcante e duradouro justifica seu espaço na perfumaria.
Leia mais
Papel ecológico da cabreúva
No aspecto ecológico, a cabreúva é essencial em iniciativas de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas, pois atrai a fauna local. “Com o tempo, ela ajuda a melhorar o solo, oferece sombra e cria um ambiente favorável para que outras plantas e animais se estabeleçam. Suas flores alimentam polinizadores, como abelhas, e seus frutos servem às aves, mostrando como uma espécie única pode contribuir para a biodiversidade”, explica Lucimara.
As flores da cabreúva produzem néctar, tornando-a uma espécie melífera valiosa
Plantnet/Alfredo Pais/Creative Commons
Principais desafios à conservação da cabreúva
O alto valor comercial da cabreúva torna sua conservação um desafio que vai além do desmatamento. “A espécie não está globalmente extinta, sendo frequentemente classificada como Pouco Preocupante (LC) na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), embora suas populações sejam reduzidas em muitas áreas devido à exploração histórica. No entanto, a fragmentação florestal representa uma ameaça significativa ao seu habitat natural”, revela João.
O caminho tem sido o equilíbrio entre uso e preservação. “Apesar de não estar ameaçada de extinção em nível nacional, a cabreúva já sofreu muita exploração no passado. Por isso, hoje são adotadas práticas de manejo florestal sustentável, como o uso de áreas plantadas, o controle do corte e a ordenação de árvores, garantindo a preservação da espécie”, afirma Lucimara.
Leia mais
Curiosidades sobre a cabreúva
A cidade de Cabreúva deve seu nome à árvore nativa que crescia em abundância em seu território, mas que hoje não é comum na arborização urbana do município devido à exploração histórica
Danilo Biazin Cabreuva/Wikimedia Commons
A cidade de Cabreúva, no estado de São Paulo, recebeu esse nome porque, no passado, a árvore era muito comum na região. “A cabreúva teve grande importância econômica e cultural, especialmente pelo uso da madeira e da resina aromática, que marcou a história local e influenciou o nome do município”, relata Lucimara.
Para além da herança cultural, a espécie também se destaca pela sua interação com a fauna. Estudos mostram que diversos mamíferos na Mata Atlântica se esfregam e, às vezes, lambem o tronco da cabreúva para obter o bálsamo. “Esse comportamento sugere um instinto de automedicação, onde os animais usam a resina para prevenir ou curar doenças e eliminar parasitas, o que indica o potencial terapêutico da planta”, finaliza João.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima