Cadeira Espaguete: como uma trama de PVC a tornou ícone do design brasileiro

Uma estrutura de aço entrelaçada por tubos de PVC flexíveis caracteriza a cadeira Espaguete – uma peça que ganhou o coração dos brasileiros, mas não tem origem certa.
“É uma cadeira divertida, colorida e solar. Pode ser facilmente carregada para a porta de casa, para bater papo com os vizinhos ou para almoçar no quintal. Existe em salas descoladas e na casa de estudantes com o bolso vazio”, comenta Bernardo Senna, coordenador do curso One Year Design do Istituto Europeo di Design no Rio de Janeiro (IED-Rio).
“A peça mistura simplicidade, memória afetiva e força estética. Remete a um imaginário muito familiar, mas, ao mesmo tempo, tem desenho suficiente para continuar atual”, complementa o arquiteto João Conrado, do escritório Conrado Ceravolo Arquitetos.
As banquetas Sabiá, da Molio Design, são inspiradas na icônica cadeira Espaguete e adicionam cor e leveza à cozinha minimalista
Carolina Lacaz/Divulgação | Produção: Simone Monteiro/Divulgação | Projeto do escritório Conrado Ceravolo
Apesar do sucesso, não há uma genealogia definitiva de seu nascimento. Acredita-se que seja fruto da revolução tecnológica do século 20, ao mesmo tempo em que se assemelha às listras das cadeiras de vime — que remontam à Idade Média.
Leia também
Segundo Bernardo, os móveis do designer francês René Herbst (1891-1982), “que utilizam uma estrutura de aço tubular com elásticos presos por ganchos, podem ser um elo perdido da gênese das cadeiras Espaguete” — assim como ela, os mobiliários criados pelo europeu eram vazados e descontraídos.
A poltrona 126, criada pelo designer francês René Herbst em 1930, é considerada um marco do design moderno e pode ter servido de inspiração para a posterior cadeira Espaguete
Sotheby’s/Reprodução
No Brasil, um dos primeiros registros do que viria a ser a cadeira Espaguete aparece por meio de uma criação do arquiteto e moveleiro José Zanine Caldas (1919-2001). Com desenho da década de 1950, a versão do baiano adota assento circular e encosto curvo.
Poltrona Espaguete com assento em plástico azul, desenhada pelo baiano José Zanine Caldas na década de 1950
Apartamento61/Reprodução
Desde então, a peça ganhou diversas variações, sempre com aço entrelaçado a tubos de PVC. Os desenhos podem ser retos e simples ou curvados, em estruturas mais baixas ou mais altas. “Mas há um ponto em comum: são informais, amigáveis, coloridas e bem relaxadas”, fala Bernardo.
“É uma peça com produção descentralizada, que leva identidade a diferentes partes do país. É um móvel que se vende na porta da fábrica, na beira da estrada ou em feiras”, ele complementa.
A cadeira Sabiá branca, da Molio Design, surge em um home office sóbrio
Fellipe Lima/Divulgação | Projeto do escritório Bohrer Arquitetos
Além de José Zanine Caldas, vários designers brasileiros exploraram o modelo ao longo dos anos: um exemplo é a cadeira Spaghetti, de Fernando Jaeger, lançada em 1989 com diferentes cores e desenho mais reto. O item esdobrou-se também em poltrona e banqueta.
A cadeira Spaghetti, assinada por Fernando Jaeger, complementa a mesa de trabalho com conforto
Denilson Machado/MCA Estúdio/Divulgação | Projeto da arquiteta Paula Neder
Já Carol Armellini e Paulo Biacchi apresentaram o banquinho R540 – um desdobramento da cadeira que ganha formato que lembra a letra X e brinca com a transição de cores.
O banco R540, criado pelo estúdio Fetiche Design, foi inspirado na icônica cadeira Espaguete
Gisele Rampazzo/Divulgação | Projeto do escritório Pro.a Arquitetos
Fora do Brasil, a designer espanhola Patricia Urquiola cruzou as mangueiras de PVC para criar a cadeira Tropicália, que contém até três cores e visual vibrante.
A cadeira Tropicália, criada pela designer espanhola Patricia Urquiola para a Moroso, brinca com as cores e com o direcionamento dos fios
Moroso/Reprodução
“A sobreposição de tonalidades elevou a cadeira Espaguete a um status mais sofisticado, mas o desenho também é estrutural, garantindo resistência e durabilidade. Forma e função em puro design”, coloca Bernardo.
O segredo está no fio
A produção da cadeira Espaguete combina processos industriais, como a fabricação do aço e do plástico, com etapas finais simples e acessíveis, realizadas em pequenas oficinas. “O resultado é a perfeita combinação de gosto, função e produção no Brasil”, diz o coordenador.
As cadeiras La Central, da loja Cremme, criam contraste marcante com a mesa de madeira e o piso de ladrilho hidráulico
André Nazareth/Divulgação | Produção: Pualani Di Giorgio/Divulgação | Projeto do escritório Gava Arquitetura
O PVC é essencial: embora provenha do universo industrial, resulta em tramas que evocam o artesanal, garantindo versatilidade e permitindo o uso em ambientes abertos com resistência e conforto.
“Na prática, o fio suporta bem o uso diário e as variações climáticas. Ela funciona em áreas internas e externas e é maleável o suficiente para facilitar o trançado”, explica Claudia Tsukamoto, diretora executiva do Instituto Brasileiro do PVC.
As cadeiras Sabiá, da Molio Design, complementam a sala de estar com uma estética levemente industrial
Tiago Moreno/Sambacine/Divulgação | Projeto de Vinicius Medeiros
O fio utilizado na cadeira pode ser de PVC virgem ou reciclado e ter diferentes espessuras — o que pode impactar o resultado do produto, com tramas mais abertas ou mais fechadas.
Leia mais
O PVC também apresenta excelente aceitação de várias nuances. “Tons como verde, azul e vermelho dialogam com a estética popular das décadas de 1960 a 1980, quando os plásticos coloridos ganharam força no mobiliário brasileiro. Esse movimento consolidou tais cores como marca visual da cadeira Espaguete”, analisa Claudia.
A cadeira Espaguete também se transforma em banqueta informal, em versão desenhada por Fernando Jaeger, unindo descontração e funcionalidade
Favaro Jr./Divulgação | Projeto do escritório Volar Interiores
Versátil e divertida
A cadeira transmite um visual leve, além de trazer descontração e informalidade. Gabriel Ceravolo a considera versátil, que combina com estética retrô, modernista, industrial e até com ambientes contemporâneos despojados. “Como é uma peça leve, ajuda a deixar o espaço solto e acolhedor”, opina o arquiteto.
A mesa de jantar da Onna Móveis está acompanhada das cadeiras espaguete Maria, desenhadas por Larissa Catossi
Denilson Machado/MCA Estúdio/Divulgação | Projeto da arquiteta Larissa Catossi
Em formatos pequenos, a cadeira Espaguete pode adicionar criatividade a quartos pensados para crianças ou até brinquedotecas.
A cadeira La Central, da Cremme, em tom de azul, harmoniza a marcenaria do quarto infantil
Fran Parente/Divulgação | Projeto do escritório Interni Arquitetura
Além disso, pela sua resistência e durabilidade, é comumente usada em varandas, áreas gourmet, cozinhas, salas de jantar informais e cômodos externos.
As cadeiras Spaghetti, da loja FJ Pronto pra Levar!, complementam a mesa de jantar de madeira na área gourmet
Felco/Divulgação | Projeto do Estúdio Maré

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima